Doze anos de solidão
3 Não há caminhos que nos levem de volta para casa
Narração — Autora
Dezoito anos antes
—Ei! Lem! Agarre a bola.
Freddie tomou impulso e arremessou uma bola de basebol a toda velocidade. Filemon que estava distraído com o pai que pescava à beira do rio, foi acertado na testa.
—Ai, Freddie! — Grunhiu caído no chão.
—Eu falei para você agarrar a bola. — Correu na direção do irmão e se abaixou ao seu lado, tentando socorrê-lo. — Você está bem?
Filemon não pensou duas vezes, se levantou de repente e agarrou Freddie, destemido. Correu com ele em seus braços na direção do rio, arremessando-o na água.
—Garotos! — Bruce, segurando a vara de pescar, olhou para os filhos que se atacavam, jogando água um no outro. — Cuidado para não se machucarem.
Os meninos, porém, continuaram com suas brincadeiras, tentando afogar um ao outro, enquanto gargalhavam na maior altura.
Bruce balançou a cabeça, sorrindo.
...
Dias atuais
Quando o sol ainda despontava, Freddie se escorou no batente da porta da frente da casa, observando o nada e dando lentas goladas em seu café recém preparado. Apertava os olhos vez ou outra, bocejando. Olhou discreto para o céu e concluiu que teria um bom sol naquele dia, não como no verão, mas o suficiente para agradar suas plantinhas que padeciam.
Sem pressa, deixou a caneca, ainda com um restinho de café, no chão junto à porta e foi até o celeiro, abrindo-o e apanhando um regador que estava devidamente armazenado num armário de madeira. Assobiando foi até o poço, na frente da casa, e tirou um pouco de água, indo logo em seguida regar suas dóceis plantinhas.
Concentrado e em silêncio, acabou se assustando quando ouviu o barulho de algo caindo dentro da casa. Largou o regador e correu até a porta, encontrando Sam com os olhos arregalados, encarando o café derramado. Havia chutado a caneca de Freddie.
—Desculpa! — Seguiu o moreno até a cozinha, para onde ele levava a caneca vazia.
Freddie encarou a garota e fez um gesto, como se dissesse “Não se preocupe”. Levou-a até a pratilheira e apontou para alguns potes transparentes.
—Ali tem pão. Ele é duro mesmo, porque não tem fermento. Tem leite quente sobre o fogão, pode colocar um pouco no café. Se quiser eu frito ovo para você. Gosta de ovo?
Sam encarou o moreno com perplexidade. Eram tantas palavras ditas que ela não soube processá-las de imediato, principalmente pelo fato de Freddie não ter pronunciado nada mais do que duas palavras no dia anterior.
—Gosto — respondeu baixo.
Freddie não se prolongou no “diálogo”, foi logo preparar o ovo para a loira, que rapidamente abriu o pote dos tais “pães duros”. Estava curiosa para saber do que se tratava.
...
—Que horas vamos ir encontrar tia Sharon?
Sam, que tinha um bigodinho de leite, afastou a caneca vazia e apoiou os cotovelos sobre a mesa, animada, encarando Freddie.
—Você não vai responder a minha pergunta? Mas você falou comigo agora a pouco.
O moreno a encarou por mais alguns instantes, enquanto ela se agoniava com o silêncio. Por fim, se levantou e apanhou a caneta vazia e o prato onde antes havia um ovo frito.
—Não vamos ir encontrá-la. — Deixou claro e caminhou firme até a cozinha.
—Como assim não vamos encontrá-la. Eu preciso encontrar a tua Sharon. Ela deve estar preocupada comigo.
Freddie voltou à sala e alinhou a cadeira junto à mesa, permanecendo em pé enquanto encarava a pobre garota que se desesperava.
—Não há maneira de encontrá-la.
—Tem que haver!
Levantou-se e bateu o pé no chão, chorando.
—Eu quero a tia Sharon!
Mas o choro não comovia o moreno, que pouco se importou em dar as costas à Sam e sair de casa para voltar a regar as suas plantinhas.
Enquanto estava lá, concentrado na água que jorrava no regador, Freddie de repente foi empurrado pela loira, e tal foi o empurrão que ele precisou se escorar na parede da casa, a fim de não cair.
—ME LEVA PARA A TIA SHARON!
Virou o rosto e observou por alguns instantes as lágrimas que escorriam pelo rosto da loira, mas logo voltou a regar as plantas.
—Eu não vou machucar você. Talvez você viva bem melhor aqui do que lá — murmurou.
—EU QUERO A TIA SHARON!
Encheu o pulmão para gritar, e no embalo empurrou Freddie novamente e saiu correndo em disparada à cancela, olhando para trás com medo do moreno persegui-la. Porém ele nem se quer a olhou. Deixou que ela abrisse a cancela e iniciasse a sua fuga.
…
Quando um velho relógio que Freddie levava no pulso marcou meio-dia, o moreno percebeu que era hora de ir atrás de Sam que desde as sete havia saído.
Como quem está seguro das suas palavras, o moreno saiu pela cancela, fechando-a com cautela. Andou um pouco pelo terreno acidentado, se esquivando de alguns galhos soltos pelo chão. Penetrou uma pequena mata e caminhou os olhos atentos às árvores, até que numa delas viu dois pesinhos pendurados. O tênis rosa combinado com uma meia branca, denunciou a loira que tentava escapar.
—Não há maneira de você chegar à cidade sozinha. — Escorou-se no tronco da árvore e olhou para cima.
—Eu sei por onde viemos ontem, só estou tentando me lembrar. — E como já vinha fazendo há algumas horas, olhou para os lados tentando identificar onde estava.
—Deve estar com fome. Desça daí.
—Não vou descer até que descubra o caminho para casa!
Com a mesma expressão de sempre, Freddie subiu na árvore com a agilidade de um macaco. Sentou-se no mesmo galho que Sam e lhe estendeu a mão.
—Você nunca vai encontrar o caminho de casa. Aqui agora é sua casa.
—Não! Minha casa é em Portland.
Na imaginação da loira aquele anjo, antes tão angelical, agora se assemelhava à um demônio. Temia ele. Queria fugir. Queria encontrar alguém que a tirasse dali. Por isso quando Freddie tentou pegá-la, pôs-se a chorar, tentando acertá-com seus tapas.
Freddie, porém, se deixou ser agredido. Agarrou a garota e desceu com ela, tendo que arrastá-la até em casa, o que custou a ela o rompimento dos frágeis pontos que levava na perna.
…
Mais uma vez Sam berrou chorando, enquanto, calmamente, Freddie cuidava de seu ferimento, desta vez usando de algumas ervas medicinais, já que o corte se inflamara.
Demorou para que a loira cessasse o choro. Só o cessou de vez quando Freddie, como no dia anterior, colocou dois pratos com sopa de legumes sobre a mesa.
—Eu não gosto de sopa de legumes — repetiu olhando com nojo para o prato.
Pacientemente Freddie empurrou o prato na direção de Sam, irritando-a.
—Eu já falei que não gosto de sopa de legumes! — Bradou empurrando o prato com tal intensidade que acabou derramando tudo sobre a mesa, sujando inclusive Freddie, que se se colocou de pé imediatamente, vendo sua calça molhada pelo caldo.
Encarou a garota nos olhos, dispertando nela um temor.
—Se você costuma desperdiçar comida, aqui você não vai desperdiçar.
—Então me leva para a tia Sharon!
—Eu já te disse que não te levarei a ela.
—Então me leva até a cidade, que de lá eu procuro a ajuda de alguém civilizado.
Freddie não era um bicho do mato. Na verdade, lutou ardorosamente para manter a civilidade intacta durante todos os anos em que esteve só. Para uma garota de dez anos, Sam não fazia ideia do quanto aquelas palavras poderiam ferir.
Magoado, mas sem demonstrar, o moreno limpou a mesa em silêncio. Fazia tempo que Freddie havia descoberto que o silêncio, às vezes, é o melhor remédio para as feridas adquiridas ao longo da vida.
Sam, embora uma ótima garota, costumava assumir um comportamento irreverente quando se via confrontada ou ignorada, por isso não se calou. Pôs-se a falar sem escrúpulos.
—Por que não me deixa ir? O que você quer comigo? Só me fale o caminho até a cidade e eu vou.
—Você não vai conseguir chegar lá sozinha.
—Então me leva.
—Em dezembro do ano que vem eu volto lá e aí, se você quiser, você vai.
Aprendera os meses na escola e, segundo as suas contas, dezembro do próximo ano iria demorar. Então, num ataque de nervos, avançou no moreno, querendo batê-lo, mas sua perna dolorida a impediu de fazer muitos movimentos.
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