Dream of Mirrors
3 Cerimônia Fúnebre
Notas iniciais
A manhã seguinte estava bonita. Bonita para pessoas infelizes, talvez os vivos só se importam com a dor dos vivos e não dos mortos. Só pensam no quanto os familiares vão demorar a se recuperar da dor, mas não pensam na liberdade que pode estar ocorrendo enquanto jogam flores e enterram o caixão. Também sou viva, então perco a razão de pensar assim.
O carro preto levava Marta e Lara ao cemitério onde seriam supostamente enterrados todas as vitimas. Lara usava um vestido preto longo e óculos escuros para a ocasião. Ela não ia necessariamente usar aqueles óculos, mas precisou assim que se viu no espelho. As cenas da noite anterior irão sumir, algum dia... Lara precisava saber o que tinha naquela dispensa, e se o que viu era real.
Queria acreditar fortemente que tudo foi fruto de seus pensamentos sobrecarregados. Oh como queria crer nisso. Basta olhar no retrovisor que via o olhar morto da irmã. Isto só a abandonaria quando tudo acabasse.
Nos portões do cemitério, havia mais vans de imprensa do que outros veículos. Está vendo? Basta sentirem o cheiro de carne podre que os urubus rondam a comer.
— Está bem? – Perguntou Marta vendo a tensão da filha. Marta tinha olheiras, prova de noite mal dormida.
Lara assentiu.
Desceram do carro e entraram. O velório parecia entrada de um show mórbido, câmeras, e entes queridos lotaram o centro. Jornalistas tagarelando para homens carregando aparelhos nos ombros, alguns se abraçando e outros respeitando o silêncio.
Paulo e Carol apareceram vestidos de preto.
— Oi Marta. – Carol abraçou Marta gentilmente
— Oi docinho, quanto tempo. – Disse Marta com a voz semi-embargada. – Como você cresceu Paulinho.
Paulo sorriu embaraçado.
— Olha... Tenho que agradecer vocês dois. Procuram por todo lugar, né? Que belos anjinhos as minhas filhas tem como amigos. – Ela mordeu o lábio inferior a esconder a emoção, mal sabia que eles já tinham percebido e se comoviam com isso. – Tudo que quero é acabar com essa agonia.
Seguiram em silêncio no meio da multidão. Mas foram parados por jornalistas perguntando a Lara e Marta sobre o paradeiro de Denise. A rispidez tanto de Lara quanto de sua mãe faziam os jornalistas se calarem. O pior veio depois, pediram para exporem a opinião sobre a teoria da jovem desaparecida ser a culpada dos assassinatos.
— Conheço as filhas que criei e acredito que não seriam capazes de roubar vidas, seja por prazer ou por demência. Também não irei dizer que são os meus anjinhos, mas digo pra concluir, não são demônios daquela noite e nem de hoje. Denise está desaparecida e podem por favor respeitar os mortos? – Marta se expressou amarga
— Denise é uma garota boa, quem a conhece sabe disso e quem não a conhece perde a razão e o direito de julgar ou serão julgados no futuro. Posso ter ficado longe da cena do crime, mas tenho duas certezas, três aliás: Denise é inocente e apenas provas concretas e a própria podem me contrariar; O cretino vai ser pego; Eu espero que a policia e a imprensa seja competente a ouvir os outros. – O comentário infeliz de Lara deixou os vários jornalistas se calarem.
— Com licença. Não toque nela! As senhoritas Alves não tem mais nada a declarar. – Paulo parecia ser advogado defendendo o cliente da imprensa. E na moral, incomodavam de verdade.
Quatro alas ocupadas pelos melhores amigos. Quem diria que os pais fossem enterrar os filhos tão cedo e Lara pensou que só passaria por esta situação anos depois. Mas a vida é imprevisível o amanhã um mistério. Se ela gosta de surpresas? É claro que sim. A vida é igual a uma criança dão presentes sorridente para assistir a reação de quem presenteou. Infelizmente, temos de aceita-lo ou ficaremos presos a algemas pesadas criadas por si mesmo.
A primeira ala, encontrava-se Thiago Gomez, grande amigo das gêmeas. Nas lembranças de Lara, Thiago era o generoso, o ombro amigo, aquele de todas as horas. Marta tomou a frente abraçando a mãe do falecido.
— Carla. – Lara finalmente a abraçou depois dos cumprimentos de Carol e Paulo. A mãe de Thiago chorou intensamente nos ombros da garota que se flagrou derramando lágrimas. – Sempre soube que ele merece lugar no céu não é? Ele fez tanto por mim que não pude retribuir. Ele acreditou em mim quando todos me julgavam incapaz, Thiago tinha tantas qualidades a admirar, mas o laço, o amor que ele tinha pela família é com certeza a que nunca irei esquecer.
Carla soluçou
— Ah Lara...
Saíram do abraço com aquela deliciosa sensação de conforto.
Do lado da mãe, a jovem se aproximou de Thiago. A sua cabeça era acariciada pelos dois irmãos mais novos, a semelhança é adorável. Depois dos votos de luto, Carol a guiou para a segunda ala.
Mesmas paredes brancas e pisos lisos, a diferença era que naquela ala tinha dois corpos; Bruno e Alice Monte. Coroas de flores atrás dos caixões com frases “eternas” aos mortos.
Lara os guardou com carinho na memória, Alice a rebelde, Bruno o ousado. Altos e baixos era o que os dois mais tinham. Existiu dias que Lara sentia-se insegura com as amizades dos Monte, num dia as pessoas mais afetuosas que o mundo já apresentou e no dia seguinte os mais ignorantes. Pensando bem... São assim que ela preferiu se lembrar deles, porque no fundo os aceitou de bom grado.
Garotos do time de futebol misturados com o pessoal do concerto municipal, a família dos Monte se resumia nos pais, nos avós paternos, dois casais de tios e cinco primos. Por isso a maior presença de amigos do que a família. Ah... Todos ali foram levados pela simpatia dos irmãos Monte.
A falta de intimidade com os pais fez Lara abraçar e desejar pêsames. Saiu vazia, mas saiu.
— Não acredito. – Murmura Carol no pé do ouvido de Lara. – Sério mesmo que ele veio? Cretino do cacete!
— Carolina! Pelo amor de... – Carol puxou a gola da polo preta de Paulo, forçou os olhos na direção de um garoto de altura média e cabelos ruivos, nas mãos as rosas. – What the hell?
Seria ex-namoradinho de Giovana Prado, que não só magoou a garota em vida, como ousou destruir de algum modo que até hoje para os alunos da escola e os amigos era mistério.
— É como dizem... Os mortos recebem mais flores que os vivos porque remorso é mais forte que a gratidão. – Carol sussurrou.
Giovana Prado na terceira ala . A caçulinha do grupo agora se juntou aos outros, sem piercings ou maquiagem, rosto limpo de qualquer formula mundana. Lara chorou vendo a loira, na memória Giovana conseguia ser demasiado madura com a pouca idade. Os conselhos, as conversas, as piadas, impossível Giovana ser infantil em algum momento. Lara sentia-se criança perto de Giovana, pois era ela que a guiava, o papel de todo adulto.
Lara acariciou o rosto pálido e gélido da garotinha. Na hora dos cumprimentos aos parentes, Lara recebeu o triste olhar dos avôs de Giovana, o aperto de mão dos tios e os cumprimentos desanimados dos colegas do colégio. Evitar a presença do ruivo seria hipocrisia, Lara gesticula a cabeça e bastou. Os cabelos dourados da srta Prado cobriam a verdadeira face branca, a face de melancolia, os olhos cinzas do sr Prado queria deixar claro a total tristeza.
A jovem foi cumprimenta-los
— Meus pêsames.
O rosto da mãe da falecida desabrochou. Soltando fumaça pelas ventas, fúria nas veias do pescoço.
— Por que está aqui? Culpa no purgatório? A culpa pesa demais. Mas saiba que você não vai ganhar o perdão da minha filha ou minhas, nem se quer o de Deus! – Exclamou melancólica.
— Cássia, por favor... – O marido tentou acalma-la. O que acabou piorando. – É a Lara! – Esclareceu ríspido. Cássia Prado ponderou.
— É mesmo? – Indaga franzindo a testa. Lara assente depressa e assustada. – Então Denise... Por que a esconde? Entregue a assassina pra polícia. Assassinos não podem andar á solta. Pior... Não se deve esconder assassinos! Denise Alves matou minha filha e você sentirá este peso por ela, cúmplice.
Cássia foi levada para fora acompanhada dos irmãos e a mãe de cabelos finos e grisalhos murmurou “perdão” e em seguida os seguiu. Paulo Carol e Marta assistiram a cena abismados.
Lara se destruiu por dentro. Talvez ela tivesse razão, talvez Denise seja assassina. Explicaria o desaparecimento repentino, mas... A garota ainda crê na inocência. Acredita que a irmã é inocente.
— Queira perdoa-la, Lara. Ela está atordoada com tudo isso... – O homem sussurrou para a garota — O telejornal está mentindo. Denise está desaparecida e não foragida. Mas Cássia diz que o quê a televisão e a policia são precisas nas afirmações. Mentira, mentira das grandes. Conheço vocês menos de dois anos e creio que matar estão longe dos princípios, estão longe dos princípios de qualquer um. Tentei a noite inteira fazer ela esquecer isso, mas só pensava que Denise devia ser capturada o mais rápido possível.
Lara engoliu seco
— Senhor Borges... – Com cautela disse. – Compreendo. Se o jornal dissesse que algum dos amigos da minha filha fosse supostamente o assassino, acredite, acusaria até provarem o contrário.
— Aí é que está. Eles nem se quer tem provas. Neste país Têmis acusa os inocentes e ignora os verdadeiros bandidos. – Disse com certa revolta. — De algo tenho certeza: Se eu encontrar o desgraçado, farei dele um homem morto. – Borges disse entre os dentes, revoltado. Respirou fundo e viu o grande apavoro de Lara. – Desculpe-me... A policia deu noticias de Denise? Não? Cretinos. Sabia que a cena de crime está abandonada? A mercê dos abutres manipuladores. Nem se quer investigam a cidade de cabo a rabo, só interrogam e tchau. Imprestáveis.
A jovem suspirou frustrada. Depositou toda a esperança de achar Dê ao menos viva nos braços dos oficiais, mas parece que a esperança se perdeu. Como se o mormaço de seu coração fosse frizado a caquinhos de vidro.
— Adoraria que muitos pensassem como o senhor, mas obrigar os outros a crer em algo contra a vontade é imoral.
— Manipular também é. E esses ‘muitos’ não tem o direito de julgarem a tua irmã, nem a conhecem. Não conhecem a dor que estamos passando. Não deve nada a eles, Lara. Lembre-se... Você não deve nada a eles.
Realmente. Lara não devia nada a ‘eles’, mas devia a ‘eles’.
— Obrigada pelo conforto, senhor. E desculpe pelo transtorno no velório dela... – A voz embargou outra vez. – Ela... Era especial. Tinha muito o que viver... Os anjos vão se encantar com o sorriso dela, como sempre encantou a todos a sua volta. Gi... Vai fazer tanta falta. – Engasgou nos próprios soluços, Marta veio correndo a oferecer o ombro.
Borges deposita a mão no ombro da jovem, os olhos centilando, os lábios tremendo. Agradeceu outra vez a solidariedade. O homem só percebeu naquele dia o quanto sua filha era amada, nunca esteve por perto, sempre ocupado e a enchia de presentes materiais. Tipico pai que se culpa pela ausência existencial.
Cambaleou à defunta... Que horror, deixe descrever melhor, a sem-vida e beijou-lhe a testa fria. Molhou as bochechas com as lágrimas. Desejando que Deus a acompanhasse para o outro lado. Marta estendeu a mão para o homem que retribuiu. Pobre homem, completamente desolado e só.
Mais pobre é a esposa, que reapareceu ainda desacreditando na presença daquela insolente. A observou com indiferença e desdém.
— Cássia.. Só peço que Deus te console e que leve a Gi em paz. – Disse Lara querendo passar boa impressão.
— Deus há de fazer você e sua irmãzinha pagar. – Profetizou em clara voz.
— Há de fazer o que deve ser feito. – Rebateu Lara. Suspirou outra vez frustada.De licença permitida, ela e a mãe seguiram à ultima ala.
Emília Bresno. Finalmente. Os entes da garota chegavam a atravessar a porta até o salão principal. Corromperam o silêncio com lamentos e júrias de justiça, mas sempre discretos. Vestidos de preto a respeito e óculos escuros a orgulho. Na ala havia mais coroas do que os próprios familiares, também alunos do colégio. Devo detalhar sobre estes colegas? Deixo claro a minha dúvida: Se foram por respeito ou por pena ou para encher o Facebook. Pelo menos tenho certeza, de que... Sim, a Emília faria falta, tanto por popularidade ou por amizade. Afinal, seus amigos de verdade estão nas alas do lado.
A demora de cumprimentar os pais da garota deu a livre ideia de reparar as pessoas ao redor. Lara, Carol e Paulo foram rapidamente reconhecidos pelos tais colegas e torceram para encontrarem a irmã gêmea de Lara logo. Os que pouco torceram para a volta, outros apenas se contia com o desprazer do silêncio.
“Não deve nada a eles”
Paulo sussurrou entre duas, ajeitando os óculos espelhados, indicando uma pessoa por palavras. Ergueu os olhos e encontrou quem quis mostrar. E por incrível que pareça, tiveram uma surpresa súbita. Uma garota de longos cabelos amendoados raspado de lado ofega com a mão na boca, vestia o vestido rendado de flores negras. A presença de Pâmela Fádiga revoltou Lara.
— Essa filha duma... – Carol beliscou Lara antes que terminasse de falar. Lara rosnou terríveis asneiras contra a garota. Quanta raiva ela e os amigos partilharam semanas atrás depois do que ela fez.
— Certo. Temos uma mãe histérica, um garoto fardado de culpa e uma falsa. O que pode faltar neste velório? – Paulo disse irônico.
Lara ruborizou de raiva. Aquela vadia (é assim que ela a julgou, não eu) tinha a cara-de-pau de comparecer no velório, depois de ter feito o que fez. Pensou na possibilidade de falar de canto com Pâmela, mas a entrada impertinente de alguns jornalistas na ala romperam seus planos.
Clamavam pelo sr Bresno, que se escondia sobre o capuz azulado. A ignorância empurra os entes de Emília a alcançar o sr. Bresno. Sra. Bresno bufou cruzando os braços de repulsa. Indagações intermináveis e inconvenientes, o sr. Bresno pediu pra se afastarem da ala a troca das benditas respostas.
Se afastaram sem demora.
Lara junto aos amigos e a mãe, pôde ver Emília de novo. No mesmo estado que os outros. Se estivesse viva, correria ao banheiro para retocar a maquiagem no intuito de se embelezar para as câmeras. E quem não o faria? Emília sempre seria guardada como a “engomadinha” que Lara amou e agradecia sua amizades todos os dias, tirando as brigas, discussões, disputas, era uma amizade a se invejar. Mas Emília nunca abominou isso, a inveja.
— Queria ter ido... – Choraminga apertando a mão da Emilia. – Eu devia ter ido. Mas... Pedir perdão vai ser em vão. Sei que deveria estar lá, devia estar do seu lado, mas não o fiz. Emi... Sua engomadinha chata. Quero que você se vá com duas certezas: Que eu te amo e que vou caçar o desgraçado, nem que seja no inferno.
“Comprometida”.
A sra. Bresno saiu do conforto dos parentes e foi bater de frente ao lado do marido contra os caras da mídia. Vendo a mãe de uma das vitimas, se colocaram a pedir opiniões do caso.
— Querem saber? Não, não vamos reabrir o Bresno, pois a policia há de investigar. Em relação à Alves acredito com provas diante dos meus olhos. Por que vocês não caçam esta garota? Ela também tem família que por acaso está mais agoniada que todos aqui presentes! E que revele de uma vez por todas o que realmente aconteceu naquela maldita noite! Estamos aqui em memória das vítimas do Massacre de Bresno, desejamos respeito. Mas que merda! Eu não durmo desde... Desde... Investiguem! Clamamos por justiça! Só nos deixe em paz, deixe-os em paz!
***
O surto da sra. Bresno viralizou na internet momentos depois, mas ninguém estava ligando para rede sociais e sim nas palavras do Padre Basílio Benevides, ele quem fez a cerimônia fúnebre dos cinco jovens inertes.
— Em nome do pai, do filho e do Espírito Santo. – Anuncia induzindo a cruz imaginária.
— Amém. – Falaram todos em uníssono.
Os violinos e violoncelos da banda municipal convocou o adeus definitivo, os cinco caixões desciam devagar ao subterrâneo. O sol ousava iluminar o momento melancólico. Lamúrias, choros, soluços de vários cantos entre as diversas lápides.
Flores jogadas nas covas.
Boulevard of Broken Dreams acompanha os jovens na suavidade do violino.
Lara participou de tudo e mais um pouco.
Adeus
***
As pessoas se despeçaram a vários cantos do cemitério. Saindo de carros lotados, fugindo daqueles inconvenientes. Enquanto a família partia pouco a pouco, os jovens iniciaram a marcha do Massacre de Bresno, pedindo justiça e diversas hashtags. Pelo menos distanciou a mídia dos familiares.
Lara, Marta, Carol e Paulo andaram vagarosos no estacionamento a encontrar o Fox vermelho. Lara parou na porta do passageiro e olhou para os amigos. Carol e seus cabelos pintados de vermelho e Paulo com seus óculos espelhados, era tudo que lhe restava? Agradecia por isso.
— Certeza que recusam a carona? – Marta perguntou apanhando as chaves na pequenina bolsa de couro.
Carol assentiu
— Estou esperando minha mãe pra irmos para minha avó em Americana. – Se explicou.
— E eu vou esperar aqui com ela, depois vou pra casa.
Insistiram e recusaram. Marta se despediu dos jovens e adentrou no carro. Lara demorou pois esteve presa num abraço no qual nunca mais queria sair, pois os sentimentos resolveram cair na mesma hora. Mas saiu. Antes de entrar, um sujeito alto de cabelos grisalhos e de trajes a rigor a chamou pelo nome completo.
Interessado numa conversa.
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