Dracônica
1 Prólogo
Notas iniciais
O campo de batalha estava caótico. O terreno coberto com flechas caídas e espadas jogadas, poças de lama formadas por terra, sangue e acúmulo de chuva ao longo das noites de batalhas passadas.
Membros soltos e soldados com buracos no corpo pelo chão. Bandeiras e brasões jogados a esmo no solo, deixados de lado quando a verdadeira guerra começou. Não lutavam mais por terras, nem direitos ou honras. Lutavam para sobreviver.
Com o exército de Lavir em maior número, os soldados de Ruthar estavam sendo praticamente massacrados. As duas infantarias estavam sobrecarregadas, seus soldados feridos e exaustos. Contudo, ainda lutavam contra em torno de quarenta lavirnianos, que se acumulavam, rodeando os dois heróis rutharianos.
Os sons de metais colidindo aspiravam apenas destruição e o resultado dessa guerra eram os constantes gritos de dor. Aquela era uma situação que poderia trazer diversos tipos de sentimentos, menos o da esperança; a aparência do lugar era completamente desoladora.
Era notável até mesmo pelo olhar perdido e desesperado dos soldados nessa batalha que a guerra não traria um final nada satisfatório. Milhares de pessoas mortas, milhares ainda para morrer. A cada soldado abatido, dois novos apareciam em seu lugar. E parecia nunca ser o suficiente.
Vatra, o dragão vermelho de Ruthar, tinha acabado de derrotar mais dois inimigos, dilacerando-os com suas garras. Soltou uma baforada de fogo que abriu uma parte do cerco por onde viu soldados aliados chegando. Pôde vê-los também, antes do círculo se fechar novamente, lutando com os que apareciam em seus caminhos. Ele usa, então, a sua cauda para derrubar mais um enquanto acertava outros ao abrir as asas, tentando alargar o espaço e afastar os inimigos.
Morrigan, a exímia guerreira parceira/dupla de Vatra (?), aproveitando a proteção do escudo momentâneo (o "escudo" era momentâneo, uma proteção fornada pelas asas do Vatra), pode finalmente ficar menos na defensiva e se tornar a máquina mortífera com que Vatra estava acostumado, decepando membros, jorrando sangue e deixando um rastro de morte. Ela ajudou a aliviar ainda mais a pressão inimiga em volta deles.
Duas dezenas de reforços estavam chegando, mas os soldados do país rival também estavam sendo repostos. Talvez deixasse mais equilibrada a situação atual.
A guerreira olhou para o lado e viu as asas de seu amigo com partes sem a couraça protetora e outras partes sangrando. Não conseguiriam voar por muito tempo, ela constatou. Ao longe, se ouve o barulho das catapultas e dos pedregulhos causando destruição em massa. Assim, também não conseguiriam voar muito longe.
Um soldado a acerta no ombro direito. Ela chuta o inimigo e derruba o homem, jogando-o no chão com lama e sangue ao lado da espada dele. Ela agarra a espada do chão e logo em seguida golpeia o homem no abdômen. Quando olha para o lado percebe que os reforços enfim chegaram.
Vatra tinha abocanhado e decepado mais alguns inimigos a tempo de ver uma horda larviniana chegando por trás dos seus aliados, com mais ou menos o dobro de suas tropas, que simplesmente não se mexeram, muito menos se assustaram. O que era muito estranho e causou certa surpresa ao dragão.
O barulho de metal da maçaneta sem óleo rangendo fez com que todas as cabeças virassem para a origem do ruído:
— Essa história é aquela em que o dragão e a menina são presos em uma emboscada e morrem? — disse uma criança que chegava pela porta, sussurrando com os amigos.
— Chegamos atrasados, Rotiv. — disse outro garoto.
Pisando sem querer nas crianças que já estavam lá, eles e grupo que chegavam procuravam algum lugar vazio para se sentarem.
— Queríamos muito ter ouvido, mas os guardas da cidade nos pararam quando passamos correndo… Poderia contar desde o início?
— Meu pai já me contou uma história parecida. Acontece isso mesmo? — uma voz baixa perguntou, cochichando para não ter a atenção chamada por quebrar o silêncio.
— Pois bem, pirralho, vou recomeçar... — disse o velho, revirando os olhos para os gemidos de insatisfação das crianças.
Tossindo, ele manda todos se aconchegarem enquanto bebia um gole de vinho quente para molhar a garganta.
— E vocês, crianças, façam silêncio. Não quero interrupções, deixem que eu mesmo conto a história! Era uma vez um dragão de escamas vermelhas…
— Acho que na história do meu pai o dragão tinha escamas azuis...
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