Selena ouviu ao longe o telefone tocar. Deixou-o continuar tocando, esquecendo-se que sua mãe não estava em casa. Ela gemeu e virou para o lado, pousando a mão em um corpo que estava em sua cama.

Por alguns minutos, Selena não notou nada estranho — apenas queria dormir. Quando a outra pessoa caiu da cama, assustada, ela finalmente despertou e arregalou os olhos para a melhor amiga.

— Demi, o que diabos você fazia dormindo na minha cama? — exclamou com a voz aguda.

Demi colocou as mãos na cabeça para massagear as têmporas, não respondendo Selena. Não se lembrava de nada da noite anterior. Sabia que havia uma festa — seu aniversário —, mas sua amnésia começava ali.

Convencida por Selena, Demi fizera seu aniversário na casa da amiga. Lá, poderia ter bebidas e comidas à vontade, sem a supervisão de um adulto. Demi deveria ter visto que não era uma boa ideia. Quem se responsabilizaria se algo acontecesse?

Agora, estava para na frente da melhor amiga, se perguntando por que ela dormira abraçada com Selena como se fosse um ursinho de pelúcia. Talvez fosse por isso que sua mãe tanto dizia para não beber.

— Você se lembra de algo? — perguntou à Selena, que ainda estava em estado de choque.

— Teve sua festa e bebidas... — falou Selena lentamente. — Nós dançamos com alguns garotos, beijamos esses garotos... — Ela riu abobada. — E é só isso que consigo lembrar.

Selena forçou seu cérebro, mas não conseguiu extrair mais nada de sua memória. Quando mais esforço fazia, mais sua cabeça doía. Em algum lugar, o telefone tocou mais uma vez. Ela o ignorou.

— Eu sei, mas o que houve depois? — perguntou mais uma vez Demi, começando a andar pelo quarto, agitada.

Meia hora depois de um silêncio constrangedor, a mente de Selena se iluminou. Ela abriu a boca, horrorizada, e começou a apontar para a amiga e para si.

— Ah, meu Deus! — foi só o que conseguiu dizer.

Demi sentou na cama e acompanhou a volta de Selena a noite anterior.

— Era quase três horas da manhã quando David foi embora — começou Selena fitando a parede vivamente. — Você estava tão bêbada que dormiu no sofá da área. Tive que arrumar tudo sozinha, enquanto você roncava. Sorte que eu não bebi tanto.

— Você bebeu muito mais, eu é que não estou acostumada — reagiu Demicruzando os braços.

— Depois que fiz a faxina, tentei acordar você para entrarmos em casa. Não sei como, mas você ficou animada demais e começou a falar coisas sobre... sobre nós.

Demi prendeu a respiração. Pouco a pouco, as memórias voltavam a sua cabeça. Ela sabia o que viria depois, e então não queria ouvir mais a história. Entretanto, não teve coragem de parar Selena.

— Então, Demi — Selena respirou fundo. —, você me beijou.

Selena não sabia o que esperar. Talvez Demi lhe fizesse de saco de pancada para o resto da vida. Ou talvez saísse do quarto e nunca mais falaria com ela. Contudo, não tinha certeza porque estava se culpando; nem fora ela que começara o beijo.

Demi não fez nada que Sam pensara. Não queria fazer nada. A única coisa que queria era saber por que tivera aquela vontade repentina de beijar Selena na festa. Tivesse sido a bebida, talvez. Ela nunca sentira nada pela melhor amiga, a não ser seu amor pela amizade que tinha com Selena. Só tinha uma pergunta em relação ao beijo.

— Porque não se afastou? Sei lá, não me deu um soco ou disse “nojento”?

A amiga ficou sem resposta. Em seu íntimo, Selena gostara do beijo. Mesmo bêbada, Demi conseguia ser delicada. E Selena descobrira porque os meninos gostavam tanto de Demi.

— Você gostou — concluiu Demi rindo. — Selly gostou do meu beijo! — cantarolou.

Demi fez cócegas em Selena, tentando fazê-la rir. Selena não resistiria, Demi sabia, e não deu outra. Segundos depois, ela já tentava se afastar de Demi, segurando para não começar a gargalhar. Elas lutaram por alguns minutos e Demi acabou presa embaixo de Selena, tendo de encarar seus olhos castanhos.

— Foi só um beijo — justificou Selena. — Não significada nada.

Elas ficaram em silêncio, apenas fitando uma a outra.

— Não foi nada, não foi? — perguntou Selena receosa.

De repente, Demi notou o quanto Selena era bonita. Ela fechou os olhos e balançou a cabeça, tentando tirar aquilo da mente. Na queria que acontecesse algo entre elas. Estragaria a amizade e Demi nunca se perdoaria por ter perdido Selena.

Selena saiu de cima da amiga e percebeu que sempre quis algo com Demi, e não admitia para si mesma. Mas depois do beijo, as coisas não faziam sentido. Eram amigas — sempre foram. Ter um relacionamento com Demi, além da amizade, não parecia alguma coisa que lutaria para ter.

— Não — respondeu Demi. — A não ser que você queria que tivesse um significado.

Selena riu, olhando o chão.

— Acho que não somos garotas que viram namoradas depois de anos de amizade.

Demi concordou com a cabeça.

— Foi coisa de bêbado — disse ela. — Uma experiência que não deu certo.

As duas suspiraram ao mesmo tempo. Selena mordeu o lábio, pensando em nunca mais dar bebida para Demi — e nem para si mesma.

— Mas isso tudo não explica como dormi com você — falou Demi, tamborilando os dedos na cabeceira da cama.

— Depois que você me beijou, você dormiu de novo. Levaria muito tempo para que eu abrisse o beliche, então coloquei você na minha cama mesmo. — Selena deu de ombros. — Quando fechei a casa, estava tão cansada que deitei ao lado e dormi, sem ao menos trocar de roupa.

Ela fez um gesto abrangendo seu corpo. As roupas eram as mesmas da festa. Demi fez uma careta, vendo que também estava com as vestes de seu aniversário.

— Que bom que tem uma cama de casal, Selly — falou Demi, piscando. Selena sorriu.

— Para sempre amigas e sem nos namorar? — indagou Selena, estendendo a mão para Demi.

— Sempre amigas.

Demi ignorou a mão de Selena e a puxou para um abraço. Não doeria tanto não tê-la do jeito que queria. De alguma maneira, Selena sempre estaria lá.

Notas finais
Mereço reviews? *-*