Down Theater (Terminado)

9 Capítulo 9 - Uma personagem fora do roteiro


Uma personagem fora do roteiro

O som do aço sendo estilhaçado, e o barulho de lâminas se chocando, pararam por um tempo, dando deixa para os trovões, e para a chuva salvadora finalmente começar. O segundo ato havia acabado, e as gotas caiam do céu nublado como aplausos ao fim do show. Os raios se tornaram presunçosos, e a cada um que acertava o chão, maior era o intervalo até o outro, logo tinham desaparecido, junto com seus lampejos amarelos nas nuvens, dando espaço apenas para o quase calmo, barulho da chuva acertando as paredes e entulhos.

A névoa também saia de cena, ao fechar de cortinas, apenas a cidade com aparência ainda mais apocalíptica e a chuva gotejante no telhado de seus prédios.

Caius notou a ausência de som, a batalha havia cessado, ele percebeu naturalmente, porém quem foi o vencedor? Seria seu amigo? Ou no pior das conseqüências, ele teria sido morto? Mas nada indicava que a serpente continuava a nadar em concreto, nenhum barulho.

Seu rádio chiou:

-Cai-us, Caius? Está me ouvindo? – parecia a voz de Dáhlia, rouca e triste, porém não conseguia transparecer mais que isso nos chiados.

Rune que estava sentada ao lado de Caius na escada, repousou a mão em seu ombro.

— Responda. – disse Rune.

Caius assentiu com a cabeça.

— Estou.

— O ato cessou? – perguntou a voz rouca de Dáhlia em meio aos chiados.

— Vou conferir. – respondeu o menino.

Caius levantou-se, e entregou o rádio a Rune, arrumou sua roupa por um estante, com medo de que veria em breve o cadáver de seu amigo, ou a serpente viva. Seus cabelos loiros, sujos, perderam totalmente o brilho, estando caídos e manchados de sujeira. Rune não parecia melhor, seus cabelos oleosos e tão sujos quanto o dele, além de sua roupa pouco rasgada nas mangas.

— Vamos descer, leve seu arco. – Disse o menino, pegando a lança que deixara de repouso.

Os dois desceram com cautela as escadas da construção, passando por onde a criatura tinha destruído um andar de escadaria. Porém, Caius pulou facilmente até as escadas abaixo, “Sua vez” se dirigiu para Rune, que pulou em sua ordem, ele a pegou nos braços facilmente, mais o impacto quase os fizera cair escada abaixo.

— Essa foi por pouco – disse ele, enquanto ela ficava em pé novamente – Vamos continuar.

Chegaram ao átrio pouco depois, e apenas o som de seus passos e da chuva lá fora os acompanhavam. O átrio estava tão destruído quanto o Down Theater, porém com enormes buracos de dois metros de diâmetro, aonde a serpente de ferro havia passado. Passaram com cautela por eles, e se dirigiram até a porta.

Abriram-na e viram a imagem da gigante víbora cortada ao meio. Com vários prédios envoltos, com cicatrizes da batalha, e incontáveis pedaços de lâminas e escamas estavam espalhados pelo chão molhado.

— A SERPENTE! – gritou Caius. – Mors conseguiu! — Ele correu até a imagem do cadáver da serpente, animado. – Mors! Você é incrível.

Dáhlia já havia descido o aranha-céu, vislumbrando também o cadáver. Enquanto falava no rádio.

— Ele conseguiu Amy! – ela sorriu. – Ele conseguiu mesmo! Venham até o prédio, estamos aqui já.

Rune andou até o outro lado da serpente, e no mesmo instante levou a mão a boca, a menina gritou. O sorriso de Caius e Dáhlia desapareceram quando chegaram até o outro lado da serpente. Desta vez, o olhar adulto de Dáhlia virou desespero.

— Aonde?! – Ela tentou dizer, seguido por um grito de choro. – Mors!

O sangue do menino cego estava ali, em grande quantidade já sendo lavado pela chuva. Caius olhou atentamente a cauda da serpente, também com o mesmo sangue, e logo entendeu o que havia acontecido. Porém sua tristeza não chegou antes de dizer:

— Aonde?! Aonde está o corpo?! – Gritou, correndo pra dentro de uma construção. – Mors!- Gritou.

— Mors! – se juntou Dáhlia correndo até dentro de uma casa.

— O corpo dele, desapareceu! – gritou Caius depois de correr para as outras construções mais próximas.

Porém ele já sabia, no fundo de sua mente, ele morreu, e então seu corpo desapareceu, para que todos esqueçam dele. Assim como Scurra disse. Porém ele se negava a acreditar, que seu amigo havia mesmo os deixado, logo depois de salvá-los do segundo e sangrento ato.

— Vincent também sumiu. – Disse um Tommy acabado, chegando no fim da esquina atravessando a névoa, com uma voz fria que não era comum para um menino daquela idade. Porém ele sorria, com o vislumbre de ter Mors como um cadáver.

Amy chegou de um cruzamento atrás de Tommy – Vincent sumiu?! E Mors também?! – ela parecia chocada.

Dáhlia chorava, encostada em uma construção, enquanto Rune abraçava-a também choramingando.

— Bom, ou estão mortos. – Aquela frase parecia deliciar Tommy. – Na ultima vez que vi Vincent, a cobra havia destruído a construção aonde ele vigiava, seu rádio parecia ter parado de funcionar.

— Redobre sua língua pivete. – Disse Caius repugnando-o. – Os dois podem ter desaparecido, porém não temos certeza que estão mortos.

O Portal apareceu de frente à porta do prédio, chamando-os para voltar. Com sua estrutura de pedra velha, e dentro de si apenas o véu negro. Tommy se dirigia até ele. Até que Caius segurou seu ombro, pouco amigavelmente.

— Nenhum de nós sairá, sem termos certeza que estão mortos. – ele aumentou sua voz. – Nós vamos atrás deles!

*

Ele ouvia apenas o barulho da chuva que tinha anunciado sua morte, perdido no escuro negro em que se encontrava, flutuando pelas margens do infinito invisível, enquanto ainda sentia frio em seu corpo acabado. A morte parecia calma de mais para ele, parecia que finalmente ele poderia se livrar do mundo cruel e dos preconceitos, que havia vivido até aquele momento, se livrar de Scurra e seus sorrisos maliciosos, e se livrar até das duvidas fervorosas que tinha em sua cabeça, como quem haviam sido seus pais. Mais para ele, só havia aquilo, talvez para sempre.

Uma voz entrou em sua cabeça, suave e lenta, brincando com seus sentidos sonoros, que por um milagre não haviam cessado. A voz o chamou, mas ele se recusava a ir, queria permanecer ali em seu sossego eterno. A voz insistiu, irritante, ele pensou, deixe-me aqui voz, não ligo o quão suave e doce você seja, apenas me deixe descansar. Ela não o deixou, derrotado, enquanto a voz dançava majestosamente em sua cabeça, no escuro negro ele flutuou indo atrás dela, deixando o escuro para o lado, indo a caminho daquela que lhe chamava. Você ganhou, ele se entregou, me mostre a vida novamente. E ela assim fez. Os olhos de Mors recuperaram-se abrindo.

E a primeira coisa que viu, foi um rosto. Não de um de seus companheiros, nem de Scurra, na verdade, foi uma pessoa diferente de todas que já havia visto. Era uma menina, sua pele lisa e pálida, seus cabelos tão brancos e lisos quanto a neve, e olhos azuis como gelo, era a menina mais linda que Mors uma vez já tinha visto, ele ficou ali, vislumbrando-a, quando a mesma sorriu.

— Está bom aí? – perguntou ela sarcástica.

E então ele voltou-a si, ele estava com a cabeça deitada em seu colo. Olhando de baixo o rosto da linda menina. E também percebeu em sua voz, era a mesma do sonho, suave e doce e dançava em seus ouvidos.

— Então você espera me agradecer por ter salvado sua vida assim? – ela riu. – deitado no meu colo? – ela acariciou seus cabelos. – Devia é ter te deixado para a serpente.

— Quem... Quem é você? – ele perguntou, tentando se levantar, sem sucesso, não por causa de seus ferimentos e seu corpo dolorido, isso era o de menos, mais sim por estar ali, deitado nela. Não era apenas beleza, ou sua voz suave, ou seus cabelos tão brancos, mais sim, em que tudo nela parecia estranhamente familiar. Então ele fingiu que não conseguia levantar-se.

— Ela salvou sua vida Mors. – disse uma voz familiar do outro lado da sala. Era Vincent. – Salvou a nós dois.

Vincent tirou a atenção de Mors da garota, que percebeu. Entendi, ainda estamos na peça, ele recordou-se, eu à vi antes de ser quase morto, agora lembro. Eles estavam em uma sala meio destruída, porem ainda com teto. Ele estava deitado, com a cabeça encostada no colo da menina de cabelos de neve. Enquanto a chuva ainda caia lá fora.

— Qual é seu nome? – perguntou Mors voltando sua visão à garota, com o rosto acima do seu.

— Esqueça Mors, ela não disse nem há mim, e já estamos aqui a pelo menos mais de meia hora. – disse Vincent. – E também não disse nada da onde ela veio.

Ela agora, parecia prestar mais atenção em Mors, e trocaram os olhares. O sorriso dela saiu de sua boca. Ela parecia afetada com o rosto do garoto.

— Meu nome é Alice. – disse a menina olhando fixamente nos olhos de Mors, calmamente.

Vincent riu.

— Parece que vocês criaram certa intimidade.

Mors e ela pareceram ignorar o comentário.

— Alice. – ele repetiu devagar. Aquele nome parecia tão familiar. – Como você conseguiu me salvar? – perguntou ele com curiosidade.

Ela virou seu olhar para uma janela com os vidros quebrados, aonde o vento entrava.

— Eu já tinha encontrado seu amigo, quando te vi, e então fui atrás dele... – ela deu uma pausa, voltando o olhar para Mors – Quando voltei você tinha sido envenenado e atravessado por uma lâmina. Então carreguei você até aqui, com a ajuda do seu amigo. Então mandei-o buscar um tipo de fruta que fica nas árvores do parque dessa cidade imunda. Depois então apenas fizemos você comê-la.

— E como sabia que ela curava o efeito do veneno?

— Eu estou aqui há mais de dez anos... – ela pareceu ficar pensativa. – eu acho.

— Como você veio parar... – ele tentou dizer. Quando ela fechou sua boca com a mão.

— Minha vez de perguntar, querido. – ela disse sorrindo. – Foram vocês que queimaram a floresta? – ela pareceu um pouco irritada.

— Bom, pode se dizer que foi. – disse Mors sinceramente, tirando a mão dela, de sua boca. – Porém não foi necessariamente por querer.

— E os guardiões? Vocês não o mataram por querer? – ela fechou a cara. – Por que diabos estão atacando-os? Eles nunca fizeram mal a mim!

— Guardiões? – se intrigou Vincent.

— Foi o que eles se alto proclamaram. – disse ela pensativa. – Eles estavam aqui desde que eu cheguei. – ela então perguntou. – Da onde vocês dois e aquelas outras cinco crianças vieram?

— Não acreditaria se nós contássemos. – disse Mors. – estamos tão intrigados com esse lugar quanto você com nós.

— Isso ainda não explica, como vocês somem e aparecem depois, no santuário dos guardiões, e muito menos do por quê que estão os matando. – ela enfureceu o olhar para Mors. – Eu vi você matando o guardião dessa cidade, brutalmente! Cortando-o ao meio. Que tipo de monstro você é?

— O mesmo tipo que você. – Ele disse. – Já nos vimos antes?

O rádio de Vincent tocou. Voltando a funcionar.

— O rádio não estava quebrado? – perguntou Vincent a si mesmo.

Mors levantou-se do colo de Alice.

— Atenda-o logo! Devem ser os outros.

Vincent tirou o rádio do bolso, apertando um botão, que fez bip, e então o colocou na orelha.

— Vin-Vincent? Está na escuta? – Disse a voz de Caius misturada com ruídos.

Mors, foi ate Vincent, retirando o rádio de sua mão.

— Caius, sou eu! – disse Mors.

— Mors! – disse Caius surpreso. O rádio fez vários ruídos, e estranhas vozes de alegria gritaram atrás deles, uma Mors reconheceu como a de Dáhlia. – Mors, Vincent! Vamos, o portal já esta aqui. Estávamos procurando vocês em toda a cidade. – ele pausou. – Que bom, que estão vivos!

Após isso, Mors perguntou a Alice aonde estava sua espada, que o entregou. Ela perguntou se eles se veriam de novo.

— Acho que sim. – disse ele. – Você virá até nós?

— Sim. – ela disse. – Nossa conversa não acabou aqui... Mor...

— Mors. – ele disse. – É meu nome.

Ela pareceu afetada novamente. Repetindo com sua voz suave “Mors”.

— Parece-lhe familiar não é? – ele perguntou. – Foi o mesmo comigo.

Alice os conduziu até perto da avenida principal, aonde eles podiam ver seus amigos. Porém ela disse que “conhecer apenas dois, já estava de bom tamanho para um dia só”. Mors despediu com um aperto de mão desajeitado. E então virou-se.

— Mors... – ela disse, e então o puxou pela mão. – Jure para mim, que mesmo que volte aqui, não matará nenhum guardião.

Mors pensou por um instante. Olhou para suas mãos juntas, e depois para o lindo rosto de Alice. E então mentiu.

— Eu prometo.

Ele se encontrou com os outros, Dáhlia, chorosa, correu até ele, dando um forte abraço. Choramingando agarrada nele.

— Eu pensei que você tinha... – ela tentou dizer entre os soluços.

— Eu estou bem. – disse.

— Todos nós pensamos. – disse Caius dando um abraço em seu amigo. – É bom vê-lo novamente. – ele sorriu. – você foi brilhante desta vez, e o melhor, ficou vivo.

— Não por minha própria causa. – disse Mors. – Recebi a ajuda de alguém.

-Alguém? – Se perguntou Caius. –... No teatro você me conta, Scurra deve estar com saudades de nós.

Os setes se dirigiram ao portal, saindo finalmente da cidade destruída. Porém agora o sentimento de Mors não era de alívio, e sim saudade.

Mal tinham chegado no teatro, então Mors começou a contar a história para Caius, enquanto uma Dáhlia nada feliz, ouvia a conversa atenciosamente, esperando saber mais sobre a misteriosa “Garota de cabelos brancos”.

— Guardiões, ela disse? – perguntou Caius intrigado.

— Exatamente. – confirmou Mors – Ela também disse que está lá a mais de dez anos.

— Então existem outras pessoas lá? – Caius pensou. – Isso também é interessante, mais será que essa garota pode nos ajudar?

Scurra havia chegado, descendo as escadarias e dando boas vindas.

— Bem vindos caros atores, é bom vê-los de novo, depois de tão maravilhoso ato! – ele sorriu – parabéns.

As crianças pareciam estar aliviadas de estar de novo ao refúgio pós-ato. Mesmo que dessa vez, apenas Mors havia atuado fortemente. E por esse mesmo motivo, o garoto estava exausto, e se dirigiu para o banho.

Caius foi então até o camarim. Quando no corredor ali perto, quando todos os atores não estavam por perto. Foi surpreendido por um Scurra como jamais havia visto. Com o olhar furioso, como nunca nem Caius havia estado. O homem o empurrou fortemente na parede. Com os olhos vidrados de fúria, e dentes rangendo. A Mão que segurava Caius estava tremendo.

— Você vai me falar...– ele tentou dizer em meio aos dentes batendo um contra os outros. Com os olhos queimando de fúria. – Você vai me falar agora Caius!QUEM É ESSA GAROTA!?

Notas finais
O que acharam da Alice?