O mármore da sala de visitas guardava o frio mesmo em pleno verão.

Draconia sentia o frio subir pelas solas dos sapatos enquanto esperava de pé no centro do tapete, exatamente onde a tia mandara que ficasse. As cortinas de veludo estavam fechadas desde a tarde. Alguém apagara metade das velas do lustre, e a luz que sobrava não chegava aos cantos, onde os comensais se encostavam às paredes, mascarados, quietos feito móveis. Cheirava a cera derretida e a lenha que ninguém acendera.

A poltrona do pai continuava onde sempre estivera, virada para a lareira apagada. Vazia. O Lorde das Trevas mandara trazer da sala de jantar uma cadeira de espaldar alto e a pusera bem ao lado, de modo que quem olhasse para ele teria de olhar também para o couro gasto onde Lúcio Malfoy costumava ler o Profeta Diário depois do jantar.

Alguma coisa pesada deslizou atrás dela, roçando a barra do vestido. Draconia não se virou. Sabia o que era pelo cheiro — porão úmido e carne crua — e sabia que virar seria pior.

— Então esta é a herdeira dos Malfoy.

A voz veio baixa, sem pressa. Ele não se levantou. Tamborilava os dedos longos e brancos no braço da cadeira, e cada toque fazia um som seco, de unha contra madeira.

— Sim, milorde.

— Lúcio falava muito de um filho, sabe? — Os olhos vermelhos percorreram-na devagar, dos sapatos ao rosto. — Do filho que teria. Do nome que passaria adiante. Imagino que tenha se resignado à ideia, com o tempo.

Junto à lareira, a mão de Narcisa apertou a borda do console. O anel de casamento estalou contra o mármore — um estalo pequeno, que naquela sala pareceu enorme. Draconia manteve os olhos na gola das vestes do Lorde. Não no rosto. Nunca no rosto, a tia tinha ensinado. Não antes de ele mandar.

— Ela está pronta, milorde. — Belatriz deu a volta por trás da sobrinha, rente demais, e Draconia sentiu o hálito dela na nuca. — Passei o verão inteiro com a menina. Ela aprende rápido. Para uma Malfoy.

— Veremos.

Ele ergueu a varinha. Não precisou dizer mais nada.

Draconia desabotoou o punho da manga esquerda. O botão de pérola escorregou duas vezes entre os dedos antes de passar pela casa, e ela odiou aquelas duas vezes mais do que tudo o que viria depois. Dobrou o tecido até o cotovelo. A pele do antebraço, branca e ainda limpa, estava arrepiada.

Um gesto dele a fez se aproximar. Os dedos que seguraram o pulso dela eram frios e secos, frios de um jeito que não tinha nada a ver com a temperatura da sala. A ponta da varinha encostou na pele.

Não foi como uma queimadura. Foi pior, e mais fundo: alguma coisa se enfiou por baixo da carne e fechou o punho em volta do osso. O ar saiu do peito dela de uma vez. As pernas quiseram ceder e ela não deixou — travou os joelhos, cravou os dentes no lado de dentro da bochecha até sentir gosto de sangue.

E foi aí, com a dor atropelando tudo, que a lembrança escapou.

O Salão Principal coberto de gelo que não derretia. O violoncelo das Esquisitonas ainda afinando. Teodoro Nott passara meia hora falando da coleção de penas de faisão do pai e depois sumira para perto da mesa de ponche, e ela não fora atrás. E, do outro lado do salão, Potter. Sentado. Braços cruzados, gravata torta, a Patil já longe, dançando com um rapaz de Beauxbatons. Ela atravessara a pista sem decidir atravessar. Puxara-o pelo pulso.

— Levanta, Potter. Você não vai ter outra chance de pisar no meu pé.

A mão dele nas costas dela. Quente, através do tecido. O passo errado que nenhum dos dois corrigiu. Os malditos olhos verdes, fixos nos dela, a centímetros.

— Olhe para mim.

Draconia ergueu os olhos.

Os olhos vermelhos estavam perto demais. E estavam entrando. Ela sentiu a presença dele atravessando a dor como uma lâmina atravessa água, revirando, procurando — e a lembrança estava ali, exposta, a música, a mão nas costas, o rosto de Potter a um palmo do dela.

Não.

Fez o que a tia passara o verão ensinando, aos gritos, até ela sangrar pelo nariz. Não escondeu a lembrança. Afundou-a debaixo de outra.

A manhã de junho. A coruja do Profeta batendo na janela da sala do café. A manchete. A foto do pai sendo arrastado por dois aurores, tentando cobrir o rosto com a mão algemada, tentando de novo, a foto repetindo aquele gesto inútil para sempre. E, no terceiro parágrafo, o nome que ela lera tantas vezes que o papel rasgara na dobra. Harry Potter. O garoto que levara os aurores até o Departamento de Mistérios. O garoto que pusera o pai dela em Azkaban.

Deu isso a ele. Inteiro. E não precisou fingir nada.

A presença recuou. Ele soltou o pulso dela, e o braço caiu ao lado do corpo, pesado, latejando no ritmo do coração. Na pele, onde antes não havia nada, a caveira e a serpente terminavam de se desenhar, negras, inchadas, ainda se mexendo.

— Potter. — O Lorde provou o nome devagar. Um sorriso fino abriu-se no rosto sem nariz. — Você o odeia.

— Sim, milorde.

Também era verdade.

— Ótimo. O ódio é um bom começo. — Ele se recostou. Os dedos voltaram a tamborilar. — Tenho uma tarefa para você, Draconia. Uma tarefa que seu pai, infelizmente, não está em posição de cumprir.

E disse qual era.

Ninguém na sala se mexeu. Até a coisa que deslizava atrás dela parou. Draconia ouviu, do lado da lareira, um som que a mãe nunca deixaria escapar diante de mais ninguém — um sopro curto, preso no meio do caminho.

Dumbledore.

— Sim, milorde.

A voz saiu firme. Saiu exatamente como devia. Nas dobras da saia, a mão direita se fechava, as unhas enterradas na palma, e ela só soltou quando sentiu a pele ceder.

— Lúcio tem muito tempo livre em Azkaban — disse ele, já olhando para outro lugar, já entediado. — Seria uma pena se, quando saísse, não tivesse mais para onde voltar.

Draconia fez a reverência mesmo assim, curta, e se virou. Rabicho abriu a porta para ela antes que alguém mandasse.

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O quarto estava como ela o deixara de manhã. A cama feita pelos elfos, as cortinas abertas para o jardim escuro, os pavões brancos dormindo empoleirados na sebe, feito manchas de giz.

Draconia trancou a porta e foi direto à bacia de porcelana. Abriu a torneira e enfiou o antebraço debaixo da água gelada. A pele chiou — ou ela imaginou que chiou. A água escorria vermelha nas bordas da Marca e depois limpa, e ela ficou olhando o desenho por baixo do jorro, a boca aberta da caveira, a serpente que ainda parecia se ajeitar, procurando posição.

No espelho em cima da bacia, uma moça pálida de vinte anos a encarava com o lábio inferior mordido até ficar branco. Draconia fechou a torneira. Enxugou o braço com cuidado, sem esfregar, e desceu a manga por cima.

Atravessou o quarto. Abriu o guarda-roupa para pegar a camisola e lá estava, no fundo, ainda na capa de seda em que a mãe mandara guardá-lo: o vestido cinza-prata. Nem um fio de verde. Ela se lembrava da cara da tia quando o vira, e de como achara graça daquilo na época.

Fechou o guarda-roupa sem pegar a camisola.

Deitou-se vestida, por cima das cobertas. O braço pulsava. Lá embaixo, a voz da tia ria de alguma coisa, e uma porta bateu, e depois a casa ficou quieta de um jeito que só ficava quando havia gente demais dentro dela.

E agora que ninguém estava olhando, a lembrança voltou sozinha. Ela deixou.

As Esquisitonas tinham diminuído o ritmo. As outras pessoas viraram borrão. Potter ainda olhava para ela — de perto, de um jeito que ninguém jamais olhara, como se procurasse onde estava a piada. Ela sentira a mão dele hesitar nas costas, quase se afastar e voltar. Sentira o próprio coração na garganta. E então abrira a boca e dissera uma coisa verdadeira. A única coisa verdadeira que dissera a Harry Potter desde o primeiro dia no Expresso.

E viu o rosto dele mudar.

Draconia abriu os olhos para o dossel escuro da cama e não os fechou mais até o dia clarear.

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Harry acordou com a música ainda nos ouvidos.

Ficou parado, de olhos abertos no escuro, até que a última nota do violoncelo se desfizesse no silêncio da Rua dos Alfeneiros. A mão direita estava fechada no lençol. Ele precisou mandar os dedos se abrirem.

O quarto foi aparecendo aos poucos: o malão aberto, a pilha de livros do quinto ano que ele não tocava desde junho, a gaiola de Edwiges vazia — ela saíra para caçar no começo da noite. Na rua, um carro passou devagar, e o farol varreu o teto de ponta a ponta.

Mais de um ano e meio. Fazia mais de um ano e meio, e o sonho ainda sabia cada detalhe. O vestido cinza, sem verde nenhum, que ele notara antes de notar qualquer outra coisa. A mão fria dela na dele. O passo errado. E ela dizendo alguma coisa, bem baixo, os olhos cinzentos de repente sem nenhuma defesa — e ele abrindo a boca para responder.

Sempre acordava nessa parte.

Harry se sentou na beira da cama e pôs os óculos. Em cima da escrivaninha, entre um tinteiro seco e uma caixa de Feijõezinhos de Todos os Sabores que Rony mandara, estava o Profeta de junho, dobrado do jeito que ele o deixara semanas atrás. Na foto da primeira página, Lúcio Malfoy era levado por dois aurores e erguia a mão algemada para cobrir o rosto. Baixava. Erguia de novo.

Harry ficou olhando o gesto se repetir três, quatro vezes.

Depois virou o jornal com a foto para baixo e voltou para a cama.

Não dormiu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.