Down Theater (Terminado)

13 Capítulo 13 - O desejo dos sete


O desejo dos sete

O cheiro de queimado parecia ainda circular as pobres narinas de nosso garoto novamente cego. O Terceiro quente ato tinha terminado, assim como o segundo e o primeiro antes deste. E Todos se perguntavam quantos mais teriam que enfrentar, quantas mais provas de vontade, precisariam pra realizar seu desejo? Um único desejo poderia valer tudo isso? O objetivo de Mors nunca foi a realização de seu desejo, isto é, por que nunca teve um.

O que ele realmente queria era descobrir os bastidores do espetáculo, e assim jurou a si mesmo que faria. Passaria por serpentes, monstros, e lagartos cuspidores de fogo. O céu e o inferno. E tudo para que sua curiosidade seja saciada. Seria isso mesmo? Apenas esse simples egoísmo da mente humana? Ou no fundo da alma de Mors existia algo muito, além disso, que buscasse as respostas, e ele nem ao certo sabia por que.

O menino estava em cima do palco, de frente para a antiga platéia bondosa, que se escondiam entre o pó e entulhos, talvez pra sempre. Porém, qualquer que fosse a platéia, Mors nunca enxergaria.

- O que me fez participar disso tudo? – Disse baixinho, quase como um pensamento.

Ele teve vontade de dizer a platéia, estão gostando do show? Os humanos gostam desse tipo de show de horror? Ver um bastardo deficiente como eu, enlouquecendo, procurando respostas de perguntas que nem sei, não sabendo se no fim, estarei morto demais para descobri-las? Ele pensou, lembrando do próprio Scurra, Bem vindos ao meu show, me assistam até o fim de minha loucura. A platéia na mente do garoto aplaudiu-o. E então este se retirou do palco, e deixou que a própria peça se desenrolasse sozinha.

Dáhlia, apesar de amar o garoto de olhos mortos, apesar de tê-lo salvado. Traiu-o. E disfarçava isto sempre que o via. Ela agüentava um grande peso nas costas, o peso da mentira, do ciúmes e da traição. O que ele ia pensar de mim, se descobrisse? Ela gostaria de saber. Foi tudo por amor, ela tentou explicar, Mas, eu realmente tenho certeza de todos esses sentimentos? Nunca senti nada nessa intensidade.

A garota as vezes, mal sabia o por que de gostar de Mors dessa maneira, porém a um simples olhar, ou meia palavra que trocasse com ele, seu estomago explodia em fogos de artifícios. Como se estivesse engolido meia dúzia de borboletas, conseguia escutar os bater das asas, revirando sua barriga, e sua mente.

Ela havia acabado de passar por um bom ato com seu amado. Eles conversaram mais neste, do que qualquer outro. Os laços dos dois haviam aumentado, seja lá para que lado, porém a intensidade era maior.

A maior estranheza de toda essa peça de momentos inacreditáveis, mortais e misteriosos, foi uma menina, se apaixonar por um menino. A fantasia seria assim mais simples, que um pequeno relacionamento humano? O Down Theater não era mais uma peça pela sobrevivência; não só por ela; mas também sobre os laços que as crianças desenrolavam ali. No fim, Scurra seria um louco bom? Ou um psicopata maligno? Apenas a peça poderia dizer.

Dáhlia e os atores tinham voltado ao comum teatro apocalíptico, havia já alguns minutos. A menina, rodeada de pensamentos confusos e possibilidades, caminhou até seu Camarim, enquanto Rune, a menina de cabelos encaracolados.

— Dáhlia, você ouviu o que eu disse? – Perguntou a garota irritada.

Dáhlia, pareceu acordar de um sonho, sem resposta alguma a pergunta, e claramente sem noção de que conversa Rune estava se referindo.

— Eu... Que?

Rune bufou, chateada por tudo que falou ter caído antes de chegar nos ouvidos de Dáhlia, a menina porém se manteve calma.

— Você não escutou nada do que eu falei não é? – A resposta parecia óbvia. – Parece que às vezes sua mente foi esquecida no portal.

— Eu ando pensando em muitas coisas ultimamente. – Dáhlia admitiu. – Desculpe-me.

— Várias coisas... Ou pessoas? – Rune sorriu. – Você ta afim da estrela de palco não é?

Estrela de palco era o codinome que os atores deram para Mors, para falar dele em segredo. Porém o garoto facilmente percebeu, o mesmo apelido foi deixado de lado, quando os atores começaram a se comunicar mais. Porém isso ainda continuava raro.

— Não! – Dáhlia se envergonhou, porém a resposta foi imediata. – Não me venha com essas Rune, não pode dizer nada sobre mim, já que sempre esteve caidinha pelo Caius.

— Ei! – Rune tampou a boca de Dáhlia. – Sim, estou – Disse baixinho. – Porém eu admito isso, mesmo que seja só pra você e pra Amy.

Dáhlia tirou a mão de Rune de seus lábios.

— Tá! Seja o que for que você quer conversar, fale logo. – Disse Dáhlia irritada.

— Bem, é sobre Caius mesmo que eu queria comentar – Rune corou. – Todos aqueles mistérios sobre ela, e todo o desejo dele sobre essa tal menina...

— Ciúmes? – Dáhlia caçoou.

— Igual à menina de cabelos brancos. – Rune rebateu sorrindo. – Ciúmes?

Dáhlia ficou sem palavras por um instante. Não só ciúmes, eu trai Mors também. O peso daquilo circulava sua cabeça.

— Prefiro não falar sobre isso, sério. – Disse Dáhlia mais grossa do que normalmente.

— Tudo bem entendi. – Rune escolheu não provocá-la mais. – Eu só preciso descobrir quem é ela, e tenho um plano. – Dáhlia esperou pela explicação de braços cruzados. – Vamos fazer um jantar diferente hoje, ai todos deveriam contar seus desejos.

— Todos? – Seria uma boa chance, para Dáhlia descobrir mais sobre Mors, assim como Rune sobre ela. E não parecia nada mal. – Tudo bem, vamos tentar convencê-los.

Uma noite fria caiu entre as paredes empoeiradas do antigo vislumbraste teatro, a sensação térmica era de graus baixo de zero lá fora, e dentro do lugar cheio de rachaduras e vãos, fazia do teatro não tão confortável nesses dias gelados. A névoa e serragem da noite lá fora, percorria as brechas, e também entrava aos poucos no salão destruído.

As roupas e agasalhos proporcionados por Scurra não conseguiam excluir muito frio dos corpos gelados dos atores. E talvez nada mais conseguisse.

Porém uma fogueira foi acesa em um dos camarotes velhos e desocupados do Down Theater. O combustível foi madeira velha do próprio teatro, havia madeira velha e estilhaçada o suficiente para acender uma dezena de fogueiras.

Pelo menos assim, era um modo de espantar o frio. Pelo menos que um pouco.

Dáhlia, havia facilmente convencido Scurra, a deixá-la fazer uma fogueira, que representava ultimamente um ótimo amigo. Às vezes mais amigo do que a própria Rune. O homem lembrava Dáhlia de seu querido pai, que foi deixado ao mundo exterior, fora da peça e de tudo aquilo que a menina vivia há algum tempo. O homem vestido de bobo da corte se oferecia como protetor da menina, dando-lhe conselhos e também ensinando algumas técnicas, como a invocação de armas, que foi vital para que o terceiro ato tivesse tido sucesso.

Mas o sentimento de culpa continuava, ela tinha traído Mors, contando um segredo para Scurra, sem nem menos entender o por que do homem querer tanto saber sobre a garota. Certa vez depois que ela voltou do terceiro ato, ele lhe perguntou:

— A menina apareceu? – perguntou o homem, um pouco preocupado.

— Não desta vez. – Havia respondido Dáhlia.

— Tem plena certeza, querida? – Ele perguntou levando um sorrisinho.

— Sim. Mas Mors parecia preocupado, ele parecia tentar encontrá-la enquanto atuávamos. – Ela disse com certa raiva, misturada com ciúmes. – Por que ele quer tanto encontrá-la de novo? – se perguntou triste.

— Mors... tsc, tsc – O bobo pois a mão no ombro da garota. – Ele me parece muito interessado nessa estranha. Pobre menino, não sabe a moça que perde deste modo. – Scurra permanecia calmo, consolando Dáhlia. – Mas uma hora minha querida, ele com certeza irá notar você. Eu tenho plena certeza.

E o sorriso de Scurra foi a ultima coisa que Dáhlia se lembrava desta conversa. Para ela o homem parecia compreender o sentimento de angústia que sentia.

Agora todos os atores estavam sentados em volta da fogueira, num dos atos mais simpáticos que tiveram desde sua chegada, uns com os outros. E tudo graças à idéia de Rune e Dáhlia. Porém também fazia parte do plano das duas.

Scurra mal ficou a fogueira, e então voltou a sua sala alegando que estava muito cansado.

Os sete porém continuaram ali, conversando. Até Tommy parecia mais entrosado, mesmo que evitasse conversa com Mors. O menino que o atirou no mar, para salvar sua vida, porém Tommy pouco compreendia, e dava valor mais por sua roupa molhada do que por sua pele salva.

Rune e Dáhlia sentaram-se ao lado de suas “vítimas” Mors e Caius. Durante toda a conversa, as duas ficavam perto dos dois garotos. Dáhlia segurava o braço de Mors quando Rune mudou o assunto da conversa entre a fogueira.

— O que você deseja Dáhlia? – Rune perguntou, piscando para sua amiga.

-Meu desejo? – ela atuou. – Bom não tenho certeza ainda, mas sinto falta de uma amiga de infância minha, gostaria muito de reecontrá-la. – Ela mentiu.

— O que?! – Rune pareceu ficar brava. – Já querendo trocar minha amizade?

Dáhlia riu.

— Claro que não Rune, posso muito bem ter outras amigas.

As chamas da fogueira dançavam, e iluminavam o rosto das crianças. Enquanto Rune executava seu plano.

— Acho que todos deviam contar os desejos uns pros outros. – ela disse. – Quero dizer, não há nenhum problema não é? Considerando o que passamos juntos já.

Caius pareceu não aprovar muito a idéia. Mors menos ainda, já que não tinha nenhum desejo até agora. Porém mesmo assim nutria a curiosidade de saber mais sobre os desejos de seus parceiros.

— Comece por aqui então. – Disse Vincent empolgado. Esquentando as mãos perto do fogo amigável. E logo começou contar seu desejo. – Eu morava na rua com meu irmão. – ele não parecia envergonhado de falar. – Nos passávamos muita dificuldade, tentando achar comida, e pedindo ajuda as pessoas. — Ele pensou um instante, vasculhando suas memórias. – Porém, uma vez achamos uma bela quantia no chão. – ele pareceu ficar triste por um momento. – Eu fui egoísta, e disse ao meu irmão que tudo era meu. – seu sorriso voltou. – E então, nós ingênuos e cegos pela cobiça do dinheiro em nossas mãos, brigamos feio. Chegamos até socarmos um ao outro. E por fim, meu irmão foi embora. Dizendo que me odiava. – As seis crianças prenderam suas atenções na história do menino de rua. – Porém não acredito que ele me odeie, eu mesmo falei isso pra mim mesmo, que o odiava. Mas não dá pra odiar um irmão, nunca. – ele deu uma pausa. – E eu procuro-o desde então, e já se faz um ano de que não nos vimos. – ele parou para pensar, porém com seu sorriso no rosto. – Eu acho que era um ano... Enfim, Meu desejo é re-encontrá-lo.

Ninguém conseguiu remeter uma simples palavra. Em suas cabeças o pensamento era o mesmo Como Vincent pode contar essa história com um sorriso no rosto?

— Pensei que seu desejo, era um monte de grana. – Disse Tommy inconveniente.

— Eu também achava. – respondeu Vincent. – Porém acho que com dinheiro, eu não compro um irmão. Compro uma casa e comida, mas família, nunca poderia...

Rune interveio, já tinha ouvido o suficiente da história triste de Vincent.

— Eu desejo que meus pais voltem a se amar. – ela pareceu triste. – Minha mãe nunca mais foi feliz depois que os dois se separaram. Então eu queria que eles estivessem juntos novamente.

O Desejo de Rune era nobre. O sofrimento de crescer com os pais separados era uma dura realidade, no tempo contemporâneo que estavam.

A próxima foi Amy.

— Eu desejaria que meu cachorro voltasse pra casa. – ela disse também chateada. – eu era muito apegada a ele, faz alguns anos que ele fugiu. Ele era um ótimo cachorro...

A menina continuou por algum tempo, dizendo dos bons tempos que passou com seu cachorro. E depois passou a vez para Tommy. O menino porém primeira mente se recusou a contar, porém com a insistência de todos ele resolveu falar.

— Eu queria que minha mãe voltasse a vida.

Tommy sofreu muito depois que sua mãe havia morrido. Desde o dia de sua morte, o pai de Tommy, apesar de lhe dar todo o luxo e dinheiro que um menino poderia querer, era frio, e poupava palavras com o filho, como se o menino fosse a lembrança de morte de sua amada.

Ninguém falou nada depois disso. Não era certo tocar no assunto depois dum desejo tão triste. Mesmo que todos duvidassem que Scurra conseguisse trazer alguém de volta a vida.

— E você Caius, qual o seu desejo? – Rune perguntou, com a curiosidade exalando em sua mente.

— Você quer dizer, o desejo que é impossível que Scurra realize? – ele disse descrente.

— Então por que lutou até aqui? – perguntou Mors. – Não era por esse seu desejo, ou vai me falar que não tem esperanças?

— Não é isso. – ele pareceu ter ficado abalado. – Quero dizer, vocês acham mesmo que o idiota vai nos realizar nossos desejos mesmo? É impossível.

— Eu acho que você só está querendo mudar de assunto. – disse Dáhlia.

— Vamos Caius, todos estão contando. Conte logo o seu! – Pressionou Rune ao seu lado.

O menino bufou. Derrotado e sem saída. Agora deveria contar.

— Tudo bem. – Ele disse de braços cruzados. O plano de Rune realmente tinha dado certo. – Não sei se vocês já me ouviram falar de ela com o Scurra, sinceramente nem sei como ele sabe disso. – os outros atores confirmaram, e então Caius continuou. – Ela, é minha irmã, chamada Claire.

Vincent disse baixinho no ouvido de Amy.

— Pensei que ela era o nome da garota. – ele disse baixinho.

— Eu também. – ela respondeu no mesmo volume.

Porém Mors conseguiu escutá-los perfeitamente. Mas tinha duvidas se Caius ouvira ou não.

— Ela está no hospital. – ele continuou. – E Scurra disse que pode salvá-la, e isso é tudo que vocês precisam saber.

Caius se sentia realmente desconfortável falando sobre sua Irma. A situação parecia ser ruim para até um descrente como Caius aceitar participar da peça imposta por Scurra.

A chama iluminava a face de Mors. O garoto, porém mal podia vê-la. Apenas sentir o calor próximo dele, e o som da madeira queimando.

— Mors, e qual o seu desejo? – Era a vez de Dáhlia descobrir o que queria. Porém a garota mal imaginava que nada de satisfatório iria conseguir com a resposta.

— Nada. – ele disse solene. Definitivamente nada, pensou. A única coisa que quero fazer é chegar até o final desse teatro, e descobrir o porquê de tudo isto.

A noite passou, e a fogueira foi apagada. Os atores se dispersaram, pensando em seus desejos, e no próximo ato que viria. Quando todos os outros tinham ido dormir, Caius perguntou a Mors:

— Nada? – Caius ficou indignado. – Você está lutando e arriscando sua vida por nada?

— Bem... Não diria nada, o que eu quero realmente é descobrir o que Scurra planeja.

— Entendi. – Caius ficou pensativo. – Às vezes sinto que tudo que esse homem diz é mentira.

— Eu também – Mors concordou. – E tenho certeza que ele tem uma razão de verdade para nos forçar a lutar contra os guardiões. E seja o qual for Caius, nós temos que descobrir.

Caius sorriu por um instante, o que era raro.

— E nós com certeza vamos.

Notas finais
Muito obrigado pela leitura. Reviews e sugestões são bem vindas.