Dramione - Side Effect
41 Everte Statum!
Notas iniciais
— Lu… Lucius Malfoy está vivo? — Neville gaguejou. — Narcisa está chorando a morte dele agora mesmo.
— Pode ser só encenação. Quem mais deletaria a gente para eles? — Harry foi cético.
— Mas ela nos deu a lista de propriedades. Não faz sentido! — teimei.
— Não faz diferença! A gente se preocupa com isso mais tarde. — Neville disse firme. — Agora, temos que tirar a Gina daqui.
A risada de Rodolfo ecoou na minha cabeça. Lembrar do nojo em sua voz, quando disse que Gina estava grávida, encheu minha boca com o gosto amargo da bile. Um arrepio gelado percorreu meu corpo e lutei contra as imagens que inundavam a minha cabeça. Contra as gargalhadas histéricas de Bellatrix, enquanto eu me contorcia no chão de mármore da Mansão Malfoy. Gina não passaria por isso, não se eu pudesse impedir.
— Já esperamos demais.
Colocando a mão sobre a de Harry, puxei a porta com cuidado. Estávamos no começo de um pequeno corredor, que possuía apenas mais uma porta e terminava em um janela idêntica à que utilizamos para entrar. Do outro lado, à nossa esquerda ficava a sala onde os dois homens conversavam. Ela ocupava quase todo o primeiro andar e os móveis que a compunham eram quase tão pomposos quanto os da própria Mansão Malfoy. Couro preto e encostos de espaldar alto, prata e verde por todos os lados — no sofá e nas poltronas organizados perto da lareira; na pesada mesa de mogno, com pelo menos 12 cadeiras acolchoadas, colocada debaixo de um lustre de madeira e ferro; e até nos candelabros sobre o aparador perto da parede.
Rodolfo Lestrange estava sentado, no que parecia sua pose mais relaxada, em uma poltrona em frente à lareira. Com as mãos pousadas sobre os braços do móvel, o homem batucava os dedos no couro de forma ritmada. Já Lucius — ainda mais magro e descarnado que da última vez que eu o vira, durante o julgamento no Ministério; porém muito limpo e arrumado com os cabelos loiros contrastando com a sua capa negra — era a personificação da inquietação. Mesmo com aquele corpo esquálido e doente; ainda havia alguma coisa no jeito de caminhar, na postura arrogante e na forma dura com que segurava o cabo da bengala; que fazia eu me arrepiar de medo.
Olhei para Harry procurando por alguma instrução ou dica do que ele pretendia fazer, mas o garoto que sobreviveu encarava as duas figuras com uma fúria assassina. Pisei no corredor com cuidado, praticamente na ponta dos pés, prendendo a respiração e congelei no lugar quando ouvi a tábua ranger. Neville, que vinha logo atrás de mim, fechou os olhos com força, como se pudesse fazer o tempo voltar ou o som não se propagar até ser ouvido, se pensasse nisso com vontade. Ele moveu os lábios silenciosamente em um lamento. “Por que sou sempre eu?”, perguntou de forma retórica.
Harry também parou, os músculos das costas tão tensionados que se destacavam sob a camiseta preta. Escutei Neville puxar o ar com força e apertei ainda mais a varinha. A capa de Lucius Malfoy farfalhou quando ele se virou na nossa direção. E pela expressão em seu rosto, eu podia jurar que ele estava tão espantado em nos ver ali quanto estávamos em descobrir que ele estava vivo. Não esperei mais, tirei proveito do momento de hesitação causado pelo choque de ambas as partes e ataquei.
— Estupefaça!
Mas o homem bloqueou meu ataque no último segundo.
— Expelliarmus!
— Avada Kedavra!
Assisti, paralisada, a maldição lançada por Rodolfo atravessar a sala na nossa direção. Estávamos muito próximos, praticamente espremidos no pequeno e estreito corredor. A rajada de luz verde podia podia acabar atingindo qualquer um de nós, ou todos ao mesmo tempo. Então, empurrei Harry para fora do caminho. A luz verde já havia tomado todo o meu campo de visão quando braços envolveram a minha cintura e Neville nos tirou da linha de fogo, nos derrubando no chão bem a tempo. A janela no fundo do cômodo se estilhaçou ao receber o impacto e acabamos sob uma chuva de pedaços de vidro.
— Petrificus Totallus!
Harry já atacava os comensais novamente, abrigado atrás do aparador. Um dos castiçais de prata foi arremessado contra a parede, ricocheteou e caiu a centímetros da minha cabeça. Comecei a me arrastar em direção à mesa de jantar enquanto os feitiços destruíam as paredes e os móveis ao meu redor.
— Confringo!
Virei-me a tempo de ver a poltrona que Rodolfo havia ocupado explodir ao ser atingida pelo feitiço de Neville. E o comensal ser jogado para trás e bater contra a lareira de pedra. Lucius estava tão concentrado em atingir Harry que pareceu não notar o acontecido. Em um rompante, fiquei de pé, praticamente no meio do fogo cruzado, e antes que Lestrange terminasse de se levantar gritei.
— Incarcerous!
Cordas se materializaram em volta do corpo do homem, prendendo-o com os braços colados ao corpo.
— Expelliarmus!
A varinha voou das mãos de Rodolfo, desaparecendo na bagunça da sala semi-destruída. Olhei para trás e vi Neville sorrindo orgulhoso para mim, na saída do corredor. Meus lábios começaram a se curvar para cima em resposta, mas não chegaram nem mesmo a completar o sorriso. Ficaram presos no meio do caminho, paralisados. Selwyn estava parado alguns metros atrás dele, parecendo completamente desnorteado. Mas com a varinha já na mão.
O tempo pareceu desacelerar e era como se as coisas estivessem acontecendo em câmera lenta. Levantei a varinha, mas ainda no começo do gesto ficou claro que eu não conseguiria ser rápida o suficiente. Além do mais, eu não conseguiria atingir o comensal sem atingir Neville de onde estava. Tentei gritar e senti minha garganta queimar ao forçar o ar por ela. Meus olhos arderam, começando a se encher de lágrimas. Então, um feitiço atingiu Selwyn em cheio no peito, arremessando-o contra a janela quebrada atrás dele e fazendo-o cair com metade do corpo pendurado para fora, já sem vida. Meu grito morreu, estrangulado a meio caminho da boca, quando acompanhei o olhar espantado de Neville, que encarava fixamente um ponto às minhas costas.
As lágrimas embaçaram a minha visão e tive de piscar inúmeras vezes, tentando encontrar algum sentido no que tinha acabado de acontecer, no que eu estava vendo. Lembrava-me de já ter lido que o cansaço extremo pode gerar alucinações — e eu não tinha dúvidas de que estava exausta física e psicologicamente — mas era impossível que Neville e eu estivéssemos delirando sobre a mesma coisa, ao mesmo tempo.
Enquanto ele me encarava de volta vi que havia hematomas por todo o rosto, manchando a pele clara de preto, azul e verde ao longo do maxilar e na altura da têmpora, onde o olho estava quase fechado por causa do inchaço. Os cortes no ombro esquerdo e nas costas da mão estavam cobertos por sangue seco. Mas debaixo da mão, a camisa suja de vermelho vivo e grudada no peito deixava claro que havia mais cortes, mais profundos, abertos e ainda sangrando. Já a mão da varinha estava apoiada com força no corrimão da escada e tinha deixado um rastro escuro para trás. Era difícil acreditar que ainda estivesse de pé.
Foi preciso forçar o ar para dentro e para fora. Meu peito subia e descia de forma dolorosa. Era como estar anestesiada, como se um torpor paralisante tivesse tomado conta do meu corpo, inutilizando minhas pernas, braços e cérebro. Como estar presa em um daqueles sonhos onde você quer correr, mas por mais força que faça para isso acontecer, seus músculos não te obedecem e você não consegue sair do lugar. Minha mente e meu coração travavam uma batalha, tentando sufocar os protestos um do outro, num misto de felicidade, raiva, dor, ansiedade e preocupação.
O grito rouco e meio engasgado chegou aos meus ouvidos ao mesmo tempo em que a pressão no meu peito expulsou o ar dos meus pulmões. Milhares de manchas pretas surgiram diante dos meus olhos, levando minha consciência a medida em que aumentavam. A parte de trás da minha cabeça bateu contra alguma coisa e eu não consegui me concentrar em mais nada, sentir nada, além da dor aguda que se seguiu, enviando ondas de choque pelo meu crânio. Puxei o ar pela boca e quando finalmente consegui um pouco de oxigênio, a pancada nas minhas costas o mandou embora de novo. No lugar de pontos pretos, agora eu via uma incômoda luz branca, que machucava meus olhos e insistia em não ir embora por mais forte que eu piscasse.
Inspirei e expirei com força algumas vezes, enquanto escutava os feitiços estourarem ao longe. Colocar algum oxigênio no organismo ajudou a clarear as coisas e comecei a tomar consciência de mim mesma. Eu havia sido jogada contra a parede e pela maneira como o lustre balançava, com certeza foi nele que eu bati a cabeça antes de atingir a parede. Eu estava caída de maneira torta, como uma boneca de pano, sobre o braço esquerdo. Com a mão livre, tateei em busca da varinha, mas ela não estava ao alcance. Eu precisava me levantar. Soltei o ar pela boca mais uma vez e empurrei o chão para libertar meu braço, conseguindo mais um ponto de apoio. Mas apoiar a mão esquerda foi uma péssima ideia. Senti uma fisgada dolorosa antes dela ceder e eu desabar novamente. Reprimi um grito, então, rolei de costas e usei os cotovelos.
A luz branca já havia diminuído de intensidade, embora ainda manchasse os cantos da minha visão, deixando o ambiente mais claro do que eu sabia que ele realmente era, e a pancada ainda reverberasse pelo meu crânio. Eu estava atrás da mesa de jantar. E por entre as cadeiras a única coisa que eu conseguia ver eram as pernas de Neville, com o jeans surrado de Ronald, curto demais para ele. Olhei em volta procurando pela minha varinha mais uma vez. Ela estava alguns metros à minha esquerda, perto dos degraus da escada, fora da zona de segurança proporcionada pela mesa. Mas não tão longe que eu não pudesse alcançá-la, se conseguisse fazer meu corpo se mover com rapidez suficiente. Arrastei-me até a beirada da proteção e espiei. Rodolfo havia, de alguma forma, conseguido se libertar do feitiço de imobilização e recuperado a varinha. Ele agora atacava com uma convicção tresloucada. Lucius e Harry não estavam mais concentrados um no outro, meus amigos agora lutavam em dupla contra os comensais. As maldições e feitiços ricocheteavam em todas as direções. E os meninos pareciam um pouco acuados, se esforçando mais para manter as coisas equilibradas.
Eu precisava da minha varinha, precisava encontrar Gina e tirá-la dali. Mas eu não podia contar com minha mão esquerda, então, engatinhar até onde a varinha jazia jogada como um pedaço qualquer de madeira não era uma opção. Podia me arrastar com a ajuda dos cotovelos, mas antes de tentar eu soube que não chegaria lá sem ser notada. Espiei a batalha que se desenvolvia a centímetros de mim, mais uma vez. E respirei fundo enquanto me apoiava nos joelhos e depois nos pés, agachada de forma precária atrás de uma cadeira parcialmente destruída. Soltei o ar bem devagar antes de impulsionar meu corpo.
Atingi no chão com menos força daquela vez e consegui manter a cabeça longe das tábuas de madeira, mas meu corpo protestou mesmo assim. Fechei os dedos em volta da varinha enquanto escorregava pelo piso até bater com as costas contra o primeiro degrau da escada.
— Ai!
Não foi um gemido de dor, foi mais como um “Oi!”. Olhei para cima e constatei que eu não havia atingido o degrau, e sim um par de botas pretas manchadas de sangue. E no instante seguinte ele estava estendendo a mão livre para me levantar. Depois de tudo. Depois de ser usada, traída e completamente despedaçada. Depois da dor, da revolta, da indignação. Eu deveria pelo menos ter hesitado, afastado a mão dele. Mas antes que eu pudesse processar, os dedos dele se fecharam em volta dos meus — firmes, seguros, familiares.
Ele tentou esconder, desviando o olhar de mim para a batalha ao nosso lado, mas eu vi quando seu rosto se contorceu e perdeu o último resquício de cor, enquanto ele me puxava de encontro ao peito. Tive que lutar contra o impulso de envolvê-lo nos braços e apenas me deixei ser abraçada. Fechei os olhos por alguns segundos e me concentrei no aroma de sândalo, musgo de carvalho, sangue e suor que emanava dele. Então, um pedaço do corrimão atrás de mim explodiu, estourando nossa bolha particular e trazendo-nos de volta para a realidade.
— Onde ela está? — perguntei com urgência.
— Cadê os outros? Cadê o resto da Ordem? Não deviam ter vindo sozinhos. Vocês precisam ir… Há mais...
Enquanto falava, ele usou a parede para forçar o corpo para cima, deixando a posição agachada. Todo o corpo dele tremeu e sangue brotou entre os dedos da mão que apoiava as costelas, pingando nas botas pretas. Coloquei minhas mãos sobre a dele e pressionei ainda mais o machucado. Por um mínimo instante pareceu funcionar, então, minhas mãos ficaram completamente pegajosas e o sangue escorreu por elas, quente e viscoso.
Com a mão livre, ele me afastou. Apesar da palidez e da aparência desgastada, seu aperto em meu punho era firme e sua voz permanecia estável. Encarei as orbes azul-acinzentadas pela primeira vez. E fui tragada pela tempestade. A força inesgotável que aqueles olhos transmitiam invadiu minha alma, preenchendo-me. Senti o gosto se sal na boca e percebi que estava chorando.
— Hermione. Vocês precisam sair daqui. Vai!. — ele me empurrou delicadamente.
— Não! Não posso… Não posso deixar a Gina… Não posso… — Não posso deixar você, pensei.
Apesar da força com que estava me segurando, eu tinha a impressão que ele ia desabar a qualquer momento.
— Você precisa. — havia dor em sua voz, o timbre estava carregado de tristeza. — Os outros vão chegar a qualquer momento. — ele tomou uma grande quantidade de ar e o volume de sangue que escorria do machucado aumentou.
— Outros? Como assim outros? Do que é que você está falando? Não! — balancei a cabeça, tentando clarear meus pensamentos. Nada fazia muito sentido naquele momento e a dor pulsante que parecia que ia fazer minha cabeça explodir a qualquer instante também não estava ajudando em nada. — Não! A Gina…
— Ela está lá em cima, em um dos quartos. Mas eu não consegui abrir a porta. Está celada com algum feitiço muito poderoso. Hermione, ela está bem…
— Até quando? Não! Não… Tem de haver uma maneira…. Um feitiço!
— Ela vai ficar... bem. — sulcos profundos se formaram nos cantos da boca dele, quando ele a comprimiu. — Enquanto o Potter estiver vivo eles não vão… — os olhos cor de tempestade brilhavam decididos, enquanto ele encarava a batalha atrás de mim.
— Há coisas piores que a morte…
— Eu estou fazendo o que eu posso, Hermione… Por favor! Tire o Longbottom e o Potter daqui enquanto ainda há tempo.
— Eu não vou a lugar nenhum sem a Gina! — retruquei teimosa.
Ele desceu o último degrau da escada com dificuldade, arrastando-me com ele.
— Você precisa… você não… Hermione, tem que confiar em mim…
— Eu poderia até considerar isso, se você não tivesse ajudado a sequestrar minha melhor amiga e agora estivesse querendo me convencer a deixá-la pra trás ma-
— Eu não vou deixar você morrer. — ele praticamente rosnou as palavras para mim, cheias de raiva e convicção.
A tempestade havia transbordado dos olhos azul-acinzentados e escorria pela pele marcada de hematomas das bochechas.
— Draco… — minha voz falhou e tudo o que eu tinha a intenção de dizer ficou entalado na minha garganta.
— Haverá outra chance. Enquanto eu estiver com eles, haverá outra chance… — ainda me segurando pelo pulso, ele inverteu nossas posições, ficando de costas para a batalha. — Me ataque!
— O que?
— Droga, Hermine. Me ataque. — soltando meu braço, ele olhou por cima do ombro e deu um passo para o lado.
Acompanhei o olhar e entendi. Aquilo ia abrir todas as feridas do corpo dele, faria o sangramento das costelas aumentar e sabe Merlim mais o que. Mas contrariando toda a razão, decidi que iria confiar nele. Minha mão tremia descontroladamente quando levantei a varinha. Ele a segurou com firmeza e trouxe até o peito. Encarei-o e a força que encontrei nos olhos dele me deu a coragem necessária.
— Everte Statum!
Não passou de um sussurro, mas teve o efeito desejado. Ele foi jogado através da sala e atingiu em cheio os dois comensais. Quando Harry e Neville se viraram para mim eu já os tinha alcançado. E quando a porta da frente se abriu revelando mais capas pretas, nós já estávamos girando.
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