Double face

19 Cap. 19: Sanguinolência


Notas iniciais
"Não vejo, mas sinto quando Mandy se afasta de nós, indo em direção à pantera. Ouço depois de um tempo um não e um grito. O grito era da Mandy"

Rick

Corremos em direção a Lipe. Não chegaríamos a tempo. Acalmo-me quando Mandy fala que a pantera atacou os macacos, mas depois o pânico volta ao perceber que é para brigar pela comida – ou seja, o Lipe.

Mandy narra tudo o que acontece.

− A pantera matou um com uma mordida no pescoço. Ela agora está lidando com dois. Mas os restantes dos macacos não param de machuca-lo.

Depois de um tempo também conseguimos ver. Lipe está deitado sangrando no chão. Quase sem roupa. Imagino que o que ele estava usando fora cortada pelos macacos.

Quando estamos a, mais ou menos, vinte metros da sanguinolência, Mandy corre mais rápido, nos deixando para trás. Do meio da sua palma sai uma lamina. Ela chega com tudo e ataca os macacos que estavam brincando com Lipe. Chego logo em seguida, um pouco mais a frente das meninas. Pego Lipe e começo, lentamente, a leva-lo dali. Helen chega e pega do outro lado. Caminhamos mais rápido. Mandy vem fechando a retaguarda. Raquel recua indo na nossa frente. Ela nos conduz para a mata.

Os macacos param de nos seguir. Tento olhar para trás, mas não consigo, pergunto a Mandy.

− A pantera está com o ultimo… I! Já era. Ela está vindo em nossa direção. O que eu faço? Mato-a?

− Sim. Se você conseguir. – Respondo.

Não vejo, mas sinto quando Mandy se afasta de nós, indo em direção à pantera. Ouço depois de um tempo um não e um grito. O grito era da Mandy

Helen e eu nos viramos rapidamente.

Mandy estava parada de boca aberta para uma mulher. Eu não pensei que robôs pudessem ficar surpresos ou até se assustar. Com certeza Mandy era um robô diferente.

A mulher que estava na sua frente estava nua. Possuía longos cabelos negros e um corpo alto e esbelto.

Olhei em volta e não vi pantera nenhuma… curioso… muito curioso.

A mulher, aparentemente, não ligava pro fato de estar nua. Ela ignora Mandy e vem em nossa direção. Ela pega Lipe no colo afirmando que só queria ajudar.

− Quem é você? – pergunta Helen. – O que você fez com a pantera?

A mulher olha para ela com um olhar gélido e não responde.

− Ela era a pantera. – Diz Mandy entrando ao nosso lado no ritmo.

Helen olha para mim de boca aberta. Depois de um tempo ela percebe o fato da mulher estar nua e se atira na minha frente. Ela não me deixa ver nada, tapa meus olhos com as mãos e fica atrás de mim.

− Como vou enxergar o caminho? – Pergunto rindo.

− Eu o guio. – Diz ela.

− Como você vai conseguir caminhas assim?

− Que tal eu pular em suas costas? Seja minhas pernas e eu serei seus olhos.

Concordo rindo. Ela pula nas minhas costas envolvendo meu quadril com as pernas, seguro ela com as mãos para que não caia. Ela ri e começa e descrever o caminho.

− Mandy! Que cara é essa? – Helen ri.

− Isso é comum? – Ouço Mandy perguntar. − Tipo, Lipe está num péssimo estado, tem uma pantera humana carregando ele e não estamos mais vendo a Helen… Como podem se divertir? E também a o fato de que…

− O ser humano – começo – sempre tem problemas em sua vida… não importa o que você faça eles sempre estão lá. O caminho da vida é feito por obstáculos… temos que supera-los…

− Os obstáculos são os problemas? – Ela pergunta.

− Sim… Temos que nos divertir no meio de tudo isso… se não, não valeria a pena viver.

− Está dizendo, que não importa o que houver de errado e de ruim… temos que achar uma maneira de distração? Uma maneira de… se divertir?

− Exato… − Respondemos eu e Helen ao mesmo tempo.

− Aqui está bom. – Afirma a voz forte da mulher. Escuto barulho de agua… devemos estar num regato.

− Moça… − Ouço Helen. – Se importa em vestir alguma coisa? Rick precisa cuidar do Lipe e não quero que ele a veja… Oh!

Helen desce me deixando ver. A mulher, pelo visto, estava novamente em forma de pantera.

Raquel sentava num tronco junto com Mandy e Lipe estava no chão.

Vou até ele examino-o. Estava sem cabelo em alguns lugares… o lugar da sua sobrancelha esquerda tinha sido arrancado. Faltava lhe alguns dedos e tinha cortes se cicatrizando por todo o corpo… mas percebo que havia algo embaixo dos cortes… Abro sua boca e vejo dentes quebrados ou faltando, parte de sua pele estava descolada… sem falar que estava imundo.

Olho para as meninas… nenhuma teve coragem de ficar olhando, mas percebo que Helen está com ânsia. Peço pra elas se afastarem… Mandy é a única que fica com exceção da pantera. Ela me trás agua. Começo com os pequenos cortes. Abro os, todos, novamente… dentro de sua pele tinha rugas, muitas delas… elas estavam vivas.

Ignorando a dor que ia sentir peguei-as com as mão e comecei a tira-las. Mandy segura meu braço.

− Deixa que eu faça isso. Cuida dos outros ferimentos.

Concordo. Ela começa a remover os insetos. Vou para o resto dele. Abro seus olhos e percebo, felizmente, que estão intactos por dentro. Limpo os cortes e tiro as lascas de madeira. Vejo que há um corte em sua cabeça… cuido dele. Terminando todo o rosto vou para os dedos. Vejo que a pele está se fechando. Abro de um e vejo alguns pelos e terra dentro… faço novamente o trabalho de abrir sua pele e limpa-la.

Foi um longo tempo até deixarmos ele limpo e livre de intrusos. Seus cortes começavam a cicatrizar.

− O que faremos agora? – Pergunta Raquel.

A mulher estava usando uma espécie de xale com pele de macaco. Um coelho assava na fogueira. Ela ainda não tinha dito seu nome e nem o que queria com nós… ou por que estava nos ajudando.

Lipe começa a se mexer. Mandy levanta correndo e pega agua no rio com as mãos em concha. Ela da pra ele beber. Após terminar ele começa a tossir.

− Está tudo bem? – Pergunto ajudando-o a sentar.

− Temos que fugir. – Diz a mulher – Não sei como conseguiram entrar… mas vai ser bem difícil sair daqui.

Lipe grunhe com o esforço. Ele olha para nós e depois encara a mulher.

− Obrigado… − Diz baixinho e se escora na raiz da arvore. – Me sinto bem melhor… − ele não agradece alguém especificamente, mas para de olhar para a mulher.

− Lipe… A Amanda tá aqui?

Ele confirma com a cabeça. Mas parece chateado, deprimido.

− Aconteceu alguma coisa? – Pergunta Helen.

− Vai nos matar? – Pergunta a mulher.

Todos nós olhamos pra ela. Lipe age como se tivesse levado um tapa e nega com a cabeça. Mas depois encara o chão.

− Não leve a mal… Sou Thais aproposito. Todos que veem mudam… entendam isso… são poucos os que não viram assassinos em série. Eu não cheguei a ver. Mas conheço pessoas que já viram.

− Viram o que? – Pergunto.

− O que nos aguarda… Só há um vencedor, o resto terá esse castigo cruel.

− Jogo? – Pergunta Helen de boca aberta. – Que jogo? Quem está jogando?

A mulher aponta para ela, pra Lipe, para Helen e Raquel. Depois faz um circulo ao redor de si mesma, como que para indicar que a mais gente por todo lugar;

− É um jogo de deuses… mais provável que só uma.

− Eu não faço parte? – Pergunto. – Nem a Mandy?

− Ela é um robô… e você está fora disso sim.

− Qual o objetivo desse jogo? – Pergunto.

Ela olha para mim com um olhar cansado. Sorri forçadamente.

− Ficar vivo. – Ela responde numa voz melancólica.

− Eu… − Lipe começa – Uma voz falou comigo enquanto eu estava inconsciente… − todos encaramo-lo – Era uma voz de mulher… ela dizia que, se eu salvasse a Amanda poderia estar cometendo o maior erro da minha vida.

− Talvez – Thais continua com o mesmo tom de voz – a garota viu o que espera por ela… afinal ela também está no jogo.

− E por que ela nos mataria? – Pergunta Helen.

Thais levanta os olhos… por um moimento vejo-os amarelos… mas depois voltam ao castanho.

− Porque se você tem que ficar vivo pra vencer…

− Os outros, terrão que morrer. – Concluo.

O ar fica pesado. Vejo a expressão de pânico na cara das irmãs. Mandy se encolhe. Thais deita e suspira. Lipe olha pra mim.

− Não importa… custe o que custar eu paro essa merda de jogo… nem que eu precise destruir todos os deuses.

− Nyx… − responde Thais – Ela é a responsável.

Notas finais
Próximo cap.: "Um silêncio mortal cai sobre nós. Dizendo isso ela concluiu que haveria risco de algum de nós morrermos."