Double face
6 Cap. 6: Separação
Notas iniciais
AMANDA
Pelo que percebi, aqui tem muita gente conhecida. É a festa dos Mendelak. Luli e Ricardo vieram. Não tive coragem de ir falar com eles. Por causa de toda a confusão da aposta e tal. O Ricardo não teve nada a ver; mas ele e Luli não se desgrudavam. Os dois estão vestidos de uma maneira bem formal. Lipe e sua família também. Eles decidiram fazer a reunião de família − e amigos − no salão de festa do QUANT.
Jenny me obrigou a me vestir do mesmo jeito: sapatos de salto, vestido, maquiagem e um cabelo bem feito. E qual problema? Nenhum, a não ser por meu vestido e sapato serem rosa − um fato sobre mim: odeio vestir rosa. Pode ter rosa em tudo. Menos em mim; porque eu acho meio Barbie. E Barbie me faz lembrar quem? Helen. Mesmo sabendo toda a verdade ainda sinto ciúmes dela. Ou até um pouquinho de inveja; olhos azuis. − e a maquiagem e o cabelo ficarem extremamente exagerados.
Lipe foi de calça jeans formal, camisa branca e cabelos despenteados. Ai como ele fica lindo desse jeito! A família dele, família inteira de primeiro grau, e eu com meu pai nos sentamos na mesma mesa, Alexandra estava lá. E ela parecia pior que Helen: olhos azul-safira, cabelos loiros, alta, cintura fina, rica, etc. ela ganha da mim de dez a zero! Além do mais, sua roupa não a deixa infantil. Ao contrario da minha.
− Lipe... se importa se eu sair um minutinho?
− vai aonde? − ele pareceu curioso.
− trocar de roupa... − fiz beicinho.
− pode ir... afinal você tá parecendo um flamingo...
− há ha. Muito engraçado. − ri com sarcasmo.
Corri para casa. Vesti um vestido preto básico, um sapato simples, mas elegante, tirei o excesso de maquiagem e desfiz o cabelo − que ficou ondulado.
Voltei para a festa. Que ainda não tinha começado.
− bem melhor... − disse Lipe me beijando no canto da boca.
− a Jenny não vai ficar magoada, né?
− acho que você não vai mais ver ela hoje.
− por quê?
Ele apontou numa direção.
− olha.
Jenny estava com um carinha loiro. Espera ai! Será mesmo...?
− Juan?
− é... Isso mesmo. Estranho não?
Olhei para Lipe, ele estava se divertindo com isso.
− muito... − respondi.
Olhei em volta. A decoração era muito criativa.
As paredes são todas pretas, já que Wanda desaprova muito essa cor eles puseram panos, cobrindo todas de um vermelho vivo. As mesas são redondas com a toalha branca. Cadê a parte criativa? No teto puseram correntes enfeitadas com luzinhas; tem luzes coloridas em baixo das mesas; fumaça no chão; as cadeiras são balanços; no centro do salão tem uma piscina com água colorida e bolhas; no centro da piscina tem uma arvore genealógica com fotos de todos os Mendelak. Uma festa e tanto.
Pensei no que Lipe dissera sobre prender meu pai. Olhei pra Leandro. Seu rosto com uma expressão de alguém prestes a engolir lesmas. Ao seu Lado Juliana, a nova namoradinha... uns dez anos mais nova, pelo visto ele desistiu de Raquel.
Olhei pra Lipe: escorado na cadeira/balanço com os braços apoiados na mesa pelo cotovelo e mãos entrelaçadas, ele olhava para os outros achando a maior graça; exibindo seu sorriso torto perfeito, com uma sobrancelha erguida.
Pus minha mão em seu ombro, ele olhou pra mim ainda sorrindo, pus a outra mão em volta de seu pescoço, ele abraçou minha cintura, me puxou pra mais perto, eu fiz o mesmo e nos beijamos.
Senti um cutucão em minhas costas, eu e Lipe nos separamos. Quando me virei vi que era Kelly com uma cara de quem comeu e não gostou.
− parem com isso! Estamos em publico.
Lipe sussurrou em meu ouvido:
− não ligue.
− Lipe... você estava falando sério sobre prender meu pai?
− claro... mas hoje não. Minha mãe teria um enfarte.
Assenti.
− essa noite − comecei ávida para mudar de assunto − sonhei com uma coisa meio esquisita.
Ele pareceu que tinha acabado de ganhar na loteria.
− conte.
− bem... − comecei − sonhei que nós dois estávamos numa praia... mas tem uma parte horrível.
− tubarões?
− a praia tinha areia fina e clara − continuei sem dar bola para os “tubarões?” − a água era cristalina, o clima e o tempo agradáveis. Nós estávamos sozinhos de mãos dadas... caminhando e admirando o pôr-do-sol. Ninguém podia nos incomodar... estava tudo perfeito.
− cadê a parte ruim?
Engoli em seco.
− o lugar era tão perfeito... que só podia ser o paraíso.
Ele fez uma careta.
− nós moramos no Paraíso.
Dei-lhe um soco brincalhão.
− não... não esse Paraíso... o paraíso que quero dizer o paraíso que as pessoas vão quando... quando...
As palavras fugiam de mim.
− quando estão de férias − Lipe completou.
− morrem... − sua cara ficou séria, comecei a sentir uma mão de aço apertando meu coração.
− você... Você está falando sério? Quer dizer que agente vai morrer?
− provavelmente... e pela nossa aparência no meu sonho vai ser logo...
Lipe soltou o ar e deu um sorriso amarelo.
− não! É um sonho. Não prova nada.
Pensei se realmente contaria a ele. E se ele fizesse um escândalo? Precisava tira-lo dai. Alevantei de pé e o puxei.
− vem.
Fomos para as escadas principais. Por sorte não tinha ninguém lá.
− preciso te contar... não é a primeira vez que eu sonho.
− todo mundo sonha Amanda!
− comigo é diferente... meus sonhos se tornam realidade... literalmente. Escuta Lipe: eu já sonhei antes, e aconteceu. É claro que muitas vezes não fica obvio. Mas todos dizem... ou dão uma pista do que vai acontecer.
− tá... suponho que o sonho vá se tornar concreto... temos como evita-lo?
− talvez.
− Como estávamos vestidos?
− eu não me lembro muito bem... mas acho que eu estava com um vestido branco e gelado... como se tivesse o tempo todo num congelador...
− uma nevasca?
Franzi a testa.
− acho que não. Ele realmente estava com gelo. E você estava com... − quase caí pra trás.
− como? Como eu estava?
− assim. − apontei pra ele. − você estava desse jeito!
Lipe estava prestes a dizer alguma coisa. Mas nesse instante aparece Wanda.
− Lipe... Amada... venham.
Fomos de mãos dadas atrás dela.
Quando nos sentemos percebi que tinha um cara de pé com um microfone na mão perto da piscina.
− Boa noite − começou ele − eu sou Gabriel. Quero fazer alguns... digamos que... vou passar um recadinho... ou coisa assim.
Ele se virou em nossa direção.
− primeiro quero lhes dar uma trágica noticia... ah Lipe... eu sinto muito.
− pelo que? − Lipe enrijeceu.
− ah... pelo seu pai.
Começaram vários murmúrios. Wanda se levantou de pé.
− calma. Calma. Por favor, Sra. Wanda.
Ela se sentou, mas manteve cautela.
− como eu ia dizendo. Ele está morto.
− NOSSA! − Jenny deixou escapar.
− é prima... eu sei. Lipe deve estar chocado.
Olhei pra Lipe. Ele mantinha expressão neutra.
− Só que não. Lipe já sabia que seu pai estava morto.
Ouve vários “oh!”/s e “ah!”/s. Lipe não mudou sua expressão, tão pouco se mexeu.
− é claro que ele sabia. − continuou Gabriel − foi ele quem o matou.
Wanda arregalou os olhos em direção ao filho, Jenny deixou sua taça cair no chão, Leandro me lançou um olhar furioso.
− tenho provas − disse Gabriel. E ergueu um saco plástico com uma faca dentro. A faca suja de sangue − foi encontrada essa faca com o sangue de Jonathan e as digitais do Lipe.
Nesse instante, policiais irromperam as portas. Eles agarraram Lipe pelos braços e lhe puseram algemas.
− isso é um absurdo! − gritou Kelly − ele nem o conheceu.
Wanda chorava aos berros, olhei para Lipe.
− não! Lipe não!
Mas fui esbarrada no caminho. Pelo meu pai.
− vem comigo Amanda.
− não! Me larga.
Ele não Ligou e me levou embora.
Quando chegamos no nosso apartamento ele me atirou contra uma estante de vidro, que se estilhaçou e me feriu. Juliana assistia a tudo. Ela veio conosco.
− você mentiu! − Leandro gritou comigo.
Monica apareceu, descendo correndo as escadas.
− Amanda! Oh meu Deus.
− fica fora disso Monica. Arruma uma mala de roupas para a Amanda, me cansei de suas rebeldias.
Monica subiu as escadas sem dizer nada. Apenas com cara de espanto e pena.
− aonde é que você vai me levar? − gritei para meu pai, que procurava algo na bancada.
−você vai ver. Vai ser pra bem longe.
− você entregou o Lipe? Porque a faca estava contigo.
Ele riu.
− não... não faço ideia de quem o tenha feito. Agora filhinha você vai para o norte.
E veio em minha direção com um lenço com sonífero.
− você não é meu pai! Você não manda em mim...!
Meus gritos foram apagados. Senti um pano tapando minha boca. Quando o cheirei senti uma dormência... e tudo foi ficando escuro... muito escuro...
Senti uma pontada atrás da cabeça, meu braço doía, e estava me sentindo enjoada.
Abri os olhos. Eu estava usando um jeans e regata. Meu braço direito estava enfaixado. Levei um susto... eu estava em um avião.
− moça! − chamei a garota que parecia me vigiar no outro banco do outro lado do corredor. Eu estava em um avião particular.
− sim? − disse ela bem antipática.
− pra onde esse avião está indo?
− primeiramente... meu nome é Ana. Ana Fátima Delmohra. Mas me chame de Sra. Delmohra. E você está indo para os Estados Unidos, querida. Espero que você saiba falar inglês... se não.... − Ela fez um corte imaginário com o mindinho em seu pescoço.
Tinha apenas uma coisa me incomodando. Não era o fato de eu não saber inglês, ou de Lipe ter sido preso. E sim o sonho. O sonho que mostrava que iriamos morrer.
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