Dream of Mirrors
4 Interrogatório
Notas iniciais
— Onde está minha educação? – O homem riu. – Sou o Delegado Bernardo Leopoldino do Departamento de Homicídios e de Proteção a pessoa ou DHPP se preferir. – Apresentou-se formalmente.
Delegado era parrudo dos cabelos grisalhos e olhos claros, de terno escuro e graveta azul mostrou-se plenamente interessado numa conversa reservada com a jovem. Apertou a mão pesada do homem, o cumprimentando. Marta desceu do carro querendo saber o que estava acontecendo ali
Um Delegado vindo ao seu encontro, só podia ser para Interrogatório, Leopoldino negou a afirmação, mas logo percebeu que fazer rodeios só iria enrolar a ele mesmo. Ser direto não a assustou, pelo contrário, aceitou a proposta do Delegado e foram seguindo ele de carro.
— Tem noção do que ele pode perguntar? – Perguntou Lara abaixando o vidro do carro. Toda a tensão da Cerimônia Fúnebre havia deixado ela nervosa, de cara um Delegado quer conversar comigo.
— Delegados são imprevisíveis, por isso estão abaixo dos políticos na cadeia alimentar. – Marta respondeu seguindo o Sedan prata prestes a entrar na avenida.
Lara pedia aos céus que ele teria alguma novidade sobre o Massacre e sobre a Dê. Borges disse que a cena do crime está abandonada, como vão alcançar o veredicto sem mexer na cena do crime? Como vão alcançar o veredicto sem achar a Denise? Como vou seguir sem a Denise?
— Meu amor não precisa se preocupar.
— Não estou, é só ansiedade.
— Relaxa, depois podemos passar no Burguer King, o que acha? – Disse mansa. Era evidente que ela parecia estar mais nervosa do que Lara. E como todo bom adulto, tenta esconder. Ela acreditava que sua filha não escutava suas rezas de noite, seus prantos e a saudade gritando de seu peito.
— Acho que um lanche de fast-food vai adiantar em nada. – Disse encarando a paisagem urbana da Metrópole. Pensar que lá fora é conhecida como uma das maiores oportunidades de vida. Será que as pessoas que acreditam nisso sabem dos males escondidos nas esquinas? Que como qualquer outro lugar, pessoas nascem e morrem todos os dias?
O prédio do DHPP foi ganhando volume a cada metro percorrido até formar-se por completo no estacionamento. O estacionamento do prédio tinha alguns carros comuns e muitas viaturas da polícia civil.
O Delegado veio ao encontro e as guiou para a porta principal do prédio. O interior do prédio não mudava muita coisa do seu exterior, policias fardados em todos os cantos, pessoas aguardando algo e uma mulher atrás de uma mesa pendurada ao telefone. Quando o delegado passava, os policias tomavam postura rígida. O respeito do Delegado se expandia desde o piso a poeira nos documentos na mesa.
— Estive fora por um tempo, senhoritas Alves. Quando soube do assassinato no restaurante liguei de imediato para cá e afirmaram que a investigação já entrara em vigor. – Falou o Delegado apertando os passos adiante. – Chegando aqui ontem de noite não pude esconder a tamanha decepção. – Ele abriu a porta branca destacada no “Delegado” e abriu caminho para entrarem
O ar condicionado espantou o calor e as envolveu num frio de gelar a face. A sala do Delegado era constituída por estantes cheias de livros e pastas pretas, certificados de faculdade de direito e algumas envolvendo os cargos na tropa da ROTA, a escrivaninha bege com as bandeirinhas do brasil e da cidade de SP, um notebook e curiosamente uma bela margarida próxima a janela banhando-se no sol.
Sentaram-se nas cadeiras de couro acinzentado.
— Quem me substituiu nos últimos dias foi o chefe da policia civil, ou seja, ficou perdido na noite de 12 de Março deste ano. – Se explicou tirando o paletó. Sentou-se e impulsionou o corpo para frente. – Não foi incompetência deles para seu conforto, senhoritas. Mas devo admitir que eles podiam sim ter se empenhado mais neste caso cruel.
— Queira perdoar senhor... – Marta o interrompeu. – Estas palavras não deviam ser dirigidas aos pais dos jovens?
O Delegado assentiu
— Mas isto também vale a vós. A outra garota desapareceu. E devo saber o que aconteceu de fato. Quem assiste a televisão pensa que foi outro assassinato a sangue frio. Eu penso o contrário, quer dizer, contrário não, deve existir algo debaixo de tudo isso. – Disse com cautela.
Realmente, não tinha como negar, tinha de haver alguma coisa debaixo daqueles pisos xadrez.
— Com retorno definitivo, irei interrogar os familiares dos jovens, entrar no restaurante, interrogar outras pessoas provavelmente envolvidas. E claro, já mandei uma patrulha especial na busca de Denise Alves. – Ponderou se levantando bruscamente.
— Patrulha? Têm outra equipe atrás dela? – Estranhou Lara. Adorou a ideia de te outras pessoas atrás da minha irmã, mas meio que perdia as esperanças.
— Sim. Aquela que diz que percorreu toda a Capital atrás dela, era outra trupe despreparada, nem se quer passaram na zona Sul ou Oeste. Esta “Patrulha Especial” tem os melhores policiais e alguns oficiais curiosos no caso. Tudo isto, começará ás oito horas da manhã de amanhã. – Falou em tom de voz elevado. Convicto de que algo irá acontecer de bom amanhã. Pergunto qual seria o dispôr de Lara e de Marta se tudo ocorrerá pela manhã. – É aí que você entra. Entra também o interrogatório.
Os olhos claros do Delegado fitavam a procura de alguma reação. Seu máximo foi erguer a sobrancelha. O homem pediu pra conversarem na sala do interrogatório.
— Espera. Ela é menor ainda. Não precisa de mim por perto? – Marta se intrometeu.
— Entendo sua preocupação, senhora...? Marta. Lara é grandinha o suficiente para responder algumas perguntas, certo? – Disse gentil. Assentiu meio nervosa, pois temia pelas perguntas. Vindo de um oficial da justiça então...
Marta autorizou que fosse. Suspirou e seguiu o Delegado pra fora da sala, passando por várias mesas cheia de papéis.
— O homicídio aumentou, significa maior trabalho pra gente. – Falou reparando nas pessoas vindo e indo com pastas debaixo do braço. – Quero o caso de Bresno! – Exigiu de voz firme. A pasta veio da mão de um rapaz. Delegado agradeceu e se direcionaram para o corredor leste do prédio.
A sala de interrogatório é igual a que se vê nos filmes e séries policiais, uma longa mesa com duas cadeiras frente a frente e o espelho falso. Marta passou confiança alisando seu ombro, inspirou um tanto quanto ansiosa, mas não tinha o que temer. Eram só algumas perguntas.
Assim que foi convidada, entrou e se sentou. O delegado fez o mesmo, abriu a pasta folheando de forma breve. Puxou dois envelopes amarelos de um dos sacos e os colocou no canto.
— Doze de Março de 2014, São Paulo, aproximadamente dezenove horas e quarenta minutos, a polícia encontrou cinco corpos no salão principal o restaurante Bresno. Os cinco corpos foram identificados como: Thiago Gomez, Alice Monte, Bruno Monte, Giovana Prado e Emilia Bresno. Confirma esta história? – Lara concordou com a cabeça. – Momentos mais tarde, a policia foi informada de um desaparecimento. Você que convocou a busca?
— Sim.
— Em qual momento notou o sumiço de Denise Alves?
— Ah... Naquela hora que todos entraram no restaurante e deram de cara com os corpos. Achei estranho porque ela estava na festa... Sim, a festa era de dezessete anos de Emilia Bresno. Ela simplesmente havia sumido... Do nada.
— Tentou algum contato por mensagem ou celular?
— Tentei, mas daí lembrei que o celular está em manutenção. A desastrada deixou o celular cair na privada.
— É verdade que a senhorita foi em busca dela antes de completar vinte e quatro horas após desaparecimento?
— Pois é, meus dois amigos e eu. São aqueles dois que estavam no estacionamento do cemitério. Eles são Carolina Freitas e Paulo Custódio Bovin.
Ele escreveu o nome deles num caderno médio.
— Isso! É isso que precisamos, de mais pessoas. Quanto mais pessoas, maior a facilidade de encontrar o responsável. Retomando... As buscas não obtiveram êxito né?
— Se tivesse obtido ela estaria aqui e não eu. –Disse ríspida. Não teve a intenção de ser grosseira, a pergunta que foi tola demais.
— Senhorita Alves, a polícia relaxou tanto nos crimes quanto nas buscas. Estou te interrogando primeiro porque os outros já encontraram o devido ente, agora, seu caso é diferente, é prioridade. Se encontrarmos a Denise, podemos entender o que realmente aconteceu no local. Por isso peço colaboração. – Disse em tom de sussurro. Cruzou os braços inquieta na cadeira nada confortável. Mas esta sala não deve ser confortável. – Caso eu saiba, você foi convidada para à festa, e não compareceu, por que?
A garganta fez um nó. Quanta culpa carrega por não ter ficado perto dos amigos e celebrar o aniversário da melhor amiga, estar do lado da irmã... Mas não tinha que prever o futuro, foi tudo de repente.
— Motivos pessoais. – Respondeu engolindo um futuro choro. O delegado franziu a testa. – Denise e eu... Brigamos.
Respirar fundo é o melhor a se fazer na raiva e no choro, e na resposta a respiração acelerou por lembranças tomando a mente de forma lenta e devastadora. Delegado suspirou e insistiu
na ideia de saber o motivo da briga, pensando que assim teria algo á ver com o caso. Se negou a responder. Não importa se isso seria usado contra ela algum dia. A briga jamais irá morrer, pois é o ultimo momento que viu a Denise.
Vendo que insistir seria perda de tempo, o Delegado pigarreou
— Fiz a questão de mandar meus funcionários puxarem a ficha de cada um, inclusive a sua. – A afirmação fez Lara tremer. O delegado pegou o envelope amarelo e o abriu, revelando duas folhas. – Sua irmão já foi levada para a Fundação Casa, mas ficou apenas dois dias. Foi levada por conta de vandalismo a objeto publico.
— Pessoas picham carteiras escolares todos os dias e não presas por isso.
— Mas fazer algo ofensivo ao corpo docente é crime. E foi pega outra vez por furto de uma loja de conveniência, levou consigo duas lata de energético e cerveja. – Disse jogando o papel na frente da garota, vendo os poucos e estúpidos crimes que ela cometeu. – Agora você... Por desacato á autoridade, indisciplina escolar, agressão a uma garota num shopping.
Denise e Lara aprontaram de tudo um pouco no inicio da adolescência, como Marta sofreu, meu Deus...
— Crimes idiotas que tiveram a ver com o ego. Aprendemos nossa lição, recomeçamos e ficamos quietas. Denise temia perder os amigos por conta da sua primeira visita a FEBEM, mas não perdemos. Pelo contrário, nos apoiaram quando as pessoas nos via como o podre da sociedade. Nós somos boas, mas não somos anjos.
Retrucar o delegado pode ter sido idiotice. Admitir os erros é virtude. Ela sabia o que ele devia estar pensando. É óbvio que o passado vai condena-la.
— Estávamos recomeçando... – Murmurou tentando convencê-lo da verdade.
O delegado pigarreou
— O caso ainda não é sólido a ponto de recriarmos toda a cena. Seria vossa estupidez já criar palpite sem fundamento. Temos presentes as vitimas, a arma, e a cena, mas e o suspeito? E a causa? Psicopatia? Sangue frio? Vingança? Estereótipo? Este interrogatório não foi destinado aos jovens e sim a Denise. Digamos que ela será a primeira pedra da escalada ao cume. Aguardar também seria idiotice, não vou parar por causa dela, pelo contrário, irei prosseguir. Lara, preciso escalar um tantinho mais. Preciso entrar na história de modo que não só resolva como compreender também. – Não sei definir se o tom era de vontade ou de puro orgulho que se recusa a ser ferido.
— Estou a disposição. – Lara se ofereceu balançando a cabeça.
— Toda boa história tem seus personagens. – Disse erguendo a sobrancelha. – Os conhecia bem, seus conflitos, medos, amizades e inimizade. Nomes. Me dê o nome dos personagens, desde dos bons aos que julga ser o maus.
Caneta sendo segurada numa mão firme de prontidão. Delegado ofegou ansioso. Lara fez esforço para se lembrar de algumas pessoas
— Renato Ferreira, é um ex-namorado da Giovana Prado. O desgraçado fez ela sofrer muito no término. – Disse vendo o delegado rabiscando o papel.
– Marcelo Tramontina, grande amigo do Bruno Monte, pelo menos é o que acho...
Lara se lembrou do sonho estranho da noite passada, ele deu as cervejas pro Bruno, como fazia em certas ocasiões.
— Pamela Fádiga, grande inimiga de todos, inclusive minha. Fez coisas estupidas contra a gente.
Parte do ódio de Lara era dedicando à esta garota. Lara sentia o desprazer de ter conhecido a Pamela . Depois de todo o teatro, apareceu no velório no lado da Emilia.
— Isabela Vielion, uma colega nossa, pensei que tivesse sido convidada, mas Emilia era seletiva demais... Enfim... Wendel Gabriel, joga basquete com Thiago. E também devo citar os outros jogadores de Futebol do Colégio.
— Suponho pelas fichas pessoais que o colégio seria o Colégio Joviani Pascoal. — O delegado supôs.
— Não sei se será necessário citar eles, os integrantes da Orquestra Municipal. Alice fazia parte desde 2009, praticou duas vezes por semana. Ela ficava toda nervosa quando ia se apresentar por toda São Paulo.
Alice tremia as pernas prestes a tocar violino no concerto Nacional. No fim, a doida conseguiu efetuar Conquest Of Paradise com perfeição.
— Toda informação é válida. – Ele parou, olhou crítico para o papel contraindo os lábios. — Outros nomes?
— Os que recordo. Acho que os parentes devem conhecer outras...
Delegado dispensou o papel e voltou-se para Lara.
— Escolhi te interrogar primeiro não só por conta da irmã e sim também, por conta de você conhecê-los melhor... Sabia das companhias, da rotina, de tudo... – Disse mostrando gratidão.
Nesta hora, pensou perguntar se realmente os conhecia. Na boa, isto mexeu com ela. Guardou a pergunta, porque engolir seria difícil. E se eles tivessem algum podre? O mesmo vale pra Denise, mesmo morando na mesma casa, ter partilhado o mesmo ventre e placenta, ela podia ter algo obscuro para descrever melhor... Na época nada tinha sentido.
O delegado guardou as fichas criminais de volta no envelope e pretendia guardar o esquecido. Por mera curiosidade, Lara quis saber o conteúdo. Ele lanço o olhar desconfortável, como se fosse um segredo guardado a sete cadeados. Pediu coragem, ele sabia manipular a curiosidade alheia, deve fazer com frequência.
O envelope se deslizou sobre a mesa de metal. Abriu sobrecarregada pelo cismo silencioso do delegado. Fotos saíram do envelope. Não fotos comuns, fotos desagradáveis. Fotos de momentos depois de descobrirem a cena do Massacre. Seus amigos de olhares vazios banhados de sangue.
O cabelo de Alice escondia o enorme corte na nuca, se não fosse a poça de sangue, talvez descobrissem na autopsia apenas. Thiago tinha dois enormes fundos na altura do pescoço. Bruno estava com a pollo verde manchada nas costas, no meio da espinha. A cintura de Giovana fora massacrada dos dois lados, por que ela tinha que usar cropped? Emilia... Breve abertura na ponta do queixo a seguir o pescoço inteiro.
Não teve forças para guardar de volta. As imagens reviraram o estômago, que droga de curiosidade! Os sorrisos agora estão mortos, os olhos banhados de sangue. Droga de curiosidade!
Vendo ela padecer psicologicamente, ele mesmo recolheu as fotos e as guardou na pasta.
— Está dispensada, agradeço a paciência e a cortesia. – Falou depois de longos três minutos atônita. Retribuiu o aperto de mão. Ia na direção da porta de saída quando ele a chamou novamente. – Recomendo que deixe os oficiais trabalhando. Se distancie o máximo que puder do restaurante. Não faça besteiras. Não vá atrás de Denise. E a prioridade: Nem pense em resolver sozinha.
Envergonhada, foi assim que se sentiu. Ele tinha a coragem de falar isso como se ela fosse uma adolescente desmiolada típica dos filmes de terror que pergunta “Quem está aí?” quando está sozinha.
— O que o faz acreditar que farei estas coisas? – Lara garantiu a firmeza no tom para mostrar confiança. O delegado deu de ombros, desacreditando. – O senhor acha que a minha irmã é a assassina? Aliás... Acha que a assassina sou eu?
— Inocente até que se prove o contrário.
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