Notas iniciais
Ponto de vista do narrador

Os gritos agudos e desesperados ecoaram pelo castelo, aparentemente nem mesmo as paredes grossas não podiam abafar o desespero das pessoas que entravam ali dentro. Todos sabiam que entrar naquele lugar era proibido e não era atoa que existiam enormes grades feitas de ferro e prata cercando toda a propriedade, as pontas das grades eram tão afiadas que cortavam com facilidade qualquer um que tentasse pular os muros. Mas ainda sim, havia sempre aqueles que eram burros demais para ignorar os avisos e entrar mesmo assim.

O lugar parecia igual, nada havia mudado, tudo estava perfeitamente limpo. O piso de mármore branco brilhava impecavelmente, os lustres de ouro no alto do teto estavam brilhando e iluminava o enorme salão. As compridas escadas tinham detalhes de ouro feitos á mão por algum artista quase tão antigo quanto o dono do castelo. O pesado tapete cor de vinho combinava elegantemente com os móveis de madeira que valiam mais do que as três maiores casas no centro da cidade. Era impossível estar ali e não se impressionar com cada detalhe que tinha ali, era possível encontrar detalhes dentro dos detalhes. Enormes vasos com rosas brancas decoravam alguns móveis trazendo um doce cheiro para o lugar. As enormes janelas tinham grades feitas do mesmo material das grades lá fora. Atrás do castelo havia um enorme e majestoso jardim coberto por compridas árvores, flores e um pequeno lago cristalino.

O castelo tinha mais de vinte andares e em cada andar havia mais três corredores que davam para novos lugares, mas a garota conhecia ali como a palma de sua mão e era impossível, para ela, se perder ali. Ela andou em silencio observando as pinturas na parede, as flores e seus perfumes. Apesar de tudo continuar igual, tudo havia mudado e ela sabia o motivo. Isabella. Sua volta havia mudado tudo, até mesmo a raiva de seu irmão parecia ter diminuído um pouco.

O lugar parecia vazio, mas ela sabia que estava repleto de vampiros escondidos, entretanto apenas dois tiveram coragem de se mostrarem. Os dois enormes homens apareceram no alto da escada, a vestimenta escura, os casacos compridos, os sapatos sociais perfeitamente engraxados, os cabelos arrumados e os olhos prateados. Eles fizeram uma pequena revência mostrando respeito pela mulher na frente deles.

Entre sua espécie havia uma hierarquia que devia ser respeitada acima de tudo, os vampiros originais, faziam parte de uma antiga linhagem real, os olhos vermelhos mostravam que eles faziam parte da realeza e que deviam ser respeitados como tais. Atualmente existiam apenas dois deles. Os vampiros de olhos acinzentados eram os vampiros criados, feitos por outros e, na maioria das vezes, eram ótimos guerreiros.

—Meninos, eu realmente senti falta de vocês. –disse Alice sorrindo. –Sabem dizer onde meu irmão está? Eu preferia não perder tempo andando por todo o castelo atrás dele.

Um grito agudo ecoou pelo castelo e Alice revirou os olhos.

—O rei está se alimentando. –disse Félix. –Ele pediu para que você aguardasse alguns minutos.

Outro grito ecoou pelo lugar e ela bufou.

—Ele não está se alimentando, está brincando com a comida. –ela disse cruzando os braços. –O que é falta de educação. Mamãe ficaria decepcionada. –ela disse um tom mais alto.

Ela sabia que ele estava escutando tudo o que ela dizia e jamais perderia uma chance de provoca-lo.

—Quando voltará para o castelo definitivamente? Sentimos falta de você por aqui. Não é a mesma coisa sem você, baixinha. –disse Emmett colocando uma mexa de cabelo de Alice no lugar.

Emmett era um dos vampiros mais antigos dali, ele havia sido criado por Edward poucos anos após ele se tornar rei. Ele era um dos sete vampiros que seu irmão havia feito, os outros eram criações de outros vampiros, que criaram outros vampiros e assim por diante. Alice tinha um grande carinho por Emmett, ela sempre o viu como um irmão mais novo e ele a via da mesma forma. Era um dos poucos que tinham intimidade, autorização e coragem para tocá-la ou chama-la pelo nome ou por um apelido. Apelidos estes que ele adorava criar.

—Voltarei assim que Bella estiver pronta para vir comigo. –ela pensou um pouco melhor e respirou fundo. –O que eu acho que não vai demorar muito, não pode demorar muito.

Uma pontada de preocupação passou pelo olhar de Emmett, ele sempre se importou muito com Bella. Não era para menos, ela havia sido sua irmã na primeira vida dela. A morte dela trouxe a ele uma escuridão que demorou séculos para diminuir e quando se tratava da segurança dela, ele era uma das pessoas que mais se preocupavam. Alice sorriu tentando tranquiliza-lo, mesmo sabendo que algumas de suas visões mostravam um grande perigo no futuro da menina, ela precisava tranquilizar seu amigo, ele não podia cair novamente da maneira que caiu uma vez. Ele já havia sofrido demais, assim como muitos ali.

—Como ela está? –ele perguntou deixando o tom de brincadeira de lado.

—Cansada, confusa e assustada. E é exatamente sobre isso que vim falar com meu irmão. –ela disse arrumando seu cabelo.

Félix e Emmett arrumaram sua postura assim que ouviram passos se aproximando da escada, passos esses que jamais seriam confundidos por nenhum vampiro. Até mesmo aquele simples barulho transmitia pavor em alguns, mas é claro que eles apenas escutavam porque ele queria que escutassem. Afinal, ele poderia simplesmente se materializar no lugar que desejasse quando quisesse.

Alice levantou o olhar e sorriu para seu irmão. Ele continuava igual a como ela se lembrava com o terno preto impecável e os olhos verdes sérios. Ele indicou para que ela o seguisse e eles andaram em silencio por um dos corredores e entraram no enorme escritório. A lareira ali estava ligada, o piso de madeira estava parcialmente coberto por um tapete e os móveis pesados estavam sobre ele, havia vários papeis em cima da mesa e alguns livros estavam fora do lugar na estante. Aquilo significava que ele estava pesquisando algo, ele apenas fazia isso quando estava preocupado com algo.

Alice andou até seu irmão e o abraçou quando ele fechou a porta. Edward não gostava muito de ser abraçado, mas não reclamava quando era Alice que fazia isso, após passar meses sem o ver. Eles sempre foram acostumados a estarem junto o tempo inteiro e ele precisava admitir que ele sentia falta de sua irmã quando ela não estava. Ele beijou o alto de sua cabeça e ela o olhou o analisando.

Olhando de perto, agora ele parecia um pouco diferente, as roupas escuras estavam impecavelmente limpas, nem parecia que ele havia acabado de se alimentar. Seu cabelo estava um pouco bagunçado, mas ele gostava assim. O cheiro de maçã e canela que emanava nele era o mesmo de sempre, suave e natural. Alice sabia que Bella gostava daquilo, que seu cheiro a acalmava. Ela se lembrava de uma noite em que Bella teve um terrível pesadelo, o primeiro de vários, Alice entregou sua blusa de frio para que ela usasse, e impregnado no tecido estava o cheiro de Edward, Alice havia passado o dia com seu irmão naquele dia, ela se lembrava de que assim que Bella vestiu e sentiu o cheiro ela se acalmou e dormiu novamente em seguida. Foi naquele momento em que ela viu que estava começando.

—Como ela está? –ele perguntou a olhando, ele sempre era ansioso demais quando se tratava dela.

Alice sorriu e se sentou no enorme sofá de veludo preto que havia no canto da sala. Ele a observou esperando e ela se perguntou se deveria demorar ainda mais para responder, apenas para castiga-lo. Apesar de ele conseguir ler a mente dela, Alice havia adquirido prática em disfarçar o que ela realmente pensava perto dele. Por fim, ela respirou fundo e ajeitou sua postura.

—Fisicamente ela está bem. Bella é maravilhosa e a cada dia ela traz algum talento passado. Esse mês ela redescobriu como cantar e tocar piano, ela ficou bem surpresa quando viu que sabia tocar mesmo sem nunca ter tido uma aula. –ela disse rindo baixo com suas lembranças. Edward não conseguiu evitar um sorriso quando viu o rosto dela nas lembranças de Alice. E então ela ficou séria. –Mas ela está confusa e muito assustada com seus pesadelos. Falei com Rosalie hoje e ela disse que aparentemente as lembranças estão voltando mesmo com ela acordada. Quando eu cheguei a nossa casa na noite passada ela estava dormindo, tendo mais pesadelos, ela estava chorando no sonho e chamando por você. Ela lembrou-se do seu nome, Rose disse ter ouvido ela te chamar hoje. Mas não era para isso estar acontecendo tão rápido e eu sei que tem dedo seu nisso. Rosalie me contou também sobre um homem a observando ontem de noite pela janela. Bella não o reconheceu, mas Rose sentiu a sua presença. –ela disse olhando para o irmão com uma pontada de raiva no olhar. -Edward? Percebe o que está fazendo? Está apressando tudo! As coisas não podem voltar tão rápido! Você está assustando ela!

Quando Alice terminou de falar seus olhos estavam vermelhos, as veias escuras estavam visíveis, suas presas estavam à mostra e a raiva era evidente em cada palavra que ela dizia, mas seu irmão não se assustou com isso. Qualquer um se assustaria com a aquela visão, afinal, Alice que sempre parece doce, inofensiva e gentil era uma vampira. Era um monstro como todos os outros. Mas nenhum monstro se comparava ao seu irmão que a observava com cuidado e calma.

Ele sabia que no fundo ela estava certa, mas ele não podia evitar fazer aquilo, o desejo de tê-la de volta era maior do que o controle que ele tinha sobre suas ações. E o tempo estava curto, ele precisava que ela se lembrasse dele, precisava que ela confiasse nele. O perigo se aproximava e ele sentia isso aumentar á cada momento e sabia que Alice também sentia. Ele respirou fundo ignorando seu instinto de mandar sua irmã se calar, e ela se calaria. Ela não tinha outra escolha, ninguém tinha escolha quando se tratava de uma ordem dele. Alice respirou fundo e seu rosto voltou ao normal, ela se sentou novamente e olhou para as chamas que dançavam na lareira, evitando olhar para seu irmão.

—Eu sei que não deveria, mas não posso evitar. Sem contar que as cosias estão muito lentas, era para você ajuda-la a se lembrar de tudo logo! Sabe o perigo que ela corre estando longe de mim. O lugar mais seguro para ela é aqui, onde eu posso protegê-la. Onde eu posso proteger vocês duas! –ele respondeu tentando ficar calmo. –Sem dizer que eu nunca faria algo que fosse fazer mal á ela. Você melhor do que ninguém deveria saber disso.

Alice voltou a olha-lo e assentiu.

—Eu sei que não, mas não apresse demais as coisas. Rose me disse que ela até mesmo está com dificuldades de se concentrar. Você vai acabar enlouquecendo ela se fazer isso, as lembranças precisam voltar de acordo com que ela deixe. Não podem ser forçadas. Bella escolhe a frequência com que elas voltam. Não vai demorar muito para que ela venha até você. Talvez algumas semanas no máximo, mas você tem que parar de forçar as lembranças. –ela disse cruzando os braços. Ela sempre fazia isso quando estava certa do que dizia. –Eu tenho um plano para adiantar as coisas. Mas precisarei que você recue e confie em mim.

—Não vou me afastar dela. –ele rosnou como resposta. Os olhos verdes escurecendo.

—Você não precisa. Se quiser vê-la, pode aparecer durante a noite, enquanto ela dorme. Mas não apareça antes de ela estar preparada para você! –Alice rosnou de volta. –Não foi apenas você que sofreu com a perda dela. Ela é minha melhor amiga, minha irmã! Eu também a amava e eu também sofri quando ela se foi. Mas eu esperei, pois eu sabia que ela retornaria! Emmett sofreu tanto quanto nós dois e você sabe disso! Eu me lembro de como foi vê-lo destruído quando ele teve que enterrar a irmã! Ela era a única pessoa que ele tinha e ela foi tirada dele várias e várias vezes. Mas ele também esperou, pois ele sabia que ela voltaria. Você melhor do que ninguém sabia que ela voltaria! Vocês estão destinados a ficar juntos desde o principio, tanto é verdade que ela nunca teve olhos para ninguém em nenhuma vida! Isabella tem dezessete anos, é linda e incrível, já foi líder de torcida, canta, dança perfeitamente bem, é inteligente e é um doce de garota. Faz ideia de quantos homens já se apaixonaram por ela apenas nessa vida? E ainda sim ela não aceitou nenhum! Ela apenas dizia que eles não eram o cara certo, mesmo sem sequer saber como era o cara certo para ela! Então espere. Você sabe que ela vai voltar para você, então dê o tempo que ela precisa!

Edward a observou durante minutos, sua expressão era indecifrável. Por fim ele assentiu e Alice fechou seus olhos se acalmando.

—Qual seu plano? –ele perguntou

—Vou levar Emmett comigo. Vê-lo deve acarretar algumas lembranças e eu vou trazê-la para a cidade nesse final de semana, direi que estou com saudades daqui e que queria que ela conhecesse a cidade. Vamos ficar em um hotel aqui perto e se ela estiver melhor até lá, você poderá aparecer para ela.

O telefone de Alice tocou antes que ele tivesse a oportunidade de atender, ela olhou para a tela e pediu silencio para seu irmão antes de atender.

—Bella? Está tudo bem?

Edward ficou tenso na sua frente e passou a usar sua audição perfeita.

Alice? –ela chamou com a voz um pouco fraca. –É a Rosalie. Temos um grande problema.

—Qual grande problema? Onde está a Bella? –Alice disse se levantando. Sua voz beirava o desespero enquanto procurava pela garota em suas visões e não a encontrava.

—Eu não sei! Ela me pediu para buscar uma pizza e quando voltei ela havia desaparecido! Eu não consigo acha-la e nem sentir o cheiro dela! –ela admitiu desesperada.

Alice sorriu e respirou fundo, sua visão ficou fora de foco e ela prendeu a respiração sentindo uma grande aflição ao ouvir o uivo no fundo da ligação.

—Que barulho é esse, Rose? –Alice perguntou olhando para seu irmão.

Rosalie prendeu a respiração do outro lado da linha e quando falou novamente, sua voz estava ainda mais preocupada.

—Alice, eu sinto cheiro de lobo. –ela sussurrou com raiva.

Edward ouviu com atenção e seus olhos verdes ficaram negros, as veias escuras apareceram em seu rosto e as presas ficaram aparentes. Ele ignorou sua irmã e saiu do escritório com passos largos, a raiva emanava dele. Seus passos pareciam mais pesados. No andar de baixo já havia vários soldados o esperando. Todos sentiam quando ele daria alguma ordem e já estavam prontos antes mesmo deles os chamar. Edward parou no alto da escada e os vampiros ali engoliram em seco vendo o tamanho da sua raiva. Todos temiam aquilo.

—Tem um lobo a solta e Bella está desaparecida. –ele disse com a voz rouca de raiva. –Encontrem-na e a levem em segurança de volta para a casa dela, e sobre o lobo, quero a cabeça dele ainda hoje ou as cabeças de vocês me servirão.

Os vampiros ali desapareceram começando uma caçada desesperada. Ele olhou para Emmett e Félix que estavam ao seu lado.

—Encontre a Bella e não saiam de perto dela, não a deixem sozinha e matem qualquer um que tentar machucar ela. –ele disse baixo. Edward olhou para Emmett e este assentiu. Ele sabia que entre todos os guardas, Emmett era o mais capaz de encontra-la. –Não deixe que ela se machuque novamente.

—Jamais. –ele respondeu desaparecendo em seguida.