Notas iniciais
Espero que gostem.

Prólogo

“Eu começarei vendo sua ascensão e terminarei por vê-lo em queda”. Meu avô profetizou isso a mim enquanto esvaziava uma garrafa de fermentado em meio à grama seca. As gotas volumosas escorriam pela barba comprida e se perdiam no peito demasiadamente cabeludo dentro da túnica puída de Orador-Errante. Sim, eu descendo de uma família de Oradores-Errantes. Por pertencer a ela, sempre fui desprezado por onde passava e há dois dias, nos vilarejos que margeavam o inavegável Rio Duras Pedras, as pessoas se escondiam dentro de seus casebres, batiam portas e janelas expressando sua intensa animosidade para conosco. Era o mês da Aranha, caia uma fina garoa que encobria-nos numa aura de mistério, medo e poder. Andávamos em marcha média rumo às ruínas do templo do Chacal, minha família, em sua quase totalidade ainda o venerava.

Caminhava ao lado da mula que carregava todo o peso sobre os ombros, divididos em duas enormes trouxas: panelas, roupas, itens ritualísticos, gravuras, talheres e outras tantas coisas. O casco raspava entre as pedras e o animal inclinava para o lado quase tombando no chão. Corria em torno dela tentando levantá-la. “Ada, cuide direito do animal, ainda falta quatro dias para chegarmos ao Templo do Chacal!”, “Eu sei, Vô!”. À frete e atrás de mim, grandes carroças de madeira carregavam o contingente de parentes e nem tão parentes assim.

Logo a noite devorou o mundo e na mata densa, montamos nosso precário acampamento. As barracas de couro curtido foram rapidamente erguidas, com maestria. Meus incontáveis primos e primas de várias idades partiram em busca de gravetos, logo já traziam os feixes nas pequenas, médias e grandes mãos. Depositavam no centro do acampamento. Uma pilha gigante de madeira alcançava facilmente um metro de meio de altura. Em seguida, já ardia em chamas altas que espalhavam um brilho laranja e vermelho. Um ponto de luz no meio da completa escuridão, mas, ainda assim, as trevas relutavam em retroceder para dar lugar ao brilho. As mulheres retiravam de seus alforjes as carnes salgadas dias antes e espetavam-nas em hastes de madeira ao redor da fogueira, o cheiro do assado tomou conta do lugar. Meu avô retirou de sua carroça um pequeno barril de fermentado e distribuiu canecas aos adultos que logo eram enchidas com a bebida quente. Trataram de pegar o velho cordal, um instrumento musical rústico de cordas, e entoar uma curta e repetitiva canção. O bardo tocava enquanto uma mecha de cabelo negro caia sobre os olhos. Ana, minha prima, começou a cantar suavemente, esquentando todo o corpo e me fazendo ouvir o sangue correr em meus próprios ouvidos:

Ó, doce Chacal, Senhor das Colinas, nos ame, nos prove.

Deite-me sobre a relva.

Deite-me sobre a relva.

Ó, doce Chacal, deus-menor, nos abençoe, nos console.

Não me recordo onde a música parou, mas eu olhava para o céu, as estrelas formavam um cinturão brilhoso. E adormeci e num sonho senti algo viscoso em minha boca, cuspi e achei um caracol que fazia voltas no estômago e que naquele momento eu não seria mais o mesmo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.