Drapetomania

1 Teoria do Caos


Piper o conheceu no final de sua consciência.

Final momentâneo.

Foi apenas um desmaio.

Piper andava reflexiva nos últimos dias. Pensava que os mínimos atos poderiam mudar a história da humanidade inconscientemente. Um exemplo disso seria se ela escolhesse pegar o pão com geleia de morango para o café da manhã e passar mal o resto do dia, por seu estômago ser fraco ao glúten. Assim, ela não aguentaria e perderia a aula de balé nesse dia e nunca iria dar as três finais piruetas e ao sair do prédio, encontrá-lo.

Mas Piper foi mais inteligente. Ela lembrou que sua mãe havia comprado barrinhas de cereais que ela poderia se alimentar conforme o dia passasse. Pegou cinco logo de cara e nem se importou se elas continham ou não uvas passas em suas receitas. Após um bom dia no colégio, voou em direção à escola de balé. Hoje ela sentia que seria um dia importante. Depois de cumprimentar todas suas colegas de turma e a secretária, adentrou a classe e já se alongou.

Piper não gostava de se gabar, mas ela era a melhor de sua sala. Provavelmente isso se dava ao fato de que desde pequena ela amava o balé e imitava as dançarinas que via pela televisão. Então, quando teve a oportunidade de fazer aulas, aos 5 anos de idade, aceitou sem pensar duas vezes. E sem contar que ela era animada para tudo que precisasse fazer. Sua alegria contagiava a todos e sempre estava disposta a ajudar seja lá quem fosse. Por isso se dedicava ao balé. Piper acreditava que esta dança era benéfica em todos os pontos de vista: ao dançar, ela se sentia livre e sabia que tinha encontrado seu lugar no mundo. E ao ser observada enquanto dançava, sua felicidade saía de seu corpo e invadia a alma de todos presentes. No final das apresentações, quando os espectadores iam parabenizá-la pelo sucesso da apresentação, Piper sabia que seu papel fora cumprido.

— Perfeito, garotas! — A professora de balé, Carmen, parabenizava suas alunas por mais um dia de ensaio e prática. — Agora, para completar a aula, façam as últimas três piruetas e já estarão dispensadas. Até amanhã!

E enquanto a professora organizava seus pertences, Piper olhava animadamente suas colegas se alinharem em duas filas para fazerem as piruetas. Piper fez questão de ficar por último na fila, porque assim poderia implorar para a professora para deixá-la fazer mais outras três. A garota estava animada nos últimos dias e queria expressar toda a sua felicidade em várias piruetas.

— Por favor, professora! Só mais três! — Ela pedia com seu maior sorriso no rosto, o que fez com que a professora concordasse. Mas seriam só três e depois a Piper a ajudaria a fechar a escola de balé.

Feita as três piruetas transbordando alegria, Piper sequer tirou as sapatilhas de dança dos pés e ajudou a professora a carregar suas bolsas enquanto a outra trancava o prédio do balé.

— Muito obrigada, Piper! — Ela disse. — Vejo você amanhã na aula?

A menina concordou e observou a professora virar a esquina da rua. Piper se viu sozinha e resolveu que aquela era uma boa hora para tirar as sapatilhas, que começaram a machucá-la depois de tanto tempo de uso.

Ao se inclinar para tirar a sapatilha do pé esquerdo, o vento soprou forte, tampando seus olhos com os próprios cabelos. Piper desistiu de tirar as sapatilhas para prender o cabelo num rabo de cavalo. Teoria do caos foi o que se passou pela cabeça da garota quando seus olhos encontraram o menino no outro lado da rua. Ela precisou comer a barrinha de cereal e fazer as três últimas para poder estar olhando para ele agora mesmo. Segurando um livro, agasalhado por um moletom preto. Os olhos, asiáticos, estavam focados em ler as últimas páginas daquele livro que Piper não conseguiu identificar. Ela sorriu. Nunca pensou que pequenos e insignificantes atos poderiam mudar sua vida tão repentinamente.

O semáforo abriu e em breve o rapaz iria atravessar a rua e Piper poderia com muita dificuldade roubar um “olá” do tão focado menino. Ela esperou que ele atravessasse a faixa de pedestres primeiro, porém depois de quase sete segundos a garota percebeu nenhum movimento perto dela. Resolveu novamente olhar para o outro lado da rua, só para se assustar um pouco.

Não demorou muito tempo para Piper ver o menino desmaiar.

Olhou ao redor. Com toda a certeza mais alguém viu o garoto desmaiar na calçada, mas se outro alguém olhou, não deu importância. Piper logo se viu na responsabilidade de ajudá-lo. Atravessou a rua rapidamente, saltitando por causa das sapatilhas que a impediam de correr, e logo se ajoelhou ao lado do rapaz desconhecido.

— Ah! O que eu faço agora? — Ela tentava segurá-lo pelo braço enquanto pegava o celular com a outra mão. Por mais que fosse avoada, Piper sabia que o certo era ligar para o hospital e ajudar o garoto. — Oi, senhor ambulância! Sim... Um menino acabou de desmaiar aqui na rua... Não, senhor, eu não o conheço... Não, senhor, eu não tenho a mínima ideia qual é o nome dessa rua... Desculpe, senhor ambulância.

— Bailarina! — Um garotinho de provavelmente seis anos de idade exclamou quando se deparou com Piper ainda vestida para sua aula de balé na sala de espera do hospital. Depois de algumas informações trocadas, ela pacificamente conseguiu encontrar o endereço de onde estava com o homem que atendeu a seu telefonema pedindo a ambulância. Piper acabou mentindo para os paramédicos, dizendo que conhecia o inconsciente e foi assim que ela parou no hospital. Em pé, esperando o garoto acordar para finalmente perguntar qual era o nome dele. — Mamãe! Olhe a bailarina!

Piper notou o pequenino fascinado pelo traje dela um pouco incomum para o hospital. Sorriu, mas seu sorriso sumiu aos poucos quando sua consciência a alertou de que estavam em um hospital. Um lugar não feliz. E uma criança estava lá, feliz por causa de uma simples bailarina. A missão de Piper subitamente não era mais esperar o garoto acordar do desmaio, mas pelo menos despertar um pouco a alegria nas pessoas. Ela aqueceu os pés, olhou ao redor e fez três mais piruetas. O garotinho riu com todo o brilho da sua infância e gradualmente os adultos ao redor olharam para Piper. Ela fez mais piruetas, jogava seu charme e incrementava mais alguns passos de dança no meio. Seu corpo estava leve como pena, seus cabelos se transformaram em pétalas de flores e se espalhavam por todo o ambiente com seu aroma agradável. Piper conseguira transformar um ambiente tão pálido e acostumado com a morte em um lugar em que as pessoas poderiam ter esperança.

— Com licença, você é a namorada do-

Piper parou de girar e observou o médico a chamar de namorada. Naquele momento não importava o que o doutor falaria, ela só se sentira feliz por ter sido namorada de alguém por alguns segundos.

— Ele acordou?! — A animação da sua mente foi transportada para sua voz. O médico amigável sorriu e disse que o paciente a estaria esperando no quarto 123. Piper correu, como nunca correra antes e entrou no devido quarto. — Pensei que nunca iria acordar!

O garoto a olhou, dos olhos aos pés, parando alguns segundos a mais ao vê-la de sapatilhas. Ele achou estranho, mas preferiu não comentar nada, não logo depois de acordar de um desmaio. Ainda um pouco confuso, ele se perguntava de onde a conhecia e se a conhecia.

— Você precisa parar de se esforçar tanto em algo que talvez nem te traga tanta felicidade. — Ela disse ao sentar-se ao lado dele, na maca. — Na primeira vez a gente desmaia, mas sabe-se lá o que pode acontecer na segunda vez.

— Como você sabe...

— Eu sempre falo isso para as pessoas. — Ela sorriu, ajeitando os cabelos levemente bagunçados por causa da dança. — Por incrível que pareça nunca somos os únicos passando por essa situação.

Um breve momento de silêncio se instalou no quarto 123. Piper tinha a leve sensação de que aquele momento não acontecia duas vezes na mesma vida. Seja o destino, ou apenas a Teoria do Caos, tudo que aconteceu em menos de 24 horas estava prestes a se tornar algo muito mais que qualquer explicação científica poderia compreender.

— Eu não sei o que os médicos falaram, mas eu não sou sua namorada. Eu sou a Piper.

— E-eu... Eles falaram o que?! Quero dizer, Kyung. Meu nome é Kyung.

Conversaram sobre qualquer coisa. Piper conseguiu descobrir várias coisas sobre o rapaz e se encantava cada segundo que se passava só de ficar olhando para os olhos puxados de Kyung.

— Qual foi a causa do seu desmaio?

— Eu... estudei demais e não me alimentei direito. — Kyung suspirou e pôde se permitir sentir-se culpado pelo o ocorrido. Seu olhar estava baixo e não conseguia levantá-lo para observar a tão graciosa menina que estava com ele. — Desculpe te fazer vir até aqui, me esperar acordar, mas eu já estou melhor. Você já pode ir embora.

— Ahá! Viu só? Matou-se de estudar pra no fim precisar passar algumas horas no hospital! Eu te disse que nem sempre tudo que fazemos nos levará para um final feliz, Kyung. — Ouvi-la dizer seu nome nunca fez Kyung sentir-se tão feliz por ter o nome coreano mesmo sendo americano. — Agora venha, eu vou te tirar daqui e te fazer sentir-se um pouco mais vivo.

Piper sem esperar por respostas, agarrou a mão do menino e forçou-o a se levantar e assim, os dois saíram correndo pelos corredores do hospital, só pararam para gritar um “adeus” para o menininho na sala de espera e para Piper poder se esclarecer com o médico dizendo que não tinha a mínima ideia de quem Kyung era antes do desmaio. E então, continuaram correndo, sentindo o vento cortar-lhe as faces e com as mãos ainda entrelaçadas. Era impossível dizer qual coração estava mais acelerado no momento: o de Piper, que amava correr, ou o de Kyung,que pela primeira vez em sua vida, estava segurando a mão de uma garota sem receber olhares de nojo.

Quando perceberam, já estavam em frente ao hospital. Depois do primeiro passo dado para o lado de fora do prédio, Piper não estaria mais responsável pela sanidade de Kyung. Cada um iria para o seu lado e seguiriam para suas vidas particulares. Sem Piper, sem Kyung.

Um pingo de pânico estourou no peito da garota. Ela não queria ir embora, não queria abandonar aquele, o qual acabara de conhecer. Piper não queria ser a pioneira da partida. Olhou para as mãos do garoto: o livro. Independente se conseguisse ler o título do livro, nunca compreenderia sobre o que se tratava, já que tinha alguma coisa a ver com física ou química.

— Kyung! — Sua voz ecoou nos ouvidos do garoto. Este ainda continuava parado, segurando com todas as suas forças o seu livro. — Eu não quero ir embora. Eu não quero nunca mais te ver!

Notas finais
E aí, devo continuar?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.