Dreamer
1 Introdução
Notas iniciais
Mas se alguém vai, ai vai um dream-cast básico pra ajudar na compressão dos personagens.
Megan Clarke: Taissa Farmiga
Kelly Wilson: Ciara Baxendale
Matthew Dellawere: Daniel Sharman
Eram seis da manhã quando o irritante som do despertador fez com que eu acordasse. Naturalmente abri os olhos de forma desconfortável, incomodada pela claridade da manhã cinzenta de Nova Iorque, e cansada por mais uma noite mal dormida. Vencida pelo cansaço, ousei me fechar os olhos por mais alguns segundos. Pensei até mesmo em matar aula naquela manhã, em prol de um merecido sono, mas infelizmente, a responsabilidade era um dos meus muitos – ou nem tantos atributos. Como todas as manhãs, vesti meu uniforme de UESHS, Upper East Side High School, conhecida por ser uma das melhores instituições de ensino de Nova Iorque. Mantida por magnatas nova-iorquinos e celebridades locais, pais dos disciplinados estudantes da instituição, uma vez ao ano, a escola dispunha uma bolsa de estudos completamente paga para que jovens estudantes pudessem concorrer por meio de uma prova e assim tivessem a oportunidade de estudar lá com as despesas completamente cobertas pela escola. E dois anos atrás, eu, Megan Louise Clarke, fui a felizarda que alcançou tal proeza. Felizmente, inteligência era outro dos meus muitos – ou nem tantos atributos. É claro que meus pais ficaram orgulhosos de mim, até eu mesma fiquei, por isso eu me lembrava todos os dias do quão sortuda eu era por ter conseguido a vaga entre milhares de concorrentes, para tentar me auto estimular a ir para a escola e me esforçar nos estudos. Mas se soubesse que o esforço diário que eu teria que fazer para estudar todos os dias fosse maior que o financeiro, eu preferia ter continuado na escola pública onde eu estudei no ensino fundamental no Brooklyn.
Entre prédios luxuosos de Nova Iorque tudo o que os Estados Unidos mostra sobre a cidade na TV, existe o Brooklyn, onde eu vivia num apartamento médio com a meus pais e meu irmão mais novo, Nicholas. Minha mãe era enfermeira, e trabalhava nos plantões no hospital local de urgências, enquanto meu pai era vendedor de carros numa concessionária no centro da cidade. Vivíamos consideravelmente bem até um ano atrás, quando tudo começou a desmoronar, quando também eu percebi que a realidade não era tão doce quanto eu imaginava que seria.
- Megan? Você está acordada? – ouvi minha mãe chamar da cozinha.
- Sim, eu já estou indo – respondi enquanto colocava os últimos livros na mochila, os quais tinha revisado na noite anterior.
Segui para a cozinha, onde minha mãe, Margaret, passava seu uniforme de trabalho enquanto prestava atenção em alguma coisa na TV relacionado à Oprah. Nicholas, meu irmão de quatro anos, tomava o que restava de seu suco de caixinha. Parei por um minuto para observar o quão encantador ele ficava com seus cabelos pretos, cumpridos e espetados quase cobrindo seus olhos, antes de tirar a mochila de minhas costas e me acomodar. Na mesa, minha tigela de cereal se encontrava pronta para que eu não me atrasasse. Tudo estava habitualmente normal, mas faltava alguém.
- O papai não vai tomar café conosco? – perguntou Nicholas de forma inocente, fazendo barulho com sua caixinha de suco vazia. Automaticamente, levantei os olhos, a espera da resposta da minha mãe, cujo olhos azuis me encaravam, pedindo socorro. Pergunta errada.
- O papai saiu mais cedo para o trabalho – ela forçou um sorriso. Mentira.
Há cerca de seis meses, a crise financeira levou várias indústrias e comércios fechar suas portas, e meu pai era mais uma vitima desempregada. É claro que ele e minha mãe nunca nos contou isso, mas eu sabia. E ela sabia que eu sabia, embora eu nunca tivesse dito uma só palavra a respeito. Assim como eu sabia que ele saia todas as manhãs, desde então, a procura de emprego – quando estava sóbrio. Foi ai que começou a segunda crise americana: A crise no casamento de Thomas e Olivia Clarke, resultado da frustração que levava Thomas a chegar bêbado altas horas da noite, o que sempre resultava em pequenas brigas e gritos abafados vindo do quarto. Na manhã seguinte, tudo estava bem novamente, como uma tradicional família americana numa propaganda de margarina. Desde então, a família era sustentada pelo salário mediano de minha mãe, que virava e virava noites e plantões hospitalares. E desde então também meus pais se suportam por mim e meu irmão. Nicholas era muito novo e inocente para perceber isso, mas eu não.
- Eu vou pra escola sozinha de novo? – perguntei sem ter coragem o suficiente de encarar minha mãe nos olhos, tentando focar em meu cereal.
- Sim. Mas não se preocupe, eu vou fazer hora extra hoje, então posso te deixar na estação de metrô. – Ela disse com simpatia, como se tudo estivesse bem. Eu não entendia o que a levava a fazer tantos plantões e horas extras no hospital, sendo que seu salário sempre se mantinha o mesmo. Ela era uma mulher de aparência jovial, cabelos dourados perfeitamente encaracolados e olhos claros. Já cheguei a pensar que talvez ela tivesse algum interesse amoroso no hospital. Por outro lado, sabia que ela era boa demais para mim e meu irmão – e até mesmo meu pai – para fazer algo do tipo. Então, cheguei a conclusão de que o hospital era sua fuga da realidade dura em casa, sua válvula de escape, onde ela simplesmente fazia o que amava: cuidar das pessoas, assim como cuidava de nós.
- Você está bem querida? Parece cansada – ela comentou, e só então percebi que eu a estava encarando.
- Estou – respondi com naturalidade.
- Pesadelos de novo? – Sua expressão mudou para uma sabichona. Ah, ela me conhecia tão bem.
- O mesmo de sempre – comentei, enquanto levava mais uma colherada de cereal à boca. Outra coisa importante sobre mim: eu tinha pesadelos frequentes. Sempre os mesmo, nos quais eu ouvia vozes e de repente me sentia presa. Completamente consciente, a ponto de saber que estava dormindo e sonhando, mas meu corpo permanecia travado, imóvel, sem corresponder aos comandos do meu cérebro. E só depois de muito esforço físico, tentativas falhas de gritar ou me mexer, meu corpo despertava, e eu me encontrava suada, arfando. E depois dessa rotina amedrontadora que acontecia pelo menos três vezes na semana, eu dificilmente conseguia voltar a dormir, como naquela noite em questão.
Eu havia pesquisado sobre isso algumas vezes na internet, e havia encontrado algo sobre paralisia no sono. Aparentemente, eu não era a única que passava por esse fenômeno, descrito como aterrorizante. Alguns dos relatos levam a experiência para o lado espiritual, lado esse que eu ignoro um pouco, e procuro as explicações mais lógicas, sem nenhuma conclusão científica exata do porque isso ocorre, o que me levava a nenhuma outra opção além de conviver com isso.
- Bom, se apressem para que não se atrasem. Megan, leva seu irmão pro carro, encontro com vocês em um minuto – disse minha mãe antes de sumir pelo corredor com seu uniforme.
- Vamos Nicholas – murmurei enquanto o ajudava levantar da cadeira e pegava nossas mochilas no chão e rumava em direção a porta. Nossa família tinha um carro modesto popular que facilitava minha jornada até o outro lado de Nova Iorque, onde estudava. A corrida era rápida: Nicholas na pré-escola local, eu ficava na estação de metrô e mamãe corria pro hospital para o plantão das sete horas.
A viagem de metrô era calma, embora lotada naquela hora. Em cerca de quarenta e cinco minutos eu chegava – ainda que um pouco atrasada. Eu detestava aquele lugar, embora soubesse que estava sendo presunçosa e ingrata, já que aquilo era uma garantia de um futuro, e eu tinha o privilégio de estudar lá com todas as despesas pagas. Por isso talvez eu fosse a mais ignorada ali, e talvez a única inteligente e atrevida o suficiente para levantar a mão e responder as questões da aula de álgebra. Enquanto a maioria das garotas e esnobes competiam em si para saber quem tinha o penteado mais moderno e a bolsa mais cara da Chanel, eu estava ali para estudar, e me lembrava daquilo todos os dias. Não me leve a mal. Eu não me achava superior ou inferior do que ninguém ali, mas podia sentir os olhares como flechas alvejando minhas costas, e de vez em quando, sentia a placa “bolsista” em minha testa. Ou talvez fosse apenas coisa da minha cabeça.
Quando cheguei à escola, a porta já estava fechada, o que significava que eu levaria uma advertência por atraso. Revirei os olhos e xinguei mentalmente, enquanto dava a volta para tentar entrar pela secretaria.
- Atrasada de novo, senhorita Clarke. — A Senhora Winterwood, pomposa diretora do colégio me esperava com uma careta de desaprovação.
- Me desculpa Senhora Winterwood, não vai acontecer de novo – repeti a frase de todas as vezes. Meus pais já haviam sido notificados devido ao meu atrasado, mas no fundo, a diretora baixinha, peso avantajado e cabelos curtos sabia que eu morava longe, e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar o atraso.
- Tudo bem dessa vez – era a terceira vez no mês que ela dizia isso – Mas que não se repita. Agora corra para a aula!
- Sim senhora – respondi e apressei meus passos, em direção as escadarias.
Dobrei os corredores, já vazios, apressadamente, sem me importar com as normas de “não corra nos corredores”. Aquelas eram as aulas finais antes das provas de fim de bimestre, e para a minha sorte, o professor de Literatura Inglesa costumava fechar a porta após entrar na sala, e não permitir que nenhum estudante entre depois disso.
- Terceira vez só essa semana, é um novo recorde! – Uma voz familiar me surpreendeu e fez com que eu parasse de correr de repente.
- Kelly?! O que você tá fazendo aqui e por que não está na aula?! – perguntei surpresa, sem esconder o sorriso. Felizmente, não é só de pessoas ricas e esnobes que se faz um colégio renomado e caro. Haviam pessoas ricas, humildes, e simpáticas o suficiente para aceitar alguém como eu como melhor amiga. E Kelly, com seus cabelos incrivelmente ruivos era uma delas.
- O senhor Bommer faltou, e fomos dispensados da aula. Sorte a sua, viu? Ou não entraria para a aula – Ela disse de forma provocativa e simpática, antes de agarrar meu braço e me puxar em direção ao pátio, onde os demais alunos de nossa classe se reuniam até que providências fossem tomadas.
- E desde quando somos dispensados aqui? – perguntei com desdém, acompanhando seus passos.
- Pfff, nunca. – Kelly respondeu com uma risadinha – Eu já disse, essa escola está indo por água abaixo desde que você entrou – brincou, já que estudava ali desde a primeira série. – Os boatos que correm é que a esposa do senhor Bommer está dando a luz, ou por que outro motivo ele faltaria?
- Por que está cansado do emprego? Doente? Ou por que decidiu se matar? – respondi de forma sarcástica, arrancando um riso de Kelly.
- Bobagem Meg, ninguém quer se matar nesse lugar.
- Claro, só eu – comentei, até que finalmente nos acomodamos em um dos locais da arquibancada, observando a movimentação na quadra. – Ahm... Por que me trouxe aqui? – perguntei, notando o quão afastada estávamos do resto da sala, que parecia desorientado em sua primeira aula vaga da história daquele colégio.
- Você vai ver – Kelly respondeu com uma risadinha, e eu já sabia que não deveria esperar por boa coisa.
Alguns minutos depois, um grupo de garotos com roupas de esportivas adentraram a quadra, e eu finalmente entendi porque Kelly, que se encontrava com um risinho ladinho, havia me trazido ali. Entre os garotos havia Matthew, um garoto loiro de cabelos levemente cacheados, que para o meu azar, me chamava a atenção mais do que eu desejava.
- Kelly, você não vale o esmalte da sua unha! – disse rindo, enquanto Kelly mostrava a língua e me chamava de ingrata.
Kelly me conhecia melhor que ninguém, a ponto de ver que entre todo aquele meu discurso feminista e anticapitalista para com aquele colégio, havia uma garota como as outras, coração mole, que desejava a atenção de um total desconhecido. Até onde eu sabia – digo, até onde eu tinha pesquisado sobre a sua vida – Matthew era filho de dois importantes empresários no Upper East Side, o que o tornava mais um entre os riquinhos naquele colégio que eu tanto desprezava. Era um mistério pra mim como eu conseguia sentir atração por alguém como ele. Talvez fosse o porte atlético, cabelos loiros cacheados, ou os olhos azuis. Ou o simples fato de que ele jamais se interessaria por alguém como eu.
- Que clichê! – disse a mim mesma alto demais, em relação a todo aquele meu melodrama de menininha invisível com crush num cara bonitinho.
- O que disse? – perguntou Kelly, que murmurava alguma coisa a qual eu não prestava atenção
- Nada, pode continuar a admirar seu crush – ela sorriu.
- Droga, Kelly! Eu tento superar isso e você não me ajuda! Pelo contrário, me trás aqui para que eu possa apreciar a forma linda como os cachos dele balançam quando ele corre... – suspirei de forma exageradamente feminina. Kelly deu uma risadinha.
- Qual é! Por que não vai falar com ele? – perguntou como a se resposta não fosse óbvia o suficiente.
- Por que ele é Matthew Dellawere e eu sou Megan Clarke? – respondi, e Kelly suspirou.
- Menina, para com essa história de que você é invisível! Olhe só pra ele! Mais um riquinho loiro de olhos azuis como todos os outros nessa escola, enquanto você, por outro lado... A moça modesta que não faz as unhas e despreza todos os ideias de maquiagem, beleza e comportamento feminino ditado pelo dinheiro! Se joga! Olha que menina de atitude e personalidade você é! – Ela disse animadamente, me fazendo sorrir. Seu ponto de vista estava certo.
- Kelly, garotos como Matthew não saem como garotas como eu – eu ri – Mas... Droga! Como alguém consegue ser tão... Ele?!
- Pffff... – Kelly suspirou. – Assim como todos os outros conseguem ter um cabelo bonitinho e jogar futebol.
Kelly era como em relação à garotos e desprezo de padrões, dinheiro e futilidade. O único garoto que lhe interessava era o caso perdido da sala, Greg. Filho de pais ricos – e não seria diferente –, Greg era aquele que desde o ensino fundamental se recusava a fazer lições, estudar, e não se importava com regras ou provas. Após várias discussões com professores em plena sala de aula, Kelly costumava dizer que ele era como um Robin Wood do Uper East Side, que organizaria uma revolução naquela escola. Eles chegaram a ficar uma vez em uma festa, mas Greg estava bêbado demais para lembrar quem era a ruiva no dia seguinte. Kelly nunca disse uma palavra sobre o ocorrido. Tentava esquece-lo, embora toda sua atitude e personalidade desleixada que tanto lhe atraia, sabia que não seria nada legal chegar em casa com um garoto como ele para apresentar aos pais como namorado.
- Olha lá, o pessoal está entrando. Alguém deve ter chegado pra substituir o Senhor Bommer – Kelly comentou, apontando para o pátio. – Temos que ir!
- Ahh não! Temos mesmo?! A visão aqui está tão agradável. Acho que posso ver o Empire State Buildig... – cometei
- Megan, quantas vezes terei que dizer que você nunca vai encontrar o Empire State Building dentro do bermudão do Matthew?! – brincou Kelly
- Que horror, sua rude! – disse sem poder evitar o riso.
- Vamos embora! – Ela me agarrou pelos braços novamente e me puxou em direção ao prédio da escola, e a visão do ginásio de esportes e Matthew correndo com seus amigos ficava para trás.
***
Após o breve deleite de prazer no primeiro período, ocasionado pela visão de Matthew logo de manhã, o dia se arrastou preguiçosamente. Tive dois períodos de história e geografia, no quais eu e Kelly ficávamos em classes diferentes, e logo eu não tinha com quem conversar. Nos encontramos na hora do intervalo e almoçamos juntas, comentando o quão tedioso havia sido o dia e lamentamos os próximos períodos de educação física, que pelo menos teríamos juntas. Era quatro horas da tarde quando finalmente fomos dispensados após o fim das aulas, e eu teria que seguir meu caminho até em casa sozinha, como fazia todos os dias.
Ao chegar em casa, os gritos que podiam ser ouvidos ainda na rua denunciavam que meu pai estava em casa. Entrei em casa devagar, tentando prestar atenção na discussão que acontecia entre gritos de uma mulher e um cara bêbado, na qual eu não encontrava sentindo nenhum. Era raro mamãe estar em casa naquela hora. Talvez alguma coisa tivesse acontecido. Alguma coisa nem um pouco boa, para variar. Ao perceberem minha presença na cozinha, a discussão se sessou, e a última frase que eu ouvi veio da boca do meu pai, dizendo “Então vá, e leve eles juntos”.
- Oi querida! – minha mãe sorriu ao me ver, imediatamente abaixando o tom de voz que antes berrava. Meu pai, por sua vez, se levantava da mesa e seguia em direção a sala, que ficava no mesmo cômodo, onde se jogou no sofá com uma lata de bebida na mão.
– Como foi seu dia na escola?
– O que está acontecendo? – perguntei em tom desconfiado. Não que eu não soubesse que eles brigavam o tempo todo, mas à aquela hora do dia, era coisa rara.
– Não tem nada acontecendo. – ela respondeu ligeira e rispidamente, como se dissesse para que eu não debatesse. Aquela era a verdade e ponto final.
– Ah, vai esconder a verdade dela também?! – Meu pai se intrometeu da sala – Vamos Olivia. Ou vamos continuar fingindo, brincando de família feliz? Até quando?!
– Onde está o Nicholas?! – meu olhar se voltou pra minha mãe.
– O Nicholas está bem. Está na casa da sua tia. Decidimos que seria melhor ele ficar lá essa noite. – Ela mordeu o lábio. Vai para o seu quarto, por favor. Está com fome? Eu levo seu jantar lá.
– Mãe... – Eu tentei responder, mas fui interrompida.
– Por favor Megan, vai para o seu quarto, você não tem que ouvir isso. – Seus olhos suplicavam pela minha compreensão.
– Tudo bem – assenti seguindo para o meu quarto, enquanto não podia esconder minha preocupação com Nicholas e o que quer que poderia ter acontecido.
As lágrimas embaçavam minha vista à caminho do meu quarto, e eu só precisei apresar o passo para poder me trancar ali e soltar o choro. Eu estava exausta daquilo. Exausta dos problemas. Exausta da realidade e tudo o que me cercava. Me perguntava se era aquele sentimento de ter o mundo caindo em minhas costas que levava usuários de drogas encontrar nelas um refúgio da realidade. Me deitei sem me dar o trabalho de trocar de roupa ou tomar banho. Minha cabeça estava a mil de pensamentos, preocupações, culpas, e eu não sabia o que fazer para lidar com aquela mistura de sentimentos. Apesar da fome, fui vencida pelo cansaço e acabei pegando no sono daquele jeito. Suja. Entre lágrimas e de estômago vazio.
Acordei com os solavancos do ônibus que pegava todos os dias para ir pra escola, embora aquilo não fizesse o menor sentido.
- Mas o que... ? – perguntei
Eu estava sentada em um dos bancos do ônibus, acordada, com toda a certeza. Eu podia sentir o ônibus chacoalhando, e minha visão periférica me alertava que estava escuro lá fora, o que indicava que era bem cedo. A única coisa que não fazia sentido ali era que o ônibus estava estranhamente vazio, fato peculiar, já que eu o pegava lotado todos os dias. E outra coisa curiosa era o fato de Matthew estar parado próximo a mim, apoiado em uma das barras de apoio do ônibus, enquanto todos os outros assentos do ônibus se encontravam vazios.
De repente, Matthew pareceu perceber minha presença ali, e finalmente me encarou com um sorriso simpático no rosto, como se eu tivesse acabado de acordar no banco do ônibus.
- Ah! Olá Megan! – Ele sorriu
E então eu realmente acordei.
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