Double face

3 Cap. 3: A fuga começa


Notas iniciais
"Logo depois que falei a porta abriu sozinha, ou alguém abriu por dentro. Dela saiu um Homem alto, meio forte, cabelos pretos e olhos verdes... muito bonito... uma versão do Lipe mais velho. Só poderia ser o pai dele."

Wanda estava assistindo TV quando o telefone tocou:

Ela: alô?

− oi Wanda aqui é a Onilce!

Wanda: ah! Oi irmã...

Onilce: então... sabe aquela festa que todos os anos os Mendelak fazem? Estamos pensando em fazer esse ano no seu apartamento! Tudo bem?

Wanda: claro! Pode ser.

Onilce: vai ter vários tipos de chusma! Vai ter adolescentes, idosos, crianças, adultos e até estranhos! Então convide quem você quiser!

Wanda: obrigado irmã!

Onilce: então tá! Beijos... tchau!

Wanda: beijos... tchau!

Wanda, logo depois que desligou, ouviu a campainha. Foi atender. Era Raquel!

− o que você quer? − pediu Wanda impaciente.

−quero me desculpar com Lipe.

Ela tinha uma cara péssima.

− ele não está! Mas... o que você fez?

− eu abusei de mais da Amanda. E queria que ele soubesse que sinto muito... muito mesmo. Pode dar esse recado pra ele? − ela não esperou resposta − obrigada!

− espera! − disse Wanda logo que Raquel estava saindo − é verdade que ela caiu da escada... e que o pai dela não deu bola?

− olha... ela caiu, mas enquanto a parte do “pai dela não der bola” eu não sei.

Dizendo isso ela saiu às pressas.

AMANDA

Eu tinha acabado de beija-lo! Agora estamos conversando sentados em minha cama. Ouço alguém na porta, Lipe olha pra mim com duvida. Fiquei de pé.

− escuta! − sussurrei pra ele. Novamente o barulho, agora ele percebe.

−Amanda você está ai? − meu pai falara do corredor.

− Lipe vai pra baixo da cama!

− é box! − ele rebate em silencio.

Fiz uma careta.

− se esconde.

Ele foi para o meu closet. Meu pai não esperou resposta e entrou.

− ficou surda é? − ele me deu um empurrão, eu cai sobre a cama.

− não interessa, − continuou ele − quero seu favor! Sabe o tal sócio que encontrei no aeroporto? Então eu...

− não concordei em nada − interrompi com medo de que Lipe escutasse algo.

− cala a boca! Escuta... ele tem um objeto. De muito valor... esse objeto contem um segredo. quero que você o traga pra mim!

− se ele tem muito valor... por que ele te contou que o possui?

− ele não contou... acontece que esse sócio já morava aqui. Ele fugiu por causa do objeto. ele até largou sua família!

Opa! Que família?

− quem é ele?

− já que você vai executa-lo acho que...

− esperai! que história é essa de executar pessoas? − eu o contrariei, confusa e irritada.

− já disse pra ficar quieta! Ele é o ex-marido da Wanda... o pai do Lipe... sabe?

Engoli em seco.

− você quer que eu...?

− quero que você o mate. E depois traga o objeto pra mim.

Lipe nunca mais iria olhar na minha cara!

− NÃO! Nem morta!

− se você não fizer isso nunca mais vera a camiseta! Ok?

− a camiseta não significa tanto assim − larguei uma lagrima − e além do mais... ela está estragada!

Ele bateu na minha escrivaninha. E gritou:

− QUER QUE ACONTEÇA COM VOCÊ O MESMO QUE ACONTECEU COM SUA MÃE?

Isso me deixou alarmada. Comecei a chorar. Ele se aproximou de mim, e me ergueu pelos meus cabelos. Comecei a gritar.

− VAI FAZER?

− tá bom... tá bom... eu faço!

Ele me atirou contra a estante de livros. Bati com força, minha cabeça começou a sangrar. Ele largou um papel sobre minha cama.

−faça isso amanha mesmo!

Ele saiu do quarto, imediatamente Lipe veio em minha direção me ajudar. Eu não disse uma palavra. Depois que ele fez um curativo em minha cabeça ele começou:

− vai fazer?

Eu abaixei a cabeça.

− o que?

− matar meu pai?

− sabe que eu não queria que você ouvisse isso.

− eu ouvi a conversa de vocês hoje... na sala − olhei assustada pra ele, MINHA NOSSA. − e quero que você saiba que estou com você, não vou mais deixar ele te machucar... ou vender.

− Lipe eu... − comecei a chorar lembrando o dia horrível que meu pai fez com que eu vendesse minha virgindade... com um velho! − Lipe... ele me maltratou muito... ele tirou minha mãe de mim... ele...

Não consegui terminar, as palavras não saiam. Abracei ele, chorei... chorei... até as lagrimas acabarem.

Lipe pegou minha cabeça e olhou nos meus olhos.

− a culpa não é sua... quantos anos você tinha? Quer dizer... quando ele te vendeu?

− doze − murmurei − foi quando eu viajei para o Alasca, lembra?

− você estava toda entusiasmada pra ir... e quando voltou, parecia que sua vida estava no fim do poço.

−ainda está.

Ele me deu um beijo na testa.

− não... não comigo aqui.

− mas ele quer que eu mate... o seu pai. Você nem o conhece!

− eu tenho um plano... vou com você!

Nós arrumamos duas mochilas com tudo que seria necessário. Eu fiquei encarregada da água, comida e agasalhos. Lipe não me contou o que iria levar. Saímos na madrugada do dia seguinte, escondidos; peguemos um ônibus para o lugar indicado no papel que meu “pai” me dera. Levou horas de viagens. Quando cheguemos ficamos esperando o movimento parar. Agora as ruas estavam quase vazias.

− vamos esperar muito? − perguntei tremendo de frio.

Estamos numa pracinha, sentados em um banco, eu estou usando jeans, all star, camiseta e uma jaquetinha camuflada. Lipe esta de jeans, all star, também, e um moletom da GAP.

− acho que já podemos ir... aonde é?

Eu olhei no papel.

− temos que ir ao Bob Lunk.

Ele riu.

−é Bob Lank!

− aqui está escrito assim!

Ele riu novamente.

− mas se lê diferente.

Fiz uma careta.

− tanto faz... você sabe onde é?

− sei. É um bar que fica aqui perto mesmo.

− já foi lá? Porque tá parecendo.

Ele me deu um selinho.

− não! Mas todo mundo conhece. É bem famoso sabia.

− sério?

−não... estou sendo sarcástico − ele fez uma cara de vencedor − minha prima trabalha lá. Você vai adorar aquele lugar.

Algo me dizia que ele estava brincando de novo. Quando chegamos percebi que ele dissera a verdade. Adorei aquele lugar. Era na beira da praia, um estabelecimento velho de madeira, é o tipo de lugar que Jack Sparrow se sentiria a vontade.

− legal − falei− você tinha razão, adorei este lugar!

− eu estava zoando. Gosto realmente?

− adoro piratas do Caribe!

− tá explicado. − ele me puxou pra junto dele quando entramos.

O bar estava quase vazio, exceto por dois homens. Um está atrás do balcão, devia ser um funcionário. O outro sentado em uma das mesas.

−cadê sua prima? − perguntei baixinho.

− trabalha aqui só de dia... Você fala com o funcionário, e eu com o cliente. Ok? − sussurrou Lipe no meu ouvido.

− o que exatamente queremos saber? − perguntei baixinho.

− não sei... arranque alguma coisa dele.

Fui em direção ao balcão. Vi Lipe sentando junto ao cliente.

− oi. Disse eu amistosa.

− o que vai querer? − disse o funcionário mal morado.

Ele é gordo e musculoso, seu cabelo é rente ao coro cabeludo, tem um palito na boca, sua pele ou é manchada ou suja− aqui tem apenas algumas luzes fracas e vermelhas, que deixam o lugar ainda mais sinistro. Ele está usando uma camiseta branca − também suja − e um crachá dizendo Jack.

− informações.

Ele me olhou de um modo desprezível.

− se não comprar nada...

Ele já estava saindo quando gritei:

− espera!

Ele voltou a seu lugar de origem.

− me de um drink.

− na verdade dois.

Olhei para o meu lado, Lipe abria um sorriso pra mim. Jack foi buscar as bebidas.

− Finge que não me conhece... eu tenho um plano. − disse Lipe com cautela.

Jack voltou com dois copos.

− aqui está. É por minha conta. − disse Lipe empurrando um copo pra mim.

Eu abri um sorriso para Lipe. Ele é um ótimo ator.

− muito obrigada.

− vocês são daqui? − Jack perguntou.

− ah, não. Eu sou de fora. Estou passando as férias aqui.

− aqui? Não tinha lugar melhor não? − fiz uma cara de confusa. Eu também tenho meus dotes.

− estou com minha segunda esposa... se é que me entende.

Seria muito fácil acreditar, ele tem cara de mais velho mesmo. Jack ouvia atentamente nossa conversa.

− e você? − continuou ele − o que faz por essas bandas?

Tomei um gole do meu drink.

− estou a procura de uma pessoa.

−posso saber quem é? − Lipe pediu pra mim.

Me lembrei do nome que estava no papel.

− Jonathan

− por que você quer ele? − Lipe olhou pra mim fingindo não acreditar.

− você o conhece?

− não... mas ouvi muito dele...

− e você? − me dirigi a Jack.

− depende... o que você quer com ele?

− prende-lo... hora.

− você é o que? − pediu Lipe fingindo estar assustado.

Me levantei de pé e saquei um revolver para eles.

− sou policial... e você está preso por bigamia. − tirei uma algema do bolso e prendi as mãos de Lipe. − me leve até Jackson. − agora falei para Jack.

O Homem assustado me entregou uma chave e um cartão.

− tá aqui. Agora vai embora.

Olhei o cartão. Tinha um numero de telefone.

− como posso ter certeza? − gritei pra ele.

− eu... eu não sei mais nada. − depois que disse isso Jack saiu correndo pela porta dos fundos.

− você interpreta bem... parabéns. − desse Lipe− agora me solta.

Tirei as algemas dele.

− você sempre anda com isso?

− trousse por precaução. − abri um sorriso.

Ele esfregou os pulsos. E arquejou as sobrancelhas.

− ele não percebeu que era falsa? − ele apontou para o revolver de vídeo game.

− acho que ele não percebeu... ou interpretou bem. − eu lhe entreguei o cartão. − liga para esse numero.

− por que ele daria um numero de telefone? E uma chave? Será que não é...

− uma senha! – eu disse me lembrando dos montes de filmes que assisti sobre investigação.

Ele coçou o queixo, sua barba male mal aparecendo.

− acho que eu sei. Vem.

Ele pegou minha mão e me levou pra fora.

Lipe me fez descer um penhasco a beira da praia. Chegamos lá em baixo, a água batia forte. Nós tomemos cuidado para não se machucar e fazer barulho.

− o que aquela camiseta significa pra você? − Lipe quebrou o silencio.

−ah?

− a blusa que a Raquel estragou...

Agora me lembrei.

− é a única lembrança que eu tenho... tinha... de minha mãe. − uma lagrima escorreu dos meus olhos.

−sinto muito...

Depois de um tempo ele voltou a falar.

−está vendo aquela caverna?

Fiz que sim com a cabeça, quase não dava pra ver por causa da névoa e da escuridão.

− o que tem lá? − perguntei. Peguei em sua mão pois estava quase caindo.

− tenha cuidado! − Lipe disse num tom protetor− é um tipo de esconderijo... eu vi um desenho desse lugar quando era pequeno...

− quantos anos você tinha?... quer dizer, quando seu pai fugiu.

− eu não me lembro dele. Tomás tinha uns 8 anos de idade quando nasci... mas ele nunca falou de meu pai.

− eu me lembro de minha mãe... − eu comecei.

Ele se virou pra mim enquanto caminhávamos pelas pedras.

− se você não quer falar nisso... não precisa. Você nunca mencionou nada então deve ter...

− medo. − interrompi − mas agora que você sabe de uma parte...

− de uma parte? − gritou ele − então tem mais?

Ele fez um sinal negativo com a cabeça e virou para o lado oposto a mim.

− não! − eu disse rápido de mais− é sobre meu pai que estou dizendo... não de mim!

Ele relaxou. Sorriu apenas com a boca e olhou pra mim.

− desculpa. O que você estava dizendo...?

− eu tinha 5 anos − comecei − meus pais estavam discutindo na cozinha... nós éramos pobres, meu pai era... bom... legal. Até aquele dia...

Meu pai e minha mãe estão brigando... só pode ser. Senão não teriam trancado a porta... olhei para cima e vi uma portinha pequena... e se...?

logo depois já estava em cima deles vendo tudo sem que percebessem...

−você vai fazer o que? − minha mãe, Sheila, gritava.

− vou ficar com a Amanda! Você não a merece... − disse meu pai, Leandro.

− só por que eu te trai? Eu já disse que a vida com você não tá mais dando certo! Nunca gostei de você!

Ele a segurou pelo braço.

− você me enganou! Sua... − ele não terminou a frase porque me viu­. − querida...?

Ele estava se referindo a mim. Mas minha mãe achou outra coisa.

− querida? Hora... quer saber de uma coisa... você não pode ficar com a Amanda!

Ele pareceu assustado.

− por que não?

− ela não é sua filha! − meu pai arregalou os olhos − eu menti... ela não é sua filha!

− você está mentindo...

− faça um DNA. Ela é filha do...

Minha mãe caiu no chão sem terminar a frase. Meu pai tinha dado um tapa na cara dela.

−mamãe! − comecei a chorar. Fui descer do teto... escorreguei, e cai.

Quando acordei... minha mãe não estava mais lá...

− mãe!

Gritei em vão... em vez de ela aparecer... apareceu meu pai... ele pegou em meus cabelos com as mãos molhadas... me levou para meu quarto e me trancou lá dentro.

− fica ali... filha de outro.

− papai! Papai!

Ele não deu atenção. Olhei meus cabelos e percebi que não tinha água... era sangue.

Quando terminei de contar a Lipe, o abracei inconformada.

− sangue... sangue dela... − eu murmurava em seu ouvido, com lagrimas nos olhos.

Ele não deu uma palavra até chegarmos a caverna... bom, eu vim chorando o tempo inteiro.

− cheguemos. − disse ele, passou a mão em meus cabelos e me deu um beijo na testa.

Eu enxuguei as lagrimas em meu rosto, e espremi meu cabelo, que ficara úmido com a garoa.

Dentro da caverna, a uns cinco metros da beira, tem um portão de ferro. Ou algo desse gênero. Ele cobre toda a entrada. Lipe e eu se aproximamos. Num canto tem um encaixe de chave e botões, Lipe colocou a senha e a chave. Quando foi gira-la eu o empurrei.

− espera!

− qual o problema? − ele perguntou fazendo uma careta.

− e se for uma armadilha? Ou se estiverem nos vendo? Não acha que o cara do bar facilitou de mais?

− é... eu acho que sim. − ele coçou o queixo− bom o que faremos então?

− eu não sei... e se você dizer que veio em missão de paz?

Ele fez que não com a cabeça.

−nós viemos aqui para rouba-lo. Lembra?

− não... na verdade eu vim. Você tá aqui porque é metido!

− eu vim ajuda-la. Você tem medo até de mata uma mosca! _ ele riu.

− tanto que você mata alguma coisa! − sorri pra ele, nós parecemos duas crianças brincando em vez de dois adolescentes prestes a matar alguém.

− e se você disser seu nome?

− o que tem a ver? Nem sabemos se ele realmente está aqui! − ele pareceu estar convencido disso.

− mas ele é seu pai! Com certeza vai te reconhecer Lipe.

Logo depois que falei a porta abriu sozinha, ou alguém abriu por dentro. Dela saiu um Homem alto, meio forte, cabelos pretos e olhos verdes... muito bonito... uma versão do Lipe mais velho. Só poderia ser o pai dele.

− quem são vocês? − ele tem uma voz áspera, esta usando uma calça jeans bege, um suéter azul marinho e tênis.

− eu sou Amanda.

− e eu Luiz Felipe.

Respondemos.

−sobrenome e pais, por favor.

− Senchill, meus pais são Sheila e... − parei, ouve se silencio.

− Leandro! − Lipe avisou.

− ele não é meu pai! E eu não sei quem é!

− e você? − ele apontou para Lipe.

− Mendelak, meus pais são Wanda e Jackson.

− você não o conhece! − eu disse a Lipe.

− mas pelo menos eu sei o nome! − ele rebateu.

− vocês são de Paraiso? Porto Alegre?

Fizemos sim com a cabeça.

−quem procuram?

− quem é você? − perguntei.

− meu nome é Jonathan... Jonathan Montenes.

Lipe e eu trocamos olhares.

− você! −disse Lipe− papai.

O pai de Lipe, Jonathan, nos levou pra dentro. O lugar até que é um tanto... agradável. Uma sala retangular, com um carpete marrom, lareira acesa, sofás de madeira com almofadas verdes musgo, estantes de madeira cheias de livros e abajures acesos, porem, a sala não tem janelas.

− então − começou Jackson, nos oferecendo chocolate quente, fora isso, ele não parece muito hospitaleiro, muito menos paternal. se eu reencontrasse um filho que não via há 16 anos, eu não iria agir como se isso não fosse grande coisa, como Jonathan está fazendo. − vocês vieram aqui para me roubar ou matar? A propósito... pude ouvir tudo que vocês falaram.

− na verdade não. − disse Lipe − nós fomos mandados aqui para fazer isso, pelo Leandro Senchill

− eu fui mandada! − corrigi ele.

− tanto faz − Lipe revirou os olhos − mas o fato é que isso foi um mandato. Mas como não queremos...

− e não sabemos, temos medo e etc. − interrompi ele mais uma vez.

− ok Amanda! Fica quieta. − ele já estava irritado − então viemos fazer um acordo...

− qual é? − perguntou Jackson espalmando as mãos.

−você nos entrega uma cópia do objeto secreto e foge.

− só isso?

−não exatamente− eu disse rápido de mais − tem que ser igual ao verdadeiro e você deve sumir mesmo!

− tudo bem − Jonathan parecia aceitar numa boa −eu queria sumir mesmo. Vocês vieram bem a calhar. E também, Leandro precisa largar do meu pé.

Ele levantou em pé.

− esperem aqui.

Jonathan saiu pela outra porta que ficava as escondida, e nem um minuto depois já estava de volta. Ele nos entregou uma caixinha de madeira, do tamanho da palma da mão.

− mintam direitinho... −logo depois saiu pela porta principal.

Eu e Lipe nos levantemos e fomos na mesma direção.

− ele sumiu! − sussurrei.

O vento forte e gelado batia em nossos rostos.

−Lipe! − ele me olhou assustado. Meu tom de vós, porem, também era. − me esqueci de um mínimo detalhe...

− pelo modo como você fala... parece ser grande.

Tirei a faca da mochila. Ele recuou um passo.

− por que...? o que a faca tem a ver...?

Mordi o lábio.

− meu pai queria ver o sangue nela... o sangue do seu pai.

Ele riu.

− agente suja de sangue... e pronto. − pra ele pareceu simples.

− mas ele vai fazer o teste!

Lipe ficou sério. Ele atirou a mochila no chão, e rasgou em pedaço de sua camisa.

− pegue o kit de primeiros socorros... se você trouce.

− claro que eu troce... Lipe o que você está fazendo? − eu ainda não tinha me mexido. Ele arrancou a faca de minha mão.

Se ajoelhou no chão, colocou a faca na boca. E amarrou o pedaço da camisa um pouco acima de seu cotovelo. Percebi o que ele faria.

− Lipe não! − já era tarde de mais, ele enfiou a faca em seu próprio braço. Depois tirou-a e pôs em um plástico. Me ajoelhei junto dele e ajudei-o a fazer um curativo.

− por que você enfiou a faca no seu braço?

− para comprovar que ele está morto.

Olhei pra ele chocada.

­ − não podia apenas sujar com um pouquinho de sangue?... não precisava ter se esfaqueado!

Ele fez uma careta.

− está doendo?_ pedi.

− claro! Mas eu aguento. E a propósito. Se fosse cortar um pouco de minha pele eu não conseguiria, e você não teria coragem.

− mas se fosse só um cortezinho pequeno? − eu realmente queria que não fosse assim.

− ia demorar muito, o sangue ia secar. E assim parece mais realístico.

Não falei mais nada. Ele ia acabar ganhando o mesmo.

Voltemos para dentro para pegar curativos, quando eu já estava quase terminando de enfaixar seu braço ouvimos um ruído.

−o que foi isso? −perguntei a Lipe.

− e você acha que eu sei? Deve ser um animal ali fora.

De novo ouvimos.

− está ficando mais próximo − a essa altura eu já estava sussurrando­ − eu acho que tem alguém vindo.

Ele rapidamente se levantou e me puxou para trás da escrivaninha. Fiquemos abaixados ali. Ele fez um sinal para mim ficar quieta.

Dois homens entraram, os dois eram grandes, fortes e usavam preto. Quando chegaram mais perto pude perceber que o da direita era Jack.

− cadê aqueles imprestáveis? − perguntou o da esquerda para Jack

− estão por aqui... só pode. Rafa. Você procura por aqui... eu vou olhar lá fora novamente... não devem estar longes.

Lipe olhou pra mim. Seu dedo mindinho, do braço não machucado, fazia um corte imaginário em seu pescoço. Logo entendi o que ele estava dizendo... Jonathan nos enganara. Ele mandou seus capangas para nos pegar.

Lipe saiu do esconderijo.

− ei! − disse ele a Rafa. − está me procurando? − ele fez sinal para mim não sair.

− Jack! − Rafa chamou-o.

Jack veio correndo as presas com uma adaga na mão.

−ora... ora... quem apareceu...

−vocês estavam a minha procura? − Lipe perguntou.

−é... − respondeu Jack olhando em volta, eles não podiam me ver, mas eu os via com muita clareza... exceto Lipe. Que agora acabara de mudar de lugar. − mas... cadê a garota?

Lipe, ao que pareceu, começou a rir bem alto.

− a garota?... Porque eu acho que você quis dizer as garotas... e... elas estão bem aqui na minha frente. −e começou a rir de novo.

Jack e Rafa avançaram em sua direção dizendo um monte de palavrões. Lipe saltou em cima da mesa que eu estava escondida, Jack empunhou sua adaga e Rafa pegou uma espécie de corda de aço. Não é corrente. É realmente uma corda feita de metal.

Sai de debaixo da mesa e fui atrás de uma poltrona. Espiei e vi que nem Lipe nem os bandidos perceberam minha retirada. Lipe tinha duas canetas na mão direita. Ele pulou em cima de Jack e enfiou ambas em seus olhos. Jack largou, instantaneamente a adaga e começou a gritar esfregando os olhos. Rafa vinha em sua direção ajudar, mas Lipe foi mais rápido, ele pegou a adaga no chão e bateu com a parte contraria na cabeça de Rafa, ele caiu no chão sem demonstrar sinal de vida.

Jack, pelo que percebi, não estava enxergando. Ele vinha na direção de Lipe, que saiu de seu caminho. Jack tropeçou no pé dele, caindo no chão. Lipe não se aguentou e começou a rir. Fiquei pasma. Sai de trás da poltrona; foi o maior erro que cometi.

Notas finais
Próximo cap.: "− Eu não vou te deixar... ninguém irá nos afastar. Eu iria até o inferno por você; você passou a fazer parte da minha vida... de mim. Eu realmente gosto de você... não! Gosto é pouco. Nem amor definiria o que sinto por você. É milhões vezes mais."