Double Game (jogo Duplo)
1 Capítulo 1 - Twins
Notas iniciais
— Eu ganhei. — Disse mais uma vez ao meu irmão que se começou a rir.
- Vai sonhando, pirralha. — Respondeu-me, esfregando a mão na minha cabeça, despenteando, assim, o meu cabelo castanho ondulado. Sorri e dei-lhe um empurrão no braço, com a mão que tinha desocupada.
- Arrumaram tudo? — Perguntou o meu avô distraído com a televisão.
- Como sempre. — Respondeu o meu irmão, começando a subir as escadas.
Dirigi-me até á casa de banho que ficava entre o meu quarto e o de Karen e abri a porta. Karen estava no interior desta a colocar uma máscara azul na cara.
- Só quero tomar um banho. — Afirmei, quando ela me lançou um olhar fulminante e eu percebi que ela não podia mexer um único músculo da sua cara perfeita para me dizer o que quer que fosse. Consegui ver o seu olhar a ponderar durante algum tempo até que por fim, ignorou-me e continuou a ler uma revista qualquer.
Liguei a água e abri a torneira da água quente, para esta ir aquecendo, enquanto me despia. Corri o fecho e tirei o meu macacão branco, azul e vermelho que utilizava para conduzir os todo-o-terreno, ficando apenas em lingerie – um belo conjunto preto com renda vermelha, em que as cuecas eram tanga e que nunca ninguém iria ver devido ao facto de a minha vida amorosa ser tão inexistente com um rapaz que diga “não” a Karen. Coloquei a ponta dos meus dedos na água para verificar a temperatura desta e abri, imediatamente, a torneira da água fria.
— Porque é que tens lingerie tão gira e ninguém a vê e eu não tenho mais de cinco conjuntos? — Perguntou-me Karen, enxaguando a cara com água.
— Porque tu não ficas com essa nomeada lingerie mais de três horas no corpo. — Respondi tirando o resto da roupa que tinha no corpo e entrei para dentro do chuveiro.
— Touché. — Respondeu-me com um sorriso vitorioso nos lábios. Ignorei o comentário dela e coloquei-me debaixo da água morna do chuveiro.
- O Rick? — Perguntou-me Karen. Abri ligeiramente a porta do chuveiro e vi-a a colocar base na cara.
- Onde é que vais? — Perguntei, com uma sobrancelha arqueada.
— Uma festa – uma coisa que tu claramente não sabes o que é. — Respondeu-me com um sorriso irónico.
— Estúpida. — Reclamei, voltando para dentro do chuveiro e começando a lavar o cabelo.
- Anormal. — Respondeu-me. — Mas onde é que está o Rick?! — Perguntou-me, novamente, impaciente.
— Está a tomar banho. — Informei, enquanto enxaguava o meu cabelo para tirar a espuma toda.
***
Quando acabei de tomar banho, dirigi-me para o meu quarto e depois de já estar de roupa interior vestida, ouvi um suave batuque na porta do meu quarto.
- Sim? — Perguntei, abrindo a gaveta dos pijamas e procurando qualquer coisa decente para dormir.
- Estás a fazer o quê? — Perguntou-me Karen, quando entrou no quarto, fazendo-me desviar a minha atenção para ela.
- Escolher um pijama para ir dormir. — Expliquei, tirando uma camisola de alças, preta e umas calças de pijama largas, azuis-claros.
- Pois, lamento interromper essa tão difícil escolha, mas o Rick — se bem que eu disse-lhe para ele não o fazer — decidiu que tu também vais á festa porque és irmã dele e, com muita pena da minha parte, também és minha. — Explicou-se, fazendo o maior esforço possível para colocar todos os insultos imagináveis na mesma frase.
- Apesar de não te querer fazer a vontade, não posso ir, não tenho roupa para levar a uma festa de passadeira vermelha. — Respondi, vestindo a camisola.
- Pois, eu já calculava isso e então trouxe-te isto. — Informou-me, atirando um vestido branco, de manga curta e saia rodada, com um “buraco” — sinceramente não sei o nome técnico dessa porcaria — em forma de coração nas costas.
- Sim, até porque o teu decote duplo D, me vai servir de certeza. — Ironizei, enquanto colocava as calças do pijama.
- Rick! — Gritou Karen e passado uns minutos o meu irmão apareceu á porta do meu quarto. — Não digas que não tentei. — Respondeu, apontando para mim de cima a baixo.
- Sarah, desta vez tenho que a apoiar. — Respondeu o meu irmão, tirando o vestido da mão de Karen e aproximando-se de mim. — Eu quero que tu estejas na festa, comigo, okay? — Perguntou-me de sobrancelhas erguidas.
- Como queiras. — Respondi, despindo a camisola preta e as calças e colocando a porcaria do vestido.
- O Francisco vai? — Perguntou Karen num tom de voz, ansioso.
- Vai, Karen, vai. — Respondeu o meu irmão cansado. Pelo o que percebi, o Rick já devia estar cansado das perguntas da minha irmã sobre esse tal Francisco. — Aliás, ele vem connosco para a festa. — Completou o meu irmão, saindo do quarto.
- A sério? — Perguntou Karen indo atrás dele, com um tom de voz esperançoso.
- Sim, a sério Karen. — Disse o meu irmão, entrando de novo no meu quarto com várias paletas de maquilhagem nas mãos e Karen a segui-lo.
- Para que é que é isso? — Perguntei, enquanto me virava de costas e afastava o cabelo para Rick me apertar o fecho do vestido.
- A Karen vai maquilhar-te. — Respondeu Rick, apertando o vestido.
- O quê?! — Perguntei, ajeitando o meu cabelo. Karen revirou os olhos, bufou e obrigou-me — literalmente — a sentar-me em cima da cama virada para ela.
- Não te preocupes, não vou meter muita. — Respondeu, passando-me um pincel largo com base, na cara.
***
Vim a descobrir que Francisco é modelo, que já fez alguns trabalhos com o meu irmão e que tem vinte anos, pelas conversas — a minha irmã provavelmente esqueceu-se que eu estava no carro — entre Karen e Rick que eu tive o privilégio de ouvir sobre o rapazito.
- Ele não está interessado em ti. — Respondeu-me Karen, quando eu lhe perguntei se ele era assim tão giro como ela o descreveu.
- E achas que em ti está? — Perguntou Rick, parando o carro em frente de um prédio, com imensas janelas.
- Por amor de Deus, Rick. — Respondeu a minha irmã revirando os olhos. — Há algum rapaz que não esteja? — Perguntou-lhe, erguendo as suas sobrancelhas loiras.
- Que falta de modéstia. — Comentei, entre dentes, mas ao que parece foi suficientemente alto para ela me ouvir e me mandar um olhar fulminante, que eu juro pela minha vida que até vi fogo nas íris dela. Desviei a atenção do olhar dela, olhei pela janela e vi um rapaz com cerca de um metro e oitenta de altura, cabelo moreno, olhos verdes e boca rosada e carnuda. — Não é aquele rapaz? — Perguntei, apontando para o moreno com o dedo indicador, através da janela.
- É. — Confirmou o meu irmão, fazendo Karen virar-se para a frente, outra vez — tenho de me lembrar de agradecer ao Francisco por me ter safado de me transformar em cinzas.
- Olá. — Cumprimentou Francisco, entrando no carro e sentando-se no banco ao meu lado.
- Olá. — Disse Rick, ligando o carro.
- Olá, Francisco. — Disse Karen, virando-se para trás para conseguir falar com Francisco mais facilmente.
Fiquei calada. Se era para receber outro olhar de Karen ou uma boca foleira, preferia estar calada. O meu humor já não estava nada bom devido àquele vestido horrível e agora só tinha piorado com a maquilhagem desconfortável e o olhar fulminante de Karen.
- Olá. — Cumprimentou novamente Francisco. Desviei a minha atenção da janela e olhei para ele. Francisco olhava directamente para mim com os seus olhos verdes e com um sorriso na boca. Olhei rapidamente para o meu irmão que estava a sorrir.
- Olá. — Respondi, correspondendo o sorriso. Com mais calma, voltei a analisar o rosto do meu irmão — ele estava definitivamente a sorrir e, ao mesmo tempo, a fazer um esforço enorme para não se rir. Olhei para Karen e ela tinha-se voltado para a frente.
O resto da viagem foi passado com uma longa conversa entre Karen — bem se calhar não era uma conversa “entre” era mais a Karen a falar sozinha — e o Francisco, que lhe respondia apenas com “sim”, “não” ou um encolher de ombros.
O meu irmão estacionou á frente de uma discoteca chamada “Twins”, onde as luzes néon brilhavam com várias cores que iam desde o amarelo ao azul a fila era enorme. Rick saiu do carro e Karen e Francisco fizeram o mesmo, eu acabei por fazer o mesmo.
Segui Karen e Francisco que continuavam a “conversar” e vi o porteiro abrir, na boa, a corda para nós os quatro passarmos. Sorri ligeiramente ao porteiro, um homem grande, musculado, careca, de barba, tatuado e pele muito pálida, e ele retribui-me o sorriso de volta.
A festa estava ao rubro. Havia luzes que piscavam nos meus olhos e faziam-me sentir como uma retardada, porque a minha visão via tudo em câmara lenta. Conseguia ir vendo as pessoas que passavam ao meu lado, enquanto eu caminhava para um sítio qualquer atrás da Karen, e podia jurar que tinha chegado ao céu e só via anjos.
- Estás bem? — Ouvi a voz de Francisco perguntar-me do meu lado esquerdo. Virei a cabeça e senti o meu cabelo castanho voar á minha volta.
- Estou, estou. — Respondi, voltando á realidade e tentando perder o ar aparvalhado com que deveria estar naquele momento. — Estou só um bocado perdida. — Admiti, levando uma mão á testa.
- Não te preocupes. — Disse-me Francisco de mãos enfiadas nos bolsos e um sorriso nos lábios. — Isto é a zona “comum”, nós vamos para a VIP. — Acrescentou, agarrando-me na mão de forma amigável e conduzindo-me com cuidado pela multidão.
A mão dele era mais suave do que eu pensava. O seu toque era quente nas minhas mãos nuas e frias. De repente, por alguma razão, imaginei mil e uma razões para a minha irmã estar tão interessada nele.
Passámos por um portão alto, branco, com uma vedação de arbustos que não permitia as outras pessoas espreitarem para o outro lado.
- É aqui. — Afirmou Francisco, largando-me a mão — admito que fiquei desapontada por ele me ter largado a mão.
O sítio era agradável, ao ar livre, com um pequeno relvado, onde, para quem quisesse, se sentar a observar o céu nocturno, hoje, sem estrelas.
- Twins. Agora faz sentido. — Afirmei para mim própria olhando á minha volta.
- O quê? — Perguntou-me Francisco, confuso. Voltei ao mundo real e desviei a minha atenção para ele.
- Nada. — Respondi com um sorriso. — Não devias estar com a Karen? — Interroguei, erguendo uma das minhas sobrancelhas morenas. Francisco encolheu os ombros.
- Provavelmente, mas qual é o interesse nisso? — Perguntou-me a mostrar-me os seus dentes perfeitos num sorriso fofinho.
- Reza para que ela não te oiça. — Disse rindo-me.
O resto da noite foi calma. Fiquei a conversar com Francisco, Rick e um outro rapaz chamado Oliver, que também era modelo. Quando nos fomos embora, estava tão cansada que adormeci no carro e Francisco — que ficou a dormir em nossa casa — foi obrigado — ou não, só tenho de me lembrar de lhe agradecer — a carregar-me ao colo até ao meu quarto, enquanto Rick, estava ocupado com a Karen que, pelo o que me constou, estava tão podre de bêbada que nem conseguia meter um pé no chão.
Fale com o autor