Double Amour - Monchelotte
1 Double Amour - Capítulo Único
Notas iniciais
Enjoy!
Abro meus olhos e preguiçosamente fito o dossel acima de minha cabeça. Pisco algumas vezes para desembaçar a visão, mas ainda me sinto sonolento.
Do silêncio absoluto que envolve o quarto, de repente um suspiro preguiço emerge.
Afasto o lençol e encontro Liselotte. Seu rosto tão sereno quanto uma gota de chuva flutua num sono tranquilo. Sua cabeça recostada em meu peito, acompanha o subir e descer de minha respiração.
Ao lado dela, está Chevalier.
Quando levanto o lençol, vejo seu braço direito repousado sobre a cintura de Liselotte; percebo também as mãos de ambos entrelaçadas, tão emaranhadas quanto seus cabelos que se misturam em uma coisa só.
Estico meu braço livre e com a mão retiro uma mecha do rosto dele que abre os olhos logo em seguida.
O verde pálido de sua íris contrasta com as pupilas dilatadas pela penumbra; ele sorri.
― Não quis acordá-lo. – sussurro. – Dormiu bem?
― Sim. – ele responde, sorrindo. – E você?
Meneio a cabeça em sinal positivo. Minha mão permanece nos cabelos de Chevalier, acariciando sua orelha.
Ficamos assim, um encarando o outro por minutos, apenas retribuindo os sorrisos e olhares.
― Eu te amo. – tento sussurrar, mas minha voz sai mais alta que o necessário. Liselotte mexe-se novamente e eu ouço sua voz sonolenta resmungar:
― Eu também te amo.
Chevalier me encara e depois de alguns segundos, nós dois rimos.
― Ela diz que me ama, mas é a sua mão que está segurando. – Menciono sentindo um pouco de indignação.
Ele acha graça e responde:
― Esse olhar... – ri. – Essa expressão é de ciúmes, mas de quem exatamente? De mim ou dela?
De quem exatamente? A quem meu coração está dirigindo esse ciúme?
Olho para as duas pessoas ao meu lado: uma ainda dormindo, enroscada em mim como uma hera em um muro, respirando lentamente; a outra, sorri e me lança olhares furtivos através da escuridão do quarto.
No começo eu só amava o Chevalier e nunca coloquei essa máxima em dúvida. Ele tem sido meu universo há anos, mas agora eu lentamente sinto que ele divide espaço com alguém. Divide espaço com...ela.
Chevalier começa a afastar os cabelos de Liselotte deixando o pescoço livre para que possamos conversar, então, de repente ele ressuscita uma lembrança de muitos anos atrás.
― Lembra daquela noite, quando dormimos com aquele garoto cartomante? – Chevalier faz uma pausa e eu procuro em minha mente a imagem daquela ocasião. – Naquela noite, me lembro dele ter lido sua mão e dito que havia amor em seu futuro...
Então eu me lembro e completo a frase:
― O dobro do que eu esperava. Não sei se acredito nessas coisas.
Chevalier continua:
― Eu também não acredito muito, mas acho que daquela vez ele tinha razão.
― Como assim? – pergunto.
Chevalier então inclina sua cabeça para Liselotte, depois levanta o olhar e sorri.
― Acho que ele falava dela.
Fico pensativo por algum tempo, encarando o rosto redondo e rosado da mulher ao meu lado, sentindo meu coração bater um pouco mais forte.
― Você e eu mudamos desde que ela chegou em nossas vidas. – Chevalier comenta sorrindo admirado. – Ela é uma mulher incrível e o ama de todo coração, mas você precisa aceitar esse amor.
― Eu não sei ser amado por muitas pessoas. – Respondo, baixinho. – Pelo menos, não dessa maneira.
― Comece dizendo a si mesmo. – Chevalier sorri amavelmente. – Depois, diga a ela. Você já disse que a ama?
― Não. – Murmuro.
― Então, essa é a sua chance. – ele devolve.
Liselotte abre os olhos lentamente, olha para mim e sorri docemente.
― Bom dia. – Digo a ela. – Dormiu bem?
Muito espirituosa, ela responde:
― Dormi entre os dois homens bonitos, então posso dizer que a noite não foi ruim.
Nós três rimos.
― Philippe tem algo a lhe dizer, gnomo da Bavária. – O cavaleiro diz.
― Tenho? – franzo o cenho enquanto encaro o cavaleiro que lança um olhar inquisitivo a mim, então eu confirmo – Tenho.
Eu me levanto, ficando de joelhos na cama e incentivo Liselotte a fazer o mesmo, então envolvo as mãos dela nas minhas.
― Você parece nervoso, há algo errado? – Liselotte pergunta.
Olho para Chevalier ainda deitado. Ele silenciosamente dita as palavras que capto depois de ler seus lábios.
― Liselotte, o que eu tenho a dizer é que... -Chevalier me incentiva por trás de minha mulher. – eu...
― Eu? – ela repete, preocupada.
― Amo. – continuo de forma tensa.
― Amo? – Liselotte parece tão embaraçada quanto eu.
Me demoro para completar a frase por puro nervosismo, mas Chevalier e Liselotte parecem apressados.
― Você. – concluo. – Eu amo você.
Ela franze o cenho confusa, rapidamente se vira para Chevalier.
― O que houve com ele? – ela pergunta ao cavaleiro que dá de ombros. – Você está bem? Está bêbado?
― Difícil acreditar, não é? – então timidamente, porque eu não sei lidar com sentimentalismos, exponho o que sinto. – Mas, eu a admiro pela mulher, mãe e companheira incrível que você é, gosto da sua força, personalidade, do seu humor espirituoso e de como você faz com que eu me sinta único e importante. Também gosto da sua companhia e da sua conversa; e apesar, das minhas limitações, as quais você compreende bem, eu também gosto do seu cheiro, seu toque e seu beijo. Nossa relação não foi firmada em paixão, isso é verdade, mas construímos algo maior, uma história de cumplicidade, amizade que lentamente tem se transformado em amor. – faço uma pausa breve. — Eu não menti quando disse que você sempre teria um lugar aqui. Você também faz parte da minha vida.
Liselotte está com os olhos marejados e eu enxugo uma lágrima que escapa sorrateiramente. Liselotte me surpreende com seu beijo doce, delicado e apaixonado que é o oposto dos de Chevalier, urgente, molhado e cheio de segundas intenções.
Nos separamos depois de um tempo, testa com testa, um fitando o outro e sorrindo. Então ela sussurra de forma bem humorada:
― Pode repetir, por favor?
― O que? – pergunto.
― O que disse. – ela provoca. – Quero ouvir novamente.
― Eu amo você. – repito deitando novamente, puxando-a para mim.
Liselotte se acomoda com a cabeça em meu peito e eu a abraço com força.
― Lorraine também tem algo a dizer. – provoco.
― El sabe, mignonne. – o cavaleiro a abraça também. – Pelos mesmos motivos que você, mas preciso admitir que a paixão também me move.
― Obrigada. – Liselotte diz por fim. – Quem diria que eu encontraria o amor duas vezes de uma só vez?
Lanço ao cavaleiro um último olhar e concluo:
― A vida é uma caixinha de surpresas.
Notas finais
Eu amo demais esse trio e realmente. Obrigada por ler.
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