—Agh, isso é entediante... — disse, enquanto ia a uma excursão pelo Monte Fuji. Moro perto de Tóquio, Japão. Esse tipo de evento é mais comum do que parece ser.

Eu sou um garoto relativamente normal. Não costumo falar com muitas pessoas e não tenho muitos amigos, mas não sou o que pode ser definido como antissocial. Meus cabelos são pretos e minha altura é mediana para minha idade. A única coisa anormal em mim são meus olhos. Eu realmente odeio essa cor vermelha que eles possuem devido a alguma idiotice genética.

Sobre a excursão, não havia nada de inovador ou interessante, ao meu ver. Era apenas um lugar alto, antigo e que ainda não caiu aos pedaços. Por alguma razão todos tratavam isso como um patrimônio natural. Eu não via sentido nesse tipo de coisa.

Depois de muito tempo a pé, o meu grupo chegou aos pés do Vulcão, aparentemente ativo, porém com baixo risco de erupção. Começamos a subir pela pequena estrada que circulava o monte, se aproximando cada vez mais de seu topo. Senti uma sensação esquisita, como se tivesse recebido uma descarga de energia no corpo. Isso sempre acontecia em momentos aleatórios, como quando estava cozinhando para a minha irmã (perdemos nossos pais aos 7 anos) ou quando estávamos acampando. Costumava ser nosso passatempo, pois a cidade era muito barulhenta e dolorosamente nostálgica.

Quando me dei conta, havia corrido mais do que devia e quando olhei para trás, não pude ver mais ninguém. Havia “acidentalmente” escalado o Monte Fuji.

Olhei para seu interior. A sensação estava cada vez mais forte. Poderia pular no vulcão a qualquer momento. Mas não precisei tomar a iniciativa.

—AAAAARGH! — gritei, enquanto uma criatura negra com asas incandescentes e olhos vermelhos saía do chão logo atrás de mim, com suas garras crepitando e avançando em minha direção. Assustado, dei um passo em falso para trás e caí no vulcão, indo diretamente na direção da lava em seu interior.

Lava...? O vulcão deveria ser praticamente inativo. Justo no dia da excursão ele despertaria novamente?

Sinto um súbito aperto no coração. Meus colegas de classe. Eles ainda estão escalando a montanha. Também iriam morrer de qualquer forma. A coincidência era tão ridícula que, enquanto despencava em direção à lava, um sorriso se formou em minha boca.

Quando relei no líquido ardente, não senti a pele queimando. Não senti o impacto devido à altura. Não senti dor. Estava afundando na lava, e ainda estava consciente, seguro, e acima de tudo, confortável. Eu me sentia em casa pela primeira vez há muito tempo.

—Mas... o que diabos está acontecendo? Eu... não entendo. Eu não deveria ser capaz de... espera, o que é aquilo?

Um meteoro. Havia um meteoro vindo em minha direção. Aquilo era ridículo. Sobrevivo a uma queda dentro de uma piscina de lava e um meteoro começa a vir na minha direção. Não poderia ter tanta sorte outra vez. Estava preparado para ser esmagado, quando de repente me dei conta de que estava flutuando no meio de uma porção de lava espalhada por um impacto, no meio de um vulcão em erupção, e uma espada com guarda em forma de asas — uma de anjo, e uma de demônio – que tinha sua lâmina crepitando em chamas estava apontada para meu pescoço, também flutuando.

—Sem chance... o que diabos é... o que está... — mal pude terminar a frase, quando vi que o monstro — junto com outras 6 cópias — estava investindo em minha direção com força e velocidade descomunais. Sem pensar, fiz a coisa mais estúpida que podia no momento. Agarrei a espada.

De repente, tudo parecia ter mudado. Meus sentidos ficaram aguçados. A sensação de antes havia atingido seu máximo. Senti a força percorrer meu corpo todo. A espada brilhou e sua lâmina tornou-se negra, com detalhes em forma de dragão na cor vermelha, dando a sensação de estava pegando fogo. As asas da guarda cresceram e se abriram. Meus reflexos pareciam desumanos. Num súbito, cortei com força o ar à minha frente e percebi o impacto que aquele simples movimento havia causado, destruindo facilmente as rochas e os demônios. A lava havia se distanciado de mim com o impacto e agora formava um círculo em volta de meu corpo. Uma bainha surgiu nas minhas costas e formou um cordão decorado com uma longa fênix dourada em torno do meu tórax. Guardei a espada e ela retornou a seu estado original.

Porém, enquanto pensava em como iria sair dali, mais dois demônios que haviam sobrado investiam na minha direção com uma velocidade ainda maior. Sem motivo aparente, empurrei minha mão na direção deles. Não sei por que fiz aquilo. Era como instinto. Simplesmente achei que era o certo a fazer. Quando me dei conta, a lava havia levantado e dançado em forma de dragões, e acabara de carbonizar dois monstros.

Tentei me concentrar na imagem de asas de fogo em minhas costas, o que era obviamente impossível. Mas depois do que acabara de acontecer, não duvidaria de mais nada. Com uma liberação de poder, as asas se abriram, e saí do interior do vulcão o mais rápido possível. Olhando agora, a situação parecia quase hilária.

...

Dei um abraço em minha irmã e me despedi dela. Parecia preocupada, mas quando seu irmão começa a soltar fogo e sair pelo mundo pra achar outras pessoas com habilidades semelhantes, era uma reação compreensível. Estava prestes a partir em uma viagem, com o objetivo de encontrar mais alguém que tivesse passado por alguma situação semelhante... seja quem for.

Notas finais
"Texto" escrito por Led