Down Theater (Terminado)

18 Capítulo 18 - A morte de ela


CAPÍTULO DEZOITO: A MORTE DE ELA

O Véu negro encobriu os olhos que outrora nada enxergavam, por alguns instantes o negro nostálgico passou pelas íris negras do garoto.
Mal havia deixado Alice por alguns segundos, e a saudade dos lábios suaves de sua amada o deixaram angustiado. Ele devia impedir o plano de Scurra rapidamente, e poder seguir seu plano com a garota albina. Uma nova vida, no mundo além do teatro, e ainda mais longe do mundo atrás da cortina. E tinha certeza que era isso que o Senhor das Correntes gostaria. Mors cumpriria o último desejo do homem, e seguiria sua vida em frente com sua filha, fora da peça maníaca de Scurra.
Os olhos voltaram a enxergar, mas o ambiente que estava era algo como nunca tinha visto: O escuro do véu percorria todo ambiente, Mors percebeu que o lugar cedia entre o mundo atrás da cortina e o Down Theater, mas como ou onde, complicado seria definir. Flutuando nesse negro véu, estava o lugar aonde Mors pisara, uma placa de terra, quase reta, feita de pedra, que se estendia até o horizonte, de quase um quilometro de diâmetro. Águas rasas estavam entre seus sapatos, água esta que não passava do tornozelo, ela também se estendia até o fim daquela porção de pedra flutuante, caindo nas beiradas, formando estranhas cachoeiras que iam até o fim do mundo, se perdendo para sempre num negro infinito, assim como o próprio universo.
Mors quase nem notou todo o ambiente, por que a visão do ultimo ato lhe trouxe horror e enjôo. Viu a sua frente, todos seus companheiros, mas não do jeito que gostaria.
aos seus pés, deitados no chão molhado, estavam seis corpos. Corpos estes conhecidos. Mors viu Amy, deitada de qualquer jeito, olhos fechados e boca aberta, seu sangue estava fluindo, se misturando junto com água. Mais a frente estava o corpo de Vincent, o menino moreno estava desengonçado, como sempre estivera, porém desta vez, a felicidade havia sido arrancada de seu rosto. Suas roupas rasgadas, cortes profundos em sua pele, olhos fechados, corpo sujo de pedras, e água. Ao lado dele, estava Rune, a menina de cabelos meio ondulados, era a que mais parecia ter sofrido. A menina estava toda torta no chão, com o rosto sangrando e inchado, assim como demais partes do corpo, sua roupa rasgada e molhada, uma de suas próprias flechas estava fincada em sua mão. Seus olhos se mantinham abertos, porém nada enxergava.
Mors caminhou entre os corpos de seus amigos, numa visão triste e horrorizante daquela peça estranha, que os fez lutar por seus desejos.
Mais a frente, Mors viu Dáhlia, a menina que nutria um sentimento especial por ele. Ver ela naquele estado foi doloroso para o garoto. Mors ajoelhou perto da menina de cabelos negros, olhos fechados e corpo fraco. Havia um grande corte em sua perna, Mors percebeu, muito preciso para ser de alguma criatura, aquilo tinha sido feito por algum bom tipo de lâmina.
Ajoelhado na garota, Mors pôs suas mãos no pescoço da garota, que estava vermelho, com marcas vorazes de algum estrangulamento.
A garota respirava ainda, porém desacordada e fraca.
Ao longe, Mors vira outro corpo, junto ao um machado, e assim reconhecera Tommy. Mesmo ele, aquele que a empatia era maior entre seus companheiros, Mors ficou triste, ele não merecia isso, ele compreendeu, nenhum deles merecia.
Era esse então, o último ato, um banho de sangue entre os próprios participantes da peça, Mors chegara tarde de mais para salvá-los. Mas agora, poderia vingá-los.
Mors andou com sua espada em mãos, procurando o causador daquele ato covarde de agressão. Porém ninguém achou. Scurra não estava ali. O que deu a o garoto a impressão, que os próprios atores, estavam lutando uns contra os outros.
Um estrondo ocorreu nas pedras, olhou para cima do véu negro que era o céu, pedaços gigantescos de pedra, e até pilares, caiam contra o chão, se despedaçando entre as pedras e a água.
Numa ponta daquela terra flutuante, se concentrava várias pedras desordenadas, pilares, e outros materiais, com cadê vez mais outros caindo do céu.
Em cima de uns desses pilares, estava uma figura que Mors reconhecera. Caius, ele notou pela lança que estava fincada no pilar em que o garoto sentava.
— CAIUS!
Mors gritou, porém não alto o suficiente. O melhor amigo de Mors nada notou. Estava longe demais para ouvir, e os barulhos do apocalipse caindo sobre aquela terra ensurdava qualquer outro barulho.
Mas seu amigo estava vivo, e isso era o suficiente. Caius saberia e contaria o que acontecera, ele contaria sim. Apesar do que havia acontecido horas atrás ainda no mundo atrás da cortina, era o melhor amigo que Mors tivera. Eles fariam as pazes, e lutariam juntos contra o plano de Scurra.
Assim, correu entre a água, deixando gotas voando atrás de seus passos ligeiros. Sua espada ainda em suas costas, correu até aonde a queda de pilares era mais freqüente. Correu, e correu mais. Triste, olhando para trás, vendo a desgraça que caíra entre os atores. Mas ele correu, atrás de seu melhor amigo. Juntos saberiam o que fazer, nenhum Scurra poderia impedi-los.
Um grande entulho de pedras gigantescas e pilares, se estendiam na ponta do lugar, alguns pilares, lembraram os mesmo do templo, com as mesmas gravuras. Mors notou então o que estava acontecendo. O mundo atrás da cortina estava desabando. Estava sendo corrompido e sendo destruído. Scurra planejava trancá-los lá dentro para toda eternidade? Ele tinha que tirar todos os outros dali o mais rápido possível, e voltar para tirar Alice, antes que o mundo dela entrasse em colapso.
Um pilar caiu não muito longe de Mors, perto da beirada daquele palco flutuante, e assim se despedaçou, fazendo a terra tremer, e seus estilhaços caíram além da beirada, sumindo no véu negro.
Mors notou Caís, em um pilar turvo, acima de várias pedras gigantescas e entulhos, o menino estava sentado, fitando o nada.
— CAIUS! — gritou Mors
O menino voltou sua atenção para Mors.
— Mors... – respondeu, com uma voz seca e fria, diferente de como o encontro dos dois parecia na mente de Mors.
Caius estava com o rosto frio com várias veias saltadas, seus olhos exaltavam um vermelho esfumaçado, um vermelho de sangue. Mesmo assim começou a escalar as pedras e pilares.
— Estou indo até ai! – gritou Mors num tom que seria até feliz, se não tivesse visto a desgraça que acabara de acontecer.
— NÃO! – gritou o menino loiro.
Parou por um segundo.
— Caius?
— Fique longe de mim! – gritou o garoto levantando-se. – Saía daqui Mors! Suma! Vá atrás de sua garota. Não vê? esse não é mais seu lugar, suma antes que eu me obrigue a executá-los em sua frente!
— Executá-los? – Mors surpreendeu-se. – Do que você está falando?
— Exatamente Mors, o último ato de Scurra é este, a morte para todos os atores. Menos para aquele vencedor. Aquele que o desejo será realizado. – disse o menino secamente.
— O que diabos você está dizendo, está louco... O que Scurra fez com vocês?
— O que Scurra fez?! – Caius riu maliciosamente. – O que eu fiz Mors! Não tire minha maldita culpa. Eu derrotei-os, eu deixei seus corpos moribundos ali! E logo matarei um por um.
— Você está louco?! Por que diabos você está fazendo isso! Somos amigos, todos nós!
Caius riu novamente.
— Scurra me contou que apenas um desejo será realizado e aconselhou-me que matasse todos os outros, para não tentarem roubar o meu desejo. – ele sussurrou para si mesmo “amigos” – Sim, talvez eu e você ainda sejamos apesar de tudo isso. Apesar daquela garota. Se está aqui, então você deixou-a, fez bem. Se você não tiver nenhum desejo realmente, seremos amigos, assim, depois que o meu se realizar, mataremos Scurra como um último sacrifício. Ela precisa disso! Ela merece isso! Eu me tornei maníaco eu sei... Mas não importa, não importa quantas vidas eu destrua! Eu só quero vê-la feliz de novo! Apenas isso! Isso não é um pecado? Seria?
— Caius... Você passou por cima de todos seus companheiros...
— Sim! – o garoto riu. – Passei por cima de Vincent e Amy, aquelas crianças inocentes... Passei por cima de Tommy, aquele bastardo inútil, essa você tem que me agradecer, admita! – e assim continuou a rir. – Passei por cima, de Dáhlia, aquela maldita atirada, ela amava-o sabia Mors?! Ela e eu planejamos isso com Scurra, apenas para ela ficar com você no final. Mas você nunca a quis não é?! Você é tão culpado quanto eu, e assim, deixei-a lá, não me serviria para nada. – A boca de Mors secou-se, rachava a cada frase que Caius em sua insanidade dizia. –Ah! E ainda teve a Rune, aquela garota... Amava-me, sabia? Ela rastejou entre minhas pernas se rendendo, pedindo para que eu parasse, perguntando o porquê, e assim bati-a, bati mais forte! Bati até quase rachar seu crânio de garota chata. Ela me amava e mesmo assim machuquei-a a tanto gosto, com seus gritos em meus ouvidos, a canção mais doce que já ouvi!
Mors não podia acreditar no que seu melhor amigo dizia, não podia, aquele não era mais o Caius. Era algum demônio que apossara de seu corpo, seus olhos vermelhos mostravam isso.
— Caius?! Você... Como tem coragem de dizer isso!? Como pode fazer isso por puro egoísmo! Não vê o que Scurra te transformou?! Você está fora de si!
— É tudo por ela, Mors. Tudo por Clair, ela não tem mais salvação, os médicos diziam, não tinha! E nossa falta de dinheiro não poderia pagar os aparelhos que mantém ela viva... Mas agora eu posso salvá-la! E vou salvá-la! Você me ajudando ou não.
— Você se tornou algo que nunca eu pensei que veria... Logo você Caius, eu pensei que eu seria aquele que se corromperia, estava enganado... Você não é mais o amigo que eu tinha, ele morreu!
Caius irritado cuspiu na roupa de Mors.
— VOCÊ NUNCA ENTEDERÁ, SEU CEGO TOLO! NUNCA TEVE AMOR POR ALGUÉM, NUNCA TEVE FAMÍLIA! VOCÊ NUNCA FOI MEU AMIGO!
Mors tirou sua espada das costas.
— Você é apenas mais uma marionete. Não importa Caius, você não machucará mais ninguém! Não enquanto eu estiver vivo!
A face de Caius, o transformou numa versão demoníaca dele mesmo, com suas veias saltadas e olhares secos e vermelhos.
— ENTÃO TE MATAREI PRIMEIRO, MEU CARO AMIGO. – Caius, empunhou sua lança.
Mors empunhou fortemente sua espada enquanto uma única lágrima caia de seu rosto, essa se juntou a inundação daquele lugar. E assim correu para cima de Caius, com toda raiva e angústia que segurou.
A lâmina de Mors se cruzou com a de Caius, gerando fagulhas gigantescas.
Os dois começaram a lutar em cima daquele pilar curvado e desgastado. Moveu sua espada para atacar a direita de Caius. O menino loiro, rapidamente movimentou sua lança, fazendo a espada de Mors ir para o lado oposto. Assim aproveitou para estocar o garoto cego no peito. Defendeu com sua espada, antes que o a lança atingisse sua pele. E assim, seus corpos moviam-se rapidamente e agressivamente, com suas armas uma contra a outra em movimentos de confronto, aonde faíscas brilhavam e acendiam diante o ar.
Os dois elevaram suas lâminas para cima, uma contra a outra, e ali as duas se forçaram, enquanto atrás deles um enorme pilar caiu nas pedras se despedaçando em meio ao entulho. Quase fazendo os dois se desequilibrarem.
Os dois se olharam profundamente, em seus rostos angustiados e a raiva que resplandecia em cada um de seus olhos. Dos negros de Mors, até os vermelhos de Caius. Eles sabiam, que um dos dois não sobreviria até o final.
Mors andava contra Caius, obrigando-o a subir o pilar cada vez mais, com suas lâminas se encontrando em golpes fortes, pela direita, pela esquerda, por cima, e todos os lados possíveis. Caius chegou até a ponta do pilar, e assim viu outro que caia. Pulou nele, enquanto o mesmo se chocava contra pedras e ficava na vertical, ainda mais acima que o outro pilar. Mors pulou atrás de Caius, atacando-o na direita, quase desequilibraram, porém suas lâminas se encontraram de novo, numa chuva de feixes vermelhos e do aço tinindo.
— DESISTA MORS!
Mors moveu seu outro braço, segurando a espada com o outro, assim tentou socar Caius, que desviou no mesmo instante e deu uma cotovelada na mão do garoto cego. Quase o desequilibrando.
Ele se move rapidamente demais, Mors percebeu, Ele é melhor que Alice e muito superior a mim, sua raiva e insanidade o movem violentamente. Qualquer passo em falso e morrerei.
Mors continuou, tentando clavar a espada nas pernas de Caius, sem efeito já que a lança de Caius a prendeu ao chão antes disso. E assim, com a outra mão, o menino de cabelos loiros deu um soco na face pálida do garoto cego.
A dor encheu os nervos do garoto, assim que a mão pesada de Caius se encontrou com seu nariz. O barulho da cartilagem se quebrando foi imediato, o nariz de Mors quebrou-se, apenas deixando uma narina totalmente comprometida, sangrando no mesmo instante, e a outra pouco funcional.
Mors não se intimidou, apesar de sua dor. Lutou contra a lâmina de Caius. Forçando o mesmo a pular para uma grande pedra que caíra a frente. Mors pulou em seguida novamente, e seus aços se encontraram no mesmo instante.
O menino loiro então, recuou, fazendo um movimento giratório com sua lança, mostrando visivelmente o quanto era habilidoso, com sua arma dançando entre os dedos.
Assim Mors também o fez, suas lâminas rodaram entre suas mãos, dando ataques rápidos, um contra o outro. Fazendo faíscas incendiarem o céu empoeirado por alguns segundos, enquanto o metal rugia.
Um outro pilar já despedaçado caíra sobre os dois, fazendo-os pular. Caius para outro amontoado de pilares mais acima, e Mors em um mais baixo. Mors olhou para trás um único segundo, antes de ir contra Caius novamente. Os dois já estavam a vários metros do chão, e uma queda ocasionaria a Morte. E agora, milhões de pedras e pilares, caíam por todos os lados.
Mors correu contra Caius, enquanto desviava de algumas pedras, e cortava outras. Assim se encontraram num golpe furioso, em meio aos objetos que caíam entre eles. Os dois subiam o enorme pilar, enquanto seus movimentos se encontravam, numa dança de ferro, que Mors nunca presenciara, nem mesmo com Alice. Nem o mesmo sabia como poderia ser tão habilidoso, e nem como Caius se tornara tão forte.
Subindo o objeto feito de mármore, Mors investiu contra a esquerda de Caius, que desviou, voando faíscas, o mesmo menino, movia sua lança, trocando de mãos, e indo de contra à Mors, tentando confundi-lo. E assim conseguiu, fazendo a mesma atravessar o antebraço esquerdo de Mors, jorrando sangue. Mors recuou. Mors parecia ter visto uma sombra se mover embaixo do pilar, mais quando olhou, nada viu. Quando voltou sua atenção para Caius, a lança do garoto já ia de encontro a seu peito.
O fim, Mors pensou, Minha morte será aqui... Desculpe-me Alice, não posso realizar seu desejo, desculpe Senhor das Correntes, não poderei impedir Scurra. Desculpe você também Caius... Por não ter chegado a tempo... A tempo de te salvar de Scurra.
Preso em seus últimos pensamentos Mors fechou seus olhos, na espera da lança cortar seu tórax. A espera da morte, mais uma vez.
Assim, ouviu a lâmina atravessar a pele. O sangue jorrado, escorrer por sua roupa e face. Mas nada sentiu, nada. Mors então abriu os olhos. E a cena mais improvável, acontecia em sua frente. Um Tommy, com uma lança entre sua barriga, disse:
—Depois, de todas as vezes que me salvou Mors... Esse é o mínimo que poderia fazer. – Disse o menino, enquanto a caía de joelhos, e sua boca se enchia de seu sangue. – Mesmo que eu não goste de você... Sou-lhe grato.
O menino mimado que antes odiava Mors, sacrificou-se por ele. O sangue do garoto manchava o uniforme negro de Scurra. Manchava também o pilar. E assim Tommy caiu de joelhos diante Mors e Caius.
Mors pareceu não perceber mais Caius ali, abaixando sua espada e curvando-se pra segurar o corpo fraco e ensangüentado de seu salvador. A boca do menino gorfou sangue.
Mors segurou o corpo do garoto em seus braços, tremendo. Não só de surpresa, mais também tristeza e fúria.
— OLHE O QUE VOCÊ FEZ! – gritou Mors na direção de Caius.
O lanceiro tremia tão surpreso quanto o próprio Mors. Se levando para trás lentamente, enquanto olhava suas mãos sujas de sangue.
— OLHE SÓ O QUE VOCÊ FEZ, CAIUS!— gritou Mors contra seu antigo amigo, enquanto Tommy lutava para continuar com os olhos abertos. – OLHE SÓ O QUE VOCÊ FEZ COM TOMMY! OLHE O QUE VOCÊ FEZ COM TODOS.
Caius não conseguiu dizer nada, apenas gaguejou palavras se sentido, se distanciando para traz. Tremendo e vez ou outra levando sua mão a boca. A insanidade entrava em combate com seus ideais e Caius ficou sem ação.
— CAIUS! OLHE PARA A SUJEIRA QUE VOCÊ FEZ!
Caius ainda trêmulo olhou para o horizonte daquele palco. Além da beirada que estavam, além dos entulhos e pilares sobrepostos em cima um dos outros, aonde estavam. Viu aquilo que fizera seus companheiros de palco ao chão, fracos, quase mortos e derrotados.Olhou também para Tommy, o menino em que atravessara com sua lança. Viu também seu antigo melhor amigo, ali gritando contra ele.
Um pilar de espessura muito maior que o restante, caíra ali perto, ele era retangular, e parecia meio quebradiço. Mas ainda assim, era muito maior que todos os outros. Ele caiu lentamente.
Caius assustado com si mesmo, confuso sobre o que fazer, correu até o pilar gigantesco.
—Não se preocupe comigo... – Disse Tommy em voz fraca, dita entre o liquido vermelho em seus lábios. – Você tem outra pessoa para salvar.

Assim Mors o deixou-o naquele lugar. Seguro por enquanto. Então correu atrás de Caius. Com suas espada bem segurada pelo braço bom.
O pilar gigantesco passou pela ponta de mármore aonde Caius, e Mors corriam. Ainda caindo. O menino louro pulou, assim já olhando para trás, notando a presença de Mors. O garoto cego esperou o pilar passar perto de si, e pulou. Desta vez, quase caindo para trás, já que pilar ainda caia entre os outros entulhos de mármore mesmo ainda caia.
— Caius pare, por favor!
—
Não... Não posso... Não posso! – disse o garoto, com veias saltadas, olhos fundos e escarlates. Uma grande confusão passara por sua cabeça. – EU TENHO QUE SALVÁ-LA!
Como um grito de guerra. Caius se voltou contra Mors, brandindo sua lança em movimentos rápidos e insanos, ainda piores e bruscos de quando Mors lutara com Alice. A loucura da peça enchia seus movimentos.
Mors os defendia com dificuldade. Porém não podia perder, não agora, que Tommy se sacrificara por ele. Ele tinha que trazer seu amigo de volta, era o maior objetivo dele naquele momento. Maior mesmo que impedir Scurra.
O grande objeto de Mármore caia entre os entulhos. Na vertical, despedaçando-se devagar, enquanto encontrava outros pilares, e batia. Nada parecia poder parar o objeto gigantesco. Em seu topo, Mors e Caius lutavam numa última batalha insana, na beira do fim do mundo.
— Você tem que se libertar Caius! – gritou Mors. Enquanto desviava de um pedaço de mármore que rachara atrás de seu corpo. E ao mesmo tempo impedia um golpe furioso de Caius.
— Eu preciso continuar! Eu preciso salvar Clair! Eu preciso! – disse Caius, em seu lado esquerdo, uma parte do pilar rachara, quando batera em outro pilar, este menor, se quebrou em milhões de pedaços, que voaram diante a cruz de lâminas que se formou entre Caius e Mors.
— Nós todos vamos morrer! Liberte-se dessa loucura e vamos sair daqui!
Porém Mors não vira aonde o pilar estava levando-os. Ele bateu uma última vez, no chão de pedra, levantando água, fazendo-o cair na vertical. Aonde Mors e Caius conseguiram pular.
Eles mal notaram o pilar em que pisavam. Este mesmo estava entre o chão de pedra, e o vazio negro. Qualquer movimento brusco. E os dois cairiam para o infinito lençol escuro.
Caius permanecia metros a frente de Mors, no lugar aonde o pilar atravessara o chão, e o negro pintava-se abaixo da construção retangular.
O garoto sabia que um passo em falso, e seu amigo cairia. Porém o mesmo não pareceu ligar, já que empunhou bem sua lança.
Mors encarou-o, também empunhando sua espada na direção de Caius.
Não sabia o que aquele movimento iria significar, mas sabia que dependia dele.
Os dois garotos, correram então, gritando. Um na direção do outro, no pilar suspenso entre a vida e o negro véu.
Mors olhou para cima enquanto corria, e um estranho objeto parecia cair sobre eles, muito lentamente.
Caius assim como seu amigo, enquanto corria, viu o objeto pequeno flutuar acima de sua cabeça. Então notou. E gritou surpreso:
—CLAIR?!
O objeto que caia era o laço vermelho de Clair. Que Caius dera a sua irmã antes dela ter sido internada.
“Trouxe um presente” Caius tinha dito naquele dia, notando o ar surpreso de sua irmã, desembrulhou-o e mostrou para a garota na maca de emergência, enquanto corria atrás dos médicos que levavam ela para alguma sala hospitalar, “É um laço!” Ela disse com ar de felicidade, enquanto o soro entrava em suas veias por fios de plástico e agulhas. “Sim! Um laço!” confirmou Caius, enquanto correra junto com a cama da irmã, vendo que a porta que os separaria estava à frente, encostou o mesmo no peito da garota “Você vai usá-la quando sair daqui Clair... ficará tão linda!”. A menina sorriu, mais um ar de tristeza surgia em seu rosto “Os médicos... eles disseram...”, Caius então interveio quase gritando “Não importa o que eles disseram! Não importa! Você vai sair daqui Clair, eu prometo-lhe!”. Sua irmã então sorriu segurando forte o laço que o irmão lhe dera “Então nesse dia eu usarei seu presente! Eu prometo!” ela tinha dito, enquanto entrava deitada, na sala em que separou-a de seu irmão, e Caius ficou ali, com os olhos exaustados de lágrimas, vendo sua irmã sumir entre a porta da sala de cirurgia.
Os olhos vermelhos do menino pareciam se esvanecer, cedendo para seus olhos azuis enquanto o laço caia perto de si. E assim Caius tentou pegá-lo com os braços, deixando sua lança cair, a arma bateu no mármore e escorregou para o negro, sumindo em segundos.
O braço do menino se erguia para cima sem nenhum resultado, já que o laço vermelho caiu para o lado. O mesmo ia caindo depois do pilar no véu negro, um pouco longe do alcance de Caius. Que então num movimento pulou para pegá-lo.
—CAAAIUS! – gritou Mors.
Mors correu contra o vento, deixando sua espada para trás. E correu como nunca, deitando-se depois no pilar. Pegando o braço de Caius num último movimento de salvador.
Mors estava deitado no pilar. Segurando a mão de Caius. Enquanto o mesmo balançava para baixo quase caindo no negro véu. Incrivelmente segurando o laço de sua irmã com a outra mão. Porém apenas uma mão era insuficiente para Mors poder levantar ou agüentar o garoto loiro.
— SEGURE SUA OUTRA MÃO NA MINHA CAIUS! RÁPIDO.
O menino loiro olhou de baixo para Mors, seu melhor amigo. Agora com os olhos azuis como sempre foram. O menino expressava algum tipo de sorriso que Mors nunca tinha visto em sua face anteriormente.
— Mors... – Caius disse, sorrindo.
O pilar em que estavam rugiu, rachava-se aos poucos no meio. Mais alguns segundos, e os dois cairiam para morte.
—SEGURE CAIUS RÁPIDO!
Caius segurou mais fortemente o laço de sua irmã e olhou nos olhos de Mors.
— Você conseguiu Mors! – ele disse alegremente. – Mas eu não, fui fraco. Pequei em nome de minha irmã, egoísta, mentiroso e traidor. Trai você e todos os outros, e mesmo assim você veio me ajudar. Porém eu encontrei minha irmã agora, e preciso pagar pelos meus feitos. – Lágrimas caíam da face antes rígida de Caius. – Você conseguiu! Você me salvou!
A força da mão de Caius cessou, e sua mão começou a escorregar. O menino loiro caiu segurando o laço de sua irmã, esboçando seu único e sincero sorriso, atravessando o véu negro, até se perder de vista.