Down
42 Capítulo 42
Notas iniciais
Nesse capítulo, muitas emoções... Catherine irá ao obstetra pela primeira vez e finalmente saberemos o sexo e o nome do bebê.
Curiosos? Então apreciem!
- Bom dia… Catherine Willows. – Ele completou, olhando para a ficha em suas mãos. O obstetra – Dr. Shaw – era um homem surpreendentemente bonito. Devia ter aproximadamente quarenta e poucos anos. Um tipo que poderia lembrar tudo, menos um médico. Gil, provavelmente sendo alertado por seu orgulho masculino ligeiramente ferido e um instinto de macho-alfa muito esquisito, me segurou pela cintura e me trouxe mais para perto de si enquanto entrávamos.
- Bom dia, doutor. – ele respondeu por mim, puxando uma das cadeiras para que eu me sentasse e fazendo o mesmo em seguida.
- Bom dia. – ele respondeu, sorrindo de forma educada, enquanto nos encarava e entrelaçava os dedos em cima da mesa – Então… Vocês estão grávidos.
Ele era uma pessoa agradável. Sorria o tempo todo e tentava fazer com que o clima fosse o mais leve possível. Gil, embora visivelmente enciumado – simplesmente porque o médico era atraente – sabia que não havia motivos para ser desagradável ou mal educado com ele. Mas isso não queria dizer que ele faria algum esforço para ser agradável também. Nossa consulta começou com perguntas subjetivas.
- A gravidez foi planejada? – Ele começou.
- Não. – Respondi – Foi acidental…
- Entendi. E como estão lidando com a ela?
- Muito bem. – Gil respondeu, já animado – Está tudo ótimo.
- Que bom. – O médico falou, abrindo um lindo sorriso. Gil aproximou sua cadeira da minha inconscientemente.- Há quanto tempo vocês são casados?
- Ah… – Comecei, tirando minha mão esquerda com a aliança de cima da mesa e escondendo-a no meu colo – Não somos casados…
- Ainda. – Gil se apressou em falar.
- Certo. –dr. Shaw respondeu ainda sorrindo, de forma muito natural – É bom saber que o clima entre o casal é favorável à chegada do mais novo membro da família. Mas então, senhorita Willows…
- Catherine. – Corrigi-o, Gil suspirou ao meu lado. Como nota mental, tinha que perguntá-lo o motivo da clara insatisfação que ele demonstrava, embora, nesse caso, eu imaginasse que o motivo se dava pelo fato do dr. Shawn ser muito atraente.
- Catherine. – Ele se corrigiu – É a sua primeira gravidez?
- Não. É a segunda.
- E como vocês descobriram? — Contei toda a história para ele – dessa vez detalhada porque eu sabia dos detalhes. Expliquei o método anticoncepcional usado e meu ciclo menstrual mascarado pelas pílulas. Também citei meus sintomas e todas as dores que havia sentido até então. Quando perguntada, afirmei não ter nenhum tipo de doença genética, como diabetes ou pressão alta, o que poderiam comprometer a saúde do bebê.- Alguma doença sexualmente transmissível?
- Não. – Respondi.
- Já fez exames?
- Já. – Dessa vez quem respondeu foi Gil, e me pegando de surpresa, tirou do bolso interno do seu casaco alguns papéis dobrados, o que identifiquei, alguns segundos depois, como os papéis dos meus últimos exames feitos de acordo com as normas do laboratório criminal que nos obrigava a apresentá- los a cada seis meses. Eu sequer o tinha visto pegar aquilo.O doutor examinou as folhas com cuidado por um bom tempo. Gil me encarou como se me pedisse desculpas pela invasão.
- Por que não me falou? – Cochichei para ele, sem realmente estar chateada.
- Achei que você não ia querer trazer. – Ele respondeu arrependido, beijando minha mão delicadamente.
- Bom… –dr. Shaw nos interrompeu educadamente – Esses exames são relativamente recentes. Você só manteve relações com uma pessoa depois de fazê-los?
- Não. – respondi envergonhada ao me lembrar que também me relacionei com Lou algumas vezes durante esse tempo.
- Entendo. – ele pausou, me olhando com um pouco de curiosidade, mas ainda assim sendo muito discreto. Me mexi na cadeira, um pouco incomodada. Olhei para Gil que também não parecia muito confortável, mas disfarçou bem, afinal, ele também havia transado com Heather nesse período.- Acredito que ela não tenha nada. – ele continuou – Mas esses exames… São muito vagos. Não são específicos. Vamos ter que fazer novos exames, mais precisos. Normalmente esses exames gerais já acusam alguma coisa, quando a mulher tem alguma doença. Alguma substância alterada no sangue ou algo assim. O seu parece perfeito, mas vamos ter certeza. — Ele parou de falar, e a sala ficou em silêncio. Continuei encarando minhas mãos, sem coragem de desviar o olhar. Gil segurou minha mão outra vez, apertando-a com firmeza. Levantei a cabeça apenas para encarar o dr. Shaw, que também me olhava. Relaxei um pouco ao notar que seu olhar, de fato, não trazia nenhum pré-julgamento.
- Ok… – Consegui dizer, enquanto me forçava a sustentar seu olhar. Como resposta, ele apenas sorriu. Gil apertou minha mão com mais força. Mas eu sabia que não havia sido proposital.
- Bom… – Ele recomeçou – Vamos fazer alguns exames.
- Que tipo de exames? – ele perguntou.
- São muitos. Hemograma completo, grupo sanguíneo, glicemia, rubéola, hepatite B, sífilis, HIV… Mas isso é pra todos os casos. – ele se apressou em deixar claro, vendo meu desconforto – Todas as grávidas precisam passar por esses exames como você já deve saber. Mas, de fato, vou passar alguns mais específicos pra você.
- E se acusar alguma coisa? – perguntei, deixando o desconforto de lado e fazendo a pergunta em voz alta, agora genuinamente preocupada.
- Se acusar alguma coisa, nós vamos tratar. – ele sorriu de maneira simples e contagiante, o que, de alguma forma, fez com que eu me sentisse menos mal – É pra isso que estou aqui, não é? — Sorri em resposta, sem nem notar que o havia feito.
- E o sexo do bebê? Ela vai fazer uma ultrassonografia? – Gil perguntou, um pouco mais alto do que o tom habitual de sua voz.
- Ah, sim. Com um pouco mais de três meses, poderemos ter mais certeza do sexo através da ultrassonografia.
- Mas ela está com dois meses ainda. – sua voz saiu como se ele fosse uma criança cujos sonhos tivessem todos sido roubados dele de uma única vez.
- Bem… Existem métodos em que é possível determinar o sexo antes desse período. Mas são todos caros…
- Quanto é? – perguntei, mas minha pergunta foi abafada pela indiferença de Gil.
- Quais são? – Ele perguntou.
- Tem a sexagem fetal. É feita através de um exame de sangue, e identifica a ausência ou a presença do cromossomo Y no sangue da mãe. Como esse cromossomo é exclusivo dos homens, a presença dele indica um menino. A ausência, uma menina.
- E quais são as chances de erro? – Ele perguntou, realmente interessado.
- Muito baixas. – O médico disse de forma convicta.
- Ótimo. Pode pedir junto com os outros exames então. – ele finalizou a questão, com seu mais novo ar de “chefe de família”. O médico consentiu, anotando tudo em vários papéis.
- Bom, Catherine. Quero fazer alguns exames simples com você agora. Pode tirar suas roupas e colocar o roupão no banheir…
- Como? – Gil interveio, e eu podia jurar que estava a ponto de agredi-lo fisicamente caso ele não parasse com aquele ciúme exagerado e desnecessário.
Dr. Shaw parecia confuso.- Eu tenho que fazer alguns exames nela… – Ele começou.
- E ela precisa tirar a roupa pra isso? – ele perguntou, mas pelo menos seu tom de voz não era rude. Ele sabia ser educado, mesmo com muita raiva.
- Bom, eu tenho que checar se há algum nódulo…
- E ela precisa tirar a roupa pra isso? – Ele repetiu.
- Gil? – Chamei-o, de forma um pouco inquisitória.
- Está tudo bem. – dr. Shaw riu e olhou para ele, como se estivesse pedindo permissão para fazer alguma coisa – Mas gostaria de pelo menos checar os lugares mais importantes. Ela pode manter a roupa. Tudo bem? — Como ele iria tocar em mim, e isso não tinha nada a ver com nenhum outro corpo, me achei no direito de responder.
- Tudo bem. – Respondi, já levantando e caminhando para a outra sala, onde ficava a cama para exames e equipamentos específicos. O doutor surgiu logo atrás de mim, me ajudando a subir na maca e me deitando lá. Naturalmente, Gil já estava ali, assistindo tudo com os braços cruzados afastado de nós, ainda na porta. O médico apalpou meu pescoço com cuidado, à procura de nódulos, e simplesmente foi fazendo isso em muitas articulações e quase todas as juntas do meu corpo, se prolongando nos seios, debaixo dos braços e na área da virilha. Por vezes, eu olhava para Gil, que parecia em cólicas, mas ainda assim acompanhava o movimento das mãos dele no meu corpo com um traço de preocupação, como se estivesse atento a qualquer reação estranha do médico.
- Tudo bem. – Ele finalmente falou, me ajudando a levantar. – Você parece ótima. Mas quero que o seu ginecologista faça um exame apurado em você. Vamos acompanhar isso direito.
- Claro. – Concordei, ficando de pé e seguindo outra vez para o escritório, com Gil e Dr. Shaw atrás de mim.
O resto da consulta foi preenchido com explicações do médico relacionadas à minha alimentação, dando ênfase nos alimentos que eu deveria evitar. Além disso, fui informada do que poderia ou não poderia fazer, além da frequência com a qual eu deveria manter as visitas ao obstetra, e alguns exercícios físicos aconselhados e os proibidos.
- Conforme você for ficando maior – Ele começou, rindo -, eu vou ficando mais chato com a gravidez. Ok? — Gil não falou mais nada durante a consulta. Ficou com cara de poucos amigos durante todo o tempo. As outras dúvidas que eu tinha – algumas bem idiotas – foram respondidas sem que ele desse um pio, sequer para opinar.- Bem, mais alguma pergunta? – dr. Shaw falou, tentando puxar Gil novamente para a conversa.
- Não. – Respondi, sem esperar por ele, que me seguiu na resposta logo depois.
- Não.
- Então, desejo a você – ele falou, apontando para mim – uma ótima gestação. Tudo vai dar certo, não se preocupe.
- Ok… – Comecei, já me levantando, e fazendo com que Gil se levantasse também – Muito obrigada, doutor. E… Desculpe qualquer coisa.
- Está tudo bem. – Ele sorriu, e se virou para Gil, estendendo a mão – Parabéns pela nova família.
- Obrigado. – Ele disse aceitando a mão estendida.
O caminho até o carro foi silencioso, com ele me seguindo, tentando caminhar na mesma velocidade que eu. Ele não disse uma palavra, o que achei ótimo, porque não estava a fim de discutir sobre a repentina crise esquisita dele. A viagem também foi silenciosa, embora, vez ou outra, eu notasse que ele me encarava quase que inocentemente.
- Não vai mais falar comigo? – Ele perguntou de repente, mas não me assustei. Me mantive calada, olhando a paisagem, fazendo questão de não esboçar nenhuma reação. Ele não insistiu, voltando a deixar a viagem silenciosa, então aquilo havia sido nossa única forma de interação durante todo o percurso. Quando chegamos em sua casa, saí do carro. Caminhei teatralmente até a entrada, com ele me seguindo de perto, provavelmente em pânico que eu tropeçasse ou algo assim.
- Por que você não está falando comigo? – Ele insistiu assim que entramos em casa. Encarei-o com cara de bronca.
- Você foi um idiota. Por que diabos agiu daquele jeito imaturo? – Perguntei, querendo que ele desse alguma desculpa que fizesse com que meu desgosto passasse. Ele fechou ainda mais a cara ao me responder:
- Não posso ter ciúmes? Só você?
- Não, não pode, porque eu nunca te dei motivos pra isso. Não foi o seu caso. — Me senti debilmente vitoriosa por deixá-lo sem argumentos. Ele me encarou, claramente tentando pensar em uma boa resposta, mas tudo que se limitou a fazer, depois de alguns segundos em silêncio, foi amarrar mais a cara.
- Não preciso de motivos pra sentir ciúmes de você… – Ele começou, mas eu o interrompi:
- Mas precisa de motivos pra ser rude com os outros. Nunca mais faça isso, foi vergonhoso. – Pontuei, dando as costas para ele e indo para o quarto me deitar. Ele não me seguiu. Depois de muitos minutos ali, sozinha, comecei a me criticar pela bronca exagerada. A crise idiota de ciúmes de Gil havia, de fato, sido não só desnecessária como embaraçosa. Mas talvez eu não precisasse ser tão dura com ele. Ele só se sentiu ameaçado. O problema foi não saber lidar com a insegurança. Fui tirada de meus devaneios quando, momentos depois, ele surgiu no colchão ao meu lado, me abraçando, pedindo desculpas por ter sido idiota e se lamentando por ter me deixado irritada. Como era de se imaginar, não consegui ficar com raiva dele por muito mais tempo, e segundos depois eu já estava agarrada contra seu peito como um gato manso. Deixei que o clima da nossa pequena reconciliação me deixasse mole como gelatina em seus braços, não me importando com mais nada. E então, quando eu já estava aceitando o fato de querer ser agarrada e devorada por ele, ele cortou meu barato mais uma vez.
- Vou preparar algo para você comer. – Ele concluiu, dando um beijo na minha testa, exatamente como antes.
- Mas… – Comecei, querendo entender por que diabos ele havia jogado um balde de água fria na minha libido.
- Pode ficar deitada, quando estiver tudo pronto eu te chamo. — E assim, sem mais nem menos, me deixando naquele estado deplorável, ele saiu.
Bufei, amaldiçoando-o por ser um infeliz esquisito.
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- Está nervosa?
- Não. – Menti categoricamente. Eu estava nervosa. Gil e eu estávamos no carro dele, indo ao obstetra com os resultados dos exames. Para manter nossa calma – ou pelo menos tentar – decidimos não ler nada antes do próprio médico, porque se houvesse alguma observação fora do “normal” naqueles laudos, mesmo que não fosse nada demais, acabaríamos em pânico, talvez à toa. Por isso, os envelopes ainda estavam lacrados. Tanto os exames relacionados à minha saúde quando o exame que informava o sexo do bebê.
- Eu estou. – Ele falou, tentando manter os olhos na rua à frente. Ele não precisava sequer anunciar aquilo: Estava óbvio. Me senti um pouco mal por talvez ser a responsável por não gerar o nosso filho da forma correta. Eu rezava o tempo todo para que não houvesse nada naqueles exames, para que o bebê não corresse riscos, principalmente porque ele era alguém muito importante na minha vida agora, mas também porque eu jamais me perdoaria caso algo acontecesse a ele. Porque a culpa seria minha.
- Não vai dar nada… – Falei, um pouco baixo, tentando convencer a mim mesma que era bobagem se preocupar. Se houvesse algo, os exames anteriores teriam apontado.
- Claro que não. – Ele falou ao meu lado, apoiando a mão direita na minha perna e aplicando ali um pouco de força, como se quisesse me passar confiança. Ainda assim, não foi difícil notar o vacilo de insegurança no sorriso que ele deu.
Fiquei calada o resto da viagem. Ele fez o mesmo. Qualquer palavra que soasse entre nós dois naquele momento parecia como uma fagulha na pólvora, nos aproximando de uma explosão de nervos a cada segundo.
Quando chegamos, nosso nervosismo pareceu se intensificar. Tentei parecer calma, porque se ele percebesse meu estado provavelmente entraria em desespero, dizendo que aquela tensão toda acabaria prejudicando o bebê. E eu acreditaria, e entraria em pânico também. E então seríamos dois pais desesperados à beira de uma síncope.
- Boa tarde, Catherine! Gil. — Nos sentamos, e me deixei levar pela aura de positividade e animação do dr. Shaw. Gil estava tão nervoso que parecia ter simplesmente esquecido de sentir ciúmes.
- Bom dia, doutor. – Ele falou, entregando imediatamente os exames – Não vimos nada porque…
- Porque estávamos com medo. – Concluí, imaginando que talvez falar, naquele momento, pudesse aliviar um pouco a minha tensão.
- Bom, também… – Gil continuou – Mas porque achamos melhor que o senhor visse, e caso houvesse alguma coisa anormal, que nos explicasse melhor. Antes que chegássemos a conclusões erradas.
- Fizeram muito bem. – Ele disse, aceitando os envelopes das mãos de Gil e abrindo-os calmamente, como quem abre uma carta de amor. Ele analisou os resultados por algum tempo. Um bom tempo. Talvez semanas. Meu estômago começava a dar reviravoltas aleatórias, fazendo com que eu me sentisse um pouco mais enjoada a cada segundo transcorrido. Gil estava imóvel na cadeira ao meu lado, olhando fixamente para o médico, que ainda virava e desvirava as páginas. O barulho do ar condicionado parecia muito mais alto agora, e me incomodava mais também. Estava frio, mas não dei muita atenção a esse pequeno detalhe.
Eu podia escutar cada engolida seca que Gil dava, e aquilo estava me deixando à beira de um ataque de nervos. Até o barulho das páginas sendo viradas estavam dando corda à minha iminente explosão. Se o doutor não tivesse falado alguma coisa naquela hora, eu provavelmente teria gritado.
- Podem respirar aliviados. A mamãe não tem nenhum tipo de problema que possa prejudicar o bebê. — Senti algumas toneladas sumirem das minhas costas. Suspirei profundamente, não porque segui o sentido literal do que o dr. Shaw havia dito, mas sim porque o alívio que senti foi tão grande que mal podia lidar com ele. Fechei os olhos e agradeci, mesmo sem saber a quem ou ao quê direito, mas sabia que deveria ser grata. E eu estava.
- Eu sabia. – Ouvi Gil falar ao meu lado, mas seu tom de voz entregava o alívio que ele próprio sentia. Eu ainda estava de olhos fechados, leve demais para reagir de alguma forma, mas tinha certeza que ele estava sorrindo. Senti-o agarrar minhas mãos e apertá-las, me trazendo de volta à realidade. Abri os olhos e me deparei com o médico, segurando os dois envelopes idênticos fechados que restaram.
- Dois? – Ele perguntou, um pouco confuso.
- É… Eu pedi pra fazerem duas vezes… Pra não restarem dúvidas. – Gil falou, um pouco tímido.
- Ele gosta de jogar dinheiro fora… – Falei, completamente distraída pelos papéis nas mãos do médico.
Ele riu.
- Vocês não abriram? – Ele perguntou, nos encarando, e meu coração de repente começou a bater forte outra vez.
- Não. Deixamos pra receber todas as notícias de uma vez. – Gil falou, rindo do ainda recente alívio e da expectativa para mais uma novidade.
- Entendi. – Disse o médico, abrindo sem cerimônias o primeiro envelope. Se eu prestasse atenção, tinha certeza que poderia ouvir as marteladas do meu coração naquele momento. Todos os movimentos do dr. Shaw pareciam ser feitos em câmera lenta, e eu tinha certeza que toda aquela adrenalina não podia fazer bem ao bebê. Gil e eu o encarávamos com atenção absoluta, registrando cada mudança em sua expressão. Como se soubesse disso, ele parecia fazer força para não esboçar reação alguma. De uma forma irritantemente calma, pegou o segundo envelope e abriu, lendo também o laudo daquele exame.
- Bom, os dois deram o mesmo resultado… – Ele começou, me fazendo tremer um pouco – Então acho que realmente não restam dúvidas. — Ele parecia divertido, mas meus nervos estavam em um estado que, se antes o sorriso do médico bonitão parecia deslumbrante, agora eu tinha vontade de socá-lo.
- E então? – Perguntei, e só me dei conta de que a voz era minha depois de ouvi-la. A resposta veio, provavelmente, em menos de dois segundos. Para mim, no entanto, o silêncio entre aquela pergunta e a resposta pairou no ar por, pelo menos, uma eternidade.
- É um menino.
Esperei que aquele pedaço de informação fizesse efeito, tanto em mim quanto em Gil, mudo e paralisado ao meu lado. Embora eu tivesse minhas convicções de que, no final das contas, o bebê seria realmente um menino, ainda assim ouvir a confirmação me fez ficar ainda mais feliz.
Um menino.
Olhei para Gil, que ainda encarava o médico da mesma forma. Assim como eu – ou talvez mais – ele parecia distante, tentando processar a informação. Não poderia dizer se aquela novidade tinha sido bem aceita por ele ou não, porque ele não esboçava reação alguma.
- Bom, na verdade… – dr. Shaw continuou – Posso garantir que não há meninas nessa gestação, mas não devemos descartar a possibilidade de gêmeos ou mais, embora sua barriga não esteja suficientemente grande para isso. Mas caso haja mais de um bebê, posso dar a vocês a certeza de que todos serão meninos. — Estremeci com a ideia de “gêmeos ou mais”. Se uma gravidez simples já começava a me dar um pouco de pânico, imaginei o que gêmeos não seriam capazes de fazer comigo.
- E como podemos ter certeza… – Comecei a pergunta, mas não precisei terminá-la.
- Vocês vão saber ao certo quantos bebês são depois da primeira ultrassonografia, que pelo que diz aqui na sua ficha, já está agendada. Mas, pela minha experiência, creio que seja um único menino mesmo. — Prestei bastante atenção em tudo que o dr. Shaw dizia, mas era impossível estar completamente atenta a ele enquanto Gil se mantinha ali, em estado catatônico, imóvel com seus pensamentos, incapaz de fazer parte da troca de informações entre nós. Só consegui relaxar quando, algum tempo depois – provavelmente o tempo necessário para que ele tivesse alguma reação – virei para o lado outra vez e o vi sorrindo debilmente enquanto mantinha seu olhar desfocado na parede atrás do médico. Aquilo só poderia significar que ele estava feliz. Respirei mais aliviada.
Quando a hora de ir embora chegou, chamei-o com uma voz calma e baixa, quase como se estivesse tentando acordá-lo de um sono profundo. Ele pareceu despertar, e embora ainda estivesse extremamente distraído, agradeceu ao doutor pela atenção com um sorriso radiante no rosto e saiu do consultório, me puxando pela mão. Aos poucos, ele estava voltando a si.
Paramos em frente ao carro. Gil olhou para o nada, e com um sorriso ridiculamente idiota nos lábios me abraçou.
- Um menino, Cath! Eu vou ser pai de um menino! – Ele disse sorrindo, e me olhando com aquele sorriso contagiante. O abracei.
- Vai ser nosso menininho, amor! – disse, colocando meu rosto entre seu pescoço e o ombro. Ele me abraçou com força, e colocou a mão em minha barriga.
- Você não sabe como o papai está feliz... – Ele disse baixinho para o nosso filho. Simplesmente o abracei com mais força, e ele me deu um beijo leve nos lábios. — Obrigado! – Ele disse sorrindo.
- Por quê? – perguntei sorridente.
- Por... – ele olhou para cima, e sorriu – Fazer de mim o homem mais feliz do mundo... Eu amo você, Catherine! – Ele sorriu e beijou minha testa – Amo vocês dois! – Ele sorriu, olhando para minha barriga e a acariciando.
- Tem certeza que não ficou chateado por não ser uma menina. Você queria tanto...
- Não estou chateado, pelo contrário, estou muito feliz. Formaremos um casal. E além do mais, terei alguém para me acompanhar nos jogos de baseball já que Lindsey não é muito fã como já percebi – disse revirando os olhos. Nos abraçamos e em seguida entramos no carro.
- Preciso contar a ela a novidade, vai ficar muito feliz por ganhar um irmão. – comentei me ajeitando no banco do carona e ajeitando o cinto.
- Tenho certeza que ela ficará muito feliz – ele falou ainda com o olhar perdido.- Catherine... – ele disse, após um tempo em silêncio.
- Hm... – murmurei, enquanto continuava olhando minha barriga, e acariciando-a, com essa atitude, pedindo para o bebê chutar ou algo do tipo.
- O nosso filho... – ele disse virando a rua – Ele pode se chamar Daniel? – Ele perguntou sério, e eu sorri.
- Daniel? – perguntei surpresa. – Esse não era o nome do seu avô?
- Sim, era o nome dele. Ele praticamente me criou e despertou minha paixão por insetos. Foi ele também quem me ensinou a gostar de baseball e contava histórias para que eu dormisse quando era criança. – ele falava com a voz embargada.
- Daniel Arthur Grissom... – repeti baixinho, e sorrindo. Nesse momento senti um leve movimento no meu ventre. — Gil, ele se mexeu! – comemorei sorridente, e ele abriu um enorme sorriso, colocando uma das mãos em minha barriga, e guiando o carro com a outra.
- Daniel! Ele gostou do nome! – Ele disse sorrindo, enquanto esperava que ele chutasse novamente! Ele voltou sua atenção para o trânsito e ficamos ambos extasiados pelos acontecimentos recentes.
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- Meu Deus, e se forem gêmeos? – ele perguntou, animado como uma criança, quicando levemente na cama e fazendo com que eu pulasse também ao seu lado.
- Não vão ser. – Falei, tentando me cobrir com o edredom.
- Como você sabe? O médico disse que não devemos descartar a possibilidade…
- Bom, eu espero que não seja.
- Por quê? – Ele falou em um tom ofendido, embora eu não imaginasse o que exatamente o ofendeu.
- Porque não será você que irá pari — los, engraçadinho... – ri, dando um tapa em seu braço de leve.
- Bom, pelo menos você passaria por isso de uma única vez, e eu não encheria mais a sua paciência – Ele falou, tentando parecer casual, enquanto se enfiava debaixo do edredom e se agarrava em mim como sempre – Se vier um só, vamos ter que repetir a dose pelo menos mais uma vez. — Fiquei calada por algum tempo, de costas para ele. Outra vez, ele havia me pego de surpresa, se mostrando extremamente confiante em coisas que pareciam banais quando ele falava, mas que eram enormes.
- Você quer ter três filhos? – Perguntei com uma voz fraca, depois de algum tempo.
- Pelo menos. – Ele falou contra meus cabelos de forma calma – Mas eu não tenho pressa. — Fiquei calada mais algum tempo, deixando que a confiança dele me inundasse aos poucos. Eu ainda era insegura em muitos aspectos, mas Gil parecia levar tudo de uma forma tão simples que, com o passar do tempo, me acalmava também.
- É melhor ir se acostumando então, porque você vai ter que aceitar o fato de me aturar pelo resto da vida.
Me aconcheguei mais nele e sorri, sem me importar com mais nada. Fechei os olhos e fiquei ali, agarrada a ele, sem esperar nada. Por isso, fui pega de surpresa com um beijo carinhoso e doce. Retribuí o ato, me agarrando involuntariamente no pescoço dele. Eu não queria forçar a barra, não queria mudar a intensidade daquele beijo, mas era impossível controlar a minha libido. Forcei minha língua contra sua boca, e quando ele abriu seus lábios, me permitindo aprofundar o beijo, quase gritei de alegria. Meu corpo começou a tremer sem que eu pudesse evitar, porque aquele tipo de intimidade há algum tempo me fazia falta. E então, em menos de um minuto, eu estava completamente pronta para ele. Mas, como sempre, ele se afastou, mesmo que ofegante.Senti que estava muito próxima de assassiná-lo.
- Durma. O dia foi pesado pra você hoje. – Ele falou, me dando um selinho de leve e tentando se afastar um pouco de mim.
- Não foi pesado. Não estou com sono. – Falei, um pouco desesperada, ainda agarrada ao seu pescoço. De certa forma, aquilo era mentira: Eu estava mesmo cansada, não porque havia feito muita coisa naquele dia, mas porque passei metade dele tensa com tudo que tinha para saber.
Ele usou seu golpe mais baixo, movendo seus dedos lentamente de cima a baixo nas minhas costas, percorrendo a espinha de forma torturante e lenta. Ele sabia que aquilo era fatal. Sabia que eu dormiria instantaneamente.
Droga.
- Foi sim. E eu tenho certeza que o sono vai chegar. – Ele falou, com sua voz mais melodiosa ao pé do meu ouvido, e embora meu corpo ainda ardesse por ele, fui sendo acalmada aos poucos por sua mão nas minhas costas, enquanto a outra afagava minha barriga, como sempre. E então, obviamente, eu apaguei.
Notas finais
Beijos!
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