Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco

27 Começam os Jogos de Poder


A reverberação densa do ki de Tenshinhan propagou-se, ecoando simultaneamente no silêncio da Giudecca e nas trincheiras do Templo Submarino.

— Atena convocou novos peões — comentou Hades, a voz polida e absoluta ressoando pelas paredes úmidas do salão do trono de Poseidon. — Mas a manifestação limitou-se à Casa de Áries.

— Isso é o que ela permitiu que víssemos — rebateu Poseidon, relaxado em seu assento. — Aquela montanha deve estar infestada. O inimigo está suprimindo seus Cosmos nas demais casas.

O Imperador do Inferno estreitou os olhos por uma fração de segundo.

— A estratégia secular de Atena sempre foi a defesa vertical. Esperar que o inimigo suba as escadarias e morra pelo desgaste. — Ele caminhou lentamente ao redor do trono do Rei dos Mares, seus passos fúnebres não emitindo som algum. — Mas não jogaremos as regras dela desta vez.

Poseidon acompanhou com o olhar a marcha serena e analítica de Hades.

— Vamos fazê-los descer — sentenciou o deus do Submundo. — Vamos forçá-los a abandonar as casas e se revelarem primeiro.

Um sorriso de lado desenhou-se no rosto de Poseidon. Compreendendo a tática, ele se levantou do trono em um movimento fluido e caminhou até uma antessala esculpida em coral e mármore, onde um imenso espelho d'água repousava sobre um pedestal milenar. Hades o seguiu, com as mãos cruzadas nas costas.

A água turvou-se, projetando magicamente a topografia do Santuário grego. Hades apontou um dedo pálido para a imagem.

— Ela espera que nós subamos — começou Hades. — Mas vamos espalhar nossas forças por toda a península.

— Atena possui, no máximo, setenta e seis Cavaleiros disponíveis — ponderou Poseidon em voz alta, calculando o peso do exército adversário.

— Setenta e cinco — corrigiu Hades, o tom afiado como gelo. — Pégaso não é mais uma peça no tabuleiro. Aquele infeliz sobreviveu à minha espada, mas sua mente jaz em ruínas. Ele não nos dará o desprazer de lutar.

Acompanhando o raciocínio, Poseidon debruçou-se levemente sobre o espelho.

— Em vez de um a um — continuou Hades —, mandaremos uma maré. Meus Espectros terrestres e os seus soldados rasos. Por puro volume, já seremos a maioria esmagadora contra a escória de Bronze e de Prata.

— Enquanto defendem o perímetro, nós os manteremos sangrando — concluiu Poseidon, afastando-se do pedestal e caminhando de volta em direção ao salão principal.

Antes de sumir nas sombras dos imensos pilares, o Imperador dos Mares parou, virando o rosto por sobre o ombro para encarar o aliado.

— A única questão que resta, Hades...— Poseidon sorriu, e o som das correntes abissais do templo pareceu rugir em uníssono com sua voz. — é quanto daquele Santuário você espera que continue de pé…

Hades não respondeu. Ele analisou a projeção do Santuário na água uma última vez e, com a mesma facilidade com que as sombras engolem o entardecer, desmaterializou-se do reino de Poseidon.

Na Casa de Áries, o embate iminente entre Tenshinhan e Bian foi brutalmente interrompido pelo rugido do Egeu. Poseidon havia cumprido sua promessa.

As águas, que já haviam subido centenas de metros, triplicaram de volume em um piscar de olhos. Não era mais uma maré; era uma cordilheira líquida desabando contra as falésias. O impacto da água salgada contra a base do Santuário foi ensurdecedor, rasgando crateras no solo rochoso como se fossem alvos de bombardeio. Colunas milenares racharam e pedras estilhaçaram-se, lançando lascas afiadas pelos ares como granadas de fragmentação.

Pressionados pela força esmagadora daquela muralha de água, os Cavaleiros de Prata e Bronze que guardavam o pátio externo de Áries foram forçados a recuar bruscamente. Ali, o foco do ataque era absoluto: o oceano tentava engolir a entrada do Santuário de uma só vez.

Mais acima, das escadarias de suas respectivas defesas, Uub, 17, 18, Piccolo, Gohan e Trunks pararam nos umbrais de suas casas. A expressão de cada um endureceu ao testemunhar as toneladas de água que avançavam violentamente montanha acima.

No Salão do Grande Mestre, o impacto visual foi ainda mais assustador. Goku e Vegeta, guerreiros acostumados a ataques capazes de destruir planetas, recuaram meio passo de forma puramente instintiva. O olhar de ambos refletia a incredulidade: a onda monumental havia se erguido tanto que cobriu completamente a visão do céu, mergulhando o topo do Santuário em uma penumbra abissal.

A água despencou para afogar as Doze Casas.

Mas o impacto final nunca veio.

Uma explosão de luz dourada cortou a escuridão. O Cosmo de Atena se expandiu em frações de segundo, moldando uma cúpula gigantesca e intransponível que englobou todo o perímetro do Santuário. A torrente oceânica de Poseidon chocou-se contra a barreira divina, dividindo-se em duas cataratas furiosas que escorreram pelos flancos da montanha, incapazes de penetrar o escudo.

No fundo do Salão do Grande Mestre, Saori Kido mantinha-se de pé. Seus olhos estavam fixos na tempestade do lado de fora, o corpo tenso, segurando o Báculo da Vitória com ambas as mãos. A Deusa da Guerra não cederia um milímetro sequer de seu chão.

Hyoga saiu da Casa de Aquário num ímpeto. Aproveitando a proteção temporária que o escudo de Atena proporcionava, ele desceu as escadarias como um relâmpago branco. Passou por Capricórnio, Sagitário, Escorpião e Libra, sentindo a prontidão silenciosa e letal nos cosmos e kis de Trunks, Seiya, Gohan e Shiryu em seus respectivos postos. O Santuário estava vivo e de prontidão.

Quando seus pés tocaram o piso da Casa de Virgem, uma voz dura e rascante cortou o ar.

— Aonde pensa que vai, Cisne? — perguntou Piccolo. O Namekuseijin estava de pé no centro do salão, de braços cruzados, os olhos focados na escuridão aquática lá fora.

— Proteger o perímetro inteiro contra o oceano é um custo alto demais para Atena — respondeu Hyoga, parando abruptamente. O ar ao seu redor já começava a exalar uma névoa gélida. — Vou descer e congelar a maré.

Piccolo não mudou de postura.

— Essa sua barreira de gelo... ela pode ser destruída com impacto de energia pura?

— Sim, senhor Piccolo.

— Então avise os que estão lá embaixo na linha de frente. Assim que você congelar a água, eles devem detonar a estrutura de gelo — ordenou Piccolo, o tom seco e inquestionável de um general em campo. — Isso é um engodo. O inimigo quer nos soterrar sob o mar para nos deixar cegos ou nos forçar a sair de qualquer jeito.

Piccolo virou o rosto para Hyoga, o olhar analítico faiscando na penumbra.

— Congele a onda e mande os que estão na linha de frente despedaçá-la. Usem a armadilha deles como estilhaços contra quem estiver subindo.

Hyoga assentiu, reconhecendo a precisão letal daquela estratégia.

— Entendido, senhor Piccolo.

E, em um piscar de olhos, o Cavaleiro de Cisne voltou a descer as escadarias.

No grande salão do Castelo, Pandora parou de tocar.

Suas mãos pousaram sobre as cordas da harpa e as amorteceram, cortando o Réquiem no meio de uma nota. O silêncio que ficou era mais pesado do que a música havia sido.

Três tentativas. Três muros.

Ela sabia o que a barreira era agora: cosmo, refinado até a transparência, construído em camadas que não cediam à pressão porque não eram feitas de força. Eram feitas de precisão. Forçar a entrada era inútil. Ela havia aprendido isso na segunda tentativa e havia testado de novo na terceira apenas para confirmar o que já suspeitava: o arquiteto daquela barreira conhecia exatamente o que estava fazendo.

O plano espiritual estava fechado.

Então ela ia pelo físico.

— Minos.

O Juiz do Inferno avançou da sombra onde havia ficado em silêncio durante toda a batalha invisível. Ele era o maior dos três juízes em estatura, e o mais quieto. O que, em Minos de Griffon, não era passividade. Era economia.

— Eu preciso de olhos no mundo dos vivos — disse Pandora, sem preâmbulo. — Há um ponto na Terra onde minhas vítimas foram capturadas. O local da queda da nave. Vá até lá. Leve dois espectros. Quero saber o que há naquele lugar.

— O que estou procurando?

— Não sei ainda — disse ela. — É por isso que estou te enviando.

Minos não fez mais perguntas. Era uma das qualidades que Pandora apreciava nele.

No local da queda da nave, a três quilômetros da cidade mais próxima, Minos pousou na borda do perímetro e ficou imóvel por um momento, lendo o terreno antes de entrar nele. Giganto de Ciclope e Niobe de Deep pousaram atrás dele e aguardaram.

O que havia na frente não tinha explicação geológica.

Crateras. Várias, de profundidades diferentes, dispostas sem padrão, como se algo tivesse golpeado o solo repetidamente e em direções diferentes. As árvores ao redor haviam sido arrancadas pela raiz. Algumas estavam enterradas a cinquenta metros do ponto de origem, outras simplesmente haviam deixado de existir. O solo nos pontos de impacto mais profundos estava vitrificado, fundido pelo calor de uma energia que não era fogo comum.

Minos desceu para o centro do perímetro devagar, calculando a escala.

Isso não era de Pandora. O Réquiem dela não deixava marcas físicas. E os Espectros não tinham energia bruta suficiente para vitrificar solo.

Alguém com poder físico considerável havia estado aqui. Alguém com raiva suficiente para gastar esse poder sem conservar nada.

— Vasculhem — disse ele para Giganto e Niobe. — Tudo que encontrarem, me tragam.

Eles se dispersaram. Minos continuou caminhando em direção ao único elemento intacto no meio da devastação.

A nave estava assentada numa das poucas áreas sem cratera, levemente inclinada para o lado esquerdo onde o solo havia cedido, mas estruturalmente inteira. Era uma tecnologia que Minos não reconhecia: não grega, não divina, não de nenhuma civilização que ele havia catalogado nos séculos de serviço a Hades. O material da fuselagem era uma liga que ele não soube identificar.

Mas havia letras. Grandes o suficiente para serem lidas à distância:

CORPORAÇÃO CÁPSULA

Minos ficou olhando para o nome por um momento longo.

Não significava nada para ele. Mas Pandora havia dito que não sabia o que estava procurando. Às vezes o que não significa nada para o soldado significa tudo para o general.

Ele memorizou o nome.

Niobe retornou, segurando algo: um fragmento de tecido azul preso numa raiz exposta. Uma peça de roupa de criança, rasgada, provavelmente da fuga ou da captura.

Giganto voltou com as mãos vazias. Não havia mais nada. Apenas destruição, a nave, e o nome.

Minos olhou uma última vez para as crateras ao redor. Para a terra vitrificada. Para a escala do que havia acontecido aqui.

“Aliado de Atena”, pensou. “Um aliado com poder suficiente para fazer isso num acesso de fúria”.

Ele não sabia se devia informar Pandora com admiração ou com cautela.

Decidiu pela cautela. Com Pandora, era sempre a escolha mais inteligente.

Ele se virou para os subordinados.

— Espalhem-se e encontrem qualquer coisa que nos diga o que é a Corporação Cápsula. O ponto de encontro é aqui.

— O que devemos fazer quando a encontrarmos, Minos? — perguntou Giganto, os punhos cerrados em antecipação.

Minos fez uma pausa, o olhar varrendo a devastação grotesca em que estavam imersos.

— Não façam nada — sentenciou o Juiz, por fim. — Registrem. Não sejam vistos e não ataquem. Retornem para cá vivos e com informações relevantes.