Dreams, Dreams and Dreams
12 O Vulto
Notas iniciais
— Então você acha que foi papai que me sequestrou? — Daniel estava surpreso e um pouco temeroso.
— Acho. — respondeu a irmã que andava de um lado para o outro.
— Mas porque ele faria isso comigo? Com você?
— Não sei, mas sinto que Cassandra tem algo a ver com tudo isso.
— Porque acha isso?
— Não sei, apenas sinto, entende?
Melody estava na parede ouvindo a conversa dos irmãos.
— Não sei se podemos confiar nela. — ela completou.
Melody entrou no beco escuro, assustando os gêmeos.
— Oi. — disse ela. — Onde estavam? Eu e Kainã procuramos vocês por toda a escola.
— Cadê ele? — perguntou Daniel.
Melody olhou para Daniel e sorriu.
— Ele está do outro lado da escola, procurando vocês. Afinal, meu amor, você melhorou? — disse ela agachando para beijá-lo.
— Sim. E você como ficou? — indagou ele.
— Bem, morrendo por sua causa, mas bem.
— Oie, eu estou aqui, okay?! — Laís chamou a atenção para si.
— Bom, vamos encontrar Kainã? Faz tempo que não vejo ele. — disse Daniel.
Daniel levantou e acompanhou Laís e Melody até a entrada do beco.
— Podem ir, preciso fazer uma ligação, encontro vocês no Grande Carvalho.
Os gêmeos concordaram e saíram conversando, Melody pegou seu celular e começou a digitar alguns números.
— Eles descobriram. — disse ela.
***
Kainã estava correndo pelos corredores da escola à procura de seus amigos, estava um pouco ansioso para rever Daniel e um pouco receado de ter acontecido alguma coisa. Ele percorria todos os lados e lembrou-se de um lugar em que poderiam estar: na sala de química. Ele não sabia o porquê, mas sentia que devia ir para lá, e estava indo.
Ele chegou à sala de aula, mas encontrou-a trancada, deu um soco na parede. Ele sentou no chão e cobriu o rosto com as mãos.
— Kainã! — alguém gritou.
Kainã olhou para o fim do corredor e viu uma menina balançando as mãos no ar: era a Melody.
— Mady, — Kainã correu até ela. — encontrou eles?
— Nossa, o que aconteceu com você? — perguntou preocupada.
— Você os encontrou? — Kainã estava nervoso com a expectativa.
— Sim, eles estão no grande Carva...
Kainã nem a deixou completar a frase e já puxou ela até a árvore.
Depois de alguns minutos correndo, Mady e Kainã finalmente chegaram até o Grande Carvalho, que ficava bem no centro da escola, como se fosse o coração dela, ele viu os dois amigos sentados no banco na outra extremidade da árvore e correu até eles.
— Laís! Daniel!
Os dois se viraram e viram Kainã correr até eles. Kainã o abraçou.
— Senti falta de você, amigo.
— Eu também. — disse Daniel.
— Aconteceu tanta coisa estranha enquanto estava fora. — disse Kainã o soltando.
— Laís me contou.
O quarteto ficou ali conversando até o sinal tocar.
— Aula de... — disse Laís.
— Educação Física. — completou Melody.
— Sala? — indagou Daniel.
— 12. — respondeu Kainã.
Os quatro levantaram juntos e se dirigiram para a sala, mas viram todos saindo, eles ficaram confusos e Kainã foi perguntar aos meninos o que havia acontecido.
— Janela. — disse ele quando voltou.
— Nossa que bom. — disse Melody.
— Gente o que aquilo ali? — disse Laís.
— Ali aonde? — perguntou Daniel.
— Lá na árvore do canto.
— Parece... Uma pessoa... — Kainã arriscou um palpite.
— Aquele negócio preto é um fichário? — Melody inquiriu.
— Fichário preto? Carlos! Só pode ser ele. — Daniel raciocinou.
Todos correram até o amigo. Chegando ao local, o encontraram desacordado e com os óculos tortos, todo sujo de terra e grama.
— Carlos... Carlos! — Daniel o chamava enquanto dava tapinhas no rosto dele.
— Ai meu Deus! Vou chamar o inspetor. — disse Laís.
— Vou com você, amiga — informou Melody, saindo.
— E agora, cara? — Kainã estava preocupado.
— Não sei, só sei que se ele não acordar, vão colocar a culpa na gente, o que será que aconteceu?
— Dani, que isso na sua mão?
Daniel viu o que tinha na palma de sua mão e viu um liquido vermelho escorrendo por entre seus dedos, um líquido gelado que ele não havia percebido.
— É... Sangue!
Daniel viu uma mancha vermelha na franja de Carlos e afastou-a, lá viu um corte profundo de onde saía muito sangue.
— Isso é ruim, se ele perder muito, pode entrar em risco de vida.
— O que faremos? — Daniel olhou preocupado para Kainã.
— Não sei, temos que estancar o sangue.
— Mas com o que? Não temos nada limpo aqui.
— Já sei, vou ao banheiro pegar o máximo de papel que conseguir, enquanto isso tenta cobrir o machucado. — Kainã saiu correndo em direção ao pavilhão de salas.
Daniel virou-se de lado e colocou a mão em cima da testa de Carlos e se sentou no chão.
— Carlos, o que aconteceu, acorda, cara. Vamos.
***
Kainã corria loucamente por entre as salas até que esbarrou em Laís e Melody.
— Kainã, porque está aqui? Cadê o Carlos? E o Daniel? — Laís preocupou-se ainda mais ao ver o estado conturbado do amigo.
— Descobrimos um corte profundo na testa dele, e ia buscar papel para tentar estancar o sangue, está escorrendo muito, se ele se machucou há muito tempo, já perdeu bastante sangue. E o inspetor, avisaram pra ele?
— Não o encontramos. — Melody encarava os dois, desassossegada.
— Deixa, não vai dar tempo, me ajudem a pegar papel.
— Certo. — disseram as meninas.
Os três viraram no corredor a esquerda e chegaram ao banheiro, mal esperaram a porta fechar e já saíram voando com papeis nas mãos.
***
Daniel já estava com a mão e o pulso completamente tomados pelo sangue do amigo, que não terminava de sair.
— Chegamos. — disse os três em coro.
— Finalmente, parece que ficaram uma eternidade fora. Que bom que essa parte da escola ninguém vem, porque senão já estaria tudo um inferno.
— Como ele está? — indagou Laís.
— Ficando gelado, e a pressão arterial está baixando drasticamente, se a pressão dele chegar a zero...
— Ele morre. — sussurrou Laís com os olhos marejados.
Daniel assentiu, Laís fechou os olhos e respirou fundo tentando se conter, ela tinha que ser forte, seu amigo precisava dela.
— Kainã, Melody, tentem achar o inspetor novamente e peguem mais papel, vou ver se eu tenho um remédio que usamos no machucado de Dani, acho que deixei em minha mochila. — Laís ditou as ordens.
O casal assentiu e saiu.
Laís ajoelhou-se no chão.
— Dani, você trouxe uma garrafinha d’água?
— Sim, por quê?
— Perfeito. Dê-me ela.
— Está dentro da bolsa para que você a quer?
— Você vai usar sua magia.
— Como? — Disse ele com os olhos arregalados. — Não temos treinamento, esqueceu?
— Mas quando te sequestraram, eu consegui usar o meu, quem sabe você não consiga também.
— Eu... Eu mexo com água, não posso curar pessoas!
— Por favor, tente. Eu consegui usar o fogo para nos teletransportar, talvez você possa usar a água para curá-lo.
Daniel suspirou.
— E se não der certo, e se ele piorar? E se...
— Pare com esses “e se...”. Faça logo, depois veremos as consequências, sejam boas ou ruins.
Laís pegou a garrafinha d’água na bolsa de Daniel, abriu e derramou no machucado de Carlos, sangue escorria junto com a água para o chão e formavam uma poça encoberta por folhas.
— Agora! — deu a deixa.
Daniel se concentrou em seus poderes, estendeu as mãos sobre o machucado e fechou os olhos, pensava claramente no Carlos animado e legal que conhecia, o menino mais inteligente da sala e os momentos felizes que viveram, seja de cola de provas de química até os ensaios e tombos engraçados. Daniel sentia o pingente dele esquentar, sentiu o poder fluir de suas mãos, estranhamente ele sentia-se conectado com a natureza ao seu redor principalmente com aquela água diluída no sangue que manchava suas mãos. Ele tombou para traz e suspirou subitamente cansado, gotas de suor gélidas escorriam pelo seu rosto.
Ele escutou o suspiro aliviado de Laís, e só então abriu os olhos, os quais nem havia percebido que tinha fechado.
Daniel viu o feito de seu trabalho, no lugar do machucado havia apenas um corte de uns três centímetros, um pouco aberto, mas muito menos grave e profundo como antes. A ferida ainda estava lá, o sangue ainda estava lá, mas ele sabia que havia funcionado.
— Como foi? O que aconteceu?
— Parte do sangue que escorreu voltou direto para o machucado, parou de sangrar, e o machucado melhorou visivelmente.
— O que falaremos para Kainã e Melody?
— Fala que eu usei sua água para estancar o sangue, depois passei o remédio que encontrei na bolsa, simples.
— Acha que cola?
— Veremos.
Kainã e Melody vinham com as mãos cheias de papeis. Eles ofegantes eles estacaram quando viram a ferida menor.
— Mas o que... o que aconteceu? — perguntou Kainã estupefato.
— O remédio tem mais poder que eu imaginava. — disse Laís rindo deslumbrada.
Melody a olhou desconfiada.
— Me passem os papéis, temos que limpar esse sangue. — eles usaram os resto da água e os papéis para limparem o sangue do rosto de Carlos e de suas mãos.
— Vou ver se ele acorda. — disse Daniel.
— Dani, porque está suando tanto? — inquiriu Kainã.
— É. Por quê? — ecoou Melody.
— Han... Foi o susto, entende?
Melody encarou os dois mais uma vez desconfiada.
Daniel tentava reanimar Carlos, até que ele abriu os olhos lentamente.
— Daniel? — sussurrou.
— Estamos aqui Carl. — disse Laís.
— Lalah? — sua voz era rouca e fraca.
Laís sorriu.
Carlos ajeitou os óculos, os amigos recomendaram que ele ficasse deitado, e depois de cinco minutos, se levantou e sentou na raiz da árvore.
— Carlos, consegue nos ver claramente? — perguntou Kainã.
— Sim, só estou com a cabeça latejando.
— Não é por menos, você levou uma panca forte na testa. — Melody pontuou.
— Carlos, você viu quem foi? — Disse Laís.
— Não, eu... Eu só me lembro de estar procurando vocês, principalmente o Kainã, para falar do tal convite. Levei um empurrão e bati a cabeça com tudo na árvore, só vi um vulto e uma capa preta.
— Vulto? Capa preta? Não vimos nada disso aqui quando chegamos. — Disse Kainã.
Carlos tentou se levantar, sua cabeça latejou e ele voltou a se sentar.
— Calma ai, cara, fica sentado um pouco, eu e Laís vamos lá pegar água para você, Kainã e Melody ficam aqui, okay? — Daniel nem os esperou concordarem e já saiu puxando a gêmea dali.
Quando tomaram distância dos amigos, os irmãos começaram a conversar:
— Acha que o mesmo vulto que me sequestrou é o mesmo que machucou o Carlos? — Daniel expôs seus pensamentos.
— Nosso pai?
— Não temos certeza disso ainda. — Dani defendeu o pai.
— Bom, podemos não ter, mas meus instintos me dizem isso e eles nunca falham.
— Mas será que é a mesma pessoa?
— Acredito que sim.
— Mas o que essa pessoa quer?
— Acredito que queira nos mostrar algo.
— Pense, Lah. Ele me atacou e atacou você, somos pessoas com magia no sangue, será que, se for assim então o Carlos também seria um...
— Guardião?
Ele assentiu.
Laís parou e ficou pensando.
— Tenho certeza.
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