Down Theater (Terminado)

2 Capítulo 2 - Bem vindo a sua nova vida teatral


Bem vindo a sua nova vida teatral

Um sentimento de surpresa adentrou a mente de Mors. Não por ter errado o caminho do orfanato, ou nem mesmo por ter entrado num teatro abandonado. Nada disso, a verdadeira surpresa era o que havia lá dentro. Um homem de meia idade vestido estranhamente de bobo da corte, e sete jovens, todos com praticamente a mesma idade de Mors. Mas a verdadeira surpresa foi a seguinte frase: -Bem vindo ao Down Theater Mors, estávamos esperando por sua chegada. Como aquele homem sabia seu nome? E como ele e as outras crianças estavam esperando-o? Pelo que próprio lembrava, Mors não tinha marcado nada com ninguém, e não se lembrava da voz a qual era direcionada a ele. Inúmeras possibilidades passavam pela cabeça de Mors, “Será que é alguém do orfanato?”, ou até mesmo “Seria alguém que tinha visto a minha briga com Gilbert?”. Mas tudo que passou pela sua mente não conseguiu explicar o que estava ocorrendo. Apesar de não ver a fantasia em que estava o Homem, ele conseguia ouvir o tinir dos sininhos que estavam pendurados em seu chapéu de bobo. O cheiro de mofo daquele lugar quase lhe causara enjoou. Mesmo que Mors não conseguisse contemplar a visão apocalíptica do lugar a sua volta. O cheiro daquele lugar lhe dava uma idéia, aquele lugar era no mínimo velho e mal cuidado. E ele estava certo. O Down Theater de hoje, é simplesmente uma lembrança quebrada do que ele foi um dia, conhecido como o Teatro municipal, e também uma das antigas atrações da cidade. Era um lugar grande, aonde centenas de pessoas iriam todas a noites apreciarem as peças famosas que ocorriam no local. Havia barraquinhas de comida em sua porta, oferecendo seus produtos para aqueles que viam, as vezes apenas ver a grandiosidade daquele local.Um lugar majestoso, aonde atores, atrizes, roteiristas famosos, e diretores, passavam suas peças para o povo. Aonde também celebridades, políticos, e pessoas com relativa importância, se reuniam para encontrar todo tipo de pessoa grande o bastante para apreciar aqueles espetáculos. Mas os dias de espetáculos haviam encerrado, as barracas em sua frente haviam sumido, os carpetes vermelhos haviam sido surrados, As cortinas rasgadas, o palco de madeira comido por cupins, Os camarotes agora era apenas becos suspensos nas paredes. Não haviam mais nenhuma grandiosidade naquele lugar, ao não ser é claro, pelo seu tamanho, as centenas de poltronas, apesar de mal cuidadas, quebradas e empoeiradas, ainda estavam ali. E o palco de madeira velha, também. Era como um quadro sem valor, mas que ainda demonstrasse a arte que sempre esteve pintada nele. A imensa dor que sentia em seu corpo horas atrás havia cessado, não que as feridas tivessem sido curadas. Mas a observação estranha das pessoas dalí, fizeram com que Mors esquecesse da sua própria dor. Ser observado de uma maneira estranha era bem pior do que qualquer murro ou golpe que poderia levar. Uma aberração, era disso do que Mors tinha certeza que eles estavam pensando. No palco, havia aquela primeira pessoa que havia falado com Mors, um homem de meia idade, cabelos cor de palha, cacheados, escondidos por um chapéu de bobo multicolorido, com quatro sininhos barulhentos que se mexiam muito, Uma roupa de bobo, dividida entre um vermelho sangue e um verde musgo, a camisa e as calças amarrotadas, rasgadas e mal costuradas, sapatos velhos de sapateado, feitos de carvalho envelhecido, o homem mesmo vestido desta forma, tinha uma face robusta e doentia, aparentava ser muito mais velho do que era na realidade. Olhos castanhos amarelados, e em seu canto da boca, um sorriso malicioso. — Não seja tímido Mors, junte se a nós, junte se a nós! – disse o homem sentado a beira do palco, observando atentamente os passos cuidadosos de Mors. Uma estranha sensação passou pela espinha de Mors, sufocando-o completamente. Aquela situação era estranha demais, era perigosa demais, ele deveria ir embora, voltar ao nada agradável, mas seguro orfanato. Mas assim como aquilo lhe passava insegurança, também lhe passava curiosidade. E um Mors, derrotado por sua curiosidade, tomou a frente, indo até aonde ele sentia que as outras crianças estavam encarando-o. Em seu lado esquerdo, estavam posicionadas outras seis crianças, três meninas, e três meninos, em ordem de sexo. A primeira, tinha um rosto doce e amigável, era claramente a mais nova e mais inocente, tinha cabelos loiros presos entre duas trancinhas, seu nome era Amy. A segunda ,era uma alta jovem de cabelos negros e um rabo de cavalo, ela apesar de magra, tinha claros músculos em seus braços e pernas, e um rosto fino, com um olhar desconfiado e adulto, seu nome era Dáhlia. A terceira e ultima, era uma menina de altura média, de cabelos castanhos encaracolados, e em seu rosto, estava estampando um olhar de duvida e apreensão, seu nome era Rune. No grupo dos homens, havia um menino de pele clara, e cabelos castanhos bem cortados, ele era pequeno e frágil, como um menino que nunca tivesse sido posto em perigo, ele era tímido, Mors havia notado-o, ele foi a primeira pessoa a se encolher para não visualizar os olhos mortos do menino cego, Seu nome era Tommy. O Segundo, era um menino de roupas sujas e rasgadas, um garoto de rua para dizer melhor, tinha uma pele mulata, proveniente de suas queimaduras solares, tinha um cabelo cor de palha desgrenhado, seu nome era Vincent. O terceiro, era um menino da mesma estatura de Mors, tinha cabelos loiros que cobriam sua testa, tinha braços fortes, e um olhar adulto estampado em seu rosto, seu nome era Caius. E isso era o que estava ocorrendo no já aposentado Down Theater, um encontro estranho e incomum, entre um garoto cego, seis crianças, e um palhaço. E então Mors quebrou o silencio irritante, que aquele ambiente de olhares haviam o deixado. — Como é que você sabe meu nome? – perguntou Mors curioso. — Sei o nome de todos aqui Mors, sei também a história de vida de cada um. – disse ele sorrindo – Sei tudo desde seus cafés da manha, e até pela causa do sangue que envolve seus rostinhos frágeis – disse ele dando a entender que observava o que havia ocorrido com Mors mais cedo – Eu sei, Eu sei, Eu sei. -Como... – tentou perguntar um Mors surpreso. — Estávamos preocupados Mors, muito preocupados, até fomos obrigados a pensar em como seria trágica a sua ausência – Ele continuou a sorrir, com seus sininhos balançando – Mas você está aqui, e estamos muito felizes, muito felizes. O Palhaço olhou para suas outras seis crianças, que olhavam atentamente e cautelosamente conversa dos dois. Sem nenhuma expressão de felicidade ou qualquer outro tipo de sentimento, senão a ansiedade, desmentindo o que ele havia dito. -Mesmo que eles não demonstrem, eles estão muito felizes. – Disse o tinir de sininhos — São tímidos... Isso deve ser comum em suas idades... É deve ser, deve ser. — Você era mais um dos observadores que viam eu apanhar , sem fazer nada? – perguntou Mors gorfando um pouco de sangue no canto da boca – Deve ter sido um belo espetáculo para pessoas como você. — Ora Mors, não me julgue desse modo – disse o palhaço, com sua falsa voz triste – Se eu estivesse lá quando ocorreu... — Sujaria suas mãos ajudando uma maldita aberração?! — Mors, posso lhe dar uma única certeza, Ninguém toca em meus personagens – Ele riu – E os seus amiguinhos violentos já tiveram o que mereciam. E com essas ultimas frases, um pouco de medo atravessou Mors, na verdade não só ele, mais em todas as crianças. Aquele homem, estranho e bizarro, não era de qualquer forma uma pessoa comum. — O que fizeram com você foi um ato brutal dessa sociedade sem classe, e sem tolerância com as diferenças – disse ele de um jeito estranho, até para Mors, era difícil ver alguém que não tivesse nenhum pouco de preconceito, e aquele homem, dizia como se as diferenças não tivessem nenhuma importância, contrariando aquilo que Mors havia ouvido de todas as outras pessoas até então – Ah! Desculpe-me – disse ele fazendo uma reverencia – Meu nome é Scurra, Minhas lindas crianças, e é assim que devem me chamar. Afinal ser chamado de bobo não é digamos... Muito educado. -Por favor, Bobo, vá direto ao assunto, não tenho todo o tempo do mundo para ouvir suas conversas sem sentido – Disse Caius, o menino com cabelos loiros e olhar adulto. — Scurra. – disse o Bobo baixinho, como se aquilo tivesse lhe irritado. – Mas você tem razão Caius, eu estava me perdendo na conversa com nosso agradável senhor Mors. — Espero que tenha se achado, ou então me recuso a ficar aqui ouvindo suas babaquices – Disse Caius sentando de qualquer jeito em uma das poltronas velhas. — Podemos sentar? – perguntou Rune, a menina de cabelos encaracolados. — Mas é claro meus queridos, o senhor Mors já está aqui. Se acomodem. As seis crianças escolheram uma poltrona e sentaram, incluindo Mors, que demorou um pouco para achar uma poltrona que não despencasse assim que tocassem nela. Apenas um Garoto, que era justamente o menino de aparência humilde, sentou no chão em frente ao palco, alegando que “Não estava acostumado em sentar em lugares tão fofos” e que o chão “Era definitivamente mais confortável.” Após as crianças se acomodarem, Scurra se levantou, fazendo uma ridícula dançinha de bobo da corte para começar seu discurso. — Eu, tenho uma proposta para vocês minhas crianças, algum de vocês já assistiram uma magnífica peça de teatro? As sete crianças permaneceram caladas. -Oh! Então esse mundo já chegou a esse ponto, triste, triste – disse ele cabisbaixo – O teatro é uma grande invenção da humanidade, uma invenção rica em cultura, e é muito triste que a sociedade contemporânea não saiba mais como degustar esse tipo de obra refinada. – Ele sorriu – Mas isso será passado para todos vocês minhas crianças, Vocês participaram da ultima e mais importante peça do acabado Down Theater! -Uma peça de Teatro?! – Perguntou menina de rabo de cavalo chamada Dáhlia, obviamente indignada com aquilo – Foi por isso que nos chamou aqui?! — Sim! Sim! – disse Scurra sorrindo e tocando seus sininhos – Vocês participaram como meus personagens em uma magnífica peça dirigida e escrita por mim! -Ah! Por mim chega, não vou ficar aqui para ouvir mais dessas baboseiras. – Disse Caius levantando-se e indo em direção a saída. — Espere , espere! – disse Scurra – Esqueci de me dizer que serão pagos! E muito bem pagos! Caius se virou e encarou Scurra. — Quanto? — Quanto? – Scurra soltou uma risada forçada, acompanhada de uma tosse seca – Não estamos falando de dinheiro meu amigo, e sim de algo que ninguém poderá oferecer para vocês novamente! -Maluco. Caius deu as costas , e já havia aberto a porta quando algo o interrompeu. — Essa será a única maneira de salvar Ela – disse Scurra na sua ultima e certeira alternativa. Caius paralisou, e pensou em como aquele homem sabia sobre Ela.Refletindo por um instante Caius perguntou. — Você está me dizendo que se eu participar dessa sua peça idiota, você vai conseguir salvá-la? Scurra tiniu seu sininho como aprovação. — Por favor, volte ao seu lugar e ouça. – Disse Scurra pulando no palco. E Caius se dirigiu de volta a sua poltrona. – Se aceitarem atuar em minha peça, darei a cada um nada mais e nada menos que ... – Scurra imitou o barulho de tambores, batendo com suas mãos no palco – A realização do maior desejo de seus corações. Aquela ultima frase ecoou fortemente na mente de cada uma das crianças, principalmente Mors. Um desejo realizado era algo muito melhor do que qualquer dinheiro, e pelo que especulou, todas as crianças desejavam algo, que é comum, mas o desejo delas era tão forte para não perceber a estranheza da proposta. Era como um homem oferecendo um chocolate para alguém que nunca havia comido mais do que areia. Era como se uma pessoa rica trocasse todo seu dinheiro por um pedaço de madeira. Era insano, completamente estranho e inacreditável. A aparência do estranho Scurra, não era nada em níveis de estranheza, quanto a sua própria proposta. — Você está dizendo a todos nós, que se participarmos do seu maldito capricho, dará para nós em boa vontade, a realização de um desejo? – perguntou Mors. — Exato! Um desejo realizado para cada um de vocês! – sorriu maliciosamente. — Qualquer desejo? – perguntou o Vincent, o menino sentado no chão – Tipo um monte de grana? — Qualquer coisa que quiserem, desde incontáveis pilhas de dinheiro, á cura de doenças a qual nossa sociedade nem acredita existir cura – Scurra olhou diretamente para a menina chamada Dáhlia – Trazer a vida de uma pessoa já falecida... – Depois voltou seus olhos para Mors – Ou a cura de qualquer tipo de deficiência física. — Você está dizendo que consegue fazer tudo isso? – perguntou Mors, claramente descrente – Como? — Como meu caro? – Ele riu – Como? Como? – ele pausou – Do mesmo modo pelo qual sei os nomes de todos vocês, seus desejos mais profundos, e suas histórias na totalidade. — Então você quer nos dizer que é mágico? –Perguntou Caius rindo maliciosamente. Scurra não se intimidou por Caius, ou qualquer desconfiança de seus convidados, ele simplesmente encarou-nos. — Vocês acham que sou louco não é? – Ele sorriu, tão maliciosamente, que por um milésimo de segundo, ele pareceu muito mais do que louco, e sim um completo psicopata – Louco é esse mundo, que impõem tantas limitações para seres de imaginação e desejos férteis como nós aqui somos. Vocês perceberam que suas vidas não passam de uma prisão. – ele balançou seus sininhos – Eu estou dando-lhes a chance de descobrir aquilo que habita o além do imaginável. E posso lhe garantir que minha proposta, não é nem um pouco má. Todos pensaram por um minuto. Era uma proposta mentirosa, é claro, mas o que tinham a perder? Afinal se todos estavam ali, desejavam no mínimo algo novo. E a realização de seus desejos, era algo que não deveriam recusar de qualquer maneira. — Atuar, pode não ser tão mal assim. – disse Caius pensativo – Mas se você estiver mentindo para nós Scurra. Juro por deus que se arrependerá profundamente. — Não estou. Todos se entreolharam, e derrotados pela força de suas curiosidades, e a ânsia por seus desejos realizados, fizeram com que cada um acertasse aquela incomum proposta. E acenando com a cabeça, todos concordaram. Até Mors. — Mas então, qual é o nome da peça em que atuaremos? – perguntou Mors. Scurra, como sempre sorriu maliciosamente, soltando uma mistura de risos forçados e uma tosse seca. Seu olhar doentio adentrou na espinha de Mors. — A peça se chama “Scurra domina o mundo”.