Dramione - Side Effect
12 Deixe-os ir...
Notas iniciais
Acordei tomada por uma sensação de tranquilidade que não sentia desde muito antes da guerra. Eu havia dormido muito bem e, principalmente, eu não havia sonhado. Nenhuma lembrança ruim, nenhum raio de luz verde, nenhum corpo ensanguentado ou de olhos vidrados me encarando. Remexi preguiçosamente, aproveitando a cama quentinha, o sentimento de paz interior e me preparei para abrir os olhos, encarar o mundo e sua realidade cheia de tristeza e vazio.
De acordo com a psicóloga trouxa, eu me sentia culpada por todas as mortes que presenciei, todas as famílias que foram separadas. Eu poderia facilmente ser definida como uma pessoa atormentada, bom, eu era uma pessoa atormentada: pelas lembranças boas e ruins; por ter perdido os sorrisos e traquinagens de Fred; os conselhos e a camaradagem de Dumbledore; a coragem e o amor de Snape; a dedicação de Tonks, Remo e Sirius. A saudade doía não só porque eu sentia falta deles em minha vida, mas porque todos eram pessoas maravilhosas que tiveram suas vidas e seus futuros ceifados abruptamente. Eu me sentia sufocada quando pensava que eles não iriam aproveitar a paz porque tanto lutaram. Eu me sentia culpada por estar fazendo isso sem eles. E, mais que tudo, eu me sentia culpada por incluir Draco Malfoy na minha vida, enquanto eles não estavam mais lá.
Pronto. Lá se vão a tranquilidade e a paz interior! Apesar de ter tido uma noite bem dormida, quando me levantei da cama estava desanimada. Fiz toda a minha higiene sem a menor animação. Peguei um livro de ficção trouxa que trouxe de casa e desci para o salão comunal. Café da manhã não era uma opção. Com o turbilhão de emoções dentro de mim, ele voltaria antes mesmo de tocar meu estômago. Então, acomodei-me em uma das poltronas em frente à lareira.
Ainda não conseguia acreditar no que estava fazendo, no que estava acontecendo entre Draco e eu. Onde é que eu estava com a cabeça? Quando é que isso poderia dar certo? Isso NUNCA ia dar certo. Era como tentar misturar água e óleo.
Podia imaginar as manchetes dos jornais, as notícias, fofocas. Se alguém descobrisse, ia ser o escândalo do ano no Profeta Diário.
— Ai meu Merlin! O jornalista! — lembrei de súbito, quase jogando o livro que estava tentando ler para me distrair na lareira e caindo da poltrona, tudo de uma vez só. Péssima hora para baixar a guarda perto de Draco Malfoy, Hermione. Como você pode ser tão descuidada?!, minha consciência gritou para mim.
— Calma, Mione. Não é como se você nunca tivesse dado uma entrevista longa e cansativa antes. – Gina disse sem humor. Ela estava na poltrona ao lado, estudando, ou tentando.
— Eu sei, mas dessa vez é diferente. Ele vai estar aqui, em Hogwarts, na nossa casa. Estou me sentindo invadida, sei lá. – tentei disfarçar o melhor que pude. Não era de todo uma desculpa falsa. Eu realmente estava chateada em ter que aturar o cara.
— Não se preocupe, o Ronald vai enchê-lo a semana toda sobre como teve um papel decisivo na guerra, reclamar de que os julgamentos e as penas de alguns comensais foram brandos, falar e repetir que várias coisas precisam ser mudadas no Ministério. Com sorte, o cara nem vai ter tempo para nós. – Gina enumerou, contando nos dedos, com a voz enfadada.
— Tomara que você esteja certa, Gina. – respondi cansada. Eu estava começando a me sentir sufocada no salão comunal, apesar das janelas abertas, que permitiam a entrada da brisa de fim de setembro e da claridade, invadindo o ambiente.
— Mione, você está bem?
— É só... estou me sentindo claustrofóbica. Preciso de ar. Acho que vou até os jardins, me sentar embaixo de uma árvore para ler. Você vem?
— Vou sim. Mas já cansei de ler e estudar. Você lê, eu procuro o Harry. – ela decidiu.
Peguei minhas coisas e segui Gina até o lado de fora do castelo. Apesar de ainda ser cedo, o sol já estava bem forte e procurei abrigo embaixo de uma amoreira gigante, que tinha raízes expostas em que eu podia me encostar.
Finalmente, consegui prestar atenção no livro. “A culpa é das estrelas” tinha sido um presente do meu pai. Segundo ele, talvez a história pudesse me ajudar a superar algumas coisas porque eu havia passado. Eu duvidava, mas não custava tentar. Estava na parte em que Hazel, a personagem principal, questionava sobre os alimentos do café da manhã e por que eles eram exclusivos desse horário, quando ouvi os gritos.
— Chega, isso tem que parar. Quando é que você vai entender que acabou?
— Não, ainda não acabou. Há muito o que acertar.
Uma das vozes parecia ser de Gina, por isso, coloquei-me de pé num salto e apressei o passo (praticamente corri) até o lugar de onde ela vinha. A outra pessoa estava tão alterada que não consegui distinguir quem era. Já estava terminando de fazer a volta no memorial quando dei de cara com eles.
— Isso não vai trazê-lo de volta, será que você não entende?
— Ah, claro. Muito conveniente dizer isso agora que acharam seu namoradinho, não é?
— O que está acontecendo? Do que é que ele está falando Gina? – perguntou Harry. Ele havia chegado, junto com metade dos alunos, saído não sei de onde.
— Os aurores acreditam ter descoberto o paradeiro de Blasio Zabine e Theodore Notte. Mas minha irmã acha que eu não devo me meter. Vai contar ao Harry por quê? – acusou Ronald, o outro autor dos berros.
— Não há nada para contar Ronald – ela devolveu.
— Então você não andou agarrando Zabine no quinto ano? – ele praticamente cuspiu a frase.
— O que isso tem haver... – Harry começou a questionar.
— Ela não quer que eu o faça pagar pelos crimes que cometeu. Ela sabe que não poderá protegê-lo como vocês fizeram com Malfoy. – ele apontava acusadoramente para Harry, Luna (que também havia chegado ao local da discussão) e eu, que ainda estava anestesiada demais com a cena para reagir.
— Por Merlin, Ron. Não é isso!
— Ah, não... e por que...
— Será que é tão difícil assim entender, Ronald? — eu finalmente encontrei minha voz e gritei, interrompendo a discussão.
— Ah, por favor, explique. Afinal, você sabe tudo não é, Hermione?! – ele desdenhou, cheio de escárnio.
— Pare de agir como um idiota! Será que você não vê que perseguir essas pessoas é cutucar uma ferida aberta? Será que não entende que todo esse ódio e rancor só estão piorando as coisas para todo mundo? – berrei para ele. Aquilo estava entalado na minha garganta há muito tempo. Ele pareceu que ia contestar, então continuei rápido.
— Sua família Ronald! Seus amigos. É para eles que você está fazendo mal. São eles que estão sofrendo com as suas atitudes. Deixe-os ir, deixe-os finalmente descansar em paz. – disse apontando para o memorial. – Isso é o mínimo que eles merecem! Você acha mesmo que era isso o que Sirius, Dumbledore, Remo, Tonks, Snape e outros iriam querer? Vingança???? Você acha que era isso o Fred iria querer de você? Não, Ronald! Eles iriam querer que você vivesse sua vida ao máximo, aproveitasse a paz que ELES ajudaram a construir no mundo bruxo.
Ronald nos analisou por alguns instantes, sem saber o que dizer. Então, Gina aproveitou a deixa.
— A Hermione está certa e você sabe!
— Ele também era seu irmão, Gina! – ele explodiu com ela mais uma vez. Parecia ultrajado, traído.
— Hey! — Harry berrou de volta, como um aviso.
— Não ouse duvidar da falta que sinto dele, Ronald. Não há um dia sequer em que eu não acorde e queira voltar a fechar a os olhos para sempre ao invés de enfrentar a vida sem ele. Até mesmo respirar dói e cada célula do meu corpo reclama de ter que continuar... – o desabafo de Gina terminou abruptamente em um choro silencioso, mas cheio de dor. Harry a abraçou, sem tirar os olhos de Ronald.
— Isso tem que parar. Você precisa tentar seguir em frente. – eu insisti.
— Me diga, Hermione, como eu devo fazer isso, exatamente? — ele perguntou irônico. — Confraternizando com o inimigo? Tornando-me amigo dele? Acho que você pode me ajudar, já que é especialista no assunto.
— Perdoando Ronald. Deixando que eles vivam para se arrepender do que fizeram. Dando a eles uma chance de fazer melhor. — eu disse cansada. Discutir sobre aquilo acabava com todas as minhas energias. Meu ânimo parecia ter sido sugado pela terra embaixo dos meus pés.
— Você quer dizer, dando a você uma chance de se atracar aos beijos com eles, não é? — ele cuspiu as palavras. E me lançou um olhar perfurante.
— Vai engolir essas palavras, Weasley. — Malfoy se adiantou de algum ponto às minhas costas com a varinha em punho.
— E o que você vai fazer? Me torturar? Não, não... esse tipo de coisa você gosta de assistir. Me matar? Todos sabemos muito bem que você não tem coragem para isso!
Draco se adiantou em direção a Ronald e o ruivo deu um passo à frente. De repente, todos estavam sacando suas varinhas: Gina, Harry, Simas, Neville, Luna, Parvati, Cho, eu... O problema era que ninguém sabia em que direção apontar. Os dois rapazes estavam se encarando, um desafiando o outro silenciosamente.
— Não, Draco, é exatamente isso o que ele quer. Ele só precisa de uma desculpa contra você... – disse, segurando o braço do loiro com a mão livre. E senti que os olhos de todos ali se voltaram para o pequeno local em que minha pele tocava a do sonserino.
— É, Draquinho, melhor fazer o que ela diz. Quem sabe com quem ela teve que dormir para te livrar da cadeia da primeira vez. Talvez ela não consiga fazer isso de novo. – a voz de Ronald era tão cheia de escárnio que nem parecia dele.
Senti o sangue sumir do meu rosto. Como é que ele podia descer tão baixo? Eu sabia que Ronald, às vezes, perdia a noção quando estava bravo ou magoado, mas aquilo era...
— Talvez devesse ser você no lugar deles! – Draco vociferou apontando para o memorial e eu apertei minha mão em seu braço a fim de impedir que ele fizesse alguma coisa.
Ronald abriu a boca para pronunciar o que me pareceu uma azaração, mas Gina foi mais rápida e lançou um escudo no meio do caminho. O ruivo apontou a varinha para a irmã, o que fez com que vários dos presentes apontassem as suas para ele. Felizmente, Simas interveio:
— Já chega! Menos 100 pontos para a Grifinória. E menos 50 pontos para a Sonserina! – ele decretou.
— O que pensa que está fazendo? – contestou Ron.
— Meu dever como monitor chefe, Ron. Não me faça aumentar para 150. – Simas disse com firmeza.
— Isso é ridículo. Estão todos do lado dele agora? Todos aqui perderam alguém que amavam nessa guerra maldita e mesmo assim insistem em defender esse filhote de comensal da morte? – ele gritou apontando para Draco.
— Ron, cara... – Neville tentou começar.
— Diga mais uma palavra e serão 200! – Simas falou antes que Ronald pudesse voltar a articular qualquer ofensa. Naquele momento, Simas parecia uma versão mais baixa e menos carrancuda de Percy, seria muito engraçado se a situação não fosse tão trágica.
Ronald abaixou a varinha, fechou ainda mais a cara e marchou em direção à porta do castelo. Não sem antes passar por nós e dar um encontrão proposital em Draco.
— Acho melhor ver o que ele vai fazer! – prontificou-se Neville e saiu às pressas atrás de Ron.
As pessoas voltaram a seus afazeres e sumiram de vista com a mesma rapidez que apareceram. Gina me lançou um olhar triste em que pude ler “Sinto muito, pelo meu irmão imbecil!”, mas não disse nada. Apenas se deixou ser conduzida por Harry para outro lugar.
Eu fiquei parada, praticamente estacada. Sequer troquei o peso de uma perna para outra. As coisas que Ronald disse martelando fundo na minha mente. Então, desisti de tentar segurar as lágrimas e comecei a chorar. Alguém me abraçou e eu aceitei sem discutir. Senti que o restante das minhas forças tinha me abandonado e achei que ia começar a cair. Mas não cheguei ao chão. Alguém me segurou firme e passou os braços pela curva das minhas pernas, pegando-me no colo. Mais uma vez, não protestei, apenas deixei que me levasse. Escondi meu rosto junto ao peito da pessoa e um perfume amadeirado e delicioso invadiu minhas narinas. Não precisava de outra pista, não precisava olhar para ter certeza, sabia quem estava me carregando – Draco Malfoy.
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