Dreamers
4 Capítulo 3
Notas iniciais
[PLAY]
Haine PDV
A grama úmida e macia causa um formigamento em meus pés a cada passo que dou no desconhecido, não consigo ver o que há a minha frente, uma névoa espessa cobre todo o ambiente vasto deixando até o céu com um aspecto esbranquiçado, o silêncio reinava a paisagem.
Até que depois de alguns passos consigo ver um vulto embaçado a minha frente, dou mais alguns passos cautelosos em direção à imagem, que passa cada vez a ficar mais nítida, a névoa começa a se dissipar dando detalhes da pessoa a minha frente. É ela.
Meu coração começa a bater mais rápido com a ânsia de tentar me aproximar dela, mas justo quando a reconheço minhas pernas parecem parar de funcionar e caio no chão. E então começa.
Uma luz forte pisca atrás dela e toda a calmaria da paisagem anterior muda drasticamente, um vento forte e raivoso toma conta do lugar, ouço vozes mesmo não tendo ninguém lá, gritos, suplicas e urros, tampo meus ouvidos, toda aquela tristeza e ódio que eles emitiam me deixavam tonta.
Quando olho para ela novamente, vejo que sua mão esta estendida em minha direção, mas aos poucos sua imagem começa a se desintegrar bem diante de meus olhos. Não, não posso perdê-la de novo. Estendo meu braço em sua direção, mas minhas tentativas frustradas não adiantam nada, minhas pernas ainda não se movem e o solo embaixo de mim parece se distanciar cada vez mais dela, e então num ultimo suspiro ela desaparece por completo e o vazio e a escuridão tomam conta de mim.
XXX
[FIM MUSICA]
PDV narrador
Constantia
– Daisy!
Num sobre salto a jovem acorda e senta na cama com uma expressão atordoada, porem logo em seguida olha ao seu redor e reconhece as paredes brancas e sem graça de seu quarto. Foi apenas um sonho, de novo.
– Droga, quantas vezes vou ter que ver essa cena... — Haine Murmura, passando a mão de modo frustrado por suas curtas madeixas prateadas.
Não era a primeira vez que sonhava com aquilo, mas isso não quer dizer que tornava as coisas mais fáceis. Quando Haine via Daisy desaparecer bem diante de si ela sentia sempre o mesmo pavor, tudo parecia tão real.
Mas aquela seria a ultima vez que teria esse sonho, bem, pelo menos neste cômodo já que hoje seria seu ultimo dia nele, antes de começar sua grande viagem. Sua busca por respostas, certamente o sonho era uma de suas perguntas.
– Bom, é melhor eu me arrumar e descer logo, ainda tenho que me despedir de Muriel. — A jovem levantou da cama e se dirigiu ao banheiro para um banho, estava um pouco suada depois do sonho estranho.
Após sair do banho Haine resolveu se olhar no espelho, ela costumava passar reto por esse tipo de coisa, pois sabia que seu reflexo sempre a faria lembrar dela.
O espelho mostrava uma jovem de 18 anos com madeixas curtas e lisas, além do exótico tom esbranquiçado de seu cabelo, que quando sob a luz parecia prateado. A pele igualmente pálida era contratante com os olhos verde-água sombrios que encaravam a menina de volta, seu rosto delicado com uma expressão fria e séria. Aquela era Haine.
Ao fitar o espelho a jovem garota imaginou que se fosse há alguns anos atrás ela não se reconheceria. Aquilo nada mais era o reflexo do que o passado, a perda e a dor fizeram consigo nesses últimos anos.
“Será que ela me reconheceria?”
Após o momento de reflexão Haine se troca e ajeita suas coisas, não havia mais o que fazer ali, porém, antes de abrir a porta e partir ela olha para trás novamente, para aquele cômodo que havia sido seu lar durante estes últimos 4 anos. Ele era bem simples e pequeno, não havia muitos moveis ou decoração, mas não é como se importasse com esse tipo de coisa. O aconchego de ter um lugar somente para si já era o suficiente.
Entretanto, mais do que seus dias neste quarto, sabia que tinha uma coisa que sentiria mais falta que tudo isso aqui, no momento ela deve estar esperando no andar de baixo, é hora de dizer adeus.
XXX
As escadas faziam um rangido estranho enquanto Haine descia até o térreo da pousada, assim que desceu viu uma senhora de cabelos brancos com o rosto redondo e simpático a sua espera, era Muriel, a dona da pousada.
– Ah, minha querida! – Muriel se aproximou e fitou a jovem com seus olhos ternos, mas como era observadora; Haine notou uma pitada de tristeza neles também. – Vejo que esta pronta.
– Sim, partirei está manhã como havia prometido, o quanto antes melhor. – Haine afagou timidamente seu ombro, não era muito boa com despedidas mas pode ver que Muriel se segurava para não chorar na sua frente.
– Saiba que sempre estarei aqui.
– Eu sei Muriel, e agradeço por isso e tudo que me ofereceu até hoje, te devo minha gratidão eternamente.
– Não seja boba, eu seria uma mulher sem coração se deixasse uma menina inofensiva como você sozinha nas ruas.
Há 4 anos atrás Muriel encontrou Haine nas ruas, uma menina de 14 anos sozinha e debilitada, não sabia por mais quanto tempo aguentaria rondando as ruas daquele jeito, mas por mais que seu corpo doesse sua mente girasse, a jovem moça de cabelos prateados continuaria rastejando pelas ruas em busca dela, de Daisy.
A memória daquele dia ainda estava vivida na mente de Haine, a garota estava em baixo de uma ponte, se segurando para não dormir pois temia o que poderia acontecer se ficasse inconsciente naquele lugar, não se podia confiar em ninguém. Mas aos poucos sentia o resto de consciência que tinha se apagando, o cansaço e o sono estavam vencendo a batalha, a última coisa que seus sentidos captaram foi uma mão afagando seu cabelo e uma voz feminina gentil dizendo: “Vai ficar tudo bem.”
Quando acordou estava limpa e em uma cama quentinha. No começo a jovem garota se assustou com a situação, mas logo Muriel apareceu com uma sopa quentinha entre as mãos, a senhora disse para ela se acalmar dizendo que não havia feito nada de mal e que se quisesse poderia passar a noite ali para descansar. Acontece que Muriel era dona de uma pequena pousada nos subúrbios de Constantia e havia deixado Haine repousar em um de seus cômodos.
Muriel perguntou por que a menina estava naquele estado nas ruas, mas tudo que Haine respondeu era que não se lembrava de nada, o que era mentira. Ela se lembrava de cada detalhe do seu passado, mas não podia contar para ela e bem, não é como se ela fosse acreditar de qualquer jeito. Ou seja, para Muriel Haine era simplesmente uma menina perdida com amnésia.
E assim a noite de repouso passou.Entretanto, os dias que Muriel ofereceu no quarto se transformaram em semanas, e as semanas em meses. Muriel tinha criado um carinho especial pela garota, e como eu não tinha para onde ir ela deixou Haine morar em um dos quartos da pousada, claro que a jovem se comprometeu a ajuda-la a cuidar do local também. E assim esse carinho entre as duas foi crescendo, Haine não sabia o que seria de si se Muriel não a tivesse acolhido.
Mas agora era hora de dizer adeus, Haine disse a Muriel que sairia em uma jornada para descobrir seu passado, logicamente ela ficou preocupada mas no final a apoiou. De certo modo o que contou a Muriel não era uma mentira total. Sua jornada era uma busca ao seu passado sim, coisas que ainda precisavam ser descobertas e corrigidas, uma jornada que tramou e se preparou cuidadosamente pois sabia que seria muito mais difícil e perigoso do que Muriel jamais imaginaria.
– Promete que irá voltar? – Muriel questionou melancólica.
– Prometo. – Haine tentou parecer firme mas a verdade é que nem ela sabia se conseguiria voltar.
– Então tudo que me resta é te desejar boa sorte querida, espero que encontre o que procura. – Muriel puxou Haine para um grande abraço o qual a jovem retribui. – Ah, e espero que volte sorrindo mais, não sabe o quão linda fica quando sorri.
–Sabia que iria pedir isso. – Revirei os olhos e deu um tímido sorriso debochado. — Obrigada por tudo, se cuide também, por favor.
E assim se desfez do abraço, e com um ultimo aceno Haine foi em direção a saída, na sua busca em salvar sua irmã gêmea, Daisy.
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