Duas Faces
1 ''Ruiva Por Acaso''
Notas iniciais
Hoje não estou bem, não me pergunte por que, simplesmente estou mal. Parece que estou apagada... Sinto-me como se estivesse desmanchando pela metade, mas só pela metade, pois ainda resta um lado meu que ama o frio.
Estava caminhando pela neve, até a escola, que era bem perto de minha casa, era bem perto de todas as casas na verdade, já que minha cidade é pequena ao ponto de se encontrar uma agulha no palheiro...
_Annie! gritou uma voz, bem de longe.
Fiquei olhando pra neblina, esperando o resto da frase, até que ouvi:
_Tem uma fogueira na sua cabeça, cuidado!
Eu congelei por alguns segundos, absorvendo a frase, me virei e continuei andando, não sabia quem tinha dito aquilo, nem de onde tinha vindo. Simplesmente sabia que as pessoas me zoam por causa da cor do meu cabelo, ruivos não são monstros, apenas são... Diferentes.
Meus pais não são ruivos, e nem tenho parentes ruivos, sou assim por acaso, poderia escrever um livro chamado ''Ruiva por Acaso'' e escrever tudo que já aconteceu comigo por causa da cor do meu cabelo.
Depois de andar mais alguns metros ouvi barulho de chuva, mas não estava chovendo, apenas nevando... Meu corpo estava molhado, me dei conta, tinham jogado água em mim e eu nem notei. Fingindo tremer, olhei para cima, e disse:
_Está louco?Quer me matar?Posso acabar morrendo congelada!
Continuando a fingir estar indignada, ouvi uma risada:
_Estava tentando apagar o fogo da sua cabeça!
Mais risadas... Tinha descoberto quem era, ou melhor, quem eram. Na varanda da casa dos Stuart estavam Millena Stuart, Ângela Stuart e Jeb Stuart, os três irmãos, mais chatos do mundo, e as pessoas que mais implicam comigo, eles até passam dos limites.
Olhei para o chão coberto de neve, xingar não ia adiantar em nada, eu tinha que ir andando, não podia fazer hora como aqueles três. Minha vontade era de subir lá e enterrá-los na neve.
Rangendo os dentes, ergui a cabeça e continuei andando. Não estava com frio, só estava cansada das pessoas fazerem o que fazem, de serem o que são...
_Vai sair correndo agora, Cavalo Flamejante? disse uma voz, que identifiquei como a de Jeb.
Parei por um instante, pensando se iria responder. Ouvindo mais risadas gritei de volta:
_Droga! Eu prefiro ser diferente a ser igual a todos vocês!
Saí correndo, não por sentir medo... Mas sim por vergonha... Naquele momento eu queria cavar um buraco no chão e não sair nunca mais...
Por que eles não aceitam que eu sou diferente... Por que...?
Já com lágrimas nos olhos, parei de correr, e comecei a andar, logo iria desabar, e no meio da neve não era o melhor lugar. Mesmo que eu queira sumir, não poderia simplesmente me deixar levar por aqueles três... Malditos Stuart!
Olhei para o meu relógio de pulso, que estava com a tela embaçada por causa da umidade. Já estava atrasada, e não só estava atrasada como estava 15 minutos atrasada. Minha mãe provavelmente já foi avisada, chegarei à escola e ela estará lá, e eu estarei encharcada e chorando...
Continuei correndo, implorando para o tempo secar minhas lágrimas, ou ao menos congelá-las, para depois eu poder quebrá-las com as próprias mãos...
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