Dragon's Son
3 Livre - Primeira Parte
Notas iniciais
Acordei na minha cama, com o corpo dolorido por ter usado tanta mágica sem estar acostumado. Eu não queria despertar. Sabia o que teria de enfrentar quando estivesse consciente. Minha relutância em despertar retardou minha recpção do ambiente a minha volta. Quando senti a pressão mágica ao meu redor eu abri os olhos. O quarto permanecia intacto, como eu me lembrava, a não ser pela parede de energia que me isolava de todo o resto. Quando me levantei o feitiço se desfez, me fazendo descobrir que não era uma prisão, mas uma proteção. Alguém lançara o escudo para impedir outros de chegar perto de mim. Tomei um banho, me troquei e fui ao refeitório, pela hora duvidava que conseguiria algo para comer, mas estava faminto. Estaquei na porta, meu pai, minha mãe e meus irmãos conversavam sentados numa mesa. Era óbvio que não era uma conversa amigável, meus irmãos discutiam com nosso pai, enquanto nossa mãe tentava manter todos calmos. Nem precisei ouvir para saber o tema da discussão. Me aproximei devagar, adiando o confronto iminente. Alguns passos e ficou óbvio que meu pai pretendia lançar outro selo sobre mim. Assim que cheguei perto deles a conversa morreu. Quase dei risada da cena. Fiquei de pé encostado numa mesa próxima da deles.
— Essa é uma discussão inútil.
— Quê?
— Eu não vou ser aprisionado uma segunda vez.
— Mas... — começou meu pai.
— Eu não vou voltar a ser o elo fraco da família. Muito menos transformar meus irmãos em reféns da minha condição.
— É para sua segurança, e dos outros.
— Não! Isso não é sobre mim a muito tempo. Tudo que você quer é controle pai. Você não suporta saber que não pode me controlar.
— Meça suas palavras, rapazinho! — ele se alterou.
— E por que eu deveria? O senhor jamais mediu as suas.
— Erik! — minha mãe me repreendeu.
— Não importa. — eu disse. — Isso não muda o fato de que não vai ter outro selo. E esta não foi uma decisão só minha.
— Do que você está falando? — minha mãe perguntou.
Olhei para meus irmãos.
— Não contaram pra eles?
— Oh! — Alex pareceu se lembrar de algo importante. — Mãe, pai, vocês tinham que ter visto aquilo.
— Foi incrível! — Gabriel interrompeu.
— Até os professores ficaram impressionados.
— Do que vocês estão falando? — meu pai pareceu impaciente.
— O Erik, ele fez uma convocação. Ontem. — disse Alex.
— Convocação?
— Sim. Ele pediu uma audiência com Wirna. E foi atendido.
— A Deusa... estão dizendo que ele convocou Wirna, a Deusa do Tempo e Espaço?
— Sim. — respondi. — Pedi que ela abençoasse o ritual que usei para desfazer o selo e ela aceitou.
— Impossível. — a cara de incrédulo do meu pai era risível.
— Então explique isso. — disse, mostrando a corrente envolta no meu pescoço, o pingente preso a ela. — Prata Lunar, um presente inesperado, mas prova que contamos a verdade.
— Mesmo assim. É arriscado demais. Você pode perder o controle.
— Tudo bem. — disse por fim, me dando por derrotado. — Você pode colocar um novo selo, mas tenho condições.
— Condições?
— Sim. Se tenho que ser preso, quero que seja na solitária. Eles estão fora disso. — apontei para Gabe e Alex. — E também quero continuar aqui, estudando.
— Humm... — papai ponderou por um tempo, mas ele sabia que aquilo era o melhor que arrancaria de mim. — Feito!
— Erik! Não! — Gabriel tentou me impedir.
— Relaxa! Esse é o melhor jeito de terminar com isso. — eu disse tirando a corrente do pescoço e com um balanço ela se tornou uma pulseira prateada.
Meu pai pegou a jóia e a colocou em meu pulso, ouvi ele pronunciando os encantos do ritual com a mão sobre a prata. De repente senti meu ombro queimar. E vi o selo da deusa aparecer atrás de mim. Minha mãe arfou em surpresa. Meu pai ignorou. Meus irmão ficaram tensos. A prata emitiu um brilho e as inscrições do selo ficaram marcadas nela.
— Pronto! Viu como não foi tão ruim.
— É tem razão. — eu disse.
Como se para contradizer a opinião dele, meu ombro queimou com mais força e eu gemi de dor. Caí ajoelhado, segurando o ombro enquanto minha mãe tentava ver o que era, beirando o desespero. Quando ela conseguiu tirar minha mão do caminho e puxou minha camisa, ela viu o pentagrama com a lua minguante, era o mesmo selo que eu havia visto durante o ritual que acabara de ser feito. A queimação correu pelo meu braço até o pulso e as correntes da pulseira brilharam, cada vez mais, até que o objeto se desfez por completo.
— O que significa isso?
— Ao que parece, a deusa não gostou de ser contrariada.
— Não seja insolente. A deusa não tem tempo para disperdiçar com questões tão pequenas.
— Se pensa assim, vai em frente faça de novo.
Ele olhou nos meus olhos, acho que procurando qualquer sinal de medo ou dúvida. Não deve ter encontrado, pois ele criou uma segunda pulseira e voltou a recitar os encantos. Antes mesmo dele terminar a pulseira vibrou e com um brilho intenso se desfez.
— Pai. — eu disse calmamente. — O senhor é mais esperto que isso. Não entende que a marca no meu ombro vai anular este ritual sempre, não importa quantas vezes você o fizer.
— Então encontraremos outro. Um que não possa ser anulado.
— Querido. É a vontade da Mãe. — era encantador ver a devoção de minha mãe pela deusa. — Nada pode combater a vontade Dela.
— Eu não vou desistir sem uma boa luta! — exclamou meu pai já nervoso.
— Chega! — gritei. — Não há sentido em lutar uma batalha perdida. Eu aceitei de boa vontade a sua decisão, mas este claramente não é mais o meu destino. Se não tem outro assunto a ser discutido, eu vou procurar comida.
Me virei e saí rumo a cozinha. Senti uma oscilação no ambiente e o feitiço que se seguiu veio certeiro em minha direção. Antes que eu processasse esta informação, senti algo envolver minhas mãos e um objeto cortando o ar ao meu redor. O feitiço do meu pai bateu em uma barreira sólida. Só quando o clarão passou que pude ver que usava um par de luvas negras, com uma parte da dragonita encrustada em cada uma. Das pedras saía uma corrente que girava em espirais ao redor do meu corpo, protegendo-o. Assim que o perigo passou a corrente se retraiu até sumir dentro das pedras. Seja o que forem aquelas coisas eram independentes, eu não as fiz aparecer e muito menos sumir. A pulsação na pedra lembrava um coração e esse novo instinto protetor era estranho, mas útil. Consegui algo para comer com uma das funcionárias e fui para a sala de aula. A aula de Encantos já passava da metade e o prof. Ryo parecia surpreso em me ver. O cumprimentei cordialmente, me desculpando pelo atraso e fui me sentar. Ainda trabalhávamos com as placas de metal, alguns alunos usando fogo, outros água. Nenhum tão atrasado quanto eu. Coloquei a placa de pé a minha frente e me concentrei no ar a minha volta, esperando a resposta imediata como o fogo na tarde anterior, mas não consegui fazer nada.
Eu senti a magia no meu corpo circular e senti a força do elemento ao meu redor, mas não consegui que ele respondesse ao meu comando.
— Algum problema senhor Starkiller? — o Prof. Ryo estava na frente de minha mesa.
— Eu não consigo. Ontem parecia tudo tão fácil, eu não entendo.
— Erik... a magia do nosso mundo possui três pilares: motivação, concentração e determinação. Sua concentração reflete na intensidade de seus encantos, a determinação reflete na precisão e eficácia. E a motivação é como um fator crítico que age como concentração e determinação juntas. Ontem você foi altamente motivado pelo senhor Rafael, isso fez com que sua magia respondesse com tanta eficácia e intensidade. Entretanto em situações comuns, você precisa se valer da concentração e determinação para seus Encantos. Prática é o único meio de alcançar seus objetivos.
— Vou me esforçar mais. — respondi, voltando a me concentrar no exercício.
Não imaginei que precisaria suar tanto para conseguir derrubar uma placa de metal usando o ar. Demorei toda a aula para obter sucesso uma única vez. Ao toque da sineta, aproveitei enquanto todos saíam da sala para conversar com o professor. Precisava de ajuda para alcançar a turma e talvez ele pudesse me indicar um caminho.
— Verei no que posso te ajudar, mas antes quero fazer um teste. — disse ele colocando uma placa de pé na mesa. — Concentre-se no elemento fogo e aqueça a placa.
— Tudo bem.
Respirei fundo e mantendo contato visual com a placa foquei-me no fogo e o calor que provinha das chamas, senti meu corpo formigar e se aquecer, então aos poucos o centro do metal foi mudando de tonalidade e isso foi se espalhando até que a placa parecia metal em brasa. Eu havia conseguido. A animação quebrou minha concentração e comecei a ofegar, aquilo foi cansativo, mas prazeiroso.
— É o que eu imaginava. Você tem uma afinidade maior com o fogo, talvez por conta da dragonita que você carrega.
— Obrigado. Pelo menos eu sei que consigo, mas vou me esforçar mais com os demais elementos, não quero ficar pra trás ou atrasar a turma.
— Eu sei que vai conseguir.
Saí da sala e corri para chegar a tempo na aula de Rituais. Quando entrei na sala os outros já estavam acomodados, acenei respeitosamente para a professora e sentei. Como se estivesse apenas me esperando a Profª Helena, levantou e começou a explicar sobre um ritual que se executado corretamente poderia localizar qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo.
— Qual a falha desse ritual? — indagou ela, e ninguém parecia disposto a arriscar.
Ergui a mão.
— É preciso algo pessoal daquele que se deseja encontrar.
— Errado. — ela disse sem pestanejar. — A maior falha deste ritual é que ele não é exato, ele não vai te mostrar exatamente onde a pessoa está. Ele vai apontar um lugar, como uma cidade por exemplo, mas nada mais detalhado que isso.
Corei com meu erro.
— Hoje vamos tentar usar este ritual para localizar pessoas. Nesta caixa estão pertences de algumas pessoas e quero que vocês anotem o objeto que usaram no ritual e o resultado que obtiveram nele.
Logo todos estavam pegando um objeto da caixa. Esperei ficar mais vazio e fui pegar algo para mim. Pesquei uma caixinha de música da caixa, pois achei o objeto bem diferente. Já na mesa separei papel e caneta pra anotações. Seguindo as instruções da professora, anotei tudo que pude sobre o objeto. “Uma caixa de música antiga, aparentemente sem indícios de magia e funcionando bem. Era constantemente aberta e ouvida, pois o mecanismo de dar corda estava gasto e a tampa um pouco frouxa.” Depois comecei a preparar o ritual. Fiz um círculo de hervas na mesa, salvia para afastar impurezas e cedro para canalizar a energia do portador do objeto, dentro coloquei a caixa de música e um mini-globo terrestre. Inspirei o aroma das ervas, me concentrando em buscar e revelar. Por fim acendi o círculo com um fósforo. Tudo se acendeu de uma vez, formando um anel de fogo, continuei me concentrando e aguardava o ritual fazer efeito, em algum momento minha concentração vacilou e lembrei-me do refeitório, das correntes que me protegeram e a dragonita do meu pulso. Senti palavras roçando minha mente e antes de pensar nisso sussurrei:
— Revelio Incantatem!
O globo começou a girar rápido, então parou com o continente americano virado para mim. Então minha visão se focou no Brasil e o resto do globo foi ficando mais turvo à medida que minha visão se focava mais e mais em um ponto. Do país para o sudeste, dali para o estado de Minas Gerais, do estado para uma região do interior, dali a imagem mudou do mapa para uma visão de um lugar, árvores altas e de copa fechada impediam a entrada da luz, eu estava cada vez mais perto, mas sabia que não era para o dono da caixinha de musica que eu estava indo, aquele ritual era forte demais e estava fora de controle.
— Erik! – meu nome na voz da professora rompeu minha concentração e eu voltei da visão da floresta como se tivesse levado uma estilingada.
Eu arfava e ainda vislumbrei as chamas em minha mesa tremeluzirem antes de incinerar o globo numa língua de fogo. Olhei para a professora, me desculpando e buscando explicações.
— O que você viu? – ela foi direta.
— Eu... Eu não sei. – tentei dizer que não tive culpa. – Estava seguindo as instruções, usei a salvia e o cedro, coloquei a caixa de musica e o globo no centro, me concentrei e acendi o fogo. Então... – tentei lembrar do que houve. – me distraí um segundo, pensando no meu pai e na dragonita. – lembrei das palavras em minha cabeça. – alguém sussurrou Revelio Incantatem e eu repeti sem pensar. Me... me desculpe, eu não sei o que fiz.
— O que você viu? Até onde você foi? – ela estava me assustando.
— Brasil. Eu acho. Eu vi no mapa, um nome. Minas... Minas Gerais, depois uma floresta, densa, no interior do estado. Como assim onde eu fui?
— As chamas na mesa se ergueram por um instante e você entrou em transe, sua aura aprisionada pelo feitiço estava quase completamente dentro do globo. Quem você procurava?
— Ninguém... eu acho... eu só queria... respostas.
— Tudo bem. – disse ela encerrando o assunto. – Descance um pouco. Você parece exausto.
De relance eu vi algumas pessoas me encarando, algumas aterrorizadas, outras com desprezo e um ou dois preocupados, Daniel era um deles.
— Eu estou bem. – tentei parecer forte. – Gostaria de continuar se não for um problema.
— Na verdade tudo que você tem a fazer agora são as anotações.
Olhei confuso para a mesa e vi a caixinha de música intacta com um globo chamuscado sobre ela, um ponto marcado incisivamente, indicando Illinois, nos Estados Unidos. Dentro do círculo de cinzas como se escrito com fogo estava gravado “Theodora Croft”. Completei meu relatório e aproveitei para digerir o que vi e recuperar as forças, eu estava esgotado. E ainda teria as aulas mais pesadas pela frente. Ferraria, Equitação e a Natação iam me matar até o fim do dia. Me animei ao lembrar que antes disso teria o almoço e poderia vê-la.
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