Down Theater (Terminado)
4 Capítulo 4 - O mundo atrás da cortina
O Mundo atrás da cortina
-SCURRA! Caindo numa completa escuridão, Mors não conseguiu ouvir nada, e não sentir nada além daquele ar estranho, um ar mais doce e vivo que o da cidade, ou do que o empoeirado Down Theater. Dentro daquela escuridão, uma estranha sensação passou por sua cabeça “A verdadeira peça havia começado”. Não estava claro o que aquilo queria dizer, mas todos sabiam que o quer que fosse que encontrariam não seria comum. Nada disso é comum. Enquanto vagava no infinito lençol negro, os olhos de Mors formigaram de uma maneira que nunca haviam feito antes,a formigação foi crescendo enquanto a sensação daquele novo ar enchia seus pulmões. E então a queda, e a certeza de que o lugar aonde estava agora não era mais o Down Theater. As narinas de Mors se deliciavam com o odor de um ar vivido, mas seus olhos não. Agora eles doíam inquietante, algo estava acontecendo, uma grande transformação. Uma pupila morta acabara de recuperar a sua vida, e o olhar morto de Mors foi substituído por um olhar tão vivido quando o ar a sua volta, Sua visão acabava de voltar. Um choque mortal passou pela mente de Mors, que com sua mão direita apertando sua própria cara, tentava apertar seus olhos tão fortemente para que acordasse daquele sonho. Mors gritou fortemente, aquela luz alcançou suas pupilas e a fizeram arder, e mesmo com uma visão embaçada ele foi forçado a ver o novo mundo em sua volta. Como descrever aquela sensação? Foi igual dar um chocolate importado para um jovem que nunca tinha comido nada além de sal. Foi como se toda sua vida, você tivesse dormindo debaixo de um lençol. E foi assim que ele se sentiu. — Mi-minha visão!? – gaguejou ele, e tirando a mão dos olhos viu um horizonte novo. Uma cortina de cores que nunca passaram por suas pupilas, um lugar não apenas diferente para um cego, mais sim para qualquer pessoa do mundo, não havia nada parecido com aquilo. Ele estava em um campo aberto, verde como um campo nunca outrora tivesse sido, com um Sol laranja que refletia um degrade em todas as folhas. Um lugar em que a vida, estava em todo o ar presente. — Mors!? – gritou um Caius no horizonte, descendo o que parecia ser uma colina. Ainda em choque, nenhuma palavra conseguiu sair da boca do menino. Enquanto Caius segurava-o pelo braço. -Venha cá, venha ver isso. – Disse ele animado, mas depois recolhendo-se percebendo, que Mors nada poderia ver, pelo menos até agora. – Desculpe... — Não! – gritou Mors, — Errado! – Caius pareceu abismado – Eu posso ver, eu-eu... posso definitivamente ver! — O que?! – Caius pareceu chocado – Como assim?! — Estou vendo Caius! Te vendo, vendo essa paisagem! Tudo, Tudinho! – disse um Mors quase alegre. — Isso é ... – Caius não conseguiu encontrar uma boa palavra para definir aquilo – Incomum – Caius se botou a analisar a situação – No final das contas Scurra não deve estar nos tapeando, se ele consegue mesmo até recuperar sua visão. — é, talvez não – Mors abriu e fechou os olhos olhando todo aquele ambiente – Mas de qualquer formas estamos jogados aqui sem nada. — Não, não! Era isso que eu queria lhe mostrar – disse um Caius segurando Mors pelo ombro – Não estamos exatamente “sem nada”. Caius levou Mors até a descida de uma colina florida, abaixo dela todos os outros “Atores” permaneciam juntos, Tommy mais uma vez se encolheu a avistar Mors. Vincent parecia tão intrigado com aquele ambiente quanto Amy, o que os fez trocar alguns olhares felizes, Dáhlia permanecia quieta e pensativa, enquanto Rune parecia sorrir ao ver os dois descendo a colina. Ao chegar até a planície florida, Mors viu um imenso baú de ferro, estranhamente posicionado dentro da terra, o tamanho do cofre era no de cinco metros quadrados, com uma gigante fechadura, que em vez de pedir uma chave, havia marcado nele sete mãos pintadas. — Então Mors? O que acha? – Perguntou Caius curioso. — Não sei, mas julgando estar no meio desse lugar estranho, sugiro que deve ser algo mandado por Scurra. Mas não tenho certeza, Não vi nada assim caindo daquele portal. — Sua visão voltou? – Perguntou Dáhlia intrigada, e Mors assentiu com a cabeça. — Há! Tinha imaginado. – a estranha frase vinha de Vincent, que sorrindo arregaçou as mangas e mostrou seu braço de pele parda – Eu tinha um imenso machucado aqui, que me trazia dor todas as noites que eu dormia na rua, mas olha só sumiu! — Então parece que Scurra é realmente mágico – Disse Rune. — Deixando isso de lado – Mors retomou o pensamento sobre o cofre, chegando até suas proximidades – Acho que devemos todos por a mão direita na fechadura. — Certo. – Disse Caius colocando sua mão em uma das marcas de tintas – Vamos, parece que precisa de sete para abrir. Se é que isso vai mesmo abrir. As crianças se posicionaram para por suas mãos nas marcas, menos Tommy que recusou ficar ao lado de Mors, trocando com Dáhlia. Assim quando todos colocaram suas mãos a estranha fechadura de marcas de tintas começou a girar. Com o susto, os jovens se afastaram para mais uma imagem bizarra que Scurra havia preparado para eles. A fechadura parou, o chão tremeu, e o cofre se abriu revelando estranhas roupas e utensílios que Mors só havia ouvido falar em histórias medievais. Havia armas, ombreiras, flechas, equipamentos, estranhas cotas de malhas pretas bordadas com a inscrição “Enquanto este mundo nos permitir”. E ainda mais estranhamente havia uma roupa no tamanho ideal de cada criança e seu nome escrito em uma das mangas.
— Isso é algum tipo de uniforme? – Perguntou Rune estendendo a roupa feita sobre medida para ela – Parece que cabe perfeitamente em mim. — Olhem as Armas! – disse um Caius com o que parecia ser seu primeiro sorriso – Parece que tem um tipo de arma para cada um de nós. Caius procurou seu nome gravado em alguma delas, e em uma lança média de lâmina um pouco grande para uma lança normal, Desbravando a pique Caius leu seu nome – “Para o astro das pontas afiadas: Caius” Dáhlia não havia apenas uma arma e sim varias, essas pareciam menos medievais, eram todas bombas, bombas de gás, bombas de cheiro, granadas de mão, dinamites, e uma lança granadas do tamanho de seu ombro. Para Vincent havia um enorme boomerang de quase um metro e meio, com mecanismo estranho, que quando apertado um botão no meio, se dividia em três, todos com laminas afiadíssimas, Amy havia pego duas adagas com laminas curvadas, e algumas facas de arremesso, Rune segurava dois revólveres, e em seus pés havia um escopeta de prata, e ao seu redor muita munição. Com Tommy havia um machado com duas laminas, do tamanho de uma melância. E então, Mors virou-se para a ultima arma que restava, uma espada, mas não uma espada qualquer, aquilo era diferente de tudo que Mors havia visto, era uma espada de quase seu próprio tamanho, com uma lamina de dois gumes que dava para cortar um carro ao meio em um único golpe, ela também parecia muito pesada, muito além do que Mors conseguiria agüentar, mesmo com a ajuda de todos os outros. Tentado a testá-la, Mors foi impaciente segurar sua bainha, tentando movimentá-la. E inacreditável mente ela se moveu sem maior esforço, aquilo era impossivelmente muito mais leve do que ele esperava, era como se ele estivesse segurando uma faca de cozinha e não uma montante de quase sua mesma altura e o dobro de largura. — Como?! – Perguntou um Caius surpreso – Isso deve pesar no mínimo uns cem quilos! — Não, parece... estranhamente leve – disse Mors movimentando-a pelo ar, que cortava-o rapidamente, criando um barulho esquisito. — Deixe-me testar! – Caius largou sua pique e no mesmo momento tentou segurar a espada, que no momento que tocou suas mãos caiu como um estrondo no chão – Isso é definitivamente muito pesado! Como pode movimentá-la com tanta facilidade? — Também não faço a mínima idéia, só sei que gostei dela. — Desculpe interromper a brincadeira. – disse uma Dáhlia abatida por tudo aquilo – Mas o que você acham que Scurra queria enviando-nos a esse lugar com essas armas? — Exatamente o que parece, ele quer que lutemos, mas contra o que não estou certo –disse Mors colocando a estranha armadura, enquanto lia na lamina de sua espada as inscrições “ Para aquele Astro de olhos agora vivos: Mors” — Ei Pessoal! – Disse Vincent apontando para um lugar sumido no horizonte de campos floridos – Amy achou um tipo de floresta! Não é melhor darmos uma olhada? Mors, Caius e Dáhlia se entreolharam. — Talvez seja lá que Scurra quer que vamos – disse Mors pensativo. — O que será que ele preparou para nós lá? – perguntou Caius cuspindo. — Não sei, mas tenho certeza que não será nada agradável – Mors ajeitou sua cota de malha – Assim como ele não é. Com todos com seus devidos equipamentos e suas roupas, os sete jovens marcharam através de muitas colinas floridas até ver primeira árvore do bosque que Amy havia encontrado. Mors enchia seus olhos daquela paisagem magnífica de campos abertos, com flores amarelas brilhantes, tomadas pelo reflexo do sol nas colinas. Mas apesar da vista magnífica um pensamente sombrio navegava entre a mente de nossos jovens, medo, ansiedade e até a vontade de ter seus desejos realizados. A peça havia começado, mas eles não faziam idéia do que lhe esperavam, mesmo que os “presentes” de Scurra dessem uma idéia. Segurando as armas que acabaram de receber de um baú misterioso, sete jovens marcharam até a perda da própria inocência, aonde seriam transformados física e mentalmente e talvez nunca voltassem a ser como antes. Um desejo realmente vale a pena? Para enfrentar um tamanho perigo que nunca seriam expostos no mundo real? A resposta apesar de parecer óbvia esconde muitos furos, aquelas crianças realmente desejavam alguma coisa, e aquele lugar mágico aonde nunca poderiam estar, já valeria a pena qualquer coisa que encontrassem a sua frente, ou era isso em que pensavam. As colinas agora paravam em uma planície , aonde um largo rio a cruzava, dividindo a floresta e o resto dos campos. Entrando um de cada vez no estranho bosque a sua frente Mors viu uma paisagem ainda mais rica e mais formosa, até mesmo assustadora, do que os campos que deixaram pra trás. — Nunca havia visto uma floresta deste tipo! –exclamou Dáhlia. E estava certa, a floresta era de fato incomum. Tinha altas arvores tortas e curvadas, com galhos altos, e mesmo que denso, o sol conseguia passar entre as folhas causando um degrade no solo. Havia plantas que ninguém encontraria não importa em que livro de flora e fauna procura se. Eram repletas de cores, desde estranhas samambaias, rochas com pontinhas amarelas, até flores brilhantes do tamanho de um pneu, e uma grama que fundia suas cores entre verde claro e cinza. Além de outras plantas coloridas, e tão brilhantes quanto lâmpadas. — Isso realmente é lindo – disse Amy retirando uma flor pelo caule, quando que sem querer um de seus espinhos penetrou sua mão, causando dor quase que imediatamente – Ai! Isso tem espinhos! — Não toquem em nada. – disse Mors – Essa floresta não é comum, e não sabemos que tipos de plantas aqui são ou não tóxicas. E ainda temos que achar o objetivo, para Scurra tirar-nos daqui. — E qual acha que é esse objetivo? – perguntou Rune confusa. — Bom, Scurra não nos deu armas para colher flores – Mors moveu a cabeça para mais adentro da floresta – Vamos nos mover! Mas afundo na imensa floresta, as árvores continuavam a aumentar seu tamanho, além de ainda mais plantas estranhas e coloridas. Mas então Caius avistou o que parecia ser uma construção. — Venham! Acho que estou vendo algo! E de fato havia algo estranho, a Densidade da floresta baixou consideravelmente, deixando uma espécie de campo em uma das extremidades do lago, e mais a frente algo que parecia com colunas tortas e quebradas, além de pedras imensas. Eles estavam na ruína do que parecia ser um templo esquecido a anos naquele bosque colorido. — Está deserto – disse Vincent intrigado. — É o que parece. – respondeu Caius. — Acha que alguém viveu aqui? — Eu acho que ainda vive – disse Mors — escutaram isso? Os ouvidos aguçados de Mors captaram um pequeno som de pedras se rachando. — Não ouvi nada – Respondeu Caius. — Nem nós – Disse Dáhlia, enquanto os outros assentiam com a cabeça – Tem certeza que ouviu alguma coisa? O rachar de pedras voltou, desta vez mais alta, fazendo com que os outros ouvissem. — Ouviram agora? — Sim. — Da onde diabos esse barulho vêm?! – Perguntou Caius, enquanto o som aumentava lentamente. — Eu acho que vêm dos pilares e dos restos do templo – disse Mors, chegando mais perto para ouvir. — Quer que eu cheque? – perguntou Vincent tão curioso que quase não conseguia se mantiver parado. — Acho que não será necessário! – Disse Mors dando um passo para trás. As pilastras começaram a se rachar, mas não como estivessem desmoronando, mas sim se agrupando. A terra tremeu, e entulhos encobertos por terra voavam com vontade própria até o centro da antiga construção. Uma pedra grande, saiu debaixo do chão em que Vincent pisava, fazendo-o cair ao chão, e então se juntou a grande pilha de escombros. Os pilares se despedaçavam junto com o resto do esqueleto do templo formando uma figura estranha. E então, os jovens puderam ver a silhueta da criatura a sua frente, enquanto restos dos escombros se juntavam para aumentar seu tamanho. Era uma espécie de gigante, de aproximadamente sete metros de altura e três de comprimento, ele parecia com um homem corcunda, só que recheado de músculos. Suas mãos grandes que poderiam esmagar um homem inteiro, pernas robustas feitas de restos de mármore, e seu rosto se assemelhavam ao de um homem, só que sem nenhum lábios ou boca, apenas duas narinas e olhos azuis. E foi aquilo que chamou a atenção de Mors, os olhos, que diferente do resto de seu corpo, não era feito de pedras, e sim ao que parecia ser, olhos humanos, ou pelo menos se assemelhavam bastante com o de um, o mais estranho é que estampado em seus olhos azuis piscina, estava uma expressão de medo.
E então, lá estava, sete crianças aflitas fitando um imenso Colosso de pedra com olhos humanos, e em sua mão direita uma marreta afiada. Coberto de medo, tremendo, e com seus corações pulsando a mil, os jovens agora entendiam o que aquelas armas significavam, ou o que aquela peça significava. Eles teriam que lutar até a morte com um monstro gigantesco ou então nunca voltariam para casa, e seriam esquecidos por seus entes queridos, como se nunca tivessem existido. Mors notou, que assim como eles, o Colosso permanecia imóvel apenas fitando-os, como se não quisesse atacá-los ou fazê-los mal, e aquela expressão em seus olhos dizia para Mors, que ele estava tão aflito quanto todos eles. — Não façam nenhuma bobagem, e nem movam um músculo ou então... NÃO TOMMY! – Gritou Mors. Enquanto um Tommy tremendo e cambaleando corria até a figura de pedra, lançando um golpe com seu machado na canela do Colosso, sem efeito nenhum aparentemente, Mas aquele gesto enfureceu o gigante de pedra, e com um Tommy encolhido e envolvido de medo, esperando o golpe fatal. O colosso desferiu seu primeiro e enfurecido golpe.
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