Drácula-Untold
5 Ele é apenas um sonho.

Sentei-me deixando o cobertor escorregar pelo meu corpo, o trovão lá fora me assustou, mas passou tão rápido quanto a luz do raio que iluminou o quarto por poucos segundos e desapareceu novamente. Olhei ao meu redor me assegurando de que realmente estava no meu quarto, eu realmente estava segura. Sem lobos. Um arrepio passou por minha espinha ao me lembrar dos olhos da criatura que me perseguiu, era enorme demais para ser um lobo, mas qual outra explicação plausível haveria? O que um lobo fazia na cidade era um mistério, mas eu não conseguia pensar em nada no momento, minha cabeça ainda estava um pouco zonza com o efeito dos remédios. Olhei para meu corpo e percebi que ainda usava a roupa do incidente, estava suja de terra e sangue. Levantei-me com cuidado indo até o banheiro e respirei fundo olhando para meu reflexo, o canto esquerdo do meu lábio inferior tinha um pequeno corte, estava um pouco inchado e dolorido. Meu cabelo estava uma bagunça, quase pior que minhas roupas.
Tirei minhas roupas jogando-as dentro do cesto e respirei fundo tentando pentear meu cabelo, havia dois pontos minúsculos na minha testa, nada que fosse provável deixar cicatriz, agradeci mentalmente por estar desacordada quando o médico fez aquilo, agulhas não eram nada agradáveis para mim. Entrei em baixo do chuveiro e fechei os olhos sentindo a agua quente relaxar meus músculos doloridos, junto com o sabonete e a água morna, a terra e os resquícios de sangue saíram de meu corpo, deixando apenas o doce cheiro de morangos que eu estava acostumada. Lavei o cabelo com cuidado para não acabar encostando nos pontos e encostei a cabeça nos azulejos da parede fechando meus olhos e tentando acalmar a respiração, minha cintura estava ardendo um pouco, a maldita marca que havia ali estava vermelha, aquilo só aconteceu uma vez, há cinco anos, quando bati o carro e quase quebrei o braço. Revirei os olhos e encarei a pequena meia lua que ficava ali, minha marca de nascença parecia mais uma tatuagem do que uma pinta.
—Por que você resolveu voltar à vida agora? –eu perguntei olhando para a marca e jogando mais água no local.
Sabia que aquilo não funcionava, já tinha passado por isso antes. Desliguei o chuveiro me enrolando na toalha e secando meu cabelo com outra. O espelho estava fosco devido a fumaça que o embaçou, passei minha mão por ele e encarei meu reflexo, agora eu estava um pouco melhor, sem parecer que tinha sido atacada por uma criatura misteriosa. Sai do banheiro ainda secando meu cabelo e entrei no closet vestindo minha lingerie, um short de moletom cinza e uma regatada preta. Tentei secar um pouco mais meu cabelo e o penteei novamente. Respirei fundo me sentando na cama novamente, meu quarto estava com um delicioso aroma de maçãs e canela, era tranquilizante e familiar, como quando você passa muito tempo longe de casa e quando volta, tudo está do jeito que você deixou. Eu sorri e olhei para a janela, estava chovendo forte lá fora, eu podia ver os raios desenharem no céu. A porta foi aberta e Alice apareceu com uma caneca em mãos, ela olhou ao redor do quarto parecendo procurar por algo e então sorriu para mim se sentando na minha frente e me entregando a caneca cheia de chocolate quente.
—Como se sente? –ela perguntou me observando, procurando por algo.
—Estou ótima. –eu disse bebendo a bebida e queimando minha língua. Fiz uma pequena careta e ela riu baixo.
—Vai com calma, tem mais na cozinha se quiser. –ela disse revirando os olhos para então ficar séria de novo. –Não está com dor? Posso pegar um remédio para você.
—Estou bem, não se preocupe. –eu a acalmei. Olhei para a porta ouvindo Rose conversar baixo com alguém.
—Emmett está na sala com ela. –disse Alice respondendo minha duvida silenciosa.
Levantei minha sobrancelha. Emmett ainda estava aqui? Por quê? E por que Alice se sentia bem com isso? Ela odiava desconhecidos na nossa casa.
—Vocês pareceram conhecê-lo. No hospital. –eu disse a observando. –Estou certa?
Alice assentiu.
—Ele é um amigo do meu irmão. Meu também. –ela disse desviando o olhar. –Ela trabalha para o meu irmão faz algum tempo. Ele me trouxe até a cidade, ele estava indo embora quando te encontrou na rua. Teve sorte por ser ele. Poderia ter encontrado um assassino ou pior!
Agora ela tinha a voz reprovadora, ela cruzou os braços e me olhou com um olhar acusador. Eu abaixei meus olhos para o edredom. Eu não sabia explicar o motivo de ter fugido, quando dei por mim eu já estava na rua. Aquilo me assustava, será que eu estava finalmente enlouquecendo? Talvez eu nem tivesse visto o lobo de verdade, talvez tivesse sido apenas uma alucinação. Uma loucura, como os sonhos e o cheiro de maçãs no meu quarto. Coisas que eu não sabia explicar e que me assustavam.
—Desculpe. –eu disse por fim. Não havia muito que dizer.
—Apenas não faça isso de novo, por favor. –ela pediu. –Sabe como eu ficaria se algo tivesse te acontecido? Você é minha melhor amiga, não posso perder você.
Olhei para Alice e coloquei a caneca na mesa ao lado da cama. Alice tinha uma expressão dolorida no rosto, distante e sofrida, como ela sempre tinha quando estava pensando em algo que eu não sabia o que era. Eu a abracei e respirei fundo. Eu odiava ver Alice sofrer, ela era minha melhor amiga, uma das pessoas que mais importavam na minha vida. Às vezes me assustava a maneira como ela falava, como se algo de ruim realmente fosse acontecer.
—Não vai acontecer nada comigo e você não vai me perder. –eu prometi. –Foi só um pequeno incidente e eu estou bem.
Ela assentiu e se afastou um pouco segurando minhas mãos.
—Vamos lá, tome o chocolate quente. –ela pediu me entregando novamente a bebida. –Sabe eu estava pensando em irmos para a cidade essa semana. O que acha? Estamos de férias.
—Para a cidade? –eu perguntei confusa
—Sim. Eu nasci lá e pensei que você iria gostar de conhecer o lugar. Rose já foi algumas vezes, mas ela também não conhece tudo. –ela disse dando de ombros. –Eu tenho uma casa lá, não é grande, mas é perfeito para nós três e você vai amar tudo, a cidade é tranquila, tem pessoas legais, muita festa e comida gostosa que você adora. Emmett tem que voltar para lá amanhã, por causa do trabalho, pensei que poderíamos ir com ele.
Eu sorri de sua animação. Era praticamente impossível negar quando ela falava assim. Viajar com Emmett não parecia tão ruim. Ele havia me salvado e Alice e Rose pareciam gostar dele. Eu gostava dele. Mesmo sem o conhecer. Algo nele me trazia calma, eu me sentia segura. E então eu percebi, se ele teria que voltar por causa do trabalho, o irmão de Alice morava na cidade. Eu nunca havia o visto. Nem sequer sabia seu nome.
—Vou conhecer seu irmão? –eu perguntei sorrindo. –Somos amigas há muito tempo, mas você nunca me falou sobre ele.
Alice ficou tensa e abaixou o olhar sorrindo forçado.
—Claro... Acho que poderá conhecê-lo sim. Se ele estiver na cidade. –ela deu de ombros.
—Qual o nome dele?
Rosalie abriu a porta e sorriu colocando a cabeça para dentro do quarto.
—Bella! Você acordou! –ela disse feliz correndo até mim e me abraçando. Eu ri e a abracei de volta. –Como se sente?
—Bem. –eu respondi sorrindo. –Alice estava me contando sobre a viagem, você já sabia?
Rose assentiu e deu de ombros.
—Até já fiz suas malas. –ela disse apontando para duas malas no canto do quarto.
Eu ri revirando os olhos.
—Bem, estou ansiosa para conhecer a cidade e o misterioso irmão da Allie.
Alice revirou os olhos se levantando.
—Ele não é tão misterioso assim. –ela disse olhando para a janela com um pouco de raiva no olhar. –Mas é bem intrometido e teimoso ás vezes.
Rosalie levantou as sobrancelhas parecendo um pouco surpresa e tensa. Eu ri e revirei os ombros.
—Quanta raiva. Que feio Alice! Não fale assim dele. –eu disse a olhando. –É seu irmão, tenho certeza de que ele deve ser legal.
Ela olhou para mim e sorriu fraco.
—Apenas quando ele quer. Mas tenho certeza de que se darão bem. –ela disse sorrindo.
—Por que tanta certeza?
—Intuição. –ela disse fazendo Rosalie se levantar e pegando a caneca. -Agora vá dormir, amanhã cedo vamos viajar e você precisa estar mais forte.
Rose beijou o alto de minha cabeça e saiu do quarto.
—Alice? –eu a chamei antes dela sair, ela se virou esperando.
—Quando eu dormi, você ficou aqui comigo? –eu perguntei me lembrando da sensação de não estar sozinha no quarto.
—Não, eu fiquei na sala com Emmett e Rose. –ela respondeu um pouco confusa. –Por quê?
Eu balancei a cabeça.
—Nada não. –eu disse abaixando o olhar. –Apenas perguntei.
—Tudo bem. Durma bem Bella. –ela disse antes de sair, ela pegou a porta e então se virou para mim como se se lembrasse de algo no ultimo momento. –Ah é, quase me esqueci de te responder. O nome do meu irmão é Edward.
Ela fechou a porta e encarei a madeira entalhada enquanto ouvia o som da chuva. O nome do meu sonho ecoou em minha cabeça. Edward. Senti meus olhos arderem e encarei minhas mãos, estavam tremulas.
Eu encarei o livro em minhas mãos e respirei fundo ao sentir os braços fortes rodearem minha cintura, o cheiro de maçãs e canela me fez fechar meus olhos. Era ele. Não precisava olhar para saber. Ele beijou meu rosto e eu abri meus olhos encarando seus olhos verdes. Edward se sentou ao meu lado e observou o livro.
—Logo terei que comprar uma nova biblioteca, você já deve ter lido quase todos. –ele riu.
—Precisarei de mais algumas vidas para conseguir ler todos aqueles livros que você já tem, então não seja exagerado. –eu ri revirando os olhos.
—Alice está ansiosa para o baile desta noite, não é sempre que você deixa ela organizar seu aniversário.
—Ela sabe ser bem convincente quando quer. Se eu não os conhecesse, diria que sua irmã é uma bruxa que enfeitiça as pessoas para fazerem o que ela quer. –eu disse sorrindo.
Ele pareceu ponderar e riu baixo.
—Às vezes eu acho que é quase isso mesmo. –ele disse. –Não se deve dar muita asa para Alice, logo ela vai organizar nosso casamento.
Eu sorri e coloquei minhas mãos em seu rosto, a aliança em meu dedo estava brilhando tanto quanto os olhos dele.
—Não me importaria, vou me casar com você, isso é suficiente. Não me interessa quem organiza isso, apenas o momento.
Balancei a cabeça voltando para meu quarto e olhei para meu dedo, não havia nada ali. Um vazio. O que foi isso? Fechei meus olhos me deitando e respirei fundo. O nome dele e seu rosto ainda ecoavam em minha cabeça, como uma memória. Uma saudade. Eu realmente estava enlouquecendo aos poucos. A marca em minha cintura ardeu novamente e eu respirei fundo senti minha mente viajar para um lugar distante.
O escritório enorme e cheio de livros estava exatamente igual aos meus outros sonhos, a mesa de mogno estava cheia de papeis, e ele estava ali. Olhando para uma pequena adaga de prata que descansava em cima da mesa, algumas gotas de sangue gotejavam da lâmina. Ele parecia cansado e nervoso. Estava diferente dos meus sonhos, ele usava uma camisa social preta, seus cabelos estavam levemente bagunçados e a barba não estava perfeitamente feita, mas ainda sim estava lindo. Ele respirou fundo e então franziu o cenho olhando para mim. Ele se levantou parecendo surpreso e sorriu fraco, ainda confuso.
—Bella?
Abri meus olhos voltando novamente para meu quarto e respirei fundo, sentindo o ar preencher meus pulmões, só agora percebi que havia prendido o ar. Virei-me para a parede confusa. Por um segundo eu jurava ter estado lá. Com ele. Aquilo havia sido diferente dos sonhos, porque não parecia um sonho, nem uma lembrança. Parecia real. Como se eu realmente tivesse estado ali na sua frente. Ele parecia tão surpreso e confuso por me ver ali quanto eu estava agora. Eu olhei para a parede enquanto os raios iluminavam novamente o quarto. Ousei olhar ao meu redor e me arrependi em seguida. Eu estava sozinha. E frustrada. Frustrada por que ele não estava ali. Por que, sem ele, eu me sentia vazia e incompleta.
—Ele é apenas um sonho. –eu sussurrei para mim mesma enquanto fechava meus olhos novamente. –Apenas mais um sonho.
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