Dracologia
16 P.O.V Trina
–Trina?
–Sim?
–Pode pegar um copo d'água pra mim por favor?
–Claro, Felicia; já volto.
Eu acabei não voltando.
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–Trina?
–Bom dia, Kai! — depois do almoço com ele, venho reparando cada vez mais nos olhos azuis e na barba que está por fazer. Assim como a mania de rir de tudo e ser muito simpático, parecia o sonho de qualquer superfície refletora. Sua playlist que estoura pelos fones de ouvido, seu estilo esporte chic e suas gírias de atleta de rua. Todas essas coisas venho reparando em Kai di Venus.
–Eu queria te mostrar uma coisa. Na verdade duas coisas. — ele sorria enquanto rolava uma maçã nas mãos e eu podia ouvir "Hotline Bling" do Drake pelos seus fones de ouvido.
Cruzei os braços sorrindo de canto e o encorajando a continuar. Queria ver onde aquilo ia terminar. Ele fez a moeda prateada sumir e reaparecer na minha orelha, e me deu. Depois de sorrir como um menino travesso de 14 anos, ele disse que a segunda coisa era a cachoeira.
–Mas tem que ser agora. — ele parecia um malandro muito convincente de sua pele morena, e cabelos manchados de sol me seduziram, acabei por ir com ele sem nem me importar que ainda usava o meu moletom preferido de dormir e leggings. Minha cabeça estava inundada por músicas com adrenalina e eu sentia cada músculo meu dizer que não havia nada de errado em entrar na floresta com um colega de classe, minha vida ficava cada vez mais interessante e fazer memórias se tornava um cálice proibido do qual eu não me afastaria nem rezaria para não cair em tentações. Deuses me perdoem.
–Cuidado! — ele me puxou pelo braço enquanto eu só conseguia ouvir um assobio alto. Olhando melhor, era uma víbora bem nervosa. Olhando melhor, Kai tinha um físico ótimo. — Por aqui.
Nós dois conseguíamos sentir o frio ir embora, e um calor suave que fez meus ossos agradecerem pelo Sol. A Irlanda é fria como os olhos de minha avó. Enquanto ele seguia na frente, eu estava pensando o quão aquilo ficaria bom, e então ele puxou umas folhagens caídas de um salgueiro, que formavam uma cortina quase negra, e eu estava no topo das Quedas Fe, o som era estrondoso e o arco-íris era real. As aves acordavam barulhentas, animais bebendo água na depressão e até mesmo alguns animais marinhos mágicos, o que me trouxe alegria e alívio. A extinção existe nos dois mundos.
–Kai! — eu não conseguia esconder meu sorriso de felicidade e ele sorria de volta. Nos olhamos e depois ele me perguntou se eu queria descer. Descemos pelas pedras secas, e quando chegamos ao fundo, tudo era uma enorme piscina turquesa. Por ser do Havaí, as belezas do mundo natural eram cotidianas, mas a Queda de Fe parece respirar pelas correntezas, as aves parecem mais coloridas e a água cristalina como vidro.
–Cuidado, parece rasa, mas tem mais de 50 metros. Essa água muito clara engana. — ele segurava sempre meu braço, e eu podia ver os peixinhos coloridos nadando, assim como enormes peixes brancos e vermelhos.
–São carpas?
–Não, não sei bem o que são, mas também confundi com carpas... Tem muita coisa aqui pra se ver, você poderia me ajudar a catalogar todas essas espécies.
–Sim! Pelos deuses, Kai, sim! Como achou esse lugar? Estava perdido por anos! Aqui é incrível!
–O salgueiro cria uma cortina e o barulho da água é abafado de algum jeito... Toda a cachoeira é cercada por um único salgueiro, e essa espécie nunca floresce. Foi um acidente, eu estava descobrindo trilhas quando vi um kappa dormindo no chão, perto do salgueiro. Eu o acordei sem querer e a água do topo da cabeça dele caiu, o segui até aqui. Ele era bem grande, devia ser adulto já.
–Tome cuidado com eles... Achei que só vivessem no Japão. — eu molhei as mãos e levei água ao meu rosto.
–Eu também pensei isso, mas pelo visto são umas pragas, aquele não foi o primeiro, olhe.
E quando levantei a cabeça para olhar o que eu pensava serem rochas, eram na verdade os cascos de algumas dessas criaturas mitológicas. Parece que o desequilíbrio ambiental também afeta Wesport.
–Deuses... Quantos deles... Eles falam? Nunca os estudei muito.
–Sim, falam, fiz amizade com alguns, mas vamos evitar perturbá-los, sim? — e ele sorriu simpático como sempre. — Não há sereias nem nada assim...
–Elas são grandes demais para habitar as piscinas, Kai. — eu sorri, e não conseguia parar de pensar na beleza daquele lugar.
Todas as pedras eram cobertas de musgo, o fundo das piscinas era cheio de seixos cinzentos e redondos, e tudo que eu havia lido nas poesias dos livros mágicos era verdade.
–Há gnomos nas margens, cuidado com as suas pulseiras, anéis ou brincos. Esses carinhas adoram qualquer coisa que brilhe.
Graças, eu não usava jóias.
Eu e ele sentamos de frente para a pedra que repelia a água e fazia "chover" criando assim o arco íris. A pedra era pedra mesmo e ficamos ali conversando sobre quando voltaríamos:
–Pode vir sempre que quiser, apenas não conte a ninguém. — ele disse.
–Por quê? Sabe, isso deveria ser um patrimônio de todos! É o lugar perfeito, uma faculdade que estuda essas criaturas, aqui estarão bem protegidas. A Queda de Fe ficou perdida por anos, e agora pode ser admira-...
–Trina. — ele me interrompeu. — Faz sentido tudo isso que você disse, mas esse lugar não foi "perdido", foi escondido. Escondido pela própria árvore de salgueiro. Por que acha que essa espécie de salgueiro-chorão não dá mais as mil flores brancas? Pra não chamar atenção. Por que acha que isso é um santuário? Porque ninguém interfere. Podemos proteger por nós mesmos. Não é egoísmo, é confiança. Por favor.
Eu ouvia as palavras dele e as entendia, fazia sentido, mas eu sentia o peso da responsabilidade cair sobre meus ombros. Conversamos por um bom tempo sobre a aparente infestação de kappas, os gnomos, fadas, duendes, trolls, trasgos, changellings, goblins, anões, elfos, leprechauns, gremlins, ogros e até unicórnios. Passou-se tampo tempo que já era tarde demais para ir à primeira aula e nós nos resolvemos que iríamos ficar mais um pouco. Logo depois disso, nos beijamos, e foi o beijo mais romântico que já tive. Um dos momentos mais marcantes por conta do lugar, do mistério e de tudo! Kai parecia um príncipe e logo no fundo havia um arco íris, fadas e águas cristalinas, e uma promessa secreta entre nós dois. Tudo parecia surrealmente perfeito. Eu embarquei naquela fantasia e logo me encontrava de mãos dadas com eles, nos despedindo do nosso paraíso particular. Ele sorria, selávamos nossos lábios de vez em quando e ele até me pegara no colo em uma parte da trilha. Eu quase que acreditei que iríamos para a aula em um cavalo branco, mas ele me deixou na porta do meu prédio e depois meteu as mãos nos bolsos e não olhou para trás sequer uma vez. Mas obviamente eu não estava ligando para isso e Felicia também não estava no quarto, estaria na aula logicamente. Eu troquei o moletom por um vestido cinza e rodado, sapatilhas pretas e até coloquei blush. E decidi que mais tarde, iria a cidade comprar uma tinta preta para o meu cabelo, e talvez pintar as unhas, vá lá. O meu celular tinha várias mensagens da Felicia e nenhuma do Jaden. Por que mesmo eu esperaria uma mensagem do Jaden? Ah, é, porque o Harris faria isso. E lá estava "onde vc tá?" do grandão. Eu fui calmamente até a aula, não esperei Kai me buscar nem nada. Chegando no segundo tempo, de Sociologia. Dragões na Sociedade.
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–Trina? Trina Kodia? — o professor havia entrado junto a mim. — Apague o quadro, por favor. Meu colega de trabalho não teve tamanha sensibilidade em me ajudar quanto a senhorita, muito obrigada. Enquanto isso, vou começar a aula de hoje. Sociologia é a ciência que estuda as relações entre as pessoas que pertencem a uma comunidade ou aos diferentes grupos que formam a sociedade. Sociologia aplicada aos Dragões, nada mais é que, por sua vez, a relação dos Dragões entre eles mesmos e a relação dos Dragões entre os humanos. A partir do momento que há várias espécies de Dragões, cada qual com características surpreendentemente diferentes uma da outra, pode se deduzir que as relações também são diferentes, certo? Certo Senhor Melnikov?
–Certo, Senhor. — por cima do ombro, pude ver o cara de cabelos azuis responder com sua típica cara de sono.
–Muito bem. A mais comum, é a de terror. É um quadro de fobia, onde os Dragões são bestas burras, cuspidoras de fogo e aladas, apenas interessadas em queimar vilarejos inteiros. Isso pela visão de historiadores de tal época. Outra bem comum, é a relação ancestral. Esses são nomes populares, logo falaremos da maneira mais correta, uso esse termo para a melhor compreensão em primeira estância. A relação ancestral, é comum no oriente, os dragões são seres pensantes e falantes, concedem desejos e são protetores de famílias, têm conhecimentos profundos e são seres muito espirituais. Mas há enormes diferenças físicas entre os dragões chineses, japoneses e coreanos. Não, asiático não é tudo igual, caros alunos. Esse quadro ancestral é bem interessante. Há relações de isolamento, onde não há qualquer entrosamento entre dragões ou dragões e humanos. Acontece em raras exceções. Há a relação de adoção, onde há relação entre um humano e um dragão, e está sendo atualmente discutido através dos Cavaleiros, é muito interessante.
–Os Dragões não são forçados? — Falcon lança a pergunta no ar.
–É exatamente essa a discussão meu caro, e eu pretendo fazer um seminário onde cada um irá expor sua opinião sobre o assunto. Continuando, há a relação natural, onde os humanos não existem. E há a relação de camuflagem. É polêmica por entrar e sair de pauta. É quando uma pessoa, tem a habilidade de se transformar em um Dragão.
A sala se inquietou por exatos cinco segundos:
–Minha filha, demora isso tudo para apagar uma lousa? Sente-se por favor, Srta. Kodia.
Eu quis rir e meus olhos correram pela sala atrás de Kai, que estava cochichando algo com o Wild.
–É polêmico pois nunca foi... Relatado com a variedade dos outros tipos. Acredita-se que seja um devaneio. Mas, eu acredito no contrário, e por isso incluirei isso no currículo mínimo. O primeiro trabalho de vocês será apresentar os dragões na cultura moderna. Quero isso antes do término dessa aula, todos os meus trabalhos são do seguinte formato: nada de papéis, enrolação e artigos copiados da internet. Vocês vão me dizer o que já sabem a partir do tema que eu propus. Lembrem de poemas, pinturas, grafitti, quadrinhos, filmes, qualquer coisa desse século que vocês conheçam. Eu vou apontar, e vocês vão me falar. Nada de rir, colegas de classe.
–Professor, pode pesquisar no celular? — o ruivo perguntou.
–Qual parte de "o que vocês já sabem" não ficou clara? — o professor sorriu e continuou a aula. — Muito bem! Senhor Black? Tem conhecimentos sobre dragões na cultura moderna?
–Ah, tem o Smaug, do Hobbit.
–Excelente! Excelente! Eu também gosto de Senhor dos Anéis! Uma nota boa para o Sr. Black Hayek, é assim que está na chamada, está correto?
–Sim, senhor.
–Muito bem, o próximo... O belo moço de olhos azuis, no fundo.
–Jaden. Jaden Smith, senhor.
–Muito bem, Jaden de olhos azuis. Dragões na atualidade.
–Símbolos de academia, sei lá. RPG?
–Não tão bom, mas eu vou considerar, Sr. Muito bem.
E ele foi apontando aleatoriamente para todos os alunos da sala enquanto tagarelava sobre Alice no País das Maravilhas e o Jaguadarte, Norberto, e outros dragões, mangás e filmes. O cara era fissurado.
–Pois bem, estudamos não só a relação dos dragões na sociedade, ver o jeito que a sociedade enxerga, representa e trata os dragões também é um ponto importantíssimo da nossa pesquisa, caros alunos...
E assim, ele se empolgava mais, e ia empolgando os alunos, nos fazendo rir com textos, indicações de filmes e livros, tudo. Interpretava poemas e citou mitologia, falou da nossa professora Gargouille e falou da infância dele. Contou sua história com piadas e conseguiu cativar cada um de nós.
–Eu sei que não parece, mas eu sou um ogro. Felizmente, o último a nascer e o menor. O menos feio, se me permitem. A lenda, é que os ogros só se alimentam de carne humana, devoravam criancinhas e isso é metade verdade. Pelo avanço da tecnologia, descobrimos que a carne de porco se assemelha 96% da carne humana, e essa é a base da minha dieta. Eu nasci na Escandinávia há muitos anos atrás e teria sido morto pelos meus irmãos se um casal de trolls do subterrâneo não tivessem me salvado. Eu tive uma infância boa até meus 6 anos, depois notei que era diferente dos trolls e resolvi ir para a cidade. Lá conheci uma Púca, dona de uma sapataria. Era um coelho muito sábio e me criou desde então, me encorajando a ler livros e me tornar professor.
–Legal. — eu sorri e ele sorriu de volta. Depois disse que todos haviam tirado nota 10 e que a prova seria do mesmo jeito, e todos ficamos relaxados. Por que sociologia era sempre a matéria mais legal? Eu fiquei maravilhada por aquele ogro criado por um coelho e que tinha o dom de mestre se interessar seus alunos. Isso sim era inspiração, isso sim era ser professor.
–E aí! Matou os dois primeiros tempos de aula, que bonito! — Harris estava sorrindo e nós saímos para curtir nossos 15 minutos de intervalo depois daquela aula maravilhosa.
–É.. — eu coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e pelo canto do olho vi Kai com as mãos nos bolsos falando com Wild. Era incrível como duas pessoas nada a ver estavam se dando tão bem. Pelo menos aparentemente.
–Estava com Kai?
–O-oque? Como sabe disso?!
–Trina. Só você e ele faltaram. Dã.
–Ah merda! Se você sacou, eu estou fodida mesmo. — eu queria fazê-lo sorrir, e funcionou, depois de soquinhos e alguns goles de café, eu e ele falávamos sobre a próxima aula de bioquímica e perguntei a ele por que diabos Jaden não se juntava a nós, já que Felicia tinha ido correndo buscar seu trabalho no dormitório.
–Eu não sei. Ele também notou, não deve ter gostado muito...
–Por que ele ligaria? Nem somos tão próximos assim, nos conhecemos há semanas... Eu não entendo.
–Trina, você é uma pessoa boa de ter por perto, ele me contou da parada da tatuagem. — eu abaixei a cabeça — ele sei lá, deve estar preocupado. Sabe como Kai é visto por aqui. Ele não é daqui, é de outro planeta, ninguém sabe nada sobre ele, Di Venus nem parece ser um sobrenome real. E vocês sumiram mesmo, não estavam nem na praça.
Eu fiquei calada por um bom tempo, e tinha a consciência de que não devia explicação a ninguém, muito menos ao Jaden, e eu ainda não entendia essa empatia que nós tivemos. Jaden sempre pareceu tão sozinho e agora, do nada, estava se tornando sociável. Estava fazendo amigos. Eu era um deles? Acho que sim. Mas Jaden me daria alguma satisfação se fosse ao contrário?
–Ele está bravo?
–Eu não sei. — o grandão comia um sanduíche.
Eu estava quieta e ouvimos uma das "piadinhas" de Falcon:
–Já pensou que você pode ser um dos irmãos do Professor?
Risinhos toscos e Harris apenas revirou os olhos. Eu quis defendê-lo, mas Harris precisava aprender a se defender sozinho, ainda mais contra nanicos sem noção como o Falcon, fala sério. Aí eu me lembrei do que Jaden havia me contado no dia anterior, e aí me dei conta de como eu e ele já estávamos irremediavelmente próximos. Eu sabia que Falcon os havia seguido, e que agora eles deveriam aturar Falcon e suas gracinhas. Como pude esquecer disso? Estava mesma tão absorta em trabalhos da faculdade, ou absorta em águas cristalinas e beijos molhados?
–Sabe o que devíamos fazer? Devíamos ir em uma rave que vai ter no Castelo Kylemore, nessa sexta.
–A faculdade toda vai, tem certeza?
–Tenho, Harris! Vamos nos divertir! Fale com o Jaden e confirmem comigo, ok?
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