Drunk
1 Capítulo Único: A gente deve mesmo namorar.
Notas iniciais
Era a comemoração do aniversário de Jungkook e, para um otaku, o garoto tinha muitas amizades femininas. Eu não sabia os critérios que uma mulher teria para os flertes, mas se eu fosse uma, com toda certeza não estaria em um sábado à noite cheia de sorrisinhos para o lado do mais novo.
O garoto era meu colega de apartamento desde que meu primo casou-se com a namorada. Achei melhor continuar alugando o quarto ao lado para ter aquela ajuda básica nas despesas e, ao ver Jeon, achei que ele seria uma boa escolha. Ele era calado, não era tão popular, então, não encheria a casa de adolescente quando eu saísse para visitar meus pais em Daegu, não tinha alguém, então, nunca o pegaria transando no sofá da sala; essas são coisas cruciais que se deve pensar quando se aluga um quarto para um desconhecido, só não tinha como saber na hora que o garoto era tão esquisito.
Otaku, gamer, viciado em pornô e o maior fã asiático do ídolo canadense Justin Bieber. O quarto do garoto tinha ao menos dois posters tamanho real do cara, mas fora isso, não é como se Jungkook fosse insuportável, por isso estava ali comemorando o aniversário de 23 anos do mais novo. Claro, mesmo que ele fosse um péssimo roommate estaria ali, não dispensava bebida e comida grátis nem a pau e eu precisava como nunca elevar o álcool em seu organismo.
— Hyung, vá com calma. — O garoto fala com sua voz baixinha e irritante para mim. — Você está dirigindo.
Quem liga? A bebida tava tão boa! E aguentar adolescentes falando de girl group estando sóbrio… Realmente não dá. Eu já estava na minha quinta garrafa de soju quando peguei as chaves do meu bolso e dei elas para o chato do Jeon, junto com as chaves do apartamento, para que evitasse imprevistos de levar alguém para lá e me arrepender na manhã seguinte.
A roda de amigos ali consistia em quatro garotas, duas delas do clube de robótica, uma estrangeira espanhola bem divertida e uma outra muito oferecida que retocava o batom a cada vez que encostava os lábios no copo de bebida, em uma tentativa falha de ser ulzzang; os garotos, todos do curso de Jungkook, ciência da computação, seis caras otakus e viciados em pornografia como ele, que eu não fazia a mínima ideia do nome, mas vivia os vendo na sala de casa trocando pornôs. Ah, claro, e tinha eu, o único cara legal, mas eu não tinha como conversar comigo mesmo sem lembrar dos meus problemas, ou problema, no singular: Jung Hoseok, o ruivo do terceiro ano de dança que eu havia ajudado em uma composição e agora era o meu recente melhor amigo.
O fato é que bastou conhecer Hoseok para que eu ficasse muito confuso sobre tudo que um dia eu tive certeza na vida, quer dizer, ele era realmente incrível: alto, rico, cantava e dançava muito bem, fora escrever letras e fazer rap, o cara era ótimo em tudo e muito, muito bonito. E olha só! Bissexual! Descobri isso em uma vez que estávamos jogando “eu nunca” e ele bebeu por já ter beijado um garoto. Confesso que eu também beberia se ele não me encarasse pateticamente como seu melhor amigo.
Era como naquela música do 1975: “Eu não quero ser seu amigo, eu quero beijar o seu pescoço.” Mas vamos lá, quem eu quero enganar? Nem que eu fosse o fucking Matty Healy, Jung Hoseok nunca iria olhar para mim com os mesmos olhos que encarava o garoto de cabelo roxo do curso de jornalismo ou a chefe de turma da sala dele.
Hoseok era um cara aberto e evoluído, gentil e encantador, melhor ainda: comunicativo, itens que não sou. Até termos nosso primeiro contato, quando o ruivo fora chamar exatamente por mim na aula de instrumentos, meu ciclo de amizade estava resumido em meu primo, Jungkook o viciado em pornôs, anime e Justin Bieber, e claro, meu filho canino, o Holly. Tinha uns colegas de turma também, mas vamos aceitar que ninguém que estuda música quer ser amigo de alguém, você quer mais é eliminar concorrência.
Naquele dia, ele foi lá todo bonitinho me chamando de hyung e pedindo ajuda para a criação de uma música original para dançar nas apresentações de final de ano, disse que seu amigo, Taehyung, tinha dito que eu era o melhor e que até me pagaria se eu quisesse, só precisava falar o preço. Não tive nem cara para cobrar, disse que ficaria apenas com o crédito estudantil porque, qual é, eu queria fazer amizade e ele era tão bonito, nem parecia que ia desgraçar minha vida.
Eu me apaixonei no terceiro encontro para fazer a música, quando íamos gravar a voz dele fazendo rap — que ele próprio escreveu sem quase nenhuma ajuda — e, cara, quando notei isso eu quis me jogar da ponte, ele estava em um meio-namoro com uma garota de artes na época, que o campus todo estava sabendo e desejava que desse certo, menos eu. O do contra.
Depois de conhecê-lo, continuei compondo melodias e letras para ele, mesmo que já não precisasse delas. Eu estava muito ferrado. Só sobre o sorriso dele já dava um CD de 12 faixas no SoundCloud. Por que não repara em mim, Jung Hoseok? O que tem de errado comigo? Eu sou tão legal com você!
— Hyung — Jungkook me chama novamente. —, talvez devesse parar de beber, você está meio que chorando.
O pirralho pervertido tenta tirar a garrafa de bebida de mim e eu bato em sua mão, voltando a tomar a tão estimada bebida grátis. Ele logo se recolhe e volta a atenção para a amiga chamativa que vive passando batom.
— Ei, Kookie, deixe ele beber! — Ela sorri para mim e indica seu copo para que possamos brindar. — Viemos aqui para beber, não é mesmo, Yoongi-ssi? Deixe eu saudar com você.
Eu a olho com desprezo, junto ao copo marcado com batom tentando encostar com a minha sagrada garrafa de bebida. Por que eu havia concordado em ir ali mesmo? Ah, é! Bebida grátis. Mas tinha que ter ao menos uma musiquinha ao vivo tocando se eu fosse ter que aguentar aquela garota.
— Pare de flertar comigo, eu sou gay. — Disse. Precisava cortar os sonhos dela de ter alguma coisinha comigo. Se Hoseok me cortava todas as vezes ao dizer como éramos ótimos amigos, como "alma gêmeas de amizade", porquê não cortar a onda dela também? O Jung fazia isso bem fácil.
— Ei, cara, acho que seu amigo está muito bêbado, deveria levá-lo para casa. – Um dos amigos-pirralhos-otakus-viciados-em-pornôs de Jungkook disse. Eu já frisei que ele é esquisito? Quem ele pensa que é para falar que estou bêbado? Eu só bebi uma... Duas... Três... Algumas garrafas.
— Ei, cara! Cala a boca. — eu disse, apontando para ele com o soju. — Eu sou maior de idade.
— Está tudo bem, eu ligarei para alguém vim buscar a gente, nossa casa fica um pouco longe daqui, mas não iremos dirigindo. — Jungkook interveio. — Vocês não precisam se preocupar.
E eles nem se preocuparam, só beberam por conta do aniversariante e eu os assisti aos poucos irem embora depois de tirar uma ou duas fotos com Jungkook e a garota oferecida tentar novamente me cantar. Por que Hoseok não aprende com ela? Ta aí, eu vou é perguntar! Não tô perdendo nada. Eu tenho qualidades, não tenho? Aquela garota deve ter princípios. Ela me cantou, afinal!
— Ei, hyung! Pra quem tá ligando? — Jungkook perguntou, tentando tomar o celular da minha mão. — É um taxi? Deixe que eu falo.
— Cala a boca, pirralho. — O empurrei antes de me levantar da mesa com a minha garrafa como companhia, sentindo a leve tontura me acompanhar quando Hoseok atendeu com aquela voz bonita demais.
— Ei, hyung! Está tarde, aconteceu alguma coisa?
— Eu não sou bonito, Hoseok? Ou eu fedo? Eu tomo dois banhos todos os dias, você sabia disso? Okay, menos nos dias que estão fazendo muito frio, mas isso já deve ser mais do que aquele garoto de cabelo colorido deve tomar! — eu disse com muita raiva para o ruivo sonolento do outro lado da linha. — O que tem de errado comigo?
— Yoongi-hyung, do que você está falando? Jungkook está perto?
— O que? Até o Jungkook você quer e eu não?! Ele é viciado em pornô de garotas vestidas de empregada, Hoseok. — eu reclamei bem choroso. — Ele nem deve gostar de garotos! E eu gosto! Não de garotos, de você. Que droga. Por que você é tão otário, hein? Eu só gosto de você!
— De mim? Hyung...
— Eu seria um ótimo namorado para você, Hoseok. Nem aquela chefe de turma, nem o garoto colorido iriam ser tão bons para você quanto eu. — Eu estava meio que chorando, por isso procurei me sentar de volta na minha cadeira de antes, onde Jungkook me olhava preocupado logo ao lado. — Sou apaixonado por você tem 'mó tempão, eu juro que me controlo para não bater na sua cara bonita por você ser tão tapado, mas olha só, o que tem de errado comigo? Me conta aí.
— Você quer me contar onde está? Eu posso ir aí.
— E ficar frente a frente com você? Eu não! — exclamo, tomando agora a garrafa de soju de Jungkook para mim. — Você me deixa nervoso demais e eu tô com raiva demais de você no momento. Por favor, não fale comigo amanhã.
— Mas eu quero falar com você amanhã, hyung. Por favor.
Eu nem conseguia negar nada para aquela voz bonita dele e quando eu vi já estava falando minha localização como um trouxa.
— É pertinho daqui de casa, não sai daí não, hyung.
— E porque eu sairia? Jungkook está pagando bebidas hoje, não lembro porquê. — eu disse ao encarar Jungkook com um olhar divertido. Este indicou com a mão o bolo de aniversário com a vela apagada bem no centro. Quando tocaram o parabéns?
— Eu tô indo aí.
— Ei, pera ai! Hoseok?! — eu gritei com o celular já desligado. — Não vem não!
Agora eu estava ferrado. Beleza.
— Tá vendo só, Jungkook? — Chamei a atenção do garoto que tirava a carteira do bolso para contar as notas que gastaria com a comemoração. — Hoseok está vindo aqui e a culpa é sua. Não poderia ter escolhido um lugarzinho mais longe para comemorar a droga da sua festa? Um menos ruim?
— Hyung, do que você está falando? Você que escolheu o lugar!
Cruzei os braços chateado demais para rebater com o idiota. A mesa estava vazia, já sem comida e quase sem bebida e somente a companhia desagradável do fã do Justin Bieber ali do lado não me fazia aguentar um chá de cadeira, por isso levantei e fui cambaleando até o banheiro mais próximo para mijar e lavar o rosto o máximo de vezes, para ficar um pouquinho menos bêbado demais quando Hoseok chegasse ali e droga, nada melhorava minha cara no espelho.
— É por isso que ele não te quer, tá ai a resposta. — eu falei para o espelho. Eu tinha os cabelos descoloridos virados para todos os lados, mesmo que molhados. Meus olhos estavam vermelhos pelo meio-choro e o restante do meu rosto estava da mesma cor por conta do álcool, minha camisa agora estava molhada, pois não tinha toalha de papel no banheiro. O verdadeiro herói de um romance, Min Yoongi!
Voltei para a mesa em passos mais certos que antes e no momento que sentei ao lado do pirralha aniversariante, Hoseok passou por aquela porta todo bonito demais para ser verdade. Ele estava vestindo pijama de linho preto com estampa de estrelinha e uma jaqueta rosa por cima e olha lá, já tava todo lindo para destruir meu coração.
— Que horas são? — perguntei para Jungkook que, bebendo tranquilamente ao meu lado, checou no celular.
— Quase uma da madruga.
— E o que o sol tá fazendo aqui? — perguntei para o mais novo, enquanto apontava para o ruivo que se posicionava de pé ao meu lado. Qual é, ele sabia que eu gostava dele, não custa tentar nada. Mas a melhor cantada do mundo só serviu para Jungkook fingir vómito. Era um idiota mesmo.
— Quem deixou ele beber assim? — Hoseok perguntou para o aniversariante que deu de ombros.
— Ele mesmo se embebedou, ele é maior de idade, não é mesmo, hyung? — Jungkook se voltou para mim e eu assenti exageradamente.
— Tudo bem, Jungkook. Eu vou levar o Yoongi-hyung para minha casa, você tem como ir para o apartamento? — O ruivinho perguntou com aquela voz lindinha e harmoniosa de quem poderia muito bem ser meu namorado. Não do colorido que não toma banho ou da chefe de turma, nem do Jungkook pervertido. Meu.
— Não liga pro Jungkook, ele pode dormir na rua. — Empurrei o garoto do meu lado, aparentemente forte demais, pois ele caiu da cadeira, mas logo levantou, pois vaso ruim não quebra.
— Eu pedi um uber quando o Yoongi-hyung foi no banheiro, não se preocupe comigo. Aliás, toma a chave do carro do hyung. — Jungkook disse, todo pagando de bom samaritano para o lado do meu ruivinho. Ele sorriu agradecido antes de me puxar pelo braço para que eu levantasse.
Pelo menos andamos abraçadinhos até o carro de Hoseok, aquela máquina bonita e cheirosa que nem ele. O meu carro estava caindo aos pedaços e tinha as portas traseiras travadas, vai ver é por isso que ele não quer namorar comigo.
— Entra no carro e passa o cinto, hyung. — Hoseok pediu e eu não obedeci, apenas sentei no banco do carona, ainda com parte do meu corpo para fora do carro.
— Ah, não, eu estou enjoado demais. — E realmente, com toda a movimentação de andar até o carro somado a Hoseok ali, eu sentia mais que borboletas bagunçando meu estomago.
— Bem feito — Hoseok riu divertido, enquanto se apoiava na porta com os cotovelos sobre os vidros abaixados, porém logo ficou sério —, mas se for vomitar a gente vai no seu carro.
— A culpa é sua, seu bastardo.
— Minha? — Levantou uma daquelas sobrancelhas bonitas, lindo demais.
— Se você não fosse tão tapado...
— Ah, cala a boca, hyung. — Revirou os olhos, desencostando-se da porta do carro. — Se você não fosse tão idiota e medroso, já teria me dito isso tudo de gostar de mim e nosso primeiro beijo não seria quando está bêbado.
— Primeiro beijo? — Eu estou um pouco bêbado, mas no mínimo lembraria de uma coisa tão importante, não é? — Que primeiro beijo, Hoseok?
— Esse aqui. — Foi bem rápido. O ruivo abaixou e grudou os lábios nos meus, bem aquele beijinho de dorama. Foram segundos bem contadinhos que fizeram meu coração bater mil vezes mais rápido e eu não tive chance de fazer nada, pois acabou assim que percebi que deveria aproveitar. — Se amanhã de manhã ainda quiser me beijar, você pode, tá legal?
Eu assenti pateticamente, um pouco pasmo com a situação e talvez um pouco, não muito, sóbrio por conta da adrenalina de ter sido beijado por ele. Não é possível que Hoseok é o ser mais doce do mundo. Ah, droga, eu gosto tanto dele.
— A gente deve mesmo namorar. — eu disse, todo bobo. — Eu sou sua alma gêmea, te juro.
— Lembra de toda a vergonha de hoje quando amanhecer que a gente conversa, alma gêmea.
E adivinha só? Eu lembrei.
Notas finais
Pretendo fazer um bônus algum dia na minha vida rs.
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