O dia está frio e triste como ontem.
Nuvens pesadas e cinzentas se estendem por todo o céu, escondendo o sol, que insiste em não aparecer.
Mais um dia está começando, e eu continuo aqui, olhando para o nada através da grande vidraça da janela do último andar do prédio em que moro.

Meus pensamentos são cortados por uma demasiada batida na porta da sala, e sou obrigado a abri-la, eu já sei exatamente quem está ao lado de fora.
Não há outra pessoa para me visitar, nem mesmo meu pai, que prefere trabalhar a semana inteira, ao ter que viver com a minha anormalidade.

— Feliz Aniversário! — Diz Drake, que está com uma sacola de papel em uma mão, e uma caixa média, lacrada com uma fita azul, onde ao topo possui um laço.

— Feche a porta. — Digo sem cerimônia alguma, quase ignorando a comemoração de meu melhor amigo.

— Você está pior que os outros dias. O que está acontecendo? — Derick coloca a sacola de papel e a caixa sobre o balcão que divide a sala do pequeno bar, onde muitas garrafas de vidro estão secas, ou quase. Ele tira um outro pacote, mas desta vez de sua mochila.

— Eu não sei. Me sinto estranho. Parece que algo está mudando em mim hoje. — Sento no sofá, olhando para a televisão desligada a dias.

Derick traz uma bandeja de prata (pertencente ao bar), e coloca sob a mesa de madeira em frente ao sofá, e mais uma vez com alegria falou: — Parabéns! Ah cara, vamos lá. Só se faz 15 anos uma vez. — Ele termina de dizer, me entregando um pequeno prato de porcelana, onde há um cupcake e um garfo.

Na bandeja está dois hambúrgueres, dois copos de vidro e uma garrafa de refrigerante.
E ao lado da bandeja, um embrulho retangular preto com uma fita azul.
Derick o pega e me entrega, seguido de: — Bem, é difícil saber o que lhe agrada por total...

— Normalidade seria uma coisa incrível. É a única coisa que me faz falta. — O interrompo, abrindo o pacote e retirando uma camisa preta, com alguns detalhes em azul; minhas cores preferidas. — Obrigado. — Tento mostrar um sorriso de satisfação, embora eu de fato esteja, felicidade é algo impossível de mostrar nesse momento.

— Bem, eu preciso... — Eu levanto e vou até o balcão, e então sinto uma forte dor no estômago, quase como se ele estivesse queimando por dentro. Então me curvo como ato instantâneo e me seguro no balcão, começo a tossir, e uma fraca falta de ar me atinge.
Derick corre até mim, para impedir que eu caia, me segurando, e tentando fazer algo que possa me ajudar.

Sinto-me sufocar. Meu rosto fica vermelho, as veias aparecem como listras roxas por toda minha face, que parece estar tufando.
Em desespero, imagens começam a passar em minha mente. Vejo um homem, depois uma criança, a lua, uma adaga, vejo um outro homem, mas este é diferente, tem os olhos totalmente pretos. Também vejo mulheres, quartos, choros, animais, um livro, um rio, sangue, fumaça, guerra... Asas.
Tudo se segue de uma forte dor de cabeça, que piora ainda mais meu estado, me afogando ainda mais no tensão. Mas eu sou mais forte, estou acostumado com dores, estou acostumado a cortes, eu tive que aprender, eu tenho que me proteger, e a quem mais eu puder.

Muitos anseiam por poder, mas não sabem o peso que eu carrego por tê-los. Ter visões, ouvir vozes. Até mesmo poder julgar pessoas, as vezes as condenando a morte mesmo sem eu querer.
Com o tempo aprendi a controlar, mas as vezes as coisas não saem como espero. Minhas habilidades mudavam frequentemente, mas faz mais de sete meses que não mudam. Todas as vezes alguma coisa em meu corpo acontecia, dor de cabeça, vômito, tontura, e outros, mas não acredito que possa ser isso. Jamais houve tanta mudança assim, não desse jeito, não tão forte, e provavelmente não é uma nova mudança. Eu já previa isso desde o dia começar, ou talvez antes. A sensação de estar sendo observado, ou que algo grave aconteceria, tudo isso me assombrava nesses últimos dias.

Minha garganda está ardente, algo parece estar entalado, e suponho que não seja um pedaço de bolo, até que finalmente minha agonia acaba, e uma grande quantidade de sangue jorra de minha boca, espalhando-se pelo chão revestido em madeira. Essa é a parte mais dolorosa, pois sinto a sensação de minha garganta se rasgar.
O sangue no piso de madeira começa a se modificar, a ficar mais escuro, sem perder sua essência de vermelho.
Por um breve momento parece surreal, mas uma fumaça cinzenta — e quente — começa a sair dele, que por sua vez solta um ruído de derretimento, ou talvez não, talvez de queimadura.
Ele começa a secar, e por seu volume estar diminuindo, manchas pretas aparecem. Era o sangue, ele estava queimando, ele me causou a sensação de meu estômago estar esquentando, e também é responsável pela sensação de minha garganta se rasgar. Ele era um veneno, um veneno que veio de mim mesmo. É uma arma, é destruidor, ele é um ácido.
Mas será que depois de tanto tempo, minha morte enfim está chegando? Mas precisa ser tão dolorosa? Será um castigo pelas mortes, ou o mal que causei, mesmo sem intenção?
Quanto mais perguntas eu me faço, mais acho improvável que isso seja... A Morte!

O céu escurece rapidamente, a energia some. Tudo passa a ser escuridão, onde a única fonte de iluminação é a grande janela de vidro, mas é tão fraca que só conseguimos enxergar silhuetas, e malmente alguns detalhes.
De um segundo a outro chuva caí em fúria, açoitando as janelas e deixando o dia mais escuro.

Olho assustado para perto da escada, Drake percebe e olha na mesma direção, e se coloca ao meu lado, me abraçando, com medo (ambos estamos sentados no chão).

Uma silhueta caminha um pouco, até estar na dimensão dos fracos raios de luz, permitindo visualizar sua estatura.
O homem é forte, de cabelos pretos curtos e olhos azuis. Veste calças jeans e camisa branca social-sport.

— Se ele é a morte, temos uma visão muito má dele. — Falo, e então percebo que estou equivocado. Se ele é Morte, apenas eu deveria estar vendo, mas Drake também vê. A possibilidade dele não ser a morte me assusta, se ele não é ela, quem é ele?

— Olá, Andrew. — Fala o homem, com voz grossa e ao mesmo tempo suave.

— Quem é você? Ou melhor, o que é você? — A voz de Drake se sobressai a minha, que está debilitada devido a minha garganta estar ferida.

— Meu nome é Damon. Não precisam temer a mim, não vou machuca-los. — Ele abre sua camisa, mostrando uma pequena tatuagem no peitoral. — Já sobre quem eu sou, isso deve responder...

Por um momento acho que estou sonhando, talvez um pesadelo.
O clima fica quente tão rapidamente quanto passa-se uma brisa gelada, atingindo-nos com voracidade com o balançar das duas enormes estruturas de penagem dourada, onde cada pena assemelha-se a uma lâmina, fina e afiada.
O susto leva a Drake e a mim para trás. Nossa primeira reação é apenas olhar aquele homem, incrédulos.
Talvez seja idiotice achar que não é real, afinal, eu tenho poderes, não deveria ser estranho, mas isso é diferente, me leva a pensar em muita coisa. Lendas e tradições, ritos e mortes, coisas que poderiam ser evitadas, então, por que não antes? Por que não para todos?
Muitas dúvidas começam a surgir, quanto mais eu penso, mais caio em um mar de palavras e lendas. Tudo o que estudei, o que acreditei, as coisas que poderiam esclarecer meu fato, o motivo de ter essas habilidades tão poucas queridas. E em meio a tudo isso, esqueço o que está acontecendo. Eu tenho ao menos uma certeza nesse momento, ele é uma lenda, uma lenda que concretizou-se real a mim e a Drake. Ele não é uma mitologia, esse não é um fato a ser esquecido, e algo me diz que isso realmente não será, talvez esse seja só o começo de tudo. Mas se for, então o que ele viria até mim, afinal, ele é um celestial, ele é grande, ele é poderoso, ele é um anjo.

— O que você quer? — Diz Drake, ainda um pouco assustado, levantando e me ajudando a fazer o mesmo.

Damon olha para o chão e vê um pouco de sangue e interligou à minha boca, que estava suja. — Eu preciso de ajuda, e também vim oferecer a minha. — Ele olha para mim em ênfase. Ele sabe sobre mim.

— Por que alguém, ou algo, como você precisa de ajuda? — Eu falo, com a voz rouca, e falha.

— Por que eu não sou exatamente o que estão pensando. — Pausa. — E essa é uma história bem longa. Acredito que queira saber sobre suas habilidades, Andrew.

Essas últimas palavras soam a alegria. As coisas que eu mais queria era saber o porque, e como eu me livravra de tudo aquilo.
Eu não tenho a mínima idéia do que ele irá dizer, não tenho idéia de quem ele é, por que quer me ajudar, e mais, por que ele precisa de ajuda.
Mas seja o que for, se puder me ajudar será ótimo, afinal aguardo por isso a muito tempo.
Os próximos segundos são eguidos por um estalo de dedos de Damon, que liga todas as luzes do apartamento e do resto da cidade, mas a chuva continua a cair, como é o normal nessa estação do ano.
Passam-se alguns minutos, e já me habituando a Damon, eu, ele e Drake começamos a conversar sobre as coisas do mundo, que muitos pensam ser fictício, mas que hoje sei que é real.
Entre coversas e explicações, começo a tossir novamente, e um pouco de sangue jorra pelo canto de minha boca, ao ver isso, Damon começa a falar sobre o principal.
— Você não está bem, Andrew. A quantos dias está com hemorragia?

Drake olha surpreso para mim, sussurando: "Hemorragia?".

Olho para baixo, desviando do olhar do homem: — Três dias... Mas em que você quer me ajudar? E em que você quer minha ajuda?

— Bem, a princípio eu preciso lhe revelar algumas coisas. Coisas que são de grande impacto, então esteja preparado. Como eu falei, eu sou um anjo caído. Quando caímos, fomos divididos em anjos e demônios, e os que continuam no céu são chamados de celestiais. Os caídos acabaram convivendo entre os humanos, e tiveram filhos com estes, os quais são chamados...

— De nephilins. Eles herdam algumas habilidades dos pais, e os filhos dos Nephilins que também possuem habilidades são chamados de herdeiros, mas normalmente eles são os últimos. Eu conheço essa parte. — Falo, me levantando, e pegando um livro grosso, de capa dura de madeira e coro com bordas metálicas. O título prata está quase ilegível em consequência da falta de tinta. Este estava ao lado da TV, afinal não havia motivos para esconder, ninguém além de Drake e meu pai (e normalmente eu não estou) vêm até aqui.

— Isso mesmo. Por algum motivo, sem saber o por quê, você tem essas habilidades. Checamos sua linhagem genealógica, e não encontramos registros de anjos ou nephilins, ou seja, as probabilidades de você ter poderes era nula.

— Então você quer dizer que não sabe porque ele tem esses poderes? — Drake entrega um copo de água a mim, e a Damon. O que me surge uma dúvida: Anjos precisam tomar água, comer, dormir e coisas que os humanos normalmente fazem?

— Na verdade eu sei. Mas a verdade pode ser um pouco assustadora, então esteja preparado. — Após a introdução de Damon, eu assinto. Então ele continua: — No céu, havia um tipo diferente de anjos, estes não são citados na Bíblia. Eles são os anjos guerreiros, e são muito inteligentes, engana-los não era algo fácil. Entretanto, Lúcifer conseguiu, e eles acabaram caindo. Pela decepção, o Criador decidiu puni-los ainda mais, tirou sua inteligência, mas deu certeza, de que um dia eles retornariam a Ele, mas que isso seria doloroso.

— Por que eles podem, e vocês não? — Pergunto, sem entender novamente o pensamento do "Criador".

— Porque eles não pelejaram, e não ficaram ao lado de Lúcifer. Eles apenas duvidaram dEle. — Uma nova pausa — E tudo isso está relacionado a eles, Andrew. Eles querem voltar ao céu, e sob um manuscrito onde poderiam se redimir, algo bem antigo, criado por Salomão, ele é chamado de Pergaminho da Luz. Entretanto, eles já o tem em suas mãos a anos, mas não sabem, como chegar até lá. Até o momento em que lhes foi revelado que eles precisariam de um mediador entre eles e Deus, por isso estavam atrás de profetas, até o momento em que descobriram que podem criar um, usando seu próprio sangue. A cada 50 anos realiza-se o petencoste, o único, momento em que o véu terrestre e celeste se abrem, com isso o portal está aberto, a última fase é a mediação até o céu. E essa é a parte ruim, eles escolhem crianças e jogam seu sangue em suas bocas, transformando-as. Mas no fim, no dia em que o véu se abre, o escolhido deve média-los até o céu, mas isso tem um preço caro, a sua vida e alma.

— E por que o Criador deixa que isso aconteça? Por que ele criou esse processo macabro?! — Me revolto, surpreendendo a Drake, que jamais me vira tão irado.

— Não foi ele que criou, e Ele não pode impedir. Na verdade, esse é o motivo maior de impedirmos que isso aconteça.

— Como assim Ele não pode? Afinal, ele é o Criador, o cara mais poderoso do universo. — Drake manifesta-se, perplexo.

— Porque Ele sumiu. — A voz de Damon é profunda e enfática. Aquelas palavras fizeram tudo cair ao pó, e talvez eu já tivesse entendido a verdade sobre aquilo.

— Desde que o véu se rompeu pela primeira vez, na morte de seu filho, ele deixou o céu, e talvez o universo. Ninguém nunca mais o viu, nem mesmo Miguel ou Gabriel. Ele perdeu a fé nos humanos, ele perdeu a fé em nós. Mas o verdadeiro problema ainda está por vir. Nas outras três vezes conseguimos evitar, mas tenho receio sobre este. Esse exército de anjos, chamados de párias, não tem inteligência o suficiente para entender, estão presos em seus desejos, eles não nos dão ouvidos. Se o portal for aberto, e a mediação continuar, é provável que Aamon interfira, e ao invés dos Párias, eles cheguem até o céu, e aí teremos uma grande guerra, uma guerra celestial. Antes, os celestiais venceram em consequência de estarem em maior quantidade, e pelo criador estar junto a eles, mas agora sem Ele, já não sei. O exército de Aamon está maior, pois desta vez não é somente os demônios, mas agora eles tem os aftários pessoas que fizeram pactos com ceifeiros, e depois da morte viraram do mal, e estão destinadas ao purgatório. Se todos eles entrarem no céu, o equilíbrio será comprometido, e aí o juízo final começará. E você, Andrew, é uma das crianças transformadas, seu nome está escrito no livro deles, e eles virão atrás de você, e é por isso que queremos que venha conosco. Outros de nós já foram atrás de outros como você, cinco, os que conseguimos descobrir, mas talvez sejam mais.

De um minuto a outro tudo faz tanto sentido quanto às voltas insanas que minha cabeça fez.
Talvez Confuso não fosse a palavra certa, mas no momento é a melhor a ser usada.
Drake simplesmente paralisa em meio aquilo e me encara sem outra reação, apenas de boca aberta. Mas diferentemente dele, eu estou surpreso, confuso, mas não com medo, não incrédulo. Eu estou encarando e forma concreta e real.
Então começo a tossir, encurvando-me para frente, e novamente sangue espirra de minha boca, mas este não queima, e nem causa dor. Ainda me recuperando, ouço a voz de Damon dizer:
— Você está doente, Andrew. Muito doente.

— Então pare de dizer que ele está doente e me ajude a leva-lo para o hospital. — Drake corre até uma poltrona, pega um casaco e coloca sobre mim.

— Médicos não podem ajudar, nem memo eu posso por completo. Mas posso fazer o suficiente para que o sangramento pare. Isso será doloroso. Por favor, deite-se. — Damon levanta do sofá e aponta para o mesmo.

Eu olho para Drake, que retribui o olhar com algo semelhante à vai-em-frente.
Então deito no sofá, Damon ergue sua mão sobre meu corpo, nesse momento, uma luz começa sair de dentro de sua mão, e então ele a pressiona contra meu peito.
As últimas coisas que sinto é uma forte sensação de meu peito estar queimando, e depois a de algo estar perfurando minha pele, cravando-se profundamente, atravessando,meu corpo.
Perante a tudo isso, somente vejo tudo ficar preto e branco, perder os sons, estar aéreo. Parece que estava deixando meu corpo, causando um terrível desconforto, e ao mesmo tempo, segurança. Então as trevas surgem, e tudo em volta de mim some.