Dramalhama

3 Capítulo 1


Cabo Frio, Brasil, abril de 2002

Não sei dizer quem estava mais surpresa de me ver ali, na diretoria. Eu ou Sueli, a diretora. Bom, surpresa pode não ser a palavra mais adequada. Embasbacada. Confusa. Sueli olhava feio pra mim, através dos óculos. Ela usava o cabelo curto e loiro solto. Estava usando um vestido azul longo.

"Estou sem palavras. Você é a última pessoa que eu esperava ver aqui. Talvez por motivos emocionais, ou pelas notas, mas nunca por se alterar com um professor! O que está acontecendo contigo, Júlia? As suas notas estão caindo, e alguns professores andam reclamando que você está desmotivada. E agora esse incidente no mínimo desagradável..."

"Na verdade, Sueli, fui eu que pedi pra ele me mandar pra cá"

O Instituto Laffayette era uma escola pequena, com apenas 300 alunos. Uma das muitas escolas particulares da minha cidade, Cabo Frio, e com certeza uma das menores. Embora a diretora tivesse essa visão de se inspirar em escolas internacionais para adquirir novas técnicas e métodos de ensino. Isso significava que nós trocávamos de sala e não tinhamos provas formais até o ensino médio, o que me gerava uma insegurança incrível até hoje. Ainda tínhamos a informalidade brasileira de chamar nossos professores pelo primeiro nome. As vezes, no entanto, as coisas ficavam informais demais. Como agora, com a minha visita à sala da diretora por fazer um escândalo com o professor.

Sem coragem de encarar a Sueli, me limitei a fixar o olhar no copo plástico que estava segurando, com água pela metade.

"Walter estava sendo ridí... quer dizer, ele estava sendo injusto." Corrigi a tempo, ao ver o jeito como ela me olhava. "Por que inventar um sistema de recompensa que só ajuda os cdfs?"

"O que você quer dizer com um sistema de recompensa?"

"É que ele criou umas notas falsas de dinheiro, que ele dá pros alunos que fazem os deveres primeiro, ou que respondem às perguntas dele mais rápido. Tipo ponto pra prova. Essas notas abonam questões da prova."

"Como assim?"

"Quem tem um certo número pode comprar uma ou outra questão, e não precisar responder."

"O que isso tem a ver com o escândalo na sala de aula?"

"É, ele estava fazendo umas perguntas que valiam essas notas. E tipo, eu tenho dificuldade em Física, e pela primeira vez desde que ele entrou aqui, eu sabia a resposta da pergunta que ele fez na hora. Mas fiquei nervosa e gaguejei, então ele foi pro Igor, que nem precisa dos pontos. O Igor respondeu na mesma hora que eu me corrigi, mas o Walter me ignorou solenemente.. Pode perguntar pra qualquer um na sala. E aí eu fiquei meio alterada..."

Ela abaixou o olhar pro bilhete azul na frente dela.

"Ele diz aqui que você subiu na carteira, enquanto gritava: Eu quero meu dinheiro."

"Isso é calúnia!" falei mais alto do que pretendia "Eu usei os lápis como baqueta e bati na carteira."

"Julia! Nós tentamos dar aos alunos um pouco de autonomia pra fazerem escolhas e lidar com as consequências, mas não pretendo, e não vou passar a mão na sua cabeça quando você apresenta esse tipo de comportamento! Você atrapalhou a aula de Física..."

"Eu aprendi aqui a defender o que acredito. Só lutei contra uma injustiça.", falei cruzando os braços.

"... por motivos frívolos. Só não sei se você estaria lutando com tanto afinco, se não fosse pelos seus próprios interesses. Mesmo assim, acho que pelo menos é bom ver que se interessa por alguma coisa"

Dei de ombros, ainda olhando fixamente pro copo d'água, agora vazio. Comecei a fatiá-lo entre os dedos, distraidamente, enquanto ela continuava a falar.

"Apesar desse incidente lamentável e das suas desculpas", ela continuou, "você não pode negar que o seu desempenho piorou muito este ano. Estou muito preocupada. É por isso que decidi te fazer uma pergunta e uma sugestão. Você já sabe pra onde vai prestar vestibular"?

"Não tenho a menor ideia. Qualquer coisa que não seja matemática".

Sueli pegou abruptamente o copo parcialmente fatiado da minha mão e jogou no lixo.

"Desculpa, o barulho estava me dando aflição".

"Foi mal".

"De qualquer forma, eu soube que hoje é seu aniversário. Parabéns".

"Ahn? Obrigada" falei, confusa pela mudança repentina de assunto.

"Então, eu tive uma ideia. Não vou te mandar uma advertência. Presente de aniversário. Mas eu quero que você me faça um favor. "

"Quê?"

"Meu filho foi pros Estados Unidos uns dois anos atrás. Não sei se vocês se conhecem..."

Sério mesmo que ela estava tentando me arranjar pro filho dela? Isso seria tão esquisito que eu nem sabia o que responder...

Ela pegou um porta retrato que estava virado pra ela, e entregou pra mim. Na foto, o filho estava na frente de uma casa de tijolos avermelhados, com uma bandeira dos Estados Unidos na frente.

Meu deus, ela estava mesmo tentando me colocar na fita do filho dela. Tudo bem que ele não era horroroso, mas mesmo assim, cadê a ética?

"Ele andava temperamental, irresponsável, e voltou mais maduro e com um brilho diferente no olhar. Aprendeu até a cozinhar! Sem falar que o inglês abre muitas portas pra você".

"Desculpa, mas eu não entendi o que você quer que eu faça ."

"Eu quero que você converse com a sua mãe. Não sobre o incidente hoje. Eu vou conversar com o Walter, depois de falar contigo".

"Então..."

"Sobre intercâmbio."

Aquilo é que era surpresa.

"Tá. Eu sempre gostei da ideia de fazer intercâmbio, e já falei com ela sobre isso, mas ela nunca deixou... É que eu queria ir pra um país que falasse espanhol, tipo o México, e ela acha um absurdo". expliquei, sorrindo um pouco.

"Bom, você decide. O que importa é a diferença que essa experiência faria no seu currículum e na sua vida. Você vai usar mais o Inglês em qualquer lugar do mundo, eu te garanto. Só me faz esse favor e fala com a sua mãe, tá bom? Pode ir, o sinal já vai tocar."

Levantei e abri a porta, sem olhar pra trás. Vai que ela mudava de ideia sobre o castigo...