Dos ritos, das palavras e das magias
5 Epílogo, Ou O Chamado
Notas iniciais
EPÍLOGO, OU O CHAMADO
Com o livro ainda apoiado sobre suas coxas, Hermione mordeu os lábios, claro sinal de aflição, e Harry ajeitou os óculos que teimavam em escorregar pelo seu nariz. Já Rony parecia pensativo, recostado na cadeira, as mãos entrelaçadas sobre sua barriga. Todos estavam grogues de sono, mas ninguém parecia disposto a encerrar aquele momento.
— Então… — Potter sentia-se em deriva. — Se eu escutei direito, rachar a alma enfraquece a magia? — ele pontuou com cuidado, tomado pela relevância do fato.
O ruivo movimentou-se, e virou-se para o outro com gestos lentos.
— Tirando a parte dessas fadas estranhas que a Mione contou, os Sedi—
— Sidhe — a garota corrigiu.
— Isso aí — Rony concordou. — Parece que temos algum indício, finalmente, de que Você-Sabe-Quem não foi tão esperto assim quando dividiu a alma…
Harry meneou, e tornou a olhar para a menina, que não havia desgrudado os olhos do livro até então.
— E esse véu que falaram… Talvez seja o Véu do Ministério, por onde Sirius caiu. — O pesar de Harry ao mencionar o padrinho foi sentido por ambos. — O que você acha, Mione? Temos alguma pista? — questionou, sorrindo minimamente.
Granger, entretanto, estava aérea. Balançando a cabeça de um lado para o outro, os olhos castanhos-escuros arregalados, ela mantinha a página aberta, o dedo fixo em um ponto. Lá, desenhadas em traços leves, haviam várias luas, marcadas por uma tinta cintilante, que parecia brilhar sob o toque da garota. Rony olhou-a com uma sombra nos olhos, desconcertado pela falta de reação da menina. Harry, preocupado, levantou-se e agachou-se em frente à ela, tentando tomar as suas mãos. Estática, porém, Hermione mantinha as mãos fixas, segurando o livro com urgência. Assustado com a imobilidade da garota, Rony também ensaiou um movimento .
— Hermione? — O tom de Harry já mesclava urgência. — Fala com a gente, estamos aqui.
Granger levantou os olhos com dificuldade, e eles se fixaram na entrada da cabana, que agora parecia-lhe estava escancarada, os panos flutuando. Uma luz azulada entrava por lá, variando entre os tons do azul mais profundo aos do céu de Hogwarts em dias de Sol. Pequenos brilhos infiltravam-se pela entrada, também, mesclados à estranha luminescência, mas pareciam ser somente frutos de um brilho derivado de algo maior, do lado de fora da cabana.
De costas, os garotos nada demonstravam perceber. Erguendo-se, Hermione apontou a varinha para a entrada, sobressaltando tanto Ronald, como Harry. Ela tremia levemente, e eles podiam jurar que não viam Hermione Granger naquele estado desde o episódio do Troll, muitos anos antes.
— Nós não estamos sozinhos — ela murmurou, descrente com o que via.
Harry tomou a dianteira, olhando da mulher para onde ela apontava a varinha, profundamente confuso,
— Mione, o quê você está encarando? Não tem nada ali — apontou Rony, olhando um pouco atônito para Potter.
A garota balançou a cabeça, olhando para os dois com espanto estampado em toda a sua face. Seus olhos desviaram-se para o livro que ainda segurava, e guardou-o dentro de um dos bolsos de seu longo casaco.
— Não, não é possível… — murmurou contrariada, ainda com a varinha em riste. — Vocês não estão vendo? A luz?
Ela avançou em passos rápidos em direção da saída da cabana improvisada, determinada a seguir a sua visão, mas Harry aproximou-se dela, apoiando uma mão afetuosamente sobre seu ombro.
— Não há nenhuma luz ali — disse —, você deve estar cansada, vendo coisas.
Esfregando os olhos, Hermione olhou novamente para a entrada da cabana. O brilho já cedia, mas ainda persistia.
— Eu não estão vendo coisas — falou irritada.
Rony deu de ombros para Harry, como quem diz “Não adianta teimar com ela”. Frustrado com o modo sombrio com que Mione encarava a entrada — a seu ver, perfeitamente igual a antes de lerem os contos —, Harry colocou-se de frente para ela.
— Já está muito tarde, eu vou fazer uma última ronda, okay? — sugeriu, buscando algum reconhecimento nos olhos da bruxa, que brilhavam de um estranho modo.
Hermione, contudo, apenas balançou a cabeça em negativa, e aparentando retornar para o espaço terreno, forçou um sorriso. Ela tinha pressa, pois o brilho azul enfraquecia-se cada vez mais.
— A horcrux deve estar me fazendo ver coisas — explicou-se, apontando para o medalhão que repousava em uma das mesas conjuradas. — Deixe comigo essa ronda.
Ronald trocou olhares com o Escolhido.
— Posso ir com você, estou precisando esticar as pernas mesmo — ofereceu o ruivo.
Granger aproximou-se dos garotos, e apertou a mão de Ronald, num gesto de confiança.
— Preciso espairecer, não se preocupem comigo — devolveu com sua certeza característica. — Qualquer coisa, eu mando um patrono.
Pouco convencidos, mas não tão dispostos a discutir com Hermione, eles assentiram, e com um sorriso, a bruxa atravessou a cabana sob os olhares preocupados dos meninos. Olhando por sobre seu ombro antes de sair, a mão já apoiada no tecido que voltava a brilhar azulado, ela assegurou-os novamente:
— Não se preocupem, vou aproveitar para olhar as estrelas, minha mãe costumava mostrá-las para mim. Durmam, precisamos de cada segundo de sono.
☽ ☾ ☽ ☾ ☽ ☾ ☽ ☾ ☽ ☾
Ao sair da cabana e dos olhos escrutinadores dos amigos, Hermione deixou um longo suspiro escapar. O breu costumeiro das noites naquela floresta, porém, diferenciava-se naquela noite, aparentemente apenas para os seus olhos. Sacudindo a varinha e pronunciando feitiços não-verbais de proteção, Granger notou que sua magia não parecia deslocar a luz azul, que seguia por entre grossos troncos, os brilhos cintilando. Por vários segundos, considerou que enfim enlouquecera, afinal, era Harry quem costumava seguir luzes desconhecidas, não ela.
Hermione era racional, cética e precisava atestar tudo, mas ignorar o caminho que se construía para ela, concluiu, seria ilógico, afinal, ela certamente não estava alucinando. Dessa forma, murmurando um feitiço de aquecimento — o frio vento envolvia-a naquele momento de noite profunda, deveria estar na primeira hora da madrugada —, e outro encanto para marcar seus passos, Granger seguiu a luz azulada que brilhava ao seu redor como se a abraçasse.
Quando enfim deixou a área de proteção da cabana, murmurou sobre si um feitiço de desilusão. Aquele provavelmente era um erro, mas agora Hermione tinha sido fisgada pelo ímpeto do conhecimento, e não iria descansar até descobrir onde aquelas luzes levavam e o que elas significavam.
Como se houvessem vagalumes ao seu redor, os brilhos, notou, moviam-se com ela, clareando o caminho na densa mata. O silêncio da meia-noite reconfortava-a, na mesma medida em que a deixava alertava. Corujas piavam, e o barulho de galhos movendo-se deixavam-na em estado de alerta, mas a luz azulada adensava-se, e as próprias árvores, reparou com assombro, parecia mover seus galhos quando ela se aproximava, moldando uma trilha.
Hermione caminhava sem olhar para trás, e logo a cabana — visível para ela por ser a própria conjuradora dos feitiços de ocultamento —, tornava-se menor, um ponto de luminosidade distante. Andou por longos minutos, os quais muitas vezes lhe pareceram horas infindáveis. Receava, também, preocupar os garotos, caso decidissem checar seu estado, mas já estava fundo demais na floresta para dar as costas.
Subitamente, o caminho azul apagou-se, como se alguém houvesse soprado a vela que o nutria.
— Lumus — murmurou a bruxa, com um vinco entre as sobrancelhas e temor no peito.
Enxergando melhor o seu entorno, Hermione reparou que estava entre as árvores mais esparsas que rodeavam a beirada de um lago. Uma das frases que lera há poucos minutos ressoou em sua mente: “encontre um rio ou lago, desenhe com magia e com seu sangue o símbolo mágico, e chame pela Rainha Sidhe”. Ela nunca havia lido uma página ou escutado sequer uma frase sobre aquelas criaturas mágicas, ponderou, e todo aquele fantasioso conto apenas parecia um delírio de bruxos e bruxas desesperados por uma intervenção mágica em seus cruéis destinos.
Parecia se encaixar ironicamente bem na situação dos três, correndo entre florestas e disfarçando-se nas ruas em busca dos pedaços da alma de um homem que desejava o poder e a imortalidade acima de tudo. Hermione pendeu o peso para outra perna, incerta, e finalmente notou como o lago, diferente dos riachos e correntes que havia visto até então, não parecia ter se congelado. Se murmurasse o encantamento, poderia simplesmente seguir as suas pegadas até a cabana, mas uma fisgada na boca do estômago a segurava-a lá. A sua nuca, também reparou, coçava e ardia, como se alguém estivesse a queimando lentamente, mas atribui isso ao nervosismo. As luzes azuis pareciam ressurgir de dentro do lago, percebeu, e sua curiosidade foi atiçada novamente.
— Eu não acredito que vou realmente fazer isso — chiou, deixando sua frustração invadir o ambiente. — Não tenho instruções e estou sozinha em um lago para convocar criaturas mágicas que nem sei se existem — completou para si mesma.
Pegando o livro do bolso interno do seu casaco, Hermione procurou a página do último conto, onde os desenhos estavam, e pareceram retornar a brilhar ao serem tocados por ela. Com um gesto da varinha, a bruxa expandiu o encantamento de desilusão para o seu entorno e deixou-o flutuando na sua frente. Com outro movimento da varinha, agora um pequeno corte aparecia no seu pulso.
— Argh — praguejou pela dor.
Magias com sangue eram poderosas demais, sabia, eram parte das artes das trevas, de acordo com o Guia Completo de Defesa das Artes Sombrias, que lera há pouco mais de uma semana. Passando o dedo indicador no corte, e engolindo as lágrimas, Granger agachou-se e desenhou a meia lua entre a terra e a neve que começava a se depositar na beira do lago, seu vermelho sangue marcando o chão.
Erguendo a varinha, Hermione deixou a magia fluir, do jeito que costumava fazer quando era uma criança solitária antes de Hogwarts, e um brilho prateado saiu da ponta da varinha, como faíscas dos fogos de artifício trouxas, com o qual replicou o mesmo desenho. Engolindo em seco ao observar a crescente intensificação das luzes azuis ao redor do lago, Hermione abriu a boca, parcialmente admitindo a sua própria insanidade pelo que fazia. Nenhuma palavra, contudo, saiu de seus lábios, pois uma intensa ventania fez do lago, um pequeno mar. Hermione teve de se sustentar para não se desequilibrar com o vento, mas observou assombrada que, como se surgindo de dentro do lago, uma mulher azulada saiu das águas, a coroa de flores e galhos, como no conto, repousada na sua cabeça. Sorria, mas os olhos pareciam pétreos, sem sentimento algum.
— Vejo que respondeu ao nosso chamado, jovem bruxa — comentou a criatura, numa voz musicada e etérea.
As mãos de Hermione tremiam, mas ela apertou a varinha na mão com força.
— Eu não cheguei a chamá-los, como… — sua voz parecia desprovida da absoluta confiança que sempre mantinha. — A senhora deve ser A Rainha dos Sidhe, suponho.
A aparente mulher olhou-a com uma dose de divertimento e flutuou até a margem do lago, onde a feiticeira se encontrava.
— Sou a sua mensageira, mas oh, não se engane, o povo Sidhe raramente atende chamados de bruxos.
Os cabelos prateados e volumosos da falante pareciam flutuar com ela. Aproximando-se de Hermione, que automaticamente andou para trás, a Sidhe tocou o pescoço da garota, retirando os cabelos de sua nuca.
— Sinta você mesma, Hermione Jean Granger. — Os dedos longos e com filetes de galhos incrustados na pele tocaram a nuca da garota, que antes queimava. Lá havia a mesma marca que ela desenhara no chão, gravada na pele, Granger não precisava tocá-la para saber. — A sua descrença na própria magia dificultou a nossa comunicação, confesso, sempre ignorando os seus sonhos…
Os olhos da bruxa arregalaram-se ainda mais. Sonhos, imagens desconexas e sensações que sempre tivera, mas ignorara com firmeza, invadiam sua mente.
— Isso não é possível. Eu nem sei o que vocês são, muito menos se consigo acreditar em algo disso.
Expandindo cintilantes asas, a Sidhe encarava-a como quem olha uma curiosa criança.
— Estamos entre a vida, a morte e a magia. Você mesma leu, não se lembra? Guardamos todos os filhos e filhas da magia, somos feitos de sua essência. Nossos escolhidos, como você, nascidos entre os trouxas, já seres entre mundos, são destinados à nossas moradas.
Sem parecer engolir as palavras, a garota de cabelos castanhos apenas balançou a cabeça.
— Isso não faz nenhum sentido, Sidhe. — Ela parou um instante, e encarou os olhos da criatura. — Precisamos da ajuda de vocês.
Uma risada estridente ressoou por todo o ambiente, e a Sidhe flutuou ao redor de Hermione.
— Olhe para si mesma, criança. Bruxa. Não há lógica, não do tipo que aquela maldita escola te ensinou que poderia haver.
Contrariada, Hermione decidiu-se por mudar de assunto, tinha urgências maiores do que a marca em sua nuca.
— Podem nos ajudar nessa guerra, então? Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado violou muitas das Leis da Magia, tomou a vida de bruxos e bruxas, como eu.
A Sidhe sorriu, e algum tipo de emoção invadiu seu olhar.
— Sim, sim… Tom. Esse livro que carrega passou pelas suas mãos também, sabia? Ele nos convocou, poucos têm a coragem de o fazer, mas ele tinha um desespero tão grande por imortalidade e poder... — A Sidhe suspirou levemente, mas desgosto claramente marcava seu rosto. — Não podemos interferir diretamente, não como éons atrás fazíamos, minha bruxa, mas aquele que se chama Lorde das Trevas, como você bem já sabe, tem a alma fragmentada.
Hermione meneou a cabeça em concordância.
— Nós estamos buscando as Horcruxes, eu, Harry e Rony, para destruí-las.
A Sidhe sorriu levemente.
— Avise seus amigos quando retornar, então, que a busca de vocês se encerrou hoje. Posso ajudá-los nisso.
Uma expressão de alegria foi ensaiada por Hermione, mas um sombra recaiu em seu rosto.
— A qual preço? — questionou.
A Sidhe aproximou-se novamente da garota, seus lábios azulados quase tocando os dela, tamanha a proximidade.
— Tom não sabia, bem sei que talvez apenas Morgana o soube, mas repartir a alma daquele jeito monstruoso é como talhar o próprio tecido da magia. Ele não se incomoda com isso, pois ainda não se deu conta do que fez com o seu adorado poder. Ele terá, contudo, o seu encontro com O Menino Que Sobreviveu, existem fados que não devemos nos desviar, nem mesmo você. No entanto, tendo uma Horcrux em mãos, é possível acessar a magia do seu dono. — A Sidhe fez uma pausa, observando a menina absorver as informações. — Você foi abençoada pelo agouro da morte, feiticeira, fardo do nosso povo. Você cresceu no mundo bruxo escutando que a magia não te pertencia. Que o seu sangue era sujo por não carregá-la do jeito. E você, com a nossa benção, pode reduzir essa guerra e salvar muitos dos seus.
— Qual será o seu preço, Sidhe? — perguntou mais uma vez.
Nervosismo marcava seu corpo, e ela mexia na varinha ritmicamente. A mulher-criatura repousou uma mão no rosto de Hermione, e uma lágrima cintilante escorreu de seus olhos de cristal. As luzes azuladas pareceram se agitar ainda mais.
— Não, criança, essa é a pergunta errada. Eu me pergunto qual será o seu preço. — A Sidhe suspirou e acariciou a marca da Lua na nuca da menina. — Você já deduziu, não? Respeitando as nossas leis, é o único caminho que posso guiá-la. Você tem acesso ao tabuleiro da vida, da morte e da magia. Como posso dizer…
Hermione encarou-a aflita, a boca semiaberta. A Sidhe olhou-a fundo nos olhos, e aproximou ainda mais seus rostos, quase encostando seus lábios cintilantes nos da bruxa. Sorria ressabiada, como quem muito sabe e, enfim, finalizou a sua sentença:
— Sim... É isso que eu e meu povo nos perguntamos quando te encontramos, Hermione. Qual será o seu preço, bruxa, para roubar a magia de Tom Riddle e evitar que ela se espalhe no mundo como praga, ódio e fogo. Então, o que você me responde?
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