Dramione - Side Effect
59 Comissão Organizadora
Notas iniciais
A
A francesa tinha mesmo jeito com crianças. Becca — a garotinha que eu quase acordei enquanto conversava com Luna em um dos quartos, logo que Gina foi levada — não desgrudou dela desde o momento em que René surgiu pela porta da frente do Instituto Lílian Potter. Merlin! Aquela conversa parecia ter acontecido milhões de anos atrás e, mesmo assim, eu ainda sentia o meu estômago revirar, com a mesma intensidade, com o mesmo medo e angústia que senti naquele momento, quando me lembrava das palavras que trocamos. Da mesma maneira que parecia que ia explodir de dor quando pensava em Lily e de culpa por ter duvidado tanto de Draco.
Uma semana depois de contratarmos René para um período de experiência, todos já estavam mais do que convencidos de que ela era a pessoa certa para a vaga. Até mesmo Gina havia parado de tentar encontrar razões para desmerecê-la. Ela acabou provando, na prática, que trabalhava bem. Andrômeda, claro, ainda mantinha reservas a respeito da garota, mas ela teria agido do mesmo modo com qualquer um, depois de tudo o que aconteceu. De qualquer maneira, a bruxa estava mais do que feliz em poder finalmente dispensar os serviços de Monstro, tanto quanto o velho elfo doméstico dos Black estava em poder retornar às cozinhas de Hogwarts.
— Desculpe dizer isso, Hermione. Mas a ideia foi sua.
Harry respondeu depois de eu expressar o quanto estava decepcionada e arrependida em ter mandado o elfo até o Instituto. Apesar de ter ajudado bastante, Mostro reclamou do momento em que aparatou na cozinha da Mansão Black até o instante em que foi oficialmente dispensado por Harry. Narcisa o teria expulsado se pudesse — ou melhor, se ele pudesse obedecer esse tipo de ordem vinda dela.
— Não vi você contestar a minha ideia há duas semanas, quando não havia outra saída.
— Justamente, porque não havia outra saída.
— Mas agora já está tudo resolvido, certo? — Draco olhou de mim para Harry e de volta para mim enquanto concordávamos com a cabeça. — Então, porque raios vocês ainda estão discutindo?
Não consegui encontrar nada que pudesse contradizer aquela pergunta, assim como Harry. Então, apenas dei de ombros. A porta da sala de Minerva McGonagall rangeu quando a bruxa entrou e, até mesmo a troca de olhares ressentidos que eu mantinha com Harry, chegou ao fim. Fazia dias que esperávamos por uma resposta do Conselho de Pais ao nosso pedido para realizar o jogo comemorativo no campo de Quadribol do castelo.
— Boa tarde, senhores. — ela cumprimentou.
Apesar dos anos de convivência, ler Minerva McGonagall era uma tarefa praticamente impossível. A expressão sempre séria e concentrada da professora não deixava brechas para interpretações de qualquer tipo. Ela se sentou na cadeira de espaldar alto que um dia pertencera à Dumbledore e Snape, apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçou os dedos e encarou nossa pequena comitiva. Gina remexia de um lado para o outro no assento, inquieta, quase sufocando de ansiedade.
— Então?! — ela perguntou, sem conseguir se conter mais.
— Bem… — Minerva correu os olhos por todos na sala. — É claro que a ideia é muito boa. Mas o Conselho está preocupado, depois de tudo o que aconteceu no último evento que os senhores organizaram.
— Mas não havia nada que pudesse nos fazer, sequer, considerar a possibilidade de um episódio como aquele. Na-
— Havia sim. — Harry cortou Gina. — Ronald tinha sido atacado, e depois Padma apareceu desmaiada, de madrugada, no meio do corredor. Pensamos até em adiar a festa, lembra?
— Sabe que o Ronald não foi atacado. — ela retrucou e meu estômago se remexeu inquieto, enquanto a culpa fazia minha cabeça girar. — E Padma já está mais do que bem, adorou a fama que brincar de Bela Adormecida deu pra ela. Além do mais, Rodolfo está morto. Todos os comensais estão presos, ou mortos.
— Srta. Weasley. — Minerva não estava irritada, apesar do tom duro. — Se me permite, gostaria de terminar.
— Claro… — a garota ruiva apenas murmurou em resposta.
— Como eu ia dizendo, o Conselho gostou da ideia. Pessoalmente, acredito que engajar os alunos em eventos como esse é ótimo, mais que isso, é enriquecedor. Extremamente necessário, eu diria. Mas precisamos nos certificar que nada; eu repito, nada; dê errado dessa vez.
— Acho que concordamos nessa parte. — Draco disse.
— E quais são as datas possíveis?
— A data possível, srta. Weasley. Infelizmente, só podemos dispor do fim de semana antes do Natal.
— Mas isso é em duas semanas! Não posso organizar um evento como esse em duas semanas. E a neve…
McGonagall olhou para Gina por cima dos pequenos óculos ovais. A neve era, de longe, a pior desculpa que Gina podia usar para reclamar da data escolhida.
— Achei que, a esta altura de suas vidas escolares, seriam capazes de lidar com simples flocos de neve. Se eles chegarem a cair, há milhares de feitiços impermeabilizantes, para proteção térmica e até, para minimizar o vento, srta. Weasley. Posso dar uma aula particular para a srta. e ensinar como usá-los se for preciso.
Harry estava se segurando para não rir.
— Ainda assim...
— O Conselho de Pais decidiu que, para envolver outros alunos, além dos jogadores, deve ser criada uma Comissão Organizadora para ao evento. — ela cortou a reclamação de Gina. — Pedi que os interessados viessem até a minha sala e creio que, em instantes, conheceremos os dois representantes de cada casa. Terá mais alunos do que o realmente necessário para ajudá-la a colocar tudo em ordem. Duas semanas serão tempo mais que suficiente.
Gina abriu a boca para retrucar, mas Harry apertou a mão da noiva, repreendendo-a silenciosamente. Dois alunos de cada uma das casas de Hogwarts, ou seja, oito pessoas. Sem contar conosco? Todos pareciam ter feito a mesma conta que eu. Trocamos olhares preocupados e Luna ainda tentou sorrir de forma encorajadora. Mas alguém bateu na porta e, quando Minerva permitiu que ela se abrisse, o sorriso da loirinha desapareceu. Fazer todas aquelas pessoas trabalharem juntas daria ainda mais trabalho do que o próprio evento.
— Todos vocês tem absoluta certeza de que querem participar deste Comitê? — Minerva perguntou aos recém chegados, assim que eles terminaram de se acomodar. — Não vou admitir corpo mole, nem desculpas. Essa não é uma oportunidade para reuniões sociais, é trabalho sério.
Ninguém se atreveu a fazer qualquer movimento em discordância. As garotas da Lufa-Lufa, Ana Abbott e Susana Bones, pareciam até um pouco intimidadas; mas isso tinha mais a ver com o fato de as representantes da Sonserina serem Astória Greengrass e Pansy Parkinson, do que com o discurso de McGonagall. Para falar a verdade, até eu estava incomodada com a presença das duas. A última coisa que pessoas como Parkinson e Greengrass poderiam querer ali, era ajudar.
— Desculpe, diretora. — a voz de Draco era mansa e cordial, mas a tempestade em seus olhos dizia que ele não estava nada satisfeito. — Sem querer desmerecer ninguém, mas não acha que já temos representantes suficientes da Grifinória?
Ronald — que, para o desespero de Gina e Draco, havia chegado com o grupo — soltou algo entre um riso e um bufo de escárnio. Enquanto Córmaco McLaggen, que analisava o sonserino com os braços cruzados em frente ao corpo, empertigou-se — como se desafiasse Draco a tentar retirá-lo dali. Já Parvati preferiu ignorar as palavras do colega e continuou encarando a diretora.
— O sr. Weasley é estagiário do Departamento de Aurores e está aqui para nos auxiliar no que diz respeito à segurança.
Não me surpreendeu que McGonagall soubesse de quem Draco estava falando. O loiro não precisava dizer quem ele considerava “pessoas demais”. Ficou claro em seus olhos cor de tempestade assim que o ruivo surgiu pela porta. Estava evidente na maneira como eles se encaravam, trocando olhares raivosos por sobre as cabeças das outras pessoas na sala.
— Claro. Ele fez um ótimo trabalho da última vez. — Gina interrompeu a diretora sem nenhuma cerimônia.
— Srta. Weasley, eu ainda sou a diretora desta escola. E, como diretora, estou COMUNICANDO aos senhores que, de acordo com a decisão do Conselho, terão de trabalhar todos juntos.
Minerva fez questão de frisar a palavra comunicando. Era ao mesmo tempo um aviso de que ela não ia tolerar mais nenhuma reclamação e, mesmo que feito de maneira velada, um pedido de desculpas. A decisão não havia partido dela. Ainda assim, Padma Patil dirigiu a Gina um sorriso malicioso e entrelaçou o braço no da irmã.
— O que vai precisar que a gente faça, Gina? — perguntou Cho, parecendo sem graça em ter que se dirigir a ruiva.
— Queremos ficar responsáveis por recepcionar os jogadores convidados. — Parvati e a irmã deram risadinhas empolgadas.
Pelo canto do olho vi Minerva McGonagall menear a cabeça de forma negativa. Pelo jeito, ela gostava da ideia de um Comitê tanto quanto nós.
— Já recebemos resposta de todos os jogadores convidados? — indagou a diretora por sobre os risinhos das gêmeas Patil.
— Os campeonatos estão em hiato, então, foi fácil conseguir uma brecha na agenda deles… — Gina estava muito orgulhosa de si mesma.
— Algum jogador do Tornados de Tutshill vai participar? — os olhos de Cho brilharam cheios de esperança. Como uma boa jogadora, ela também era fã e Quadribol, especialmente dos Tornados de Tutshill.
— Infelizmente, não. — apesar das palavras de lamento, Gina pareceu bem satisfeita com a expressão de decepção que tomou conta do rosto da garota. — Bem, este é nosso primeiro tópico. Os jogadores vão chegar nos dias que antecedem a partida. Precisamos organizar dormitórios para acomodar todos eles, de um-
— Vitor Krum, com certeza, pode dormir na minha cama.
— Srta. Patil. — Minerva estava da cor dos cabelos de Gina.
— Nem precisa ter esperanças, todo o mundo bruxo sabe que ele prefere a da Granger.
Eu acho que nunca tinha escutado a voz melosa da garota de cabelos negros e olhos verdes. Astória Greengrass encarava Draco e eu, descaradamente, esperando pelo efeito de suas palavras venenosas sobre nós.
— Precisaremos ainda de uma mesa reservada no salão principal para que eles façam as refeições. — Gina continuou. — E, pelo que estou vendo, de uma equipe de guarda-costas também. — e, como não podia deixar de ser, respondeu na mesma moeda.
Harry encarou a penseira de Dumbledore por alguns segundos, concentrado, quase roxo, mas no final não conseguiu segurar o riso. O que acabou fazendo Draco e Neville rirem também. Os lábios da sonserina se torceram de indignação, mas ela não retrucou. E a garota ruiva sorriu satisfeita antes de continuar.
— Os uniformes vão chegar nos próximos dias, então, nada com que se preocupar nesse quesito. Mas precisamos anunciar o evento oficialmente.
— Posso ligar para Annie Pottins, se...
— Claro que pode.
Gina nem sequer olhou para irmão ao dizer aquilo e Ron pareceu envergonhado, suas orelhas começaram a ficar vermelhas. Mas apesar da postura indiferente, ela fez uma anotação no pergaminho em frente ao item “divulgação”.
— Quando vai ser o sorteio dos jogadores das casas? — Córmaco perguntou.
— Ainda essa semana. — a ruivinha analisava o restante da lista enquanto falava. — Por falar nisso, preciso de um voluntário para ficar responsável por essa parte.
— Alguém cujo nome não esteja no sorteio. — Harry disse quando Córmaco fez menção de se oferecer.
Ninguém parecia muito interessado. Então, Draco acabou levantando a mão.
— Certo. — Gina fez mais uma anotação no pergaminho.
— Nós podemos ajudar o Draquinho. — disse Pansy fazendo um gesto que abrangia Astória e ela.
— Não será necessário. — o loiro respondeu. — Posso me virar sozinho.
— A gente costumava trabalhar bem em dupla, Draquinho.
Tive que lutar contra a vontade de azarar Pansy Parkinson. Agarrei a varinha por sob o jeans e Luna colocou a mão sobre o meu braço direito, num gesto para me acalmar e, ao mesmo tempo, refrear.
— O problema é que, nesse caso, vocês formariam um trio, Parkinson.
A loirinha disse aquilo no mesmo tom comedido de sempre. O que não impediu, de nenhuma maneira, que todos; exceto Parkinson; entendessem a tirada. Neville foi tomado por um ataque violento de tosse misturada a risadas. E até McGonagall sorriu de forma suave.
— Adicionar Astória à brincadeira só tornaria as coisas ainda mais interessantes. — ela sorriu. Um sorriso malicioso, cheio de veneno, que curvava seus lábios finos para cima de forma assustadoramente cruel. — O que me diz, Draquinho? Seria como nos velhos tempos… quer dizer, nem tão velhos assim.
— Pra mim, é como se isso tivesse acontecido em outra vida.
A resposta de Draco foi tão rápida e ajustada que nem tive tempo de pensar ou sentir nada a respeito do comentário da garota. Por isso, apenas devolvi o sorriso maldoso e assisti Pansy engolir a raiva. Sua companheira de casa apenas assistia a tudo de forma inexpressiva. Eu poderia dizer que ela estava quase entediada.
Gina pigarreou, mal contendo o riso e voltou a falar. Ela confirmou a responsabilidade de Draco sobre o sorteio dos jogadores e me incumbiu de ajudá-lo sem nem mesmo perguntar se eu estava disposta a isso. Não que eu realmente me importasse, mas eu não queria parecer uma daquelas garotas inseguras, que tem medo de desgrudar do namorado e não consegue assisti-lo trabalhando com outras mulheres. Draco entrelaçou os dedos nos meus, eu recostei a cabeça em seu ombro e ele beijou minha testa — daquela maneira que me fazia sentir a mulher mais especial do mundo, respeitada, segura, protegida e amada. Os olhos de Pansy faiscaram — um misto de raiva, inveja, orgulho ferido, desgosto e decepção — e ela desviou sua atenção de volta para Gina quando viu que eu havia percebido.
Pelo menos, a resposta atravessada de Draco serviu para minar as gracinhas da sonserina e, de quebra, das gêmeas Patil. Nenhuma delas abriu mais a boca, a não ser quando foram diretamente questionadas sobre alguma coisa. E, no final, acabaram assumindo as responsabilidades que Gina achou pertinente confiar a elas.
— Obrigada por confiar na gente. Sei como esse jogo é importante para vocês. Se precisarem de mais alguma coisa é só nos procurar. — disse Ana Abbott antes de cruzar a soleira da porta para encontrar Susana, que a esperava no meio da escada em espiral.
— Obrigada vocês, Ana. — Luna sorriu um sorriso encantador. — Qualquer dificuldade…
— Grito por ajuda. — a lufana completou brincando. — Bem, até amanhã.
Fiquei olhando elas desaparecerem pela curva da escada e me recostei em Draco. O cheiro de âmbar, sândalo e musgo de carvalho me invadiu, inebriando os meus sentidos. Fechei os olhos e respirei fundo, minha pele estava começando a pinicar, ansiosa por mais proximidade, mais contato. Virei em meio ao abraço aconchegante do loiro e passei meus braços ao redor da cintura dele, antes de ficar na ponta dos pés e me aproximar para sussurrar em seu ouvido.
— Que tal uma passadinha na Sala Precisa antes de ir para o dormitório?
Um sorriso mínimo levantou a lateral dos lábios dele. Mas foi a forma como as íris azul acinzentadas escureceram enquanto ele me fitava — fechando-se como o céu noturno se fecha em uma noite de tempestade — que fez a minha respiração falhar.
— Agora que as tarefas estão distribuídas e eles já foram, podemos falar sobre o esquema de segurança.
Encostei a testa no peito de Draco e soltei o ar com força, contando mentalmente até cem, totalmente frustrada, amaldiçoando a existência de Ronald Weasley.
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