Drown

1 Save me from myself, don't let me drown...


Notas iniciais
Baseado especialmente nas músicas Dead In The Water, da Ellie Goulding, The One That Got Away, da Katy Perry, e Drown, da banda BMTH. Além, é claro, da quantidade de merda na qual eu estou metida.

Na primeira vez em que Kathryn sentiu-se atraída por Oliver, em seu primeiro ano de ensino médio, ela podia jurar que estava ficando louca.

Talvez toda a loucura do último ano tivesse finalmente alcançado a garota e agora ela estava sofrendo uma de suas crises de desesperos casuais — elas tinham ficado mais frequentes desde que fora morar com seu pai. Só poderia ser isso.

Porque ela não poderia estar possivelmente atraída pelo amor de infância de sua melhor amiga.

***

Na segunda vez em que Kathryn sentiu-se atraída por ele, a menina pode observar alguns fatores que definitivamente haviam chamado sua atenção. Sua pele clara, cabelos pretos e olhos profundos não podiam combinar mais com seu ar de misterioso. Ele era, ao mesmo tempo, constante e inconstante em sua vida. Os problemas mal resolvidos entre Oliver e sua melhor amiga Tori eram palpáveis e a garota simplesmente não conseguia calar a boca sobre ele. Kathryn era obrigada a escutar sobre como o garoto era extremamente romântico, inteligente e danificado.

Ela poderia nunca admitir, mas absorver pequenas informações sobre ele em sua mente era uma das atividades que fazia com o máximo de prazer.

De certa forma, a escuridão do garoto a encantava. Sabia melhor do que ninguém que romantizar doenças mentais não era certo — como alguém poderia possivelmente amar o vazio dentro dela? —, porém, acreditava que os problemas do garoto o humanizavam de forma que ela nunca havia visto antes. Começou a sentir-se um pouco culpada quando passou a acompanhar, de longe, a história que o corpo do garoto poderia contar sobre ele.

Sabia que a namorada dele, agora ex, era um pouco fanática por chupões — até mesmo sua camisa xadrez fechada até o colarinho não era o suficiente para esconder as manchas roxas. Sabia quando ele faltava na escola, mesmo descobrindo o motivo somente depois de dois anos — e achava tão esquisito que o ambiente do pátio parecia diferente quando ele não estava lá.

O que mais a assustava era o quanto podia ver-se nele. Apesar das coisas casuais que notava — na verdade, Tori fazia questão de chamar-lhe a atenção quando notava alguma mudança em Oliver —, a garota tinha uma espécie de neurose com os braços do menino.

Kathryn viera de um bairro mais periferia do que o de seu pai. Havia crescido na zona norte da cidade, cercada de pessoas que facilitavam a intoxicação da garota. Seu primeiro ano ali estava sendo como os primeiros meses de reabilitação: você piora antes de melhorar. Ela estava cercada por pesadelos de amigos perdidos, pela sombra de sua infância roubada e pelo vazio pulsante dentro de seu peito. E o único modo que havia encontrado de lidar com eles era abrir um pequeno corte aqui e acolá.

Seu problema parecia pequeno. Inalcançável. Mas vê-lo de forma tão exposta e palpável na pele dos braços de Oliver fazia com que ela se sentisse pequena. Caindo, caindo e caindo.

***

Durante seu segundo ano, Kathryn perdera as contas de quantas vezes havia achado Oliver atraente. Ele havia tornado-se apenas mais uma coceira em sua cabeça. Lembrava-se dele, muitas vezes, com nostalgia. Oliver representava para ela amizades perdidas e sangue, ambas as coisas que ela mais lutava para esquecer.

Eles chegaram a conversar durante o decorrer daquele ano. Trocaram palavras aqui e ali, conforme sua melhor amiga e ele retomavam sua amizade. Havia algo ali, alguma coisa que Kathryn não entendia, porém respeitava com cada molécula de seu ser. Oliver era terreno proibido.

Estava deitada em sua cama, na parte de cima da beliche, lutando contra o sono enquanto casualmente checava suas redes sociais. Já estava tarde, o ar quente do fim de ano esquentava seu quarto, mas Kathryn recusava-se a sair de debaixo de seu cobertor. Espantou-se quando o balão de notificações de seu celular apareceu em sua tela, mostrando que seu amigo a havia marcado em uma publicação.

A garota riu quando viu o que era. Podia até ser mais uma das publicações escrotas de seu melhor amigo, mas ainda assim significava algo para Kathryn. Ela havia passado o ano inteiro sofrendo com um garoto por quem desenvolvera uma quedinha e agora estava namorando com uma de suas amigas mais próximas, e seu amigo, Hykes, havia acompanhado tudo. Ela sabia que o desejo dele de descer a porrada no outro garoto era extrema.

Era apenas uma imagem simples, com os dizeres "marque aqui os seus crushs".

Já era madrugada. Ela sabia que, se ele notasse que ela estava on-line uma hora dessas, ela provavelmente levaria uma bronca. Decidiu levar aquilo como um sinal para ir dormir e resolveu que só curtiria a publicação de manhã.

Mais tarde, Kathryn acordou com sete notificações de Oliver.

Ele havia feito questão de comentar diversas vezes no post, marcando-a em cada um deles.

E alguns dias depois, quando ele a marcou novamente em uma publicação que falava sobre a nova distribuição dos alunos para a sala do terceiro ano, ela não pode deixar de sorrir ao perceber que estariam na mesma sala.

Kathryn sabia que Oliver estava destinado a estar em sua vida, de um jeito ou de outro. Fosse como amigo, conhecido, ou simplesmente o amor de infância de sua amiga. Ela o aceitaria de qualquer jeito, pois já havia passado por bastante coisa, e sabia que não tinha o direito de ser nada além de gentil com o próximo. Cada pessoa do mundo estava lutando suas próprias batalhas e ela sabia muito bem que a de Oliver não era nada fácil.

***

O terceiro ano de Kathryn começou sendo o mais difícil. A garota havia sido aprovada por pouco, e realmente estava interessada em estudar. Só que Oliver, mais uma vez, conseguia distraí-la.

Obviamente seria ele, pensou.

Kathryn já era bem distraída por conta própria; não precisava de mais cinco garotos em sua vida para conversarem a aula toda com ela.

Não podia parar de pensar que, de uma forma ou de outra, Oliver estava destinado a estar em sua vida.

Hykes, seu novo melhor amigo, tinha que ser amigo dele. E começar a falar abertamente de sua bissexualidade graças à sua queda por ele. E agora estar mandando mensagens pra ela às duas da madrugada sobre como ele achava que Oliver estava realmente afim dela, justamente quando ela decidira esquecê-lo, viera para a casa de sua mãe para fazer a sua típica limpeza de poder ser quem era sem ninguém por perto, e queimara seu último maldito baseado. O timing de Hykes era ruim, mas ele não poderia ser tão extremante mau assim.

Mudando de assunto, eu realmente acho que o Oliver te quer.

Eu realmente acho que o Oliver te quer.

Acho que o Oliver te quer.

Ela releu a porcaria da mensagem pelo menos dez vezes e queria quebrar a própria cara para tirar aquele maldito sorriso de seus lábios.

Seus dedos rapidamente foram para o botão de bloqueio, rapidamente tirando um print e mandando-o para sua irmã e sua amiga mais antiga.

kathry-n: Sim, migo, vamos conversar sobre seu amigo/crush que, olha só, também acontece de ser o meu.

A animação de Kathryn passou em menos de dois minutos quando percebeu que sua irmã Lizzy já estava adormecida na casa de sua amiga, que Lydia desligara o wifi para poder dormir, e que Hykes rapidamente mudou o assunto da conversa para gatos — não que ela estivesse reclamando.

Antes de continuarmos, saibam aqui que o relacionamento de Kathryn e Oliver avançara muito durante apenas três meses — quase quatro! —, e que a garota já o conhecia a ponto de se preocupar loucamente com que ele tentasse fazer alguma coisa contra si mesmo.

Nas segundas e sextas, Kathryn passava as aulas de educação física sentada no banco que havia na entrada para o infantil da escola. Ela achava extremante inseguro que as crianças ficassem a apenas uma grade de distância da quadra onde seus amigos costumavam jogar bolas mortais nos corpos uns dos outros. Isso normalmente lhe proporcionava um descanso, em que as únicas coisas que poderiam acontecer eram a) com que acabasse ficando com o agasalho, os óculos de grau e o celular de Oliver, ou b) passasse a aula inteira com ele, Hykes e Tori deitados um em cima do outro. A única coisa que realmente incomodava e agradava a menina era que Oliver fazia questão de sentar perto dela e brincar que os dois exalavam amor e fariam um ótimo casal. Eram em momentos assim que Tori mais se afastava.

Nas terças e quartas, ela normalmente estava sentada próxima a Hykes, Tori e Gus, que tinha um rolo com Jules, amiga da outra Jules, cuja qual Kathryn havia tentado beijar naquele dia em que ambas passaram mal de tanto beber. Não queria admitir, mas se fosse muito, muito sortuda, Oliver e ela acabariam conversando e ele soltaria mais um de seus, cada vez mais típicos, “Kathryn é a minha crush, só que não é correspondido”, normalmente o momento em que Hykes interromperia e soltaria algo do tipo "já vi que hoje à noite, eu estarei dormindo debaixo da cama e ouvirei barulhos constrangedores desses dois". Oliver riria, provavelmente entortando o nariz daquele jeito que somente ele fazia, devido ao fato de que Hykes adorava dizer que era o cachorro de Kathryn.

Seus amigos eram definitivamente doentes.

Quintas-feiras eram seus dias preferidos da semana. A garota podia jurar que saía da cama muito mais disposta do que em qualquer outro dia. O quinto dia da semana significava aula de empreendedorismo, nas quais eles apenas assistiam alguns vídeos sobre como deveriam agir em seus trabalhos, como deveriam pensar positivamente e blá-blá-blá. A parte boa daquela última aula daquele dia específico era que elas significavam auditório da escola. E isso significava cadeiras mais confortáveis para sentar, descansar e dormir. Os vídeos significavam que o retroprojetor seria ligado, indicando que ficariam quarenta e cinco minutos no escuro. Sentada na cadeira atrás de Oliver, na terceira fileira da primeira coluna à esquerda, na parede mais próxima, Kathryn estaria confortavelmente sentada com os pés colados ao corpo, acariciando os cabelos bagunçados do garoto à sua frente, fingindo prestar atenção nos vídeos. Hykes estaria sentado ao seu lado, Tori ao lado deste, enquanto Bash, melhor amigo de Oliver, sentaria ao lado do garoto. A veracidade dos detalhes que Kathryn guardava chegavam a assusta-lá.

"Não se preocupe”, disse a si mesma pela centésima vez somente naquela semana. “Talvez Hykes e você só estejam tendo uma crise sentimental juntos!”

Bufando e revirando os olhos, ela decidiu repassar todas as informações em sua cabeça. Sabia que, quando estava alta, pensava muito mais logicamente — mais uma razão de que seu coração era de humanas, Tori diria.

Por que Oliver havia decidido começar a brincar com ela, justo com ela? Apaixonava-se, apegava-se e importava-se muito facilmente. Não queria perder mais ninguém, ainda mais ele.

Ela tinha um coração de papel, e ele adorava brincar com fósforos.

Ele poderia muito bem ter começado a zoar falando que Tori que era sua crush. Que ela que era a entidade divina descomplicada demais para ser uma menina — dando-se as experiências passadas de Oliver com garotas, ela resolvera relevar o fato de que achava que ele generalizava demais. Seria tão mais fácil se ele fizesse isso com Tori, não com ela, já que ambas conversariam abertamente sobre o assunto e compartilhariam suas teorias malucas. Para falar a verdade, achar qualquer coisa de Oliver era extremante confuso; ele zoava, mas tudo que ele falava sempre tinha um quê de verdade.

O que dizer, então, da constante mania dele de pedir-lhe selinhos quando estavam abraçados, quase encostando-lhe os rostos? Ou encara-la continuamente porque ela surtava de vergonha quando faziam isso, ainda mais ele?

Precisava de Lizzy em um momento desses mais do que nunca, entretanto não atrapalharia seu sono de forma alguma, ainda mais em um momento desses; Lizzy estava crescendo e Kathryn era teimosa demais para deixa-la sair da linha por isso.

Ela só gostaria de não sentir seu peito tão pesado quanto naquele momento. Não podia conversar com Tori, a melhor conselheira que conhecia. Muito menos com Hykes, que não entenderia. Lizzy estava longe e suas outras amigas provavelmente só os shipparia ainda mais.

Ela lidaria com Oliver normalmente, se não fosse por uma coisa: para ela, os momentos compartilhados com ele eram preciosos demais, profundamente verdadeiros. Ainda podia sentir como ficou desesperada quando ele comentou que não tomava seus remédios há quatro dias, preocupada ao ponto de sair de sua carteira, passar por debaixo da mesa atrás da sua rapidamente, agachada ao lado dele para que estivessem olhando diretamente um para o outro.

— É sério, Oliver, não faz isso — comentou, aflita demais para controlar.

— Você espera que sua carinha de cachorro me convença a não fazer isso? — ela assentiu, envergonhada e desesperada demais para fazer qualquer coisa além disso. — Tudo bem, eu não vou me matar, mas só por você — ele respondeu, sorrindo.

Kathryn passara o resto da aula sentada no chão ao lado da carteira do garoto. Naquele dia, ele acompanhou Tori e ela até a casa da garota.

Um dia depois, Tori teve que faltar para cuidar de seu irmão menor que havia ficado doente. As lembranças desse dia despertavam sentimentos confusos em Kathryn. Por um lado, Oliver e ela nunca ficaram tão próximos. Ele estava ficando com menos paciência a cada dia que sua mãe não lhe comprava seu remédio, tornando-se irritadiço com qualquer pessoa — não com ela, notou; nunca com ela. Na terceira aula, ele passou a aula de apresentação do trabalho inteira apoiado no ombro dela, que apoiava-se na cabeça dele.

Passaram quase o dia todo um grudado ao outro. Kathryn só não esperava que sua perdição chegaria tão rápido.

Na última aula daquele dia, após uma prova da qual ambos não estudaram, Oliver pegou sua mão, entrelaçou-lhes os dedos, e, com a mão livre, suavemente lhe acariciara o braço. Ficaram assim por um bom tempo; ele, passando os dedos por sua pele suavemente, e ela, fazendo círculos com seu polegar pelas mãos ásperas do garoto.

Quando o assunto suicídio foi citado no trabalho, ela parou abruptamente e apertou a mão dele ligeiramente até que o assunto passasse. Ela não sabia se ele notara ou não a leve mudança em seu comportamento. Nem se ele notara as lágrimas nos olhos dela quando a encarou.

Kathryn percebeu, naquele momento, que não era só atraída por Oliver; ela havia passado a amá-lo.

Ele estava ali, um aglomerado de ossos, pele, órgãos e moléculas. Haviam tantas coisas funcionando naquele momento específico no corpo dele, apenas para fazê-lo movimentar seus dedos por sua pele, ou respirar, que a garota sentiu que foi puxada rapidamente pela gravidade de um mundo em que não pisava havia um bom tempo.

Kathryn não o amava por sentir-se atraída por coisas supérfluas. Ela amava o jeito que Oliver pensava, falava e demonstrava o que sentia. Amava-o única e exclusivamente por quem ele era, por quem ele poderia ser. Queria congelar aquele momento, aquela sensação, e viver ali para sempre.

Mas, não. A aula acabou, eles se despediram, e antes que ela notasse já era outro dia e lá estava Tori, com suas profundas desconfianças de que ela gostava dele — não que fosse mentira, mas também não era nada da conta dela desde que Kathryn ficasse quieta. A semana seguinte chegou, e ela o pegou checando o perfil da garota com que ele estava ficando repetidas vezes em seu celular, no único dia em que não pode ficar-lhe fazendo cafuné na aula de quinta-feira de empreendedorismo por ter que tomar anotações no lugar de Tori.

Ela sentiu ciúmes. Ela sentiria ciúmes de qualquer garota que Oliver já houvesse amado.

Talvez, pensou, nós dois existimos juntos em algum universo paralelo. Talvez, só talvez, não seja somente eu que me importe.

E queimava seu coração somente a ideia dele amando outra pessoa, alguém que não fosse ela. Em momentos como esses, ela tinha que lembrar a si mesma que, às vezes, o maior sacrifício que alguém pode fazer é abrir mão.

Kathryn sabia que, no decorrer da semana seguinte e da seguinte e da seguinte, Oliver olharia dentro de seus olhos novamente e veria sua alma, da forma que somente ele fazia. A escuridão profunda de seus olhos a engoliria de novo, afogando-lhe um pouco mais a cada dia que passava. Mas não era ruim. Era aconchegante, até.

A doença matava uma parte de Oliver e de Kathryn a cada dia que passava. E Oliver matava Kathryn um pouco toda vez que a encarava no fundo de seus olhos, castanho com castanho.

Eram quatro da manhã agora e a garota notou que, no final, era apenas uma corrida de quem estaria morto primeiro, e por qual motivo.

Kathryn poderia não saber o de Oliver, mas definitivamente sabia o seu: afogamento.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comentar não faz cair o dedo, aliás. c:
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!