Draw with me
1 We are together
Seus olhos se abriam lentamente. Sentia o chão frio contra a sua pele bronzeada. Sua cabeça doía, e ele não conseguia se lembrar de muita coisa. Apenas queria saber como foi parar ali. Ou melhor, o que era aquele lugar.
Não conseguia ver nada nem ninguém. Apenas se via num grande lugar azul. Literalmente. Chão e teto azul. Olhou para os lados em busca de algo, mas apenas via uma intensa neblina. Deu um suspiro derrotado, mas ao erguer o olhar sentiu-se encher com um pouco de esperança.
Um grande muro de vidro tinha a sua frente, e logo fez questão de correr na direção dele. Chegando à frente do vidro, ficou paralisado por uns instantes, apenas observando o seu reflexo completamente vazio.
Deu um pesado suspiro, encostando a sua mão no vidro. Seu corpo se arrepiou ao tocar naquela camada gelada. Olhou para os lados, em busca de algo. Mas dessa vez valeu a pena, já que ele avistou alguém do outro lado do vidro.
Uma garota.
Ela fazia o mesmo que ele, encostando uma de suas mãos no vidro. Ela era baixinha é pequena, o que o fazia julgar que ela teria a sua idade – Na qual ela também não se recordava. Ela era bem branquinha, o oposto dele. Usava um simples vestido alaranjado que era particularmente curto, porém na sua inocência não se importou com isso. Curtos cabelos loiros de mesma tonalidade que suas amareladas orelhas de gato.
Ele se virou abruptamente, piscando várias vezes sem conseguir acreditar que realmente bia alguém. Ela virou a cabeça em sua direção, tendo a mesma reação que ele. Os olhinhos doirados e curiosos da garota pareciam estarem receosos de chamá-lo, mas ele fez questão de correr até ela. Parou na sua frente. Bem, não exatamente na sua frente, já que ela estava do outro lado do vidro, mas vocês entenderam.
— Achei que estava sozinho! — Ele se animou, erguendo um pouco as suas orelhas caninas, apoiando as mãos no vidro. A garota franziu o cenho meio confusa. — Você sabe como viemos parar aqui?! — A garota nada respondeu, apenas pôs a mão no ouvido, se aproximando mais do vidro. Ele entendeu o gesto. — Sabe como paramos aqui?! — Gritou, em tentativa de fazê-la escutar. Ela apenas abaixou a cabeça desanimada, balançando a sua cauda lentamente, tocando na região próxima do ouvido com o indicador.
Ele percebeu que ela não o escutaria de jeito nenhum. Soltou um curto suspiro, mas logo uma idéia veio a sua cabeça. Colocou uma das mais nos bolsos, em busca de algo. Isso acabou chamando a atenção da "Gatinha curiosa." Retirou dele dois grafites brutos, e logo escreveu no vidro:
"Sabe escrever?" Logo em seguida jogando o outro grafite a garota, que com certa dificuldade o pegou.
"Claro que sei. Dã." Respondeu, dando os ombros minimamente.
"E desenhar?" Ele escreveu, fazendo um desenho de sua própria cabeça ao lado com uma expressão fofa.
"Também." Respondeu rapidamente, fazendo um rápido e simples desenho seu. Claro, com seus desejos e caprichos.
Ele sentiu suas bochechas se avermelharem por seu desenho um tanto quanto ousado – Era algo simples, mas para ele aquilo era novo. Virou a cabeça para o lado meio contra tido enquanto coçava levemente a nuca com uma das mãos. Logo balançou a cabeça, respondendo a garota.
"Os seus não são tão grandes..." Comentou, fazendo um pequeno desenho do busto da garota tendo ao lado escrito após uma seta "Reto."
A garota sentiu as suas bochechas arderem fortemente por constrangimento e frustração. Bufou silenciosamente, inflando as bochechas de modo fofo. Revirou os olhos, se sentando no chão assim como ele e mudando de assunto.
"Qual o seu nome?"
"Zefyr. E o seu?"
"Lilian. Como chegou aqui?"
"Não faço a mínima idéia"
"Então somos dois."
Ambos trocaram uma risada. Não sabiam se foi algo em uníssono, pois não conseguiam escutar a voz um do outro. Mas ainda assim, não conseguiram um sorriso satisfatoriamente feliz. Eles literalmente trocavam poucas palavras, já que boa parte do vidro na região que estavam era composto por desenhos. Uns aleatórios e outros suas próprias falas. Como não tinham uma noção de tempo, ficaram "conversando" até finalmente adormecerem a mercê da muralha de vidro.
Os "dias" seguinte não foram diferentes. Lilian acordava primeiro e começava a cutucar o vidro levemente para tentar acordar o único amigo. Não demorava muito e a audição de Zefyr o fazia acordar ao se incomodar. Lilian sempre escrevia "Quer desenhar?" E Zefyr semore respondia um "Sim." Animado.
Após um tempo, os dois ficaram sentados um de frente para o outro ao acabar o espaço para desenhar e ficarem sem vontade de se mover no momento. Zefyr observava o puro sorriso fechado de Lilian, dando um de canto meio murcho, colocando a sua mão no vidro novamente com um olhar distante. Lilian, sem saber que reação demonstrar, apenas colocou a sua mão na exata direção de onde estava a de Zefyr, tornando o seu sorriso forçado.
"Está frio." Ele escreveu após retirar a sua mão, tendo um olhar agora mais triste. "Quero estar com você." Acrescentou.
"Mas você está comigo!" Lilian respondeu, ficando de joelhos no chão. "Apenas... Esse vidro que está entre nós dois."
Ao ler o que Lilian havia escrito, Zefyr cerrou os punhos de raiva, se levantando rapidamente. Lilian franziu o cenho, observando ele andar um pouco para trás. Arregalou os olhos, percebendo o que ele iria fazer.
— Não! Não faça isso! — Ela se alarmou, se levantando ao vê-lo começar a dar os primeiros socos, apoiando as mãos no vidro. — Por favor, eu te imploro! Pare! Vai se machucar! — Gritava em plenos pulmões de modo desesperado, vendo o amigo a ignorar, apenas de não poder realmente culpá-lo. — Oh meu Deus... — Murmurou, percebemos que um de seus socos criou uma grande rachadura.
— Saia dai! — Ele gritou, mas gesticulou com os braços para que ela pudesse entender a sua mímica. Assim que ela se afastou, Zefyr reuniu toda a sua força num único golpe, finalmente quebrando aquela maldita parede de vidro.
Seus olhos se iluminaram. Os olhos de ambos se iluminaram. Mas se animaram cedo demais. Uma enorme força deu um empurrão em Zefyr. Sua mão direita estava literalmente se desfazendo em poeira. Lilian levou as mãos a boca, contendo o seu soluço ao perceber que o amigo estava ferido, permitindo apenas as lágrimas grossas caírem pelos olhos.
Se aproximou rapidamente do vidro, mas ao tentar atravessar o buraco formado, o muro de vidro rapidamente se refez. Viu Zefyr caído inconsciente no chão com uma expressão facial no rosto. Se sentou com a cabeça encostada no vidro, o esperando acordar, mas acabou pegando no sono.
Ao acordar, Lilian percebeu que Zefyr já não estava mais desmaiado no chão. Coçou os olhos, sentindo a sua visão meio embaçada. Ao erguer a cabeça, notou que o azulado estava de costas a ela, ajeitando algo estranho em seu braço. Bateu algumas vezes no vidro, tentando chamar a atenção dele.
"Você está bem?" Escreveu, o vendo assentir meio cabisbaixo. Sentiu uma onda de alívio invadir o seu corpo, mas logo se animou novamente. "Quer desenhar?"
"Não posso mais." Respondeu triste. Lilian entendeu rapidamente o motivo. Ele era destra, e isso explicava aquela caligrafia horrorosa. Assim, Zefyr se levantou, se afastando do muro de vidro, logo indo se deitar afastado, deixando Lilian sozinha.
[...]-[...]-[...]
Lilian batucou algumas vezes no vidro apressadamente, chamando a atenção do atual tristonho Zefyr. Ele se levantou desanimado, mas estranhou um pouco a amiga. Ao invés de seu vestido laranja simples, ela usava alguns panos em torno do corpo, deixando visível apenas a sua cabeça.
Ao se aproximar do vidro, percebeu um pacote em frente de Lilian. Ela pegou com uma das mãos o seu grafite, e escreveu um "Para você." Logo olhando para o pacote.
O abriu meio desconfiado, mas ainda assim curioso. Seus olhos se arregalaram de terror ao abri-lo, sentindo o seu coração e sua respiração pararem num único segundo, mas logo começarem a acelerar.
"Agora pode desenhar?" Lilian escreveu sorridente.
Zefyr havia ganhado o braço direito de Lilian, que queria apenas que seu amigo voltasse a desenhar com ela.
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