Duality

1 Capítulo 1 - O Problema


Em meio a um mar de estrelas no espaço, navega uma nave chamada Skeld. Dentro dela estão 8 tripulantes, que são os astronautas da organização MIRA, e uma certa criança. Eles retornavam de uma missão no planeta onde se localizava a base Polus e estavam retornando para a Terra.

Na cafeteria da nave, estava o Vermelho (os astronautas tinham o costume de se tratar pelas cores de seus uniformes) conversando com a Rosa sobre alguns detalhes da estadia temporária deles na base Polus, em meio a algumas piadas internas para quebrar o gelo. Vermelho era apaixonado pela Rosa há algum tempo, pois sentia-se bem com ela de forma que dificilmente se sentia com outras mulheres. Pode-se dizer que ela o salvou de desenvolver uma visão de mundo mais machista. Adorava seu jeito carinhoso de agir, ao mesmo tempo em que admirava sua capacidade profissional. Mas havia algo que irritava o Vermelho.

— Amiga, estou atrapalhando algo? – perguntou a Amarelo, que apareceu apoiando suas mãos na mesa

— Não, a gente tá só conversando, mas já estávamos ficando sem assunto. Por quê?

— Eu tenho um babado pra te contar, mas precisamos falar a sós. Não tem problema, Vermelho?

— Não... – respondeu Vermelho, meio contrariado – Mas aí é com a Rosa.

— Tá bom. Vamos lá, miga. – disse a Rosa, levantando e se afastando junto da outra.

Amarelo era a melhor amiga da Rosa, e se conheciam desde a adolescência. Vermelho já teria algum pequeno problema com ela por receio de ela representar alguma má influência para a Rosa, simplesmente porque Vermelho a enxergava como mais próximo de uma “mulher normal”. O agravante era que Amarelo era lésbica e Rosa era bissexual. Vermelho nos últimos meses ficava quase diariamente enciumado, com medo de que o clima que parecia a ver entre eles pudesse ser só uma ilusão, e que Amarelo acabasse conquistando ela. Naquele momento, Vermelho sentiu-se esnobado e achou Rosa ingênua por não desconfiado que Amarelo só queria afastá-los.

— E aí, Vermelho? – foi dizendo o Verde, se aproximando. – Você estava “vermelho” de vergonha e agora está ficando “vermelho” de raiva?

— Hahaha, boa papai! – disse o menino ao lado dele, que vestia uma roupa verde assim como o pai.

Vermelho olhou com certo desprezo para o Verde, que gostava de bancar o engraçadinho quando possível, e fez questão de levar o filho para a missão. Nessa época era comum crianças próximas de 7 anos terem suas primeiras experiências espaciais, para seus organismos se acostumarem, mas dificilmente acontecia algo como viajar com os astronautas numa missão como aquela. Possivelmente a amizade e parentesco que o Verde tinha com alguns homens de cargo alto na MIRA tinha relação com a permissão para levar seu filho.

— O joelho do menino já melhorou? – questionou Vermelho, referindo-se ao machucado de quando eles estavam tentando pôr uma criatura pra dormir e o menino saiu correndo e tropeçou assim que a presença deles foi notada. Foi um milagre o pai ter conseguido acertar o animal com um tiro do tranquilizante antes que o menino fosse alcançado.

— Já, aquilo não foi nada! – disse Verde, passando a mão pela cabeça do filho protegida pelo uniforme. – Experiências assim ajudam a formar o caráter, evitando repetir as mesmas ações depois. Um homem tem que pensar com calma e evitar chorar no meio do problema. Certo, filho?

— Certo! Eu nunca mais vou fugir! – disse o menino, confiante.

— Onde está o Preto? – perguntou Vermelho.

— Descansando na enfermaria, provavelmente refletindo sozinho ou dormindo. Ele anda introvertido demais, você não acha?

— Acho que sempre foi. Bem, é até melhor assim. Pelo menos evitamos desentendimentos.

Antes que o Verde tivesse a chance de contar uma piada nova, o Ciano apareceu ali, fazendo continência.

— Capitão, estão chamando o senhor nas comunicações pra dizer algo que parece sério. É pra você ir o mais rápido possível.

— Não precisa me chamar de capitão. – respondeu Vermelho para o Ciano, que às vezes gostava de puxar o saco dele. De repente, ouviu-se um barulho.

— Eu vou checar o que foi! – disse o Ciano, que saiu correndo

Vermelho dirigiu-se então até as comunicações apressadamente. As formas de comunicação com o planeta estrangeiro eram precárias, em parte por aspectos das camadas de atmosfera do mesmo. Conseguiu sintonizar com a base Polus, apesar dos ruídos que atrapalhavam. A voz de um conhecido da MIRA começou então a relatar o que havia ocorrido.

— Restos de um cadáver humano foram encontrados aqui perto! Ainda não conseguimos reconhecer de quem é, mas encontramos resquícios de tatuagem da MIRA! – com exceção do filho do Verde, todos ali tinham uma tatuagem pequena com o nome da organização, localizada na mesma região do corpo. – Alguém deve ter se infiltrado entre vocês!

— Mas eu não notei diferença em nenhum de nós. Como é possível?

— Eu não faço ideia! Talvez você não tenha prestado atenção ou o assassino seja sósia de um de vocês. O caso é que vocês têm que descobrir imediatamente quem é porque estão correndo risco de vida!

Mais algumas palavras foram trocadas, e então se despediram. Vermelho correu para o centro da cafeteria e apertou o botão vermelho que havia em uma das mesas.

*EMERGENCY MEETING*

Todos se reuniram imediatamente, mas Vermelho não conseguiu dar a primeira palavra.

VERDE: O que houve? Eu tava no banheiro.

ROSA: NEM TEM BANHEIRO NA NOSSA NAVE!

VERDE: Brincadeira, eu estava indo ver se o Ciano já tinha descoberto o que houve.

PRETO: Que barulho foi aquele que me acordou?!

VERMELHO: Gente, o papo sério agora!

CIANO: O barulho que ouvimos foi uma mini-bomba! E encontrei alguns problemas na nave, algumas coisas não estão funcionando direito, mas só consegui verificar a parte superior.

AMARELO: O Laranja morreu! Eu e a Rosa encontramos o corpo dele entre o motor superior e a parede. Pareceu ter sido esfaqueado pelas costas.

VERMELHO: Que droga, um de nós já foi assassinado! Escutem o que eu tenho a dizer!

(Vermelho então contou o que o cientista da base Polus havia relatado)

ROSA: Que horror! Então temos que ficar todos juntos e dar um jeito de descobrir quem está diferente.

VERMELHO: Não! O impostor está danificando a nave, não dá tempo para planejar muito, temos que consertar as sabotagens que estão sendo feitas na nave, e só então tentar descobrir quem é.

PRETO: Na pior das hipóteses, vamos jogar pra fora da nave quem for mais suspeito.

(Rosa olhou horrorizada para o Preto. Vermelho sabia que o Preto era antissocial demais para se importar muito com os outros, então o ignorou)

Vermelho: Se encontrarem outro cadáver, reportem! E qualquer coisa apertem o botão de emergência!

(A nave deu uma pequena estremecida, possivelmente por influência de algum dos anos danos internos. Vermelho impediu mais comentários colocando o dedo indicador na altura de seus lábios e fazendo um chiado)

VERMELHO: Agora vamos, não temos muito tempo. Tem um impostor entre nós.