Dramione - Side Effect
52 Será que valeu a pena?
Notas iniciais
— Luna…
Consegui colocar um pouco mais de força na voz daquela vez, soar um pouco mais firme e composta do que eu realmente me sentia.
— Logo que você subiu as escadas, ele desmaiou. O ferimento nas costelas estava sangrando mais do que a gente imaginou e a notícia da… Quando Angelina contou sobre… Enfim, saber da Lily não ajudou nenhum pouco. Madame Pomfrey está cuidando dele no quarto de Narcisa.
Dei as costas para ela e voltei pelo corredor. Escutei os passos da garota loira enquanto ela me seguia.
— Ela vai te expulsar.
— Quero ver ela tentar.
Acelerei o passo e abri a porta, mas Luna segurou meu braço com firmeza e me fez girar de volta para ela.
— Hermione, ele vai ficar bem. — Ela sussurrou. — Se você deixar a mulher fazer o trabalho dela, é claro!
Nunca tinha visto a loirinha tão brava. Seu rosto estava vermelho vivo, os lábios machucados contraídos em uma linha fina e os olhos azuis ameaçadores.
— Me solta.
— Pare de agir como uma criança mimada. Não combina com você! — Ela me deu uma sacudida, no sentido literal da palavra. — Era por isso que queriam esperar para te contar, porque sabiam que você ia enlouquecer de preocupação e sair correndo atrás dele. Só que você também precisa de cuidados.
— A srta. Lovegood tem razão.
A voz de Madame Pomfrey soou firme atrás de mim e Luna permitiu que eu me virasse. Ela estava parada ao lado da cama e remexia em uma grande bandeja de prata cheia de vidros de poções, bandagens de pano e apetrechos. A bruxa tentou disfarçar, mas notei que havia várias bandagens usadas e cheias de sangue em um pote separado dos outros.
— O corte na sua testa pode infeccionar se não for tratado e a senhorita está coberta de outros hematomas. Preciso examina-
— Como ele está? — Cortei a bruxa sem nenhuma cerimônia.
— Vai sobreviver. Mas precisa descansar. Estava muito machucado e perdeu muito sangue.
A risada abafada, que encheu o quarto de repente, quase me fez cair de costas. A diferença era sutil, mas, mais que ninguém, eu sabia reconhecer, não era uma risada divertida e sim irônica. Era uma risada de desdém bem calculada. A risada de Draco.
— Obrigada pela sinceridade. — Ele troçou, ainda de olhos fechados.
O loiro se mexeu na cama e levantou o corpo, apoiando-se na cabeceira. Então as cobertas escorregaram revelando o tronco envolto em ataduras brancas e os braços cobertos de hematomas roxos. Nossos olhares se encontraram e fui brindada com um sorriso tão grande quanto o que eu mesma exibia. Mas Madame Pomfrey me segurou antes que eu pudesse correr até ele.
— Você está imunda e com feridas abertas, pode acabar contaminando o rapaz. A situação dele inspira cuidados.
Olhei para minhas mãos por um segundo e elas estavam mesmo lamentáveis. Unhas quebradas, sujeira, hematomas e pequenos cortes. Se o resto do meu corpo estivesse parecido com isso, a adjetivação tinha sido bondosa.
— Por favor, Madame Pomfrey. — Draco insistiu.
Ele se esforçou para terminar de se sentar na cama e acabou soltando um gemido de dor.
— Fique quietinho aí, sr. Malfoy. Ou vou te obrigar a tomar aquela poção para dormir. — Ela ergueu o dedo na direção dele. Depois, concentrou-se em mim. — Me deixe cuidar dos seus ferimentos, tome um banho e eu deixo vocês em paz.
Draco bufou e eu concordei com a cabeça, derrotada.
Madame Pomfrey rapidamente guiou Luna e eu até o quarto em frente, carregando a bandeja de prata consigo.
Sufoquei um grito quando a bruxa apalpou a minha bochecha e senti meu estômago embrulhar quando ela tocou a pele próxima ao corte na minha testa. Tomei três poções diferentes, cada uma com um gosto e um aspecto pior que a anterior, sob o olhar atento de Luna. E fui proibida de me mexer enquanto Madame Pomfrey usava a varinha para melhorar o ferimento e escanear meu corpo a procura de outros machucados sérios. Acabei com um curativo na cabeça, um gosto terrível de leite azedo na boca e a ordem de descansar. Assim que a enfermeira deixou o quarto, Luna suspirou.
— Agora, eu vou cuidar de você.
— Esse é o tipo de coisa que a Gina diz, não você. — Constatei. — Ah, e só pra registrar, também é o tipo de frase dela que sempre me deu medo.
A Corvinal fez um biquinho ofendido e riu. Depois, levou a mão direita ao coração.
— Juro solenemente que serei boazinha. — Revirei os olhos para ela e Luna resolveu falar sério. — Confie em mim, vai ser bem mais rápido e menos doloroso se deixar eu te ajudar.
Assim que tentei começar a me despir, entendi sobre o que Luna estava falando. Meus braços pareciam pesar toneladas e cada movimento acionava a dor em um músculo diferente. Demorei vários minutos para conseguir me livrar das roupas, mesmo com a ajuda de magia. Ela fez um feitiço impermeabilizante no curativo da minha testa e eu pude aproveitar a água morna do chuveiro sem preocupações. Quando sai do banheiro já havia uma muda de roupas limpas e uma bandeja de comida me esperando. O cheiro das tortinhas fez meu estômago se agitar e nem discuti com Luna quando ela se ofereceu para pentear o meu cabelo, pois isso me deixava livre para comer.
— Hermione?
— Sim. — Respondi de boca cheia.
— Obrigada.
— Por que?
— Por me dar a oportunidade de viver momentos como esse. Sei que parece bobagem, mas perdi minha mãe muito cedo e, sei lá, sinto falta dessa coisa de garotas.
Parei com o a tortinha a meio caminho da boca, feliz e penalizada ao mesmo tempo.
— Já te disse isso antes, Luna, e eu estava falando muito sério. Não sei o que faria sem você.
Ela afagou meus ombros e pensei tê-la ouvido fungar. Mas, como a loirinha logo trocou de assunto, não pude ter certeza.
— Acha que finalmente conseguiremos levar uma vida normal? Pra variar?
— Acho que nossas vidas nunca serão normais.
Rimos juntas da constatação, mas havia outra coisa preocupando minha amiga.
— Sei que foi necessário enfrentar tudo o que enfrentamos, fazer tudo o que fizemos, que era a coisa certa. Mas será que valeu a pena? Quer dizer, Sirius, Dumbledore, Snape, Tonks, Remo, Fred e todos os outros… É um preço muito alto.
Eu já tinha me feito a mesma pergunta várias vezes. Já tinha imaginado como seriam as nossas vidas com eles por perto. Como seria não ter que carregar toda a dor da saudade, das lembranças e toda a responsabilidade de ter lutado em uma guerra. Ter ferido e matado. Então, eu me lembrava dos meses em que o mundo bruxo viveu sob o jugo de Voldemort e sentia-me um pouquinho menos pesada.
— Isso está sempre na minha cabeça. Não é justo, de jeito nenhum. E há dias; especialmente quando vejo Ted brincar de mudar de forma, ou George começar uma piada e desistir de terminar porque se lembra que vai ter que fazer isso sozinho; em que me sinto péssima por estar aqui enquanto eles não puderam. Mas acho que eles teriam feito tudo de novo pra nos dar essa chance. Não é exatamente um consolo, mas me lembra que preciso viver, que preciso ser feliz, que de alguma forma eu devo isso a eles.
— Quando foi que você ficou tão sábia?
— É a convivência com você. — Luna deu um soco no meu braço de brincadeira, mas ainda assim foi muito doloroso e eu gemi manhosa. — Por falar nisso, alguma notícia do George?
— Ainda não. — Ela suspirou. — Mas as informações ruins viajam rápido, então, acho que a falta de notícias, na verdade, é uma coisa boa. E agora é hora de pensar um pouquinho em você mesma, dona Hermione Granger. Pra cama.
— Nada disso, não vai conseguir me tapear, senhorita Lovegood. Vou ver o Draco. Além do mais, desde que todo esse pesadelo começou, quando foi que VOCÊ parou para cuidar de si mesma?
— Mas… — Ela tentou começar.
— Nada de mas ou porém... Só vou sentar lá e ficar perto dele, conversar um pouco. Deveria fazer o mesmo com o Neville.
Luna ficou escarlate e arregalou os olhos para mim em uma expressão acusadora. Ela abriu a boca para falar, mas desistiu e cobriu o rosto com as mãos, tamanho o acanhamento que sentia. Segurei a loirinha pelos pulsos e revelei seu rosto. Ela soltou um suspiro longo e finalmente olhou para mim, mordendo o lábio.
— A gente ainda precisa comunicar todo mundo, tipo, fazer um anúncio formal? Porque parece que o mundo bruxo inteiro já sacou…
— Acho que deu pra perceber mesmo. — Escolhi as palavras. Eu tinha flagrado os dois juntos na Torre de Astronomia, além de encontrar um Neville todo amassado e atrasado para o almoço no meio do corredor. Mas, mesmo quem não sabia desses detalhes, podia dizer, pela maneira como vinham agindo um com o outro e perto do outro. — Mas nada poderia me deixar mais feliz… Vocês são perfeitos juntos.
O rosto delicado se contorceu numa careta incerta. Ainda assim, ela segurou minha mão e seguiu comigo para fora do quarto.
Revirei os olhos antes de abrir a porta do outro lado do corredor. Luna era o tipo de pessoa que você queria sempre por perto — doce, sincera, prestativa, esperta, amiga. O tipo de pessoa que não merecia a zoação que, com certeza, estava por vir, aquela de todo começo de namoro. Entrei no quarto animada com a primeira notícia normal em muito tempo.
— Luna está preocupada em assumir o namoro com Neville para todo mundo, como se-
Draco havia adormecido encostado à cabeceira da cama em uma posição que, pareceu-me, extremamente desconfortável. Os ombros e o tronco estavam curvados para frente e a cabeça pendia sobre o peito, forçando o pescoço. Cheguei perto devagar, pensando sobre como abordá-lo. Não queria assustá-lo, mas estava com medo de tentar movê-lo e prejudicar o curativo nas costelas. Ia ter que acordar o loiro e fazer com que se deitasse direito. Apoiei os joelhos na cama e me aproximei até estar perto o suficiente para sussurrar.
— Draco. — Chamei baixinho e com cuidado. — Draco.
O sonserino murmurou e começou a se remexer, então, levantou a cabeça de repente e endireitou o corpo, alerta.
— Hermione? — Chamou preocupado, antes de levar as mãos à costela e gemer. Foi como se eu também tivesse sentido a pontada de dor.
— Shh, me desculpe. — Segurei-o pelos ombros, tentando acalmar nós dois. — Não queria te assustar. Sinto muito. É que você parecia muito desconfortável naquela posição.
Draco jogou a cabeça para trás e fechou os olhos, permanecendo assim por alguns segundos. Quando ele soltou o ar pela boca, devagar, percebi que devia estar tentando controlar a dor.
— Está tudo bem. — Ele fixou os enigmáticos olhos cor de tempestade em mim. — Você está aqui agora.
— É melhor você se deitar.
Endireitei o corpo para me afastar, mas Draco agarrou meu pulso e me manteve no lugar.
— Onde pensa que vai?
— Ajudar você a se deitar? — Não consegui não sorrir.
— Pra isso você tem autorização.
Ajeitei os travesseiros e apoiei as costas de Draco enquanto ele escorregava pelos lençóis até uma posição confortável.
— Que história é essa de “autorização”? — Perguntei, levando as mãos à cintura.
— Acha mesmo que vou deixar você ir à algum lugar? — Ele alcançou minha mão de novo e me puxou para perto.
— Acha mesmo que eu quero ir à algum lugar? — Falei baixinho, aproximando o rosto do dele.
Depositei um pequeno beijo nos lábios machucados dele e Draco sorriu contra a minha boca, afastando as cobertas para que eu me deitasse ao seu lado. Aconcheguei-me a ele, que começou a passear com os dedos pelo meu rosto, a expressão transformando-se de divertida em sombria e preocupada. Acariciei a ruga de frustração que se formou na testa dele, tentando fazê-lo relaxar.
— Vai me dizer qual é o problema?
— Isso. — Disse ao tocar o curativo na minha testa. — Isso. — Emendou enquanto passava os dedos de leve pela minha bochecha. — Isso. — Repetiu ao pegar minha mão e virar a palma para cima, revelando o roxo da fratura que ganhei no Havaí.
— Eu já havia até me esquecido desse ai. — Comentei com sinceridade.
— Mas eu não. — Seus olhos estavam duros. — Sinto muito, Hermione. Sei que aqui. — Draco colocou a mão sobre o meu coração. — Existem outras milhares de feridas que vão demorar ainda mais pra cicatrizar.
— A culpa não é sua.
Ele deliberadamente ignorou a minha frase.
— Como estão a Weasley e o Potter? — Senti que ele ficou tenso, com medo da resposta.
— Eles… estão... desorientados. Mas vão ficar bem. Ainda tem um ao outro. Só precisam de tempo.
Eu não estava dizendo aquilo apenas para confortá-lo. O tempo era o único remédio de que todos nós dispúnhamos. Só tínhamos de aprender a usá-lo, a transformar a tristeza em saudade.
— Todos nós precisamos. — Completei, aconchegando-me a ele mais uma vez.
— Vou fazer uma pergunta idiota.
— Deixe que eu decido essa parte. — Respondi já de olhos fechados.
— Está cansada?
— Desculpe ter que concordar com você, mas é uma das perguntas mais idiotas que ouvi nos últimos tempos.
Draco deu uma risada e eu não precisei ver para saber que era sincera, que tinha chegado aos olhos. Ele depositou um beijo no topo da minha cabeça e murmurou algo que eu acredito ter sido “Durma”. Mas a nuvem do sono já tinha me envolvido e arrastado.
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