Down
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Parecia que eu estava presa em um daqueles pesadelos em que
você precisa correr, correr até seus pulmões explodirem, mas não consegue fazer
com que seu corpo se mova. Minhas pernas pareciam se mover com uma lentidão a
medida que eu lutava para me dirigir até meu escritório.a
Mas isso não era um sonho ruim, era minha realidade. Gil
acabara de revelar que estava deixando o laboratório. Estava indo embora, só
Deus sabe para onde, mas eu sabia exatamente para quem.
Me forcei a interromper o pensamento. Minha mente não
suportava tamanha pressão. Não poderia imaginá- lo nos braços dela. Era demais
para mim.
Queria correr, sumir daquele lugar. Gostaria que o chão se
abrisse e eu fosse engolida ainda viva. Mas, como sempre, me fiz de forte.
Nunca fui de demonstrar meus sentimentos eo fraquezas em público e dessa vez
não seria diferente. Todos ali estavam acostumados com uma Catherine Willows
forte, destemida, sarcástica, as vezes dura demais e não seria agora que
conheceriam meu outro lado. Aquela criatura frágil, carente, ansiosa por
cuidados e carinho. Aquela que necessita
ouvir o tempo todo que não está sozinha e que ela é capaz de seguir em
frente. Aquela que se desmancha em lágrimas todos os dias em seu travesseiro
perguntando se algum dia conhecerá o sentimento de ser amada e protegida. Com
essa me entenderia mais tarde. Agora era a vez da forte, da que não se deixa se
abalar por nada.
Decidi que recolocaria minha máscara e seguiria em frente,
mesmo estando oca por dentro.
A noticia da saída de Gil se espalhou de forma rápida, aliás, como tudo no laboratório. Foi um dia difícil para todos , especialmente para nós do turno da noite. Depois de 30 anos, o laboratório criminal de Las Vegas perdia sua maior referência. O seu ponto de equilíbrio. Como sobreviver a tamanha perda?Trabalhávamos em um caso de um corpo encontrado no lago Mead em adiantado estado de decomposição. É o que costumamos chamar de “sopa”.Durante a autópsia do que sobrou do corpo, Nick, Hodges, David e Dr. Robbins tentavam entender o motivo da saída de Grissom e qual seria seu futuro longe dali.
Hodges:“Deixe – me entender. Grissom não disse que estava saindo permanentemente. Ele pode estar tirando uma licença. É uma forma de sair, certo?"
_ Acho que quis dizer sair mesmo. _respondi — Mas intimamente querendo concordar com ele _
Nick: “ Oque ele vai fazer, dar aulas? Escrever um livro, viajar e estudar insetos?”
_ Você sabe tanto quando eu, Nick! – O interrompi bruscamente e querendo encerrar o assunto antes que me debulhasse em lágrimas na frente de todos. Nick ,graças aos céus, se prendeu na procura de evidências no corpo que examinávamos.
Nick:“Estrela de Davi. Parece um tipo de pingente.A vítima deveria ser judia.”
Eu também fiz o mesmo, tentando distrair meus pensamentos..._ As roupassão bem genéricas. _Comentei, tentando me manter presa as evidências também_Jeans, camiseta, tênis. Não vai ajudar a determinar a horado óbito ou o sexo.
Nick: “Há um cabelo na nossa “sopa”. A maioria castanhos, mas há alguns loiros.’
_ Talvez avítima tenha arrancado do agressor – completei – Ou talvez a vítima tivesse mechas de cabelos tingidas. Hodges! – ( Ele estava completamente absorto em seus pensamentos e parecia mais confuso e conturbado do que a maioria das vezes.)_ Colete e separe os dois tipos de cabelos. Leve – os para Wendy. Analise o DNA mitocondrial.É melhor se manter ocupado. _ Disse essa última frase para mim mesma também.
Pois internamente travava uma guerra, buscando motivos pelos quais Gil estava nos deixando, mesmo sabendo o principal deles, mas me recusando a aceitar...Se faziam perguntas buscando um porquê. Me interrogavam o tempo todo em busca de respostas. Não sei o motivo de pensarem que saberia de alguma coisa.Em outros tempos, com toda certeza saberia responder o motivo, mas de uns tempos para cá,nosso relacionamento esfriou. Gil se tornou distante, sombrio e muitas vezes,carrancudo. Foram inúmeras vezes que o flagrei em seu escritório falando sozinho e sempre reclamando de algo. Raras vezes me dirigia a palavra e quando isso acontecia, na maioria das vezes, o assunto girava em torno de algum caso que estávamos solucionando.
Na verdade,ele estava assim com todos, não era um tratamento dispensado exclusivamente aminha pessoa, mas depois de tantos anos de amizade e cumplicidade, achei que sua atitude para comigo foi muito dura.No inicio insistia, puxava conversa, perguntava se tinha feito alguma coisa que o havia chateado porque sempre fui assim em se tratando dele. Sempre me justificando,sempre me culpando por tudo que o chateava. Mas aos poucos sua indiferença e apatia passaram a me machucar. Seu silêncio era como uma faca cortando o meu coração e como conseqüência fui me afastando e agindo da mesma forma como ele me tratava.
Nossa relação ficou cordial. Se resumia a distribuição das tarefas, preenchimento de formulários, boa noite e bom dia. Nem café da manhã tomávamos juntos já que logo depois do turno ele ia para casa, sempre dando uma desculpa.
Todos começaram a notar esse distanciamento. Alguns mais corajosos (ou cara de pau)como Hodges vinham me perguntar o motivo de tudo aquilo, mas sempre fugia do assunto dizendo que estava tudo bem entre a gente, que Grissom era assim mesmo e perguntava se eles já não estavam acostumados com tudo isso.Mas averdade é que ele realmente havia mudado e sabia exatamente o motivo. Sentia falta dela e estava arrependido por tê – La deixado ir embora, por não tê – la acompanhado naquela expedição a Galápagos .
E as coisassó pioraram após o episódio envolvendo Warrick. Sua morte mexeu com todos nós.Aquela cena horrível do seu corpo estendido no chão daquele beco, abalou a todos, mesmo estando acostumados a lidar com a morte todos os dias. Mas quando essa possibilidade acontece com você ou com pessoas próximas, suas perspectivas mudam.A verdade é que saímos todos muito abalados. A investigação de sua morte, seu enterro.O inquérito foi algo desgastante, mas necessário na época já que sempre suspeitávamos do envolvimento de mais policiais no caso Gedda e não somente o sub xerife McKeen.Foram dias difíceis para todos, especialmente para Gil que sempre via Warrick como um filho e se sentia especialmente responsável por ele.
Warrick sempre foi um amigo e companheiro. Sempre me senti atraída por ele e vice versa, mas nunca confundimos as coisas.Nossa amizade já durava mais de 10 anos. Continuamos amigos e cúmplices até que calhou de estarmos carentes numa mesma noite. Me lembro com detalhes dessa noite. Tínhamos trabalho durante semanas em um caso de uma menina que havia sido encontrada morta em uma linha de trem. Descobrimos através das evidências que a mãe a matou pois suspeitava que a mesma estava lhe roubando o namorado. A garota tinha 12 anos, nunca consegui meesquecer desse detalhe. A mãe trabalhava como garçonete em um cassino durante a noite. Acabei me identificando. Fiquei abalada com o desfecho do caso e no finaldo dia, a única coisa que queria era apagar tudo aquilo de minha mente. Estávamos na sala de descanso assistindo a uma partida de basquete.
_ Charlotte,minha mãe cresceu na Carolina do Norte – disse, o desafiando para uma aposta,tendo certeza que ele não resistiria.
Warrick: “Tá,eu te dou Charlotte mais dois.”
Disse:” Qual é o prêmio se eu ganhar?” – acrescentei. _Eu aceito,disse sem pestanejar.
Warrick: “Beleza!”
Nesse momento, um jogador do time adversário (que juro não ter prestado atenção de que time pertencia) lançou a bola da linha de três pontos e fez uma cesta. –Meu time perdeu – disse – Mas eu ganhei a aposta.
Como Lindsey estava viajando com a turma da escola para Nova York não tinha que voltar correndo para casa e para ser sincera, não queria ficar sozinha por lá, então acabei convencendo Warrick a pagar logo a aposta. Ele aceitou sem hesitar. Já havíamos saído em outras situações, mas naquela noite o clima entre nós era diferente. Bebemos mais de um drink. Eu já sabia o caráter dele, confiava nele e o admirava profissionalmente e entre um gole e outro acabei lhe revelando meu segredo. Devo ter chorado enquanto isso, bem me conhecendo e Warrick que nunca soube como lidar com minhas lágrimas, provavelmente tentando me consolar, deve ter feito algo que mexeu com nossa carência. O fato é que amanheci na cama dele...Me lembro de ter acordado com uma dor de cabeça incrível. Me levantei, tomei banho, peguei minhas coisas e parti.
O melhor da minha relação com ele é que não precisávamos nos justificar. No outro dia simplesmente nos tratamos como se nada tivesse acontecido, sem nenhum tipo de cobranças ou questionamentos.
Fale com o autor