Down Theater (Terminado)

1 Capítulo 1 - Cego


CEGO

Mors acordou cedo, como fazia regularmente quase todos os dias. O barulho vindo da Avenida perto da rua do orfanato ajudou a despertá-lo esta manhã. O que não era por si raro, já que vez ou outra acontecia uma batida de carro aqui e outra acolá, e os motoristas desciam para discutir, trocando elogios nada educados entre si.

Mors abriu lentamente seus olhos negros vazios enquanto bocejava.

Mas a batida dessa manhã, não merece toda culpa, os roncos nada sutis de Tácio, eram tão suaves quanto uma guitarra desafinada. Mors e Tácio compartilhavam um quarto minúsculo do orfanato, um lugar já pequeno para uma pessoa, e duas só aumentavam essa sensação. Os dois dormiam em uma beliche, Mors em cima, e Tácio e seus roncos abaixo.

Dividir o cômodo com Tácio não era nada fácil, o quarto ser pequeno para eles dois era o menor dos problemas, Tácio era dono de um ronco esplêndido, algo comparado com uma grande sinfonia de violinos desafinados e quebrados. Além disso,Tácio fazia questão de deixar suas peças de roupas por todo quarto, não era raro Mors encontrar uma vez ou outra, uma meia debaixo de seu travesseiro.

A discussão lá fora continuava alta, com xingamentos ficando cada vez piores. O que não era saudável para Mors, que por causa de sua deficiência, sua audição era mais aguçada do que as pessoas comuns, Mors podia ressitar todas as palavras obscenas que tinha ouvido, e ouvir também os roncos de Tácio não era nada agradável para ele. Mors acabara de se perguntar como é que conseguia dormir todas as noites.

Mors se descobriu, e jogou seu cobertor para o lado da cama, afinal não importava se dobrasse ou não, quando voltasse, ele estaria desarrumado de qualquer modo. Já que toda vez que voltava, mesmo se fosse um segundo se quer, ele estava lá, jogado novamente, uma vez até pensou em haver algum tipo de bichos desordeiros no quarto, mais o único desordeiro ali é Tácio.

Tocou a beirada da cama, procurando a escada, com cautela, desceu os degraus lentamente, para não cair, o que também era comum para ele, vez e outra, caia miseravelmente no chão.

Com seus pés ao chão, Mors agora tentava se dirigir a porta. O que era difícil para ele, não bater no armário, ou não escorregar em uma das roupas sujas de Tácio, era extremamente complicado, para Mors é como se fosse um verdadeiro campo minado.

Girou a maçaneta enferrujada, tentando não fazer muito barulho, sem sucesso. Abrindo a porta, Mors se encontrava no corredor estreito e mal iluminado do orfanato, com várias portas quase consumidas por cupins, que davam a o quarto dos outros órfãos. Em todo o orfanato só havia um banheiro, e apenas no final do corredor. Acordar cedo era uma grande vitória, pois caso se levantasse tarde demais, o corredor pacifico que se encontrara, se transformaria no verdadeiro inferno, cheio de crianças correndo para lá e pra cá, além da grande briga que ocorria sempre que havia muitas crianças querendo utilizar o banheiro. Caso não despertasse cedo o suficiente, o campo minado de roupas sujas de Tácio, era brincadeira de criança comparada com a dificuldade de Mors poder se locomover no corredor.

Mors, tocou a parede cautelosamente para saber aonde estava indo, assim não entrar em nenhum cômodo ou na sala de limpeza.Chegando ao fim do corredor, Abriu a porta do único banheiro do orfanato, sortudamente vazio, sem nenhuma briga ou fila.

Ele procurou a pia, abriu apenas um pouco a torneira, e esperou o barulho da água caindo, pois a torneira não era muito confiável, na verdade o encanamento inteiro do orfanato não era confiável. Ao ouvir as gotas de água batendo no ralo, levou suas duas mãos para segurar um pouco de água, levando-as a o rosto, e esfregando entre as bochechas, testa, boca e seus olhos. Com o rosto úmido e pingando, Mors encarou o espelho a sua frente. Mors era um menino com rosto frio e sério, dono de uma cabeleira negra, com uma grande franja que as vezes tampava algum de seus olhos, o que não fazia diferença para ele, ele tinha uma altura média, e era magro na medida certa. No final, Mors era um garoto de dezesseis anos com ótima aparência, mas ele mesmo não sabia disso, se soubesse talvez séria menos frio e anti-social, o que séria fácil para alguém bonito como ele, mas sua deficiência estragava toda sua vida social. Seus olhos negros, frios e de visão vazia, assustava qualquer um que ele tivesse a audácia de trocar algumas palavras. Era uma pena, de verdade.

Por um momento, Mors pensou em seus pais, qual séria a aparência deles dois, como seria reencontrá-los depois de tanto tempo.Porém – inútil – Era realmente inútil Mors pensar assim, alguém como ele, que não se lembra dos pais, e que tão pouco ficou com eles. Uma grande raiva e amargura ocupavam o lugar que em seu coração, deveria pertencer a seus pais. Mors os odiava, só de pensar neles, já o deixava extremamente irritado – E não é pra menos – Eles os Abandonaram, sentir falta das pessoas que lhe jogaram fora, é inútil, apenas aumentará a escuridão que já é sentida em seus olhos. Era o que ele tentava dizer a si mesmo.

Não é pra menos, Mors foi jogado no lixo, como um sapato com defeito que você não quer mais, Afinal, por quer ter um filho problemático e limitado fisicamente? Se você pode ter outro novinho em folha, completamente saudável? Ninguém quer que seu próprio filho seja uma aberração. E então, jogaram-no no primeiro orfanato meia boca e as moscas que conseguiram encontrar. Mors preferia que tivessem realmente o jogado no lixo.

Mas, ele devia encarar a realidade, ele era cego, órfão e miserável. E foi essa a ,limitação que deus o confinou. mudar não era escolha, pois ele não tinha de fato nenhuma. Nada que fizesse poderia mudar isso. Aceitar o destino, e é isso que ele vem fazendo, em todos seus dezesseis anos.

Já havia passado um tempo desde que Mors parou para pensar em frente a pia, algumas crianças já começavam a sair, e então um pensamento veio a sua cabeça “Vou me atrasar”.Mors foi o mais rápido e cuidadosamente possível ao seu quarto, o que era perigoso, mas por sorte, nada o aconteceu. Mors trocou-se rapidamente, colocou seu uniforme cinza e sua gravata vermelha do colégio. E então, pegou seus óculos escuros, o único presente que ganhara na vida, que foi docemente doado por dois possíveis pais adotivos, que entrevistaram Mors três anos antes “Ele tem olhos sombrios, e francamente é algo que nos dá medo” foi o que disse o Homem do casal, não para Mors claro, mais ele era cego, não surdo. Desde então, Mors vem usando os óculos escuros, o que apenas o fez chamar mais atenção como deficiente, mas também reduziu o medo das pessoas olharem para ele de frente.

Mors também não esqueceu de sua bengala (escondida debaixo de algumas camisas de Tácio) e também sua mochila remendada.

Mesmo com sua bengala, andar do orfanato que era no bairro humilde da cidade, até o colégio que ficava no centro, era uma caminhada muito longa e ainda mais complicada para alguém como Mors, Por isso sempre saía do orfanato pelo menos duas horas antes de começar as aulas, e as vezes atrasos era inevitáveis, mesmo que a caminhada para alguém comum não durasse mais que quarenta e cinco minutos, Mors levava no mínimo o dobro disso. Mesmo com sua bengala era difícil saber por que rua Mors estava indo, e perguntar para alguém era inútil, sendo que elas o ignoravam, como se o tempo delas fosse muito importantes para lidar com alguém deficiente, elas em vez disso, ou empurravam-no ou simplesmente diziam “não faço idéia”, mas enganar Mors era difícil, o tom de voz já bastava para ele reconhecer como uma mentira.

A Chuva começou, e Mors estava no mínimo a duas quadras da escola, o que lhe causou pânico, nada pode ser pior para um cego, do que um chão escorregadio. Já sentia as primeiras gotas da pequena garoa cinza que as nuvem lhe traziam, Era a premissa de uma tempestade, ele sentiu o cheiro da chuva, ouviu as arvores balançando, as folhas caindo, os jornais jogados no chão voando.

Por sorte Mors chegou até o pátio da escola pouco molhado, Mas o pátio era enorme, e escorregadio. Até que, Mors ouviu risadas conhecidas, e passos fortes. A Gang Gilbert, pensou ele. A Gang Gilbert, era como o nome propõe, um grupo de arruaceiros comandados por Gilbert, um aluno do terceiro ano, que tem um problema simples e comum –Ele gosta de pisar nas pessoas para sentir melhor – O que era um enorme passatempo para ele e seus outros quatro amigos, que Mors não lembrava o nome, já que só era capangas bobalhões. Como na natureza, o mais forte vence o mais fraco, outra regra estabelecida pelo nosso imutável mundo. E para presas fracas, Mors era um grande prato. Não que ele fosse fraco, que de fato não era, mas sua falta de visão complicava tudo. E Gilbert e seus amigos, não atacavam ao não ser em bando.

Mors tentou andar o mais rápido possível, claro sem cair, antes que Gilbert percebesse que tinha um cego na chuva, lutando para não cair. Mas sem efeito.

— Aonde pensa que está indo cegueta? – Disse um dos Amigos de Gilbert, segurando com força o braço direito de Mors.

A Gang riu, principalmente Gilbert. Cedendo a irritação, Mors não disse nada, fingiu que não tinha ouvido, e ficou calmo.

-Eu perguntei aonde você pensa que está indo, Deficiente miserável – Disse o brutamontes segurando com mais força o braço de Mors, que infelizmente era o braço da bengala. Então com o golpe rápido, Mors moveu seu braço rapidamente, se destrancado do braço do garoto, e apontando sua muleta para ele.

Gilbert deu um assobio malicioso.

-Olha só o que temos nesse lindo dia nublado – disse ele com a voz mais maliciosa e mal intencionada possível – Tem certeza que quer nos desafiar num dia como esse e no pátio da escola?

Mors continuo calado, mas ainda montando guarda com sua bengala, segurando-a firmemente, caso fosse necessário para se defender.

-Vamos deixar ele aí Gilbert, ele só um miserável, não há razão para brigarmos hoje –disse um dos capangas, como se Mors não fosse alguém tão digno de apanhar deles.

Mors ouviu sussurros e passos, havia uma rodinha de vários estudantes para ver a vitima da vez, rindo, e vaiando Gilbert. Ele que odiava ser tratado como covarde, e ainda com uma platéia tão grande, os estudantes vaiaram-no, esperando para ver se ele agiria contra Mors.

— Hoje não é seu dia de sorte ceguinho, tenho um grande publico hoje – seus capangas riam – e ainda você teve a audácia de levantar esse pedaço de pau velho para um dos meus amigos, tsc, tsc – Ele então se voltou para aqueles que o observavam – Querem um bom show pessoal?

A Platéia rugiu e acenou com a cabeça, e as gotas da pré chuva ainda caiam. É incrível como a miséria de alguém pode agradar tanto os outros a ponto de passar chuva, apenas para contemplar a desgraça alheia.

Mors estava decidido, desta vez, iria lutar. Estava cheio de Gilbert e os outro garotos, ele odiava-os tanto quanto, talvez, até seus pais.

-Ouviram isso amigos? – ele se virou para seus capangas, e depois voltou-se a Mors – Vamos fazer você chorar por ter nos desafiado.

Com um grande soco, enviado por Gilbert, que era um garoto corpulento e forte, Soltou um impacto tão grande no rosto de Mors, que seu óculos voou pelo pátio, partindo a lente em pedaços. Os capangas riram, a platéia rugiu, e as narinas de Mors sangraram.

— Bastardo.

A platéia se calou, os capangas de Gilbert também. E um menino enfurecido ficou de frente para Mors.

— Que porra foi essa que você disse? Órfão filho da puta.

Mors sentiu o bafo de Gilbert, e também a extrema irritação dele. Ninguém nunca tinha-o xingado assim.

— Eu disse, que o único miserável aqui é você – Jogou Mors, tremendo de medo é claro, mais não deixando que isso atrapalhasse em seu momento Heróico.

Mors ouviu os outros capangas se aproximando, quando o primeiro veio lhe dar um chute aéreo, Mors pode por sorte, calcular em que direção ele vinha, pegar sua bengala a tempo, e bater no tornozelo do garoto, fazendo-o cair no chão molhado. E ainda com a bengala nas mãos, desferiu o outro golpe na face de Gilbert, que surpreso não teve nem chance de se defender.

A Platéia de alunos ficou chocada. Gilbert, com a orelha sangrando bufou de raiva, e voltou-se pra cima de Mors junto com todos seus capangas. Graças a sua bengala, Mors pode desviar e rebater os ataques rapidamente. Um dos capangas levou uma bengalada das costelas, fazendo-o gemer de dor, Gilbert, teve a barriga na ponta da bengala, fazendo andar gemendo para trás.

Mas, então o mundo que já fora bondoso demais com Mors neste dia, Fez a tempestade finalmente começar, enquanto os outros alunos corriam para dentro, o som dos relâmpagos, e as luz dos raios enfeitavam a batalha entre Mors e outros quatro garotos. E então num passo em falso para traz, Mors perdeu a compostura e o equilíbrio, quando Gilbert tirou o bastão de suas mãos. Desferindo um golpe imensamente brutal entre o tórax de Mors. Naquele instante, Mors sentiu a maior dor que sentira em sua vida, sentiu todos seus órgãos pulsarem, e então com mais um golpe nas pernas, Gilbert derrubou Mors.

Os quatro garotos não perderam a oportunidade, e com Mors no chão desferiram socos e chutes. Mors sentiu a chuva gelada molhar todo seu corpo, sentiu também todo punho que era desferido em sua barriga, e sentiu os chutes que se chocavam com seu rosto. Imóvel, indefeso, e seu sangue, já havia se misturado com a água da chuva e escorria de seu corpo. Mors dirigiu a palavra para as pessoas que observavam, notando que até os professores, e as pessoas da rua estavam fitando-o miseravelmente no chão. E ele disse em sua mente “Ajudem-me, Por favor”. Mas era inútil.

— A-Alguém... – tentou dizer Mors, mas suas palavras eram interrompidas por golpes. E a frase que de Mors se transformou um cuspe de sangue e saliva.

E então o Sinal tocou, e os garotos pararam de espancá-lo.

— Deixe-o aí – disse Gilbert – Esse miserável – Cuspindo, na face ensangüentada de Mors. E então eles se foram.

Mas Mors permaneceu ali, se forçando para respirar, com seu corpo doendo, em todas as partes possíveis. Todas as pessoas entraram deixando-o ali caído.

Numa mistura de sofrimento e dor, Mors caminhou, tentando achar novamente seu orfanato, com o nariz e as orelhas doendo, não podia distinguir em qual rua estava indo. O sangue já havia sido limpo pela chuva, que agora começava a parar. Mors entrou na Avenida principal da cidade, que hoje estava vazia por causa da chuva. Seu orfanato era do outro lado da cidade, mais confuso e tonto, não conseguiu perceber isso. Até que quando encostou em uma parede, um pedaço de madeira caiu em cima de seu pé.

— Droga!

Gritou ele, nervoso. E então, ele sentiu um cheiro estranho, um cheiro de mofo. Foi andando e com suas mãos nas paredes, percebeu que ela estava caindo aos pedaços com pedaços de madeiras pregados em suas janelas quebrados. Ainda Tonto, pensou que fosse seu orfanato, que assim como aquele lugar, tinha algumas janelas quebradas e uma parede pouco confiável. Mas aquele lugar estava longe de ser seu orfanato.Mors se dirigiu a porta, que quando tentou abrir, ela despencou, e caiu fazendo vários estrondos, como se tivesse caído de uma escada.

— Olá? Tem alguém aqui?

Sem respostas, Mors entrou, intrigado, passou por um corredor escuro, com pedaços de madeira partidos ao chão, poeira e teias de aranha. E então ele parou.

Estava atrás de uma grande arquibancada de poltronas negras, havia várias salas pelas paredes laterais, que deviam ser os antigos camarotes, e descendo as escadas das poltronas, havia um enorme palco de madeira, e Cortinas vermelhas. Ele estava dentro de um teatro, e não era um teatro qualquer.

a sua frente, estava seis crianças, e havia um estranho no palco olhando para Mors.

Era um homem de meia idade, vestido com trajes costurados e mal remendados de Bobo da corte, com um rosto doente. E um sorriso malicioso no canto da boca.

— Bem vindo ao Down Theater Mors, estávamos esperando sua chegada.

Notas finais
Muito obrigado pela leitura. Espero que tenha gostado, não se esqueça de ler os próximos capítulos! Seu comentário e opnião são importantes!