Drive

1 Prólogo


Quem é você? Ela não sabia responder.

Para a mãe, era Margaret, linda porém irresponsável filha. Para os avós na Itália era Margueritte, a adorada neta que passava os verões no antigo sobrado em que viviam. Para Chloe, ela era Marge e isso bastava. E para ele, o causador de tantas lágrimas, cigarros, viagens de carro e noites em branco, ela era Mar. Viveram algo tão profundo quanto as águas do oceano, mas ela deveria saber que é perigoso mergulhar muito fundo quando não se sabe nadar.

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Era verão, junho, em Nápoles. Margaret ouviu um grito agudo a chamando, vindo das escadas da velha casa. Ela desligou o chuveiro e se enrolou na toalha, sentindo o calor noturno vindo da janela grudar em seu corpo. Quase não se podia ver o chão do banheiro por baixo das inúmeras roupas, cremes e vinis que a garota levara ao banho. A voz de Cyndi Lauper ainda gritava estridente vinda da vitrola apoiada na pia, ecoando nos azulejos.

Margaret ergueu a agulha e observou as luzes da noite italiana enquanto a música parava. Se apoiou no peitoril da janela, suspirando. Ficou alguns minutos observando as estrelas, a mente bem longe da casa dos avós. Imaginava como seria se pudesse alcançar as estrelas, como seriam ao toque, se eram quentes ou frias. Despertando de seus devaneios, a menina apertou a toalha contra o corpo e dirigiu-se ao quarto, recolhendo um vestido estampado do chão do banheiro.

O quarto cheirava a naftalina e poeira, como sempre fora. Um incenso tentava, sem sucesso, trazer algum aroma diferente ao cômodo. Neste chão haviam mais roupas e vinis, somados aos livros e papéis espalhados que nunca seriam arrumados. Fora as vestimentas mais adultas, nada havia mudado do quarto em que Margaret passara incontáveis dias em sua infância. O papel de parede floral e os móveis de madeira escura a traziam um sentimento triste e nostálgico. Inúmeras imagens haviam sido pregadas nas paredes no último mês, trazidas de seu quartinho azul em Chicago. Essas cobriam fotos e cartazes de bandas que já não escutava mas ouvia todo santo dia quando tinha treze anos. Estava prestes a abandonar os dois únicos lugares em que havia se sentido amada, em casa. Entre eles, vários quilômetros de terras roubadas e águas escuras.

A menina parou na frente do espelho do armário, pequeno demais para observar toda a extensão de seu corpo. Olhou para o próprio rosto, se esforçando para não soltar um suspiro de frustração. Considerava-se muito distante da então admirada beleza das garotas italianas ou das meninas de sua escola na América. A franja caia desajeitadamente em sua testa, clamando por um corte enquanto o nariz, fino e arrebitado, a dava uma aparência esnobe. Seus olhos e bochechas eram grandes demais, já a boca desenhada era um meio termo. A parte que mais gostava em si eram seus olhos verdes. Talvez, por serem tão misteriosos, chamassem atenção nos bares e ruas em que passava a noite.

Já com o vestido rodado cobrindo seu corpo, Margaret desceu as escadas de dois em dois degraus. Atravessou a sala e beijou a testa do avô, que dormia enquanto seus priminhos viam televisão e corriam em volta do sofá. Se dirigiu a cozinha e avisou a avó que iria sair, beijando seus cabelos. Antes mesmo que pudesse reclamar ou mesmo desejar uma boa noite, a menina já havia saído. Com um suspiro, a senhora voltou sua atenção para o molho que estava preparando.

A garota sabia onde estavam os outros jovens naquela sexta-feira, e mesmo sendo uma menina solitária, gostava de se rodear com estranhos, tomar alguns drinques, escutar histórias vazias e se dirigir a passos trôpegos de volta para casa. Ainda não eram oito horas, mas as luzes já piscavam, as mulheres já riam histericamente e Marge já era outra observadora da natureza humana. Era 1984 e ainda havia muito tempo pela frente. Era a última semana que passaria na casinha italiana dos avós antes de seguir um novo rumo do outro lado do oceano. Era uma noite de sexta-feira e havia desejo no rosto de todos os jovens, menos no seu. Era verão e, mais do que nunca, seu coração estava congelado.

Notas finais
gostaram? x
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.