Dragões de Cristal
2 Prólogo
Notas iniciais
PRÓLOGO
— Vamos, se já terminou de comer é a hora de ir para a cama! — a mulher, bela e de olhos amendoados, recolhe a mesa do jantar da pequena cabana da família, afastada e silenciosa.
— A senhora promete que me conta uma história antes de dormir? — eufórica, longe de sentir a mínima vontade de dormir, a pequena menina pula da cadeira saltitante, com sua camisola florida rodopiando em volta de si.
No canto da mesa, o anfitrião da família sorri, admirando a pequena obra de arte que ajudou a ser criada, com o amor da sua vida. A menina, com seus cabelos e os olhos estreitos da mãe, é uma perfeita junção de ambos em um.
— Sim, brotinho, conto a história pela milésima vez para você, se apresse e me encontre em sua cama, deitada e embrulhada. Vou apenas passar um pano na mesa.
Dando um gritinho estridente, a criança sobe as escadas correndo, se enfiando às pressas debaixo da coberta leve e afofando o travesseiro cheio antes de repousar a pequena cabeça sobre ele e aguardar pacientemente a mãe.
Após acabar de organizar a louça do jantar e dar um beijo no marido, a mulher sobe ao quarto da filha, sentando-se ao lado da menor e esperando ela se encolher ao seu lado aguardando ansiosa uma história que já ouviu inúmeras vezes.
— Há muito, muito tempo, dois melhores amigos fundaram um reino em uma cidade de terra batida, lama nas estradas e mofo pelas paredes, um lugar esquecido pelos demais. Esse reino foi crescendo extremamente devagar, com colheitas pequenas durante estações longas e sofridas. Porém, cada vez mais seres chegavam, nasciam e cresciam nele, vindo de todo canto do nosso mundo, aumentando as bocas a serem alimentadas e as mãos de obra para construir a cidade e reconstruir o apodrecido pelo tempo.
— Muitos seres, mamãe?
A mulher assente, com face certeira.
— Sim, muitos e muitos. Ao longo dos anos houveram muitas misturas desses seres entre si e novas criaturas foram criadas dessa mistura. Os dois amigos, percebendo como o reino, de início minúsculo e pouco populoso, se tornou algo grandioso e crescente, partiram para regras, condutas e reinados. — com a voz séria, concentrada, a mãe narra para a pequena fazendo carinho nos cabelos macios dela — Mas surgiram desavenças. Ambos não estavam mais em harmonia, as ideias para seus comandos eram contrárias e nada os fazia concordar.
— Amigos tem que se ajudar, não é?
Ela assente novamente, continuando com o carinho com calma.
— Eles não queriam se ajudar, queriam cada um governar de um modo. E se separaram. Depois de anos de brigas, deixando seus súditos confusos, perdidos, sobre quem e o que deveriam obedecer ou seguir, um dos amigos se revoltou com o outro e foi para outro lugar. Além do mar, longe daqui, levando consigo os mais fortes daqueles seres que surgiram em nosso reino, deixando o outro com um reino recheado de seres que se achavam inferiores por não serem escolhidos para o outro reino. Com raiva, o rei que restou decretou inimizade total com o ex-melhor amigo, porém em respeito à quase irmandade deles, permaneceu quieto e tentando manter seus súditos em um bom estado.
— Coitado dele, o irmão o abandonou, ele ficou sozinho e precisando se virar com um montão de gente.
— Sim, brotinho, ele deixou seu amigo sozinho e desamparado, com muita coisa para cuidar sem ninguém. E o outro lado do mar ficou para seu melhor amigo, que foi egoísta e ambicioso, julgando que nós, o que restou desse lado, somos inferiores àqueles que ele levou consigo.
Terminando a história omitindo a parte das guerras, das mortes dos entes queridos de ambos, das vinganças que duraram anos e de como o povo de Kristallys sofreu com as lutas sangrentas deles, mãe e filha cochilam agarradas uma à outra, idealizando um reino perfeito onde os dois amigos teriam criado algo grandioso desse lado do mar.
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