Doze
1 a cobra e o leão
Você tinha só onze anos – uma criança tão cheia de aspirações e ideais confusos. A sonserina não estava em você, mas havia sido imposta, e Draco Malfoy vestia-a perfeitamente bem. O verde esmeralda fora colado em seu sorriso, em seu olhar arrogante e em sua voz arrastada.
Ouviu com prazer a vozinha fina ditar-lhe um destino a qual havia sido condenado ainda no berço, soprar em sua mente aquilo que fizera com todos os outros Malfoy. Com quase todos os Black da sua mãe.
Estava satisfeito, finalmente pleno por ser tão Malfoy, tão parecido com o pai – não só nas cores claras e pálidas, mas também em seu âmbito.
Mas só entendeu o que realmente queria quando encontrou os olhos dela.
X
Você tinha só onze anos – a aberração e vergonha de uma tradicional família trouxa nova iorquina. Tão cheia de expectativas, de libertar-se do futuro que desejavam para ela – casar-se com um homem da elite, tornar-se tão perfeita quanto a mãe. A liberdade e ousadia grifinória estava em seus olhos de cristal e em seus lábios doces.
E foi com petulância, completamente duvidosa e tensa, que se tornou uma leoa – e o vermelho da Casa combinava tão suavemente com os cabelos castanho-mel, tornava-a tão única e ímpar.
De qualquer forma, estava feliz, mas só entendeu realmente o que queria quando encontrou as fendas cinza-tempestade na mesa que mais tarde aprenderia a odiar.
X
Disseram para você: “odeie os grifinórios, os sangue-ruins, os traidores de sangue”. Mas tudo que sabia era que sua cor predileta era o azul cerúleo dos olhos dela. E, enquanto ninguém prestava atenção, estava a admirá-los, tão belos e sutis sob a luz do sol.
Via-a poucas vezes. Nas aulas de poções, com os cabelos mel presos em um trança cuidadosa, e tão diferente das outras garotas.
Mas nunca disse-lhe sobre isso, porque não queriam que o fizesse. E você, Draco Malfoy, nasceu para fazer aquilo que lhe era dito.
Em vez disso, quando você a derrubou sem querer no corredor – e ela ficou tão encantadora corada e com os olhos arregalados – tudo que seus lábios puderam dizer era aquilo que, em seu íntimo, jamais poderia admitir.
- Não toque em mim, sangue-ruim.
E aquilo doeu, como nada mais doía, enquanto os olhos cristalinos fitavam-no com desespero, tão decepcionados por ser taxada assim, como uma qualquer. Para Draco Malfoy, Juliet Stewart nunca seria uma qualquer.
X
Ele era indelicado e preconceituoso. Mas você continuava a admirá-lo em segredo, longe de todos os outros, tão único com os cabelos claríssimos. Continuava a desejá-lo secretamente, a deixar seus olhos arderem por ele.
Eram os lábios dele que queria sob os seus, mas foram os de Simas Finnigan que sentiu quando tinha treze anos, sob um carvalho, tão rubra e nervosa. Eram as mãos dele que queria em sua cintura, mas nunca pode tê-las.
A sua amada liberdade não era suficiente para fazê-la ter um sonserino, para chamá-lo de seu. Diziam que era uma garota muito corajosa – todas as vezes que deixou sua timidez de lado e enfrentou Snape, Umbridge, e mais tarde os Carrow – mas nunca a tivera em quantidade suficiente para dizer “olá”.
Tudo que fizera em vez disso foi apenas ofendê-lo junto ao resto do time de Quadribol quando pode.
Mas aquilo doía, como nada mais doeu em toda a sua vida. Doía ver o desprezo nos olhos cinzentos que atormentavam seus sonhos, enquanto apenas desejava que tudo mudasse.
X
Pansy Parkinson não era uma garota bonita. Não com seu rosto redondo e canino – não como ela era bonita. Mas você conformou-se em levá-la ao baile de Inverno porque ela era puro-sangue – e seus pais se conheciam.
Você colocou as mãos pálidas na cintura de Parkinson e girou-a, com o vestido horroroso de babados, pelo salão, fingindo que estava satisfeito. Que os olhos claros e pequenos dela faziam-no bem, ou que realmente poderia gostar de Pansy.
Mas os seus olhos claros estavam em outra – esta com o vestido verde profundo, tão leve e brilhante no corpo esguio, bailando com aquele garoto popular da Corvinal. Sua mente estava em como suas mãos iriam entrelaçar tão perfeitamente a cintura fina e marcada pelo tecido escuro.
E mesmo assim, não a tirou a para dançar – e viu muitos outros fazerem isso. Contentou-se em lançar a ela um olhar maldoso, um sorriso de escárnio, porque era isso que lhe ensinaram a fazer, como um cachorrinho obediente.
X
Seu peito ardia horrivelmente enquanto o aluno de Durmstrang fazia-a desenhar círculos perfeitos pelo salão decorado. Todos diziam que estava tão bonita, e queriam saber seu nome, enquanto dezenas de olhos escorregavam para o decote do vestido.
Mas ele nunca lhe disse sobre sua beleza, ou então deixava os olhos caírem sob o decote. Não. Ele dançou com a garota sonserina, como convinha a um Malfoy, e deixou o olhar frio passar ainda pior do que indiferente por ela – maldoso, cheio de um ódio compulsivo.
E por isso você odiava-o, sufocava seu amor juvenil e puro com um ódio ainda maior do que o que ele tinha por você, matava-o mil vezes com desprezo. No entanto, um minuto sequer, deixou de olhá-lo ou desejar que ele a fizesse dançar.
Tinha seu orgulho grifinório, e por isso nunca o convidou para uma dança – porque não ligava se garotas deveriam fazer isso ou não. Apenas não o chamou porque nenhuma leoa dançava com uma cobra, e também porque pensava que ele jamais deixaria de desprezá-la.
Por isso apenas sorriu e agradeceu quando outro par de mãos tomou sua cintura.
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Umbridge disse-lhe para caçá-los, para trazê-los para ela, e você saiu com seus amigos para isso, mesmo sabendo que Juliet estaria lá. Mesmo sabendo que, ao levar Potter para a Alta Inquisidora, levá-la-ia também, porque a menina ajudava a organizar todas as reuniões.
Você espantou-os da toca como ratos, afugentou-os aos bandos, os fez correr como loucos, tentando não serem pegos. Alguém comentou que isso faria mais deles escaparem, mas você só conseguiu pedir a Merlin, em segredo, que ela escapasse.
Afinal, nunca iria tolerar que ela fosse punida e expulsa por sua culpa. Que seus olhos de cristal nunca mais estivessem por perto, espreitando, belos e cálidos.
E, nesse seu egoísmo Sonserino, você deixou a si mesmo de lado por um instante, apenas para pensar nela.
Principalmente quando pode segurá-la, vê-la tão assustada, e mesmo assim deixá-la ir.
X
Corram.
Você correu, sua mente a mil, enquanto sabia que todos os seus amigos estavam sendo pegos, sendo enviadas à Umbridge, mas não conseguia voltar, porque se fosse expulsa, simplesmente não poderia vingá-los.
Estava quase lá, quase na passagem que lhe levaria em segurança, quando os dedos finos e brancos fecharam-se em seu punho fino. Você virou-se, pronta para ser arrastada, mas tudo que viu foram olhos cinzentos.
- Vai. – Ele murmurou, soltando-a.
E naquele instante, fixando seus olhos nos dele, você ignorou toda a mágoa que sufocava sua paixãozinha infantil, e amou-o de todo o coração, de um jeito que só uma criança pode fazer. Você queria abraçá-lo, beijá-lo e escapar para longe de toda aquela confusão.
- Obrigada.
Mas isso foi tudo que conseguiu dizer.
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Snape levava-o para longe de Hogwarts, para segurança, talvez para casa. E você só se lembrava de Dumbledore caindo, morrendo, por sua culpa. Talvez ser um Malfoy, ser tudo aquilo que esperavam de você, não fosse algo tão bom assim.
Talvez fosse algo maldito, doloroso e cruel.
Principalmente quando você tinha certeza de que ela estava lá – porque vira uma cabelereira mel, que conhecia tão bem, balançando-se conforme duelava habilmente com um Comensal. Mas você não pode socorrê-la, ajuda-la a não se ferir. Apenas seguiu em frente, desnorteado e certo de que tudo desmoronava.
O menino de onze anos que vestia tão bem o verde sonserino estava morto, irremediavelmente ferido e perdido, principalmente porque tinha certeza de que, no fim das contas, o azul tão claro que se tornava quase incolor jamais pertenceria à você.
Você trocou tudo isso pela tatuagem que arde em seu braço.
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Estupefaça. Estupefaça.
Você murmura isso várias e várias vezes, derrubando muitos mais que qualquer outro, enquanto seus olhos procuram um só lugar onde esteja à salvo. Mas engana-se se, por acaso, imagina que a segurança é para você.
Na verdade, o que procura são os fios quase brancos, que sob a lua tornam-se imensamente belos. O que procura é o cinza cheio de desprezo e frieza que se enraizou em você de uma forma inimaginável.
Mal sabe que ele está lá, cumprindo o futuro que lhe deram, enquanto você segue aquilo que escolheu. Luta, com a Ordem da Fênix, luta contra aquilo que acha injusto – ou contra aquilo que é contra você, tão orgulhosamente nascida-trouxa.
A garotinha corajosa ainda está ai, escondida, ardendo porque sua cor predileta – cinza azulado – está perdida, longe dela, tão ferida que nunca poderá curá-la.
E, enquanto imagina o que te espera, sabe, que, no fim das contas, sobreviver não será mais tão bom.
X
A guerra nos muda tão cruelmente, arranca o bom e o ruim, e mistura-os, nos mata, sem escolha. Ninguém sobrevive a ela, mesmo que continue respirando. Tudo que permanece são estilhaços, memórias, sabores.
E, mesmo que tudo acabe, você sabe que terá uma última coisa, porque enquanto caça a última líder da Armada de Dumbledore pelo castelo – tão cruelmente encurralada – mesmo que isso tire sua vida medíocre, não deixará que a machuquem.
Não, principalmente porque quem a encontra, de varinha em punho, tão orgulhosa e com olhos queimando em fúria, é você.
Tão bela, com os hematomas e ferimentos, tão grifinória.
Sem explicações. Sem gestos ou palavras, vocês apenam colam seus lábios – como esperavam há anos, em uma dança rítmica e doce, com gosto de sangue. O seu sangue, o sangue dela, e não importa o grau de pureza.
Porque, ao fim das contas, uma única vez ela teve o cinza, e você teve o azul. A morte nunca foi tão agridoce, tão pegajosa e quente, tão desejável.
- Vai. – Você murmura, pressionando seus lábios no rosto dela.
- Obrigada. – Ela responde.
E, no fim, são as únicas palavras verdadeiras que realmente trocaram a vida toda.
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Dezenove anos. E nenhuma única vez você esqueceu-se dos lábios dele nos seus, a única coisa correta e esperada que fez sua vida toda. Nem mesmo as mortes ou perdas marcaram-na tanto. O amor supera tudo, até mesmo a maldade.
E ele ainda está ali, doce e puro, enquanto acena discretamente com a cabeça para Draco na estação, colocando seu filho no trem. Está ali, imortal e intocado, enquanto sua vida tomou um rumo tão diferente – casada com aquele menino Corvinal que a levara para o baile, com três crianças tão perfeitas.
Nada poderia ser diferente. Você realmente não esperava nada além disso – porque cobra e leão não são feitos para ficarem juntos. Você não nasceu para ser a mãe do filho dele, e ele jamais seria o pai dos seus.
Tudo está como deveria ser, e, surpreendentemente, isso não dói mais. Não há nada que o tempo não cure.
Notas finais
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