Double Date

2 Capítulo especial


Notas iniciais
Eu tinha pensado nessa cena antes, junto com a história principal, mas por algum motivo, deletei ela temporariamente da memória e só lembrei depois de postar a fic. Então decidi fazer uma cena extra, porque não gosto de perder ideias assim. * Leiam ouvindo Hallelujah (sim, aquela do Shrek! Escolham a versão que mais gostar!)

As luzes voltaram a se acender poucos minutos depois da meia-noite e a situação na mesa sugeria que nada tivesse acontecido fora do normal. Mikaru bebericava seu café, Katsuya pegou um pouco do lanche no prato do namorado, Takeo parecia distraído olhando a movimentação e Hayato continuava lançando olhares curiosos aos amigos. Ninguém poderia dizer ou provar que os casais trocaram beijos até instantes atrás.

Apesar de se sentir confortável na presença dos três, o silêncio pareceu estranho e incômodo para Hayato naquele dia. Era uma data alegre e que decidiram compartilhar, mas cada um parecia entretido com algo depois daquela pequena comemoração.

Quase suspirou frustrado quando se sobressaltou com Takeo batendo com uma sacola grande de papel na mesa.

— Vamos começar a troca de presentes! – declarou o ruivo, sorrindo abertamente daquele jeito travesso que só ele conseguia – Quem vai começar?

Mikaru revirou os olhos, num claro sinal que não seria ele. A empolgação de Takeo fazia parecer que seria mais como um amigo secreto do que uma troca de presentes comum e ele não gostava daquele tipo de brincadeira. Hayato ia se oferecer para começar, mas Katsuya levantou a mão timidamente, sorrindo para os outros.

— Eu começo. Bom, não é bem um presente. Eu não conheço vocês dois muito bem, então pensei em algo que agradaria a maioria das pessoas… – o moreno deu de ombros, se sentindo encabulado com os olhares voltados para si. Pegou o pacote que havia deixado do seu lado, entregando dois embrulhos iguais para Takeo e Hayato – São chocolates. Eu sei que é meio estranho pra data… – chocolates costumavam ser trocados entre casais, mas Katsuya não conseguiu pensar em nada melhor e não queria aborrecer o namorado pedindo ideias do que seria o ideal. Depois virou-se para o loiro, entregando um terceiro embrulho, maior que os outros dois – O seu é igual mas… especial.

— Você acertou pra esses dois, ou pelo menos pro Shiro, que é viciado em doces. – Mikaru apontou pro amigo que sorriu confirmando – Por que o meu é especial?

— Ah… porque eu quem fiz. Sozinho.

— Chocolate caseiro? – Mikaru intercalou olhares entre o pacote e o namorado, esperando uma confirmação, seu olhar não revelando o que havia pensado a respeito.

— Isso… minha irmã aprendeu a fazer na aula de culinária e eu peguei a receita com ela… – murmurou em confirmação, o receio de ter errado aumentando e pesando em sua consciência.

— E desde quando você sabe cozinhar? – agora o olhar era acusador. Katsuya tinha certeza que havia errado na escolha.

— Ah…

— Quer me matar envenenado, intoxicado ou algo assim?

— N-não… – desviou o olhar para o lado, brincando com uma mecha de cabelo. Não só havia errado no presente como também deixou o namorado irritado.

— Mikaru, você está ficando vermelho, sabia? E tenho certeza que não é de raiva… – cantarolou Takeo num tom de zombaria, recebendo um olhar mortal do amigo.

— Cala a boca, Shiroyama!

— Só depois de você confessar que gostou do presente.

— Ele não sabe cozinhar! Como eu posso gostar disso?! – deixou o pacote com os chocolates de um lado da mesa com um gesto de descaso, desviando o olhar para longe.

— Ah, mas gostou e muito. Principalmente a parte que ele dedicou um dia inteiro pra fazer algo especialmente pra você. E como você gosta de coisas simples, com toques caseiros… Quem te vê todo engomadinho, de terno e cabelo arrumadinho, nem imagina o quanto você aprova uma vida comum.

— Pare de falar pelos cotovelos, idiota… – Mikaru resmungou contrariado, principalmente porque o amigo estava certo. Em todas as afirmações. Ele havia gostado demais!

— Ok, eu paro. Mas quem vai ficar chateado é seu namorado. Não eu. – Takeo deu de ombros, dando aquela conversa por encerrada, virando-se para o namorado – Quer entregar os seus, Hayato?

Enquanto Hayato separava os pacotes que havia trazido, Mikaru olhou de relance para o namorado, que parecia desanimado. Ele deveria ter sido um pouco mais gentil, mas o estrago estava feito. Uma aproximação indireta não o ajudaria. Precisava de uma ideia boa e rápida para reparar aquilo, pois não queria terminar a noite com desavenças.

Mikaru teve a atenção atraída com o movimento de Izumi à sua frente, que estendia um embrulho de tamanho considerável na sua direção. Encarou o presente ressabiado antes de pegá-lo, em primeiro porque não esperava receber nada dele, e segundo porque, se estava ganhando algo, podia esperar qualquer coisa. Olhou para Katsuya que recebia um pacote pequeno, de formato bastante óbvio, o que aumentou seu receio.

— Vou entregar o seu em casa, koi. – Hayato virou-se para Takeo, depositando um beijo rápido em sua face, como se fosse um pedido de desculpas por não ter levado nada pra lá.

— Posso esperar algo como você com um laço e coisas assim? – o sorriso do ruivo deixava claro que ele não havia ficado nem um pouco decepcionado, pois sabia que poderia vir algo bem melhor depois e que não podia ser dado ali.

— Não. – Hayato foi categórico, mas logo abriu um sorriso gêmeo ao do namorado – Não seria o presente principal, mas se quiser…

— Faço questão!

— Obrigado, Izumi-san! – Katsuya cortou as indiretas sugestivas do outro casal, olhando a lista de músicas na parte de trás da capa do cd, sorrindo animado.

— Os melhores do blues?! – Takeo praticamente voou sobre a mão do rapaz, erguendo-a junto com o cd para ver melhor a capa e verificar que não havia se enganado – Você deu um cd de blues pra ele?!

— Qual o problema? – Hayato beliscou o lábio, dando de ombros, se sentindo mais desconfortável ao ouvir a risada do namorado. Não entendia porque Takeo implicava com aquele tipo de música. Não é porque faziam parte de uma banda de rock que só ouviria aquele estilo.

— Nenhum… vai que ele gosta… – mas o sorrisinho zombeteiro não parecia querer sair dos seus lábios tão cedo.

— Katsuya escuta música clássica. – confessou Mikaru, recebendo um aceno de aprovação de Hayato e deixando Takeo com uma expressão de quem havia se engasgado.

— Você acha isso ruim? Alguns amigos dizem que é… diferente… – Katsuya murmurou sem graça, não gostando de ser o centro das atenções por um motivo tão pífio.

— De forma alguma. Você tem bom gosto. – Mikaru tentou sorrir para encorajá-lo, recebendo outro em troca que o acalmou um pouco. Talvez o namorado não estivesse tão chateado.

— Não é que seja ruim. – completou Takeo, ainda com aquele sorrisinho irritante pregado na face – Mas digamos que é bem exótico. Que figura você arrumou pra namorar, Mikaru!

— Takeo! – dessa vez foi Hayato quem ralhou com o namorado por estar sendo inconveniente – Só porque você escuta só rock, não quer dizer que não existam outros estilos.

— O que? Eu escuto música eletrônica também! Agora jazz, essas coisas estranhas que vocês gostam, não sei se pode ser considerado música… – deu de ombros, despreocupado, notando o namorado revirar os olhos, indignado.

Não que desgostasse daqueles estilos de música, mas gostava de implicar com o vocalista por isso. Vê-lo defender seus interesses e quase tentar obrigá-lo a confessar que uma, pelo menos uma canção, se salvava.

Quando o casal voltou a atenção aos amigos, Katsuya tentava convencer Mikaru a abrir o presente, mas o loiro ainda cutucava o pacote, como se a qualquer momento fosse sair algum animal estranho dali de dentro.

— Eu posso te contar o que é, ou você pode abrir em casa se preferir. – Hayato sorriu gentil, mas para Mikaru se assemelhou a um sorriso debochado. Ele estava provocando, tinha certeza.

Depois de pensar mais alguns instantes e suspirar frustrado, Mikaru decidiu abrir e acabar logo com aquele suspense. Sabia que o amigo e o namorado iam insistir depois para saber o que era e aquele vocalista fofoqueiro com certeza contaria. Para os dois.

Rasgou o embrulho sem nenhum cuidado, retirando de dentro um outro em plástico transparente, onde claramente podia ver que era uma roupa. Mikaru torceu o nariz enquanto abria o lacre, puxando de dentro uma camiseta em tons de verde claro e laranja, com um coqueiro estampado na frente, no melhor estilo roupa de praia. Antes mesmo de notar que também havia uma bermuda que fazia par, Takeo caiu na gargalhada e Katsuya deitou a cabeça na mesa, ocultando o riso. Era impossível imaginar Mikaru usando aquilo!

— Ah… tem uma caneta tinteiro também, olha. – Hayato estendeu a mão, pegando o outro presente que não havia sido notado no meio da roupa – Acho que combina com seu ambiente de trabalho.

Mikaru estava vermelho demais para responder. Vermelho de raiva e vergonha, tentando reprimir a vontade de cometer um assassinato triplo.

— Obrigado. – rosnou entre dentes, pegando a caneta e jogando junto com a roupa dentro do papel de presente, enrolando-os de qualquer jeito. Preferia fingir que não havia visto.

— Aproveita o momento! É sua vez, Mikaru! – Takeo teve que fazer um esforço enorme para parar de rir antes de conseguir falar, já que a escolha do presente do namorado foi um surpresa. Só imaginava o quanto o amigo estava possesso com aquilo.

— Por que você não entrega os seus?! – o loiro retrucou ainda ácido, encarando-o com raiva, mas recebendo um sorriso de orelha a orelha em troca. Takeo ia aprontar alguma.

Suspirou fundo, tentando se acalmar de novo, mas aquela vontade insana de brigar com o outro não ia embora. Sentiu a mão de Katsuya em seu joelho, como se tentasse confortá-lo, mas Mikaru sabia que ele tinha se divertido às suas custas. Deu de ombros, decidindo acabar logo com aquilo. Estendeu um pacote para Takeo e depois olhou com desprezo para o namorado dele, erguendo um segundo embrulho.

— Apesar de você não merecer…

Hayato encarou o presente com surpresa, pois não esperava receber nada do empresário. Talvez Katsuya quem tivesse comprado em seu lugar? Seria mais aceitável, assim ficaria por sua conta apenas entregar. Ouviu Takeo assoviar baixinho, satisfeito ao rasgar o papel de presente, conseguindo distinguir algumas palhetas, além de cordas para guitarra, e o que aparentava ser uma capa de livro por baixo de tudo. Era de se esperar que Mikaru dedicasse grande atenção ao presente do melhor amigo. Não perdeu tempo em imitar o namorado, curioso com o próprio presente, também surpreso ao rasgar o papel.

— Nossa… obrigado! – por um bom tempo, havia imaginado que Mikaru não se importava com sua carreira de músico, mas ali estava ele, lhe presenteando com pastilhas pra garganta, compressas, uma garrafa de água personalizada, além de óculos de sol. Um kit completo para um vocalista ser feliz.

— Ela não precisava ter caprichado tanto… – ou foi isso que Hayato imaginou ter escutado, acabando com suas dúvidas de que foi uma terceira pessoa quem havia comprado – Sua vez, Shiro.

— Não vai entregar o presente do seu namorado? Ou vai deixar pra mais tarde também? – Takeo sorriu travesso, recebendo apenas um revirar de olhos.

— Eu ganhei um notebook. – Katsuya contou animado – Mikaru anda se importando com meus estudos mais do que eu!

— Hmm achei que teria algo melhor pra vocês fazerem mais tarde… mas vou resolver esse problema!

Shiroyama entregou um pacote para o amigo e outro para Katsuya, sem mais nenhum comentário. Hayato resmungou pensativo, dividido entre curioso e incrédulo, pois conhecia bem aquele marca estampada na sacola. Não que fosse um frequentador assíduo, mas já havia passado na porta… e entrado algumas vezes...

— O que você…? – não, era melhor não saber. Não queria acreditar, mas era bem possível. Era seu namorado afinal de contas e nenhum dos dois era santo, como Takeo não cansava de lembrar. Sorriu de canto, decidindo entrar na brincadeira – E o meu?

— Já que vou ganhar o meu em casa, vou entregar o seu lá. Tudo bem? – mas passou por baixo da mesa um embrulho pequeno, que pelo formato, mesmo não sendo sugestivo, lhe fazia imaginar o que poderia ser.

— Safado!

— Eu? Não fiz nada! – e Takeo já ia levantar as mãos em sinal de paz, quando viu pelo canto do olho que Katsuya começava a desembrulhar o laço do seu pacote, obrigando-o a se jogar por cima da mesa e segurar-lhe as mãos – Não! Aqui não!

— Mas… o que? – Katsuya olhou de relance para o namorado, que havia guardado seu presente, sem nem espiar o que havia dentro. Voltou o olhar para o amigo de Mikaru, ainda sem entender, mas dando de ombros e concordando. Mikaru o conhecia melhor, então era bom confiar – Certo, vou abrir em casa.

— Junto com o Mikaru!

— Ah… ok. – olhou para o namorado, esperando algum sinal, mas o olhar que recebeu de volta não lhe dizia nada. A risada de Hayato, por outro lado, mostrava que era melhor seguir o conselho de Takeo e não tocar no pacote até estarem a sós.

— Depois do jantar, vamos lá pra casa? – convidou o vocalista, recebendo três olhares distintos. Katsuya pareceu curioso, Mikaru debochado e Takeo chateado.

— Pensei que o presente em casa seria só meu… – o ruivo fez questão de armar um bico com os lábios, juntamente com o tom pedinte, tentando arrancar alguma informação do namorado. Não que achasse ruim receber visita dos amigos, mas logo no dia que parecia que ia ganhar um presente especial?

— Mas você viu o que cada um ganhou aqui. Eles não podem ver o seu também?

— Podem… mas eu não vou mostrar o seu presente pra eles.

— Vou considerar isso uma medida de segurança. – o que não deixava de ser verdade. Presentes vindos do namorado podiam ser bem suspeitos ou vergonhosos.

O jantar seguiu o mais tranquilo possível, acompanhado de uma conversa agradável e divertida, o que era bastante raro entre os quatro, já que sempre havia algum atrito, principalmente entre Hayato e Mikaru. Os dois não podiam ser considerados exatamente bons amigos, mas se respeitavam o suficiente para compartilharem o mesmo espaço sem tentarem se alfinetar ou se matar. O que nem sempre foi assim.

Do restaurante seguiram para o apartamento que Hayato dividia com Takeo, onde o vocalista acomodou o namorado e os amigos na sala de música, já previamente decorada. Ele havia deixado almofadas e velas aromáticas espalhadas pelo cômodo, assim como uma garrafa de vinho dentro de um balde com gelo e taças ao redor. Serviu os três e depois acendeu as velas, desligando a luz do cômodo para criar um clima mais romântico, apesar da ação ser cortada por um pensamento sobre como aquilo parecia mais uma prévia para um ménage.

Caminhou até o piano, uma de suas primeiras paixões, sentando no banco e respirando fundo enquanto levantava a tampa que cobria as teclas, posicionando os dedos no lugar. Fazer aquilo na frente do namorado era quase uma rotina mas, naquela noite, mais pessoas ouviriam e esperava que eles gostassem também.

A música* não era sua, na verdade era até bem conhecida, mas havia composto novos arranjos, adaptando a música de uma forma que lhe parecesse agradável. Aquele era seu presente para Takeo. Passou um bom tempo criando e praticando, desde que descobriu que fariam aquele encontro duplo, tudo para surpreender o namorado, afinal de contas, a música era um ponto importante que os conectava.

Os dedos deslizavam pelo teclado com destreza, fazendo as cordas vibrarem e espalharem o som pela sala, envolvendo os ouvintes. A voz, num instante inicial, saiu baixa e tímida, quase um sussurro, apenas acompanhando as notas que saíam do piano de cauda, mas conforme Hayato ganhava confiança, sua voz foi se elevando e intensificando, deixando a música mais envolvente.

Katsuya cochichou ao ouvido de Mikaru, insistindo um pouco diante de uma primeira negativa, pegando-o pela mão e pedindo para se levantar. Caminharam até um canto afastado da sala, onde o rapaz pegou o empresário pelos pulsos, guiando-os até sua nuca, onde pousou-lhe as mãos, depois descendo as suas até sua cintura, puxando-o para perto e começando a dançar devagarinho, apenas balançando-o com poucos passos para um lado e outro. O rosto de Mikaru foi ao encontro do tórax do namorado e, para alguém de fora, poderia parecer que ele estava se escondendo, ocultando a face envergonhada, mas Katsuya sorriu com o gesto, apreciando que a iniciativa de se aproximar mais viesse dele.

Hayato notou aquele pequeno movimento apenas com o canto dos olhos, mas não conseguiu dar muita atenção ao casal de amigos. Mesmo que durante o jantar estivesse curioso com a relação entre eles, agora estava focado em seu presente e na pessoa para quem ele se destinava. Takeo estava sentado no chão, com as pernas dobradas contra o peito, parecendo uma criança que ouvia alguma história interessante. Estava completamente absorto, um sorriso encantado adornando-lhe os lábios, enquanto se balançava de leve, ao ritmo da música. O vocalista desviou o olhar de volta para o piano, mas não por vergonha, e sim por não saber como lidar com aquela intensidade no olhar do namorado.

O trecho final foi dedilhado com calma, cada nota sendo bem marcada, a voz cedendo lugar para um cantarolar, o silêncio anunciando o desfecho da canção.

* * *

— Pronto! Despachei seus amigos. – Takeo apareceu pela porta que levava ao corredor de entrada e saída do apartamento, caminhando na direção de Hayato e se jogando à sua frente, ajoelhado no chão, abraçando-o pela cintura.

— São seus amigos também. – riu baixinho com aquela atitude, acariciando-lhe os cabelos – Você está bêbado, Takeo.

— Não tô não. – resmungou contra a barriga do namorado, roçando o rosto ali e arrancando mais uma risada de Hayato.

— Isso faz cócegas. – empurrou-o pelos ombros, mas o guitarrista não parecia muito interessado em se mover dali – Vamos pra cama.

— Pervertido! Não vai nem tentar me seduzir primeiro?!

— Eu estava pensando em dormir. Hei! – pulou no lugar ao receber um cutucão na cintura após proferir aquelas palavras, conseguindo ouvir apenas um muxoxo enquanto ria daquela brincadeira.

— Ainda tenho que entregar seu presente. – Takeo finalmente ergueu o olhar, recebendo um beijo na testa.

— Você pode entregar amanhã, quando estiver sóbrio.

— Eu estou sóbrio!

— Vocês acabaram com uma garrafa de vinho durante a música e a segunda depois que começamos a conversar. Mikaru não bebeu porque ia dirigir e Katsuya bebeu pouco. O que me diz disso?

— Que você é uma esponja? – sorriu bobo, recebendo um puxão na ponta da orelha – Hei, isso dói…

— Vamos pra cama. Amanhã você me dá todos os presentes que quiser.

— Eu quero entregar agora. Por favor…

— Teimoso… tudo bem. – concordou com um suspiro, sabendo que o namorado não ia ceder enquanto não conseguisse o que queria. E mesmo que o outro parecesse cansado e levemente alcoolizado, sabia que ele estava bem o suficiente para aguentar a noite inteira acordado – Pode entregar.

— Mas primeiro, quero que fique ciente que você pode negar se quiser!

— Eu não negaria um presente seu, Takeo.

— Talvez não, mas estou avisando por precaução.

— Ok, entendi. – acabou concordando mais uma vez, uma lista de presentes infantis passando por sua mente, seguida de uma lista de presentes vindos direto de uma sex shop. Não sabia o que esperar.

— Você quer escolher um número ou sorteamos depois, ou algo assim?

— Hmm… acho que pode ser depois. – deu de ombros, sem entender a pergunta. Talvez Takeo estivesse mesmo bêbado. Ou apenas zombando de si.

— E pare de me encarar como se eu estivesse ficando louco. Estou completamente são!

— Eu nã-

— Está fazendo caretas com a boca e enrugando a testa. Acha que não te conheço?

— No momento, estou em dúvida se eu te conheço bem.

— Conhece. Só estou enrolando pra tentar improvisar. – Takeo respirou fundo, encarando o namorado fixamente, a língua passeando pelos lábios secos, umedecendo-os.

— Takeo, você não é do tipo que enrola. Ainda mais pra entregar um presente.

— É que eu queria falar alguma coisa bonita antes… mas mesmo depois de ver tantos doramas e ler alguns mangas shoujos do Jin, eu ainda não sei o que dizer!

— Ah… você pode dizer que me ama. E que espera que eu goste do presente. – Hayato tentou sorrir gentil, como sempre fazia, mas ainda estava processando que o namorado andou lendo mangas. O que ele estava planejando?

— Eu amo você e espero que aceite o presente. Assim? – repetiu mecanicamente, abrindo um sorriso enorme, mas que estava longe de alcançar seu olhar.

Era óbvio que Takeo não estava muito à vontade. Ele mudava o apoio dos joelhos e desviava o olhar de tempos em tempos, fazendo desenhos imaginários com o dedo em sua calça. Era até fofo se não fosse estranho. Hayato abriu os lábios, pronto para dizer que daquele jeito estava bom, quando Takeo voltou a parecer decidido, colocando um dedo na frente de seus lábios, encarando-o mais determinado que antes.

— Vou fazer do meu jeito. – e retirou algo do bolso, virando a palma da mão de Hayato para cima, depositando ali uma pequena caixa – Eu comprei isso tem algumas semanas e estava esperando o momento certo para entregar, mas os dias foram passando e notei que não teria um momento certo se eu não criasse um. Qualquer dia comum poderia se tornar especial se eu quisesse e só dependeria de mim. – suspirou fundo, mordendo os lábios e se forçando a não desviar o olhar. Não queria quebrar aquele contato – O presente é seu e foi comprado pensando em você, independente da sua escolha. Mas o valor simbólico depende de nós dois e penso que o fato de estar te dando isso mostra o que significa e o que eu quero pra mim. A outra parte depende de você.

Hayato ficou boquiaberto ao juntar todas as peças: o namorado ajoelhado à sua frente, a caixa de veludo tão vermelha quanto os cabelos dele, a procura por palavras certas para repassar aquela mensagem.

E ele só precisava dizer uma palavra de volta.

Notas finais
* A música que Hayato toca e canta é Hallelujah (sim, aquela do Shrek - comentando de novo pro caso de alguém não ter visto nas notas iniciais XD~ ) PS: Eu ia colocar um trecho da música no meio da história, mas depois de ver a tradução, fiquei em dúvida de qual parte escolher. Digamos que o trecho final é bem sugestivo... Espero que tenham gostado! Até a próxima! Obs: História postada também no Spirit.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!