Notas iniciais
Estou meio enferrujada para escrever Dramiones. Vamos ver no que vai dar.

A cabine dos monitores estava silenciosa.

Os alunos ainda estavam procurando seus lugares no trem. Padma Patil e Ernesto Macmillan se voluntariaram para ajudar os primeiranistas a se alocarem nas cabines e, talvez, formar amizades entre si. Certamente, isso pouparia trabalho ao longo do caminho. Aquele ano tinha mais alunos do que nunca, visto que todas as turmas de 1996/1997 repetiram.

Hermione se sentia surpresa por não se sentir mal por isso. Com os Comensais dominando Hogwarts, ela não pudera frequentar um único dia de aula sequer; e os alunos que frequentaram não tiveram um ano produtivo. Se dissessem para a Hermione do primeiro ano que ela só se formaria aos dezenove anos, ela enlouqueceria. Riu, alegre e nostálgica.

Ela observava a paisagem verde pela janela enquanto o trem partia. Draco estava do seu lado; era o único lá além dela. Com a batalha, as mortes e as propostas de emprego no Ministério da Magia, a equipe dos monitores veteranos se quebrara no meio. Havia apenas um monitor do sétimo ano em cada Casa. Hermione sentia certo orgulho por ter resistido até lá.

— Deve ser estranho para você voltar — comentou Draco.

Ela sorriu. Não passara pela sua cabeça conversar com ele. Não guardavam rancor um do outro, porém também não tinham assuntos em comum para tratar. Hermione imaginou que o silêncio incomodava Draco, e não viu motivos para não mudar isso.

— E é mesmo — confirmou, voltando-se para ele. — Mas é ótimo. Eu estou naquela fase maravilhosa de não temer mais nada.

Draco estava diferente do que ela se lembrava. O sorriso era mais aberto, os olhos cinzentos brilhavam mais, a voz ressoava com mais suavidade. Provavelmente era resultado da mudança de opinião que ela tinha acerca do sonserino: sob um ponto de vista amigável, ele naturalmente pareceria mais amigável.

— Ainda bem que tudo passou. — Ele soltou as palavras no ar. Esperava que Hermione seguisse para outro assunto. Contudo, ela fugiu do seu plano:

— Deve ter sido difícil para você.

Draco desviou o olhar, constrangido. Admirava a empatia de Hermione, mas ainda era difícil para ele falar sobre isso.

— Não tanto quanto foi para você.

Hermione abriu um sorriso delicado, na tentativa de não assustá-lo com o assunto, e colocou a mão em seu ombro. Ele voltou a olhá-la nos olhos.

— Se ainda estiver se sentindo culpado pelos anos anteriores, saiba que eu já o perdoei — declarou ela. — E não guardo rancor algum. Você cresceu num contexto que o forçou a fazer todas aquelas coisas, e os seus pais passaram pelo mesmo, é cíclico. Você destruiu essa herança de discriminações e é isso o que importa.

Draco assentiu com ar de alívio; realmente, não havia sentido em penalizar-se eternamente pelo passado. Hermione tirou a mão de seu ombro.

— Agora que tratamos do assunto sério — começou ela —, vamos para a parte divertida. — Seu tom ganhou empolgação e seus olhos se atentaram. Sua postura mudou com o conforto que a situação lhe proporcionava. — Como vamos organizar a monitoria durante esse ano?

Ela nunca perderia seu amor pelo planejamento. Não havia mais por que temer pela sua vida, mas temer pela ordem em Hogwarts parecia-lhe uma causa nobre. Já tinha diversos planos, desde feitiços para detectar alunos perambulando pelo castelo depois do toque de recolher até projetos de grupos de estudo para todos os anos.

— Ansiosa para quando for proclamada monitora-chefe? — Draco brincou, entrelaçando os dedos sobre seus joelhos.

— Não estou assumindo que serei a chefe — defendeu-se no mesmo tom —, mas caso isso aconteça, o que tem muitas chances de acontecer, não assumindo isso como uma certeza, eu tenho que estar preparada.

Ele riu. Não tinham conversado nenhuma vez desde seu julgamento, quando ela apenas lhe desejou boa sorte brevemente. Nunca tinham sido capazes de imaginar que um dia conduziriam um ao outro em um diálogo amistoso, como se isso fosse habitual. A guerra do mundo bruxo morrera e levara junto a rixa que havia entre os dois.

— Não consigo pensar em ninguém mais digno do cargo — admitiu Draco, com um riso nasalado.

— Você também daria um bom monitor-chefe. — Ela o analisou brevemente. Não queria acabar com a leveza do diálogo, mas sentia-se enciumada pela atenção que Draco potencialmente receberia da Diretora McGonagall. Sim, ele tinha as boas notas e a responsabilidade que um monitor-chefe deveria ter, mas esse cargo era dela. O destino marcava seu último ano com esse título, ela sentia.

Sentindo a aura de inquietação que dominara Hermione, Draco ajeitou-se em seu assento, como se estar um milímetro fora do lugar pudesse derrubá-lo. Optou por mudar de assunto:

— Como foram as férias?

Ele observou perifericamente os campos que estavam do lado de fora do trem correrem enquanto Hermione se recostava sobre a janela. Sentiu, pela primeira vez, a diferença daquele ano para todos os outros da sua vida. Não havia mais amarras em sua mente. Sua vida, a partir daquele momento, seria especial.

Sentiu também que algo diferente se aproximava. Naquele momento, não temia o que estava por vir, o imprevisível. Como Hermione, não devia mais nada a seus medos.

— Passei a maior parte do tempo sozinha em casa — contou ela. — Visitei A Toca algumas vezes, junto com Harry. Ele e Ron prometeram não destruir o mundo enquanto eu não estiver por perto e eu fiquei me sentindo mais leve. — Ela fez uma pausa, olhando para os próprios pés. Seu corpo estava retorcido, de forma a conseguir ficar de costas para a parede de trem e se repousar nela, mas ainda com as pernas colocadas no lugar usual do assento, com algum deslocamento na posição. Imaginava que colocar-se de forma mais casual deixaria Draco mais à vontade, embora ele mantivesse uma postura impecável, digna de um príncipe. — Será difícil ficar sem eles.

Ela pensava nisso como uma dolorosa, porém passageira, fase. Seu namoro recém-começado não evoluiria até suas próximas férias e suas amizades de anos não estariam mais lá. De repente, todos os momentos em que Rony e Harry a irritaram se tornaram saudosos. Estava dividida entre a vontade de revivê-los e a ansiedade de seguir em frente.

— E as suas férias, como foram?

Dessa vez, Draco permitiu a si mesmo se apresentar de outra forma. Encostou-se na parede oposta à de Hermione e deixou os pés sobre o banco, deitado com as pernas recolhidas. Então abraçou suas próprias pernas, como se pudesse usá-las de escudo contra as memórias desconfortáveis. Ele tinha que passar por cima disso.

— No começo, estava tudo meio estranho com os meus pais. — Ao contrário do que ele imaginara, as palavras não saíam com dificuldade. Era como se elas derretessem, criando um rio de libertação para fora de sua boca. — Mas nos acabamos nos acostumando com tudo. Eles se permitiram mudar, e eu fiquei surpreso. Positivamente, sabe? Claro, eles ainda estão se adaptando a tudo. Acho que os erros mais idiotas são aqueles mais difíceis de serem percebidos e corrigidos.

— Não se preocupe com isso — encorajou Hermione. Ela levou as pernas para o banco, ficando na mesma posição que Draco. — É só uma questão de tempo.

— Eu acho que sim — assentiu esperançoso.

Hermione o olhou afetuosamente, ao que Draco reagiu com um leve rubor nas faces pálidas. Parecia que ela sempre sabia como se manter acima de tudo.

— Aposto que suas férias não foram só isso — disse ela. Pelo que conseguia prever, levá-lo para um caminho diferente o distrairia de suas lembranças da guerra. Além disso, ela não tinha muito mais o que dizer; preferia simplesmente ouvir.

Era engraçado. Ela não se lembrava de ter ouvido a voz de Draco por tanto tempo alguma vez na sua vida, e nunca esperaria que um dia fosse querer ouvir mais.

Draco pensou um pouco sobre o que mais tinha a ser contado. Tinha aquela garota, Astoria, mas, se Hermione não tinha falado nada sobre Rony, era porque romance não era um assunto relevante naquele momento. Esforce-se um pouco, Draco, pensou. Deve ter algo relevante.

Então ele se lembrou de uma experiência.

— Fui num show de uma banda trouxa. — A lembrança o fez abrir um sorriso. — Para ver como era.

Ela se empolgou com a história.

— O que achou?

— Curioso — contou ele, soltando as pernas. — A música era muito diferente, bem mais tranquila. Os instrumentos pareciam funcionar de um jeito diferente, eles manejavam tudo de uma forma muito complicada. — O olhar dele se perdia enquanto ele recuperava suas lembranças. Hermione via certo ânimo brilhando em seus olhos; era uma cena inédita para ela. — Mas também foi uma ótima experiência para conhecer melhor o mundo trouxa. As letras eram interessantes, sabe?

Fazia tanto tempo que Hermione não tinha contato com a mídia trouxa. Ela nem sabia mais quais músicas tocavam no rádio, quais filmes estavam em cartaz no cinema, quem eram os âncoras dos telejornais mais influentes, que programas os canais abertos estavam exibindo. Devia ser assim dali para frente. Quando estivesse formada e trabalhando em seja lá o que fosse, o mundo trouxa seria para ela um universo paralelo. Seria curioso pegar-se futuramente sendo surpreendida pelas invenções tecnológicas que seriam criadas, as mudanças no parlamento, as notícias sobre economia e esportes. Ela estaria como Draco, maravilhando-se com um show de uma banda que estaria em alta e pensando em como as vidas de todas aquelas pessoas do público eram totalmente diferentes da sua.

— Você se lembra do nome da banda? — questionou.

Draco franziu o cenho.

— Hm... The alguma coisa.

— Ah, sim, como quase todas as outras bandas — ironizou ela.

— Eu não vou conseguir me lembrar do nome de todas as bandas trouxas! — O tom de Draco era uma mistura de brincadeira com obviedade.

— Não é tão difícil. Bandas bruxas têm nomes muito mais excêntricos. Como Os Duendeiros.

— Isso não é tão estranho — protestou Draco, falando com hesitação. Sabia que estava errado.

A voz alegre de Ernesto interrompeu o diálogo:

— Crianças alocadas!

— O que exatamente vocês fizeram? — perguntou Draco.

Hermione vira Draco conversando com os outros monitores antes de entrar no trem e ambos pareciam ter se acostumado rapidamente à mudança no comportamento de Draco. Sabia que Ernesto era receptivo e que Padma realmente cobraria alguma mudança depois de tudo o que ocorrera no ano anterior; fazia sentido.

— Ernesto inventou um sistema de arranjo de grupos entre os novatos — explicou Padma, entrando na cabine e sentando-se. Ernesto se sentou do seu lado. — Consiste em colocar nas cabines um arranjo de três alunos novatos e três primeiranistas que refarão o ano de acordo com o lugar onde eles moram, porque ele achava que crianças que moram em cidades próximas se dariam melhor.

— É provável que elas tenham experiências parecidas — justificou-se Ernesto.

— O problema — continuou Padma, ignorando o amigo — é que nós não conhecíamos todas as cidades, e tivemos que pedir instruções geográficas para muitas delas. E elas nem sempre explicavam direito.

— Isso não é um problema — defendeu-se Ernesto, voltando-se para Padma como se estivesse ofendido. — É só nos adaptarmos. Nós avisaremos a Professora McGonagall para ela avisar os monitores do ano que vem de onde cada um dos alunos novos vem, para eles pesquisarem tudo e conseguirem se organizar previamente. — Ele voltou a virar para frente, encarando o nada com seriedade, o que causava um contraste cômico com seus traços suaves e sua voz de tenor que ainda não amadurecera totalmente. Falou pausadamente: — É uma questão de adaptação.

E Hermione sentiu, por intuição, que a adaptação de que Ernesto falava se estenderia para muitas outras áreas da sua vida naquele ano.

Notas finais
O que acharam? Sendo sinceros. Toda crítica, positiva ou negativa, é válida quando tem justificativas ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.