Dormindo com o Inimigo
16 A tempestade chega
No pequeno intervalo entre as aulas normais e a aula de dança, Masato refletia sobre sua conversa com Ren na noite anterior.
O Jinguji entrou sem bater no quarto de Tokiya e Masato.
— Ichinose, preciso falar com Masato. Dá licença.
Tokiya olhou por cima dos óculos de leitura.
— Por favor e obrigado?
Ren o olhou com impaciência.
— Sai, por favor.
Tokiya colocou de lado seu livro e depositou os óculos em cima dele. Andou até seu armário e de lá tirou um pote pequeno, parecia uma pomada. Ele saiu sem dizer mais nada.
Masato sentou-se na cama, cauteloso e Ren sentou-se ao seu lado.
— Eu fui injusto em desconfiar de você. Eu não pensei no que dizia e te magoei de novo. Me desculpe.
Quando Masato contara a ele que trocaria de quarto, Ren lhe dissera coisas duras. Agora estava arrependido.
— Eu só achei coincidência demais o seu pai ter pedido pra você sair do nosso quarto e quando você volta de casa, faz exatamente isso. Sabe... à primeira vista pareceu coisa do seu pai.
O remorso queimava dentro de Masato. Ele poderia contar a verdade a ele agora ou esperar umas duas semanas e voltar para o quarto como se nada tivesse acontecido. Simples, sem brigas, sem complicações.
A segunda opção lhe pareceu muito mais tentadora.
— Tudo bem, não precisa se desculpar.
Ele não tinha coragem de olhar em seus olhos. Apenas um pensamento ocupava sua cabeça.
"Eu estou mentindo pra você."
Masato se inclinou e apoiou-se no ombro de Ren, que o envolveu com seu braço. A outra mão pousou em seu queixo e virou sua cabeça, obrigando-o a encará-lo. Mas nada foi dito. Ren o beijou carinhosamente, um mover de lábios suave e inocente que os conectava de modo único. Ao se separarem, Masato abraçou seu peito.
— Sinto sua falta. – Disse Ren. – Não consigo dormir sem você.
— Eu sei. Por favor, seja paciente. É só por um tempo, até Otoya se sentir confiante a dividir o quarto com Tokiya de novo. Não fique bravo com eles.
Ren torceu o nariz.
— Vou ficar bravo com eles até você voltar pro seu lugar ao meu lado.
Masato lhe deu um beliscão nas gordurinhas da barriga.
— Ai!! Pra quê isso?
O menor o encarou, de baixo.
— Pra você parar de ser besta. Não se atreva a destratar o Otoya, entendeu?
Masato fazia uma carranca muito fofa na opinião de Ren e ele não aguentou ficar sério. Ele esboçou um sorriso que contagiou o outro e eles trocaram um breve selinho.
— Agora é melhor você ir, antes que Tokiya expulse você daqui.
Masato deitou sobre seus braços, o peito pesado de culpa.
“- Por favor, que essas duas semanas passem rápido.” Orou em silêncio.
oOo
Passaram-se três dias e Tokiya percebera que, desde que procurara Otoya no quarto de Ren, este o estava evitando. Ele pode dizer isso pela forma como Otoya quase saiu correndo quando o viu no corredor da escola. Ele estava arredio e distante, e Tokiya pareceu ter entendido o recado de que ele não o queria perto de si. Pelo menos ele parecia ter melhorado dos machucados, seu rosto já estava bem e ele não andava mais se encolhendo como antes.
Tokiya agradecia aos céus por Ren e Masato serem tão discretos em sua relação. Nos três dias que se passaram ele sequer havia visto os dois juntos. Agora ele tinha somente mais três dias para pensar em como se livrar da chantagem de Eichi.
Mas não seria tão fácil.
Antes do início das aulas daquele dia, Eichi, Nagi e Kira o aguardavam no fim do corredor que levava às salas. Não havia como desviar. Ele se amaldiçoou por sempre andar sozinho.
— E aí. – Cumprimentou.
— “E aí” uma ova. – Devolveu Eichi. – Fez o que eu pedi?
— O prazo tá acabando. – Lembrou Nagi, com sua voz fingindo divertimento.
— Obrigado por me lembrar, Nagi. Eu sei quando termina o prazo. – Voltou-se para Eichi. – Não está fácil. Masato trocou de quarto e eles não tem mais ficado juntos.
— Parece que eles estão brigados. – Completou o calado Kira.
— Hum... – Eichi mordeu a unha. – Isso não é desculpa. Dê um jeito.
Tokiya se irritou com o tom mandão de Eichi e quando este se virou com os demais para seguir seu caminho, ele lhe mostrou o dedo do meio.
— Vai se ferrar.
Ele se sentia segurando uma faca de dois gumes, não importa qual lado fosse pressionado, ele iria se cortar.
oOo
Na outra sala, não era difícil perceber a animosidade entre Ren e Tokiya. Assim que o Ichinose entrou na sala, o loiro lhe mandou o seu melhor olhar de “morra, inseto!”, que fez Tokiya desviar o olhar depressa e se dirigir ao seu lugar, no fundo da sala.
— Por que está tão bravo com ele? – Questionou Natsuki, ao seu lado.
— Porque se ele não fosse sempre um babaca idiota, Otoya não teria motivos para trocar de quarto.
Disse alto o suficiente para que todos na sala escutassem. Em seguida, ele se virou, olhando mortalmente o Ichinose. Apreensivos, os amigos olharam de um para outro. Temiam que este se ofendesse e aquilo terminasse em luta livre.
— E desde quando isso é novidade? — Cortou o outro Ichinose. – Que Tokiya é um babaca idiota todo mundo sabe, qual a surpresa?
Seu irmão o olhou com frieza e Hayato o encarou de volta.
— Não só idiota, mas arrogante também. Me admira que ainda exista alguém que goste dele. Tenho pena dessa pessoa.
Ambos sabiam que ele se referia a Otoya. Tokiya não soube dizer porque, mas ouvir Hayato dizer que gostar dele era uma coisa ruim o incomodou. O incomodou muito.
Seu pequeno rompante combinado ao seu sarcasmo conseguiu diminuir a tensão dentro da sala. Assim, a hostilidade de Ren se perdeu, mas Hayato sabia que teria que acertar as contas com Tokiya depois.
Ele não via a hora desse momento chegar.
O momento chegou mais cedo do que ele esperava. Na hora do almoço, Hayato se deparou com Tokiya o esperando na entrada do refeitório, de cara fechada.
— Quem você acha que é pra me julgar? – Disparou Tokiya quando Hayato passou por ele. O mais novo parou e se virou.
— Alguém que não machuca as pessoas deliberadamente.
— E quando é que eu fiz isso?
— Quando é que você não fez isso, você quer dizer né? Eu estou cansado de ver as pessoas se machucando por sua causa.
Tokiya levantou uma sobrancelha.
— Você está falando do Otoya?
Hayato cerrou os punhos.
— Exatamente! Como você teve coragem de bater nele!? Como pode deixá-lo todo marcado daquele jeito!?
— Hã? Eu não bati nele!
— Você é tão hipócrita que não consegue nem admitir as merdas que faz! – Hayato se descontrolou, aumentando o tom da voz. As pessoas próximas se viraram para olhar a briga dos irmãos.
— Otoya me disse que não fui eu. – Defendeu-se.
— Pois pra mim ele disse exatamente o contrário. Ele deve ter mentido pra você por pena, isso é bem a cara dele.
— Isso é mentira. Se fosse verdade, ele teria adorado jogar isso na minha cara.
Hayato riu.
— Ele jamais faria isso. Ele ama você. – Seu peito comprimiu ao dizer essa frase. – As pessoas cuidam de quem elas amam, e é exatamente isso que ele faz com você. Até demais, diria eu.
— Entendi. – A voz de Tokiya estava carregada de sarcasmo. – Você tá com ciúmes, por isso tá tão bravo. – Ele sorriu quando percebeu que Hayato perdeu a pose. – Eu já tinha percebido. Você gosta dele e tá bravo porque ele prefere a mim. — Tokiya riu alto. — Depois quer me chamar de hipócrita? Pois se olhe no espelho, fedelho.
Hayato agiu. Ele segurou Tokiya pelo colarinho e aproximou seus rostos. Mas, indignado por ter seus sentimentos descobertos assim e ainda debochados daquela forma, as palavras que queria dizer sumiram de sua mente. Ele apenas o encarou, de dentes cerrados, procurando desesperadamente algo para dizer.
— O que foi? – Tokiya debochou mais. – Ficou mudo porque tudo que eu disse é verdade? – Ele se moveu com agilidade, se soltando das mãos do irmão e invertendo as posições. Agora era ele quem segurava Hayato pelo colarinho. – Você nunca vai ser ninguém pra ele, vai viver sempre à minha sombra e sabe disso.
— É mesmo? Mas um dia ele vai cansar de você, sabia? Você é insuportável. – Tokiya fechou o rosto. – Ele não vai correr atrás de você o resto da vida e a hora que ele cansar, vai ver quem gosta dele de verdade, e não vai ser você.
Tokiya afastou o braço, pronto para socá-lo, mas uma voz conhecida o impediu no último instante.
— Tokiya!! Não faz isso!!! – Gritou Otoya. – O que vocês estão olhando? Ajudem!! – Ralhou com as pessoas que apenas assistiam e nada faziam para pará-lo. Mas elas não se mexeram. Otoya se aproximou rápido e segurou o braço erguido de Tokiya, tentando puxá-lo para trás. – O que você tá fazendo? Solta ele!!
Tokiya ficou ainda mais irritado.
— Vá embora! Isso não é da sua conta!
— Não é da minha conta?? Deixa de ser ridículo! Se você encostar nele, eu não vou hesitar em revidar! – Ameaçou.
O moreno cerrou os maxilares. Quando foi que Otoya o ameaçara alguma vez? Tudo culpa do seu irmão tolo. Com um movimento brusco, ele se livrou de Otoya e avançou para Hayato.
— NÃÃÃOOOO!!!! – Gritou o Ittoki, tarde demais para impedi-lo.
Hayato fechou os olhos e ouviu o impacto do punho de Tokiya contra algo que não era o seu rosto. Ao abrir os olhos, foi largado com tudo, escorregando para o chão quando a força lhe faltou. Ele se deu conta que Tokiya socara a parede ao seu lado.
Tokiya lhe lançou um olhar de desprezo antes de sair dali, e só quando o irmão saiu é que Hayato lembrou-se de respirar. Ao que seu corpo se livrou da adrenalina, começou a tremer incontrolavelmente. Ren e Masato chegaram tarde para acudi-lo.
— O que aconteceu?
— Tokiya enlouqueceu! Ele tentou bater no Hayato! — Completou Otoya, dando um pouco de água ao pobre coitado que tremia que nem vara verde.
— Por que!?
— Foi por causa da minha provocação? – Indagou Ren. – Ele quis descontar em você, não foi?
Hayato negou.
— A culpa foi minha também.
— Que provocação? – Quis saber Masato. – O que você fez?
— O chamei de babaca idiota.
— Aff... Pra quê? No que você estava pensando?
— Eu não estava pensando.
— Por favor, — Interveio Otoya. — Não é hora pra isso. Masato, — Este o olhou. — Vamos trocar de quarto por hoje.
— Mas-
— Acredite em mim, você não vai querer estar lá.
— Otoya tem razão. — Concordou Ren. — Tokiya vai estar fervendo e Otoya sabe lidar melhor com ele.
— Tá bem, então.
— Não é seguro você ficar com ele. – Disparou Hayato, sentindo o ciúme queimar dentro dele.
— Ele não vai me machucar. – Acalmou-o.
— Você não o conhece.
— Não se preocupe, Hayato. Eu vou ficar bem.
Ele lhe lançou aquele sorriso tranquilizador que o conquistara. Mas em seguida lhe deu as costas, correndo para o mesmo caminho por onde Tokiya saíra.
oOo
Tokiya estava sentado em sua cama, com as costas encostadas na parede e o rosto nos joelhos. Sua mão doía e ele sentia o sangue escorrendo e pingando em suas cobertas. Mas ele não ligava. Nenhuma dor física era pior do que a confusão que ele sentia dentro de si mesmo. Queria gritar, bater em alguém, chorar... tudo ao mesmo tempo. A pressão que faziam sobre ele o transformava em uma bomba relógio prestes a explodir. Ele estava à beira da loucura.
Ele ouviu quando a porta abriu e preparou-se para se defender. Masato com certeza não teria o bom senso de deixá-lo em paz. Mas então ele sentiu um toque suave em sua mão machucada e levantou a cabeça. Era Otoya que estava parado à sua frente. Seu rosto estava indecifrável, não sabia dizer se ele estava com raiva dele ou não.
— Me dá a sua mão. — Pediu.
Ele a estendeu, voltando a esconder o rosto. Sentiu Otoya limpar suas feridas, esterilizar e colocar gaze.
— Por que mentiu pra mim? – Perguntou com a voz abafada.
— Sobre o que você está falando?
— Sobre eu ter provocado aqueles hematomas em você.
Otoya franziu o cenho. Apenas uma pessoa sabia daquilo.
— Quem disse isso?
— Quem você acha?
Ele suspirou.
— Só não queria que se sentisse culpado. Você já é tão estressado por natureza, achei que não precisava de mais alguma coisa pra te fazer se sentir mal. E eu já estou bem, aquela sua pomada fez milagres.
— Desculpa...
— Não precisa. Eu bati em você também, então tá tudo bem.
Era mentira, mas Tokiya não se lembrava mesmo.
— Por que você está sendo gentil?
— Preciso ter um motivo?
— Eu quase bati no seu precioso Hayato. Não está zangado?
O coração de Otoya apertou.
"Meu precioso Hayato? A pessoa mais preciosa pra mim é você, idiota", pensou. Ele se sentou na cama do maior. Se ele estava zangado? Claro que ele estava. Mas a frustração que sentia por não conseguir ajudá-lo era ainda maior.
— Eu estou sim. — Ele suspirou. — Você está estragando tudo.
Tokiya franziu o cenho.
— O que eu estou estragando? O seu plano inútil de fazer eles me aceitarem?
Otoya suspirou. Sabia que Tokiya já desconfiava, não adiantava mais negar.
— Por que age desse jeito?
— Você não entenderia.
— Nunca se sabe. — Tentou persuadi-lo, mas ele permaneceu em silêncio. — Você tem o péssimo hábito de complicar as coisas simples, sabia? Seria tão mais fácil se você se comunicasse mais com a gente.
— ... Eu não consigo.
Otoya sabia disso. A tia de Tokiya lhe dissera que ele tinha dificuldade em confiar nas pessoas por causa do pai.
— Não dá pra fazer um esforcinho?
Tokiya aprofundou-se em seus joelhos.
— Você me odiaria.
A simples ideia de ser odiado pelo Itokki o enchia de angústia. Otoya era a única pessoa que ele não suportaria que o odiasse, mesmo que fosse contraditório, era assim que ele se sentia agora. Ele não sabia mais dizer quando foi que sua opinião pelo menor mudou desse jeito.
Otoya não aguentava mais ver o moreno sofrendo daquela forma e não fazer nada. Tokiya sentiu novamente aquele toque suave em seu braço e olhou para cima. Sem esperar, Otoya o envolveu em um abraço caloroso.
Cansado de tudo, Tokiya se entregou ao carinho. Há quanto tempo ele não era abraçado daquela forma? Sua tia lhe veio imediatamente à cabeça, pois ela fora a única pessoa que lhe estendera o ombro para chorar em toda a sua vida.
"Não." Pensou. "Otoya já fez isso uma vez."
Para completa surpresa de Otoya, Tokiya retribuiu seu abraço.
— T-Tokiya?
Ele sentiu o rosto corar.
— Você está sempre me consolando dessa forma e eu nunca fui capaz de retribuir.
O ruivo franziu o cenho. Não fazia ideia do que ele estava falando.
— Eu sempre te consolo? Quando foi que eu fiz isso?
Tokiya deu um riso fraco.
— Não acredito que você esqueceu.
— Você está me zoando. Eu nunca me esqueceria se isso tivesse realmente acontecido.
— Eu estava mal e você me ofereceu seu ombro pra que eu pudesse chorar. Eu também tinha me esquecido disso até pouco tempo atrás.
Otoya realmente tentou se lembrar. Mas não recordava de nada parecido. Ele jamais teria se esquecido de Tokiya chorando no seu ombro.
— Quando foi isso?
— Quando estávamos na escola. Acho que foi no último dia que vimos você lá.
“No último... dia? Então foi... foi naquele dia.”
Os braços de Otoya afrouxaram ao redor do Ichinose.
— Eu... eu não... — Ele não pode controlar a vontade de estremecer. Tokiya se afastou.
— O que houve?
— Desculpe. — Ele estava um pouco pálido. — Eu não me lembro de muita coisa que aconteceu naquela época.
Até seu tom de voz era diferente e claro que Tokiya percebeu.
— Qual o problema? Tá se sentindo mal?
Otoya se afastou.
— Não. Tá tudo bem. – Ele forçou um sorriso. – A sua mão está melhor?
Obviamente Tokiya percebeu sua tentativa de mudar de assunto. Algo que ele dissera o incomodara.
— Tá melhor sim.
— Ótimo. – Sua voz saiu seca. – Eu vou tomar um banho.
Ele praticamente correu para o banheiro, deixando um confuso Tokiya a sós.
Otoya permaneceu parado, encostado no lado de dentro da porta por muito tempo. Ele refletia sobre o dia que Tokiya mencionara, como teria adorado ter aquela lembrança. Tokiya em seu ombro, com a guarda baixa, em uma época em que ele sequer sonhava que Otoya gostava dele. Infelizmente, aquelas 24 horas eram um branco total para ele. Ele se lembrava apenas de ler um depoimento na delegacia, uma semana depois, que os policiais diziam que era dele. Ele não lembrava de dar depoimento algum, e não lembrava de viver as coisas que estavam escritas ali. O documento não mencionava o período da escola, ele começava do momento em que chegava em casa. Ali também estava escrito que ele “estava muito feliz, por um motivo que eu não consigo mais me lembrar”. Seria por causa disso? Era uma ironia muito grande isso ter acontecido naquele dia que ele viria a esquecer completamente.
Ele tomou um banho demorado, refletindo o que faria agora quanto à Tokiya. Queria ajudá-lo, mas o moreno não lhe dava espaço para se aproximar. Queria entender o que o angustiava tanto, e de alguma forma libertá-lo daquela pressão. Mas ele era muito fechado.
Ao sair do chuveiro, enrolou a toalha na cintura e se apoiou na pia, se sentindo frustrado. Tinha que haver uma forma de fazê-lo se sentir melhor. Ele observou as pontas de seu cabelo molhado formarem gotículas de água e pingarem na pia. Havia um meio, mas havia apenas 50% de chances de aquilo dar certo. Caso contrário, ele poderia arruinar de vez o humor do Ichinose.
Ele limpou o vapor do espelho e se encarou.
— Eu preciso tentar.
Enquanto isso, Tokiya permanecia deitado na cama, com o braço tampando seus olhos. Ele sentia que estava bem mais calmo, apesar de ainda se sentir muito mal-humorado.
"Você não consegue fazer um esforcinho?"
“Não adianta... Eu não tenho mais salvação. Sou um traidor, não mereço sua piedade.”
— Você nunca vai entender como eu me sinto...
— Você pode me contar. – Disse Otoya saindo do banheiro.
Tokiya gemeu em frustração.
— Você vai se atrasar pro segundo... — Quando Tokiya o fitou, sua voz sumiu. Otoya usava apenas a camisa branca do uniforme, parcialmente abotoada, deixando à mostra sua cueca cinza. Mas o que tirou sua fala foi o seu olhar intenso. Era como se ele fosse um caçador prestes a encurralar sua presa. – ...hã... período.
Ele engoliu em seco, permanecendo estático enquanto Otoya se aproximava. Tampouco reagiu quando o menor sentou em suas pernas, as coxas nuas e quentes o rodeando.
— Eu vou matar o segundo período. – Disse de forma sussurrada enquanto afastava a gravata de Tokiya.
— O que você está fazendo?
Otoya abriu os botões da camisa de Tokiya e passou as mãos por seu peito, escancarando suas intenções.
— Eu quero te ajudar a aliviar essa tensão. Você tá com ele acumulado, né? Desde aquele dia no quarto do Ren.
Tokiya sentiu o rosto esquentar ao perceber do que ele estava falando. Afastou-o com um braço, precisava de espaço.
— Para, isso é inútil.
Otoya voltou a se sentar ereto nas pernas de Tokiya.
— É por que sou eu? Não é como se já não tivéssemos feito isso antes.
— Claro que não. Esse não é o problema.
— Então o que é?
— Eu não... consigo... – Ele desviou os olhos. – Não consigo me excitar quando estou estressado. – Corou ao admitir.
Otoya riu.
— Tira a camisa. – Saiu de cima do maior.
— Por que?
— Você pode parar de ser chato e obedecer pelo menos uma vez na vida?
Tokiya levantou uma sobrancelha com a ousadia de Otoya. Mas ele fez o que o menor lhe pediu.
— Vira de bruços.
Tokiya entendeu onde ele queria chegar. Quando se virou, Otoya sentou-se sobre suas nádegas e começou o trabalho de diminuir a tensão de seus músculos.
— Otoya?
— Hum?
Tokiya escondeu o rosto nos braços. Otoya achava que o Tokiya envergonhado era muito fofo.
— Tranca a porta.
Otoya sorriu de forma pervertida, mas claro que Tokiya não viu. Se inclinou em seu ouvido e sussurrou.
— Está me dando carta branca pra eu fazer o que quiser?
Dentro dele, Tokiya também tinha essa impressão.
— Não é bem assim.
Otoya o obedeceu, trancou a porta e voltou ao lugar de antes. Ele trabalhou primeiro em seus ombros, onde Tokiya gemia de dor ao ter os músculos pressionados.
— Você está bem tenso aqui.
— E você é um pervertido. — Devolveu ele, ao sentir algo duro contra suas nádegas.
— Não posso evitar. Você está sóbrio e ainda não me rejeitou, isso é inédito.
Terminando os ombros, suas mãos leves desceram por suas costas, acariciando-as ao massageá-las. Então ele percorreu seus braços e segurou suas mãos.
— Você não quer me tocar também?
Ele colocou as mãos de Tokiya em suas coxas, deslizando-as em sua extensão. Então ele as abandonou e abriu a própria camisa, deitando-se em suas costas e sentindo o calor da pele morena, enquanto esfregava sua excitação na bunda do Ichinose. Tokiya sentiu um calafrio quando Otoya lambeu sua orelha.
— Tá gostando?
— U-hum...
Otoya saiu de cima dele e o fez se virar de novo, logo se sentando em suas pernas e massageando seu membro por cima da calça. Ainda estava flácido.
— Eu disse que era inútil.
— Só vai ser inútil enquanto você ficar pensando em outras coisas.
Ele saiu e procurou algo em "sua" gaveta e voltou trazendo um cachecol.
— Ah não. — Fez Tokiya.
— Sem ser chato, lembra?
O Ichinose gemeu, derrotado. Otoya o vendou.
— Pare de pensar, apenas sinta.
— Não é tão fácil.
— É sim. Pense em alguém que te excita...
Tokiya imaginou alguém um pouco mais baixo, pele alva e voz doce, com incomuns cabelos vermelhos. Otoya abriu o zíper da calça e pegou seu membro exposto, massageando-o devagar.
— ...imagina essa pessoa te tocando assim. Eu não vou fazer nenhum som pra te ajudar a se concentrar.
“Imaginar essa pessoa me tocando? Essa pessoa está me tocando e nada está acontecendo.”
“Pare de pensar, apenas sinta.”
“Apenas sinta...” Ele se concentrou na mão de Otoya, que fazia movimentos de vai e vem, enquanto sua boca explorava a região de sua virilha. A boca de Otoya era quente, muito úmida e gostosa. Seus beijos faziam um arrepio percorrer seu corpo, mas ele ainda não sentia aquela pulsação gostosa na virilha.
“Pare de pensar” Era muito difícil. Flashbacks de sua briga com Hayato passavam por sua mente, o impedindo de se concentrar. Aquilo seria impossível.
— Para... – Pediu, derrotado. Otoya parou. — Não adianta... – Ao tentar remover sua venda, foi impedido pela mão firme de Otoya.
— Eu não deixei você tirar a venda. – Tokiya se surpreendeu com o tom em sua voz. – Você precisa deixar eu me aproximar.
— Eu estou deixando.
— Não fisicamente. Não adianta nada eu ficar me esfregando em você se você não deixar eu entrar aqui.
Sua mão pousou em seu coração.
— Me deixa entrar, Tokiya...
Suas palavras pegaram o Ichinose de surpresa. Deixar ele entrar em seu coração? Ele nunca deixou ninguém entrar dessa forma. Deixar seria baixar a guarda e se expor a todo tipo de perigo emocional. Mas Otoya seria capaz de lhe fazer mal? Seria capaz de lhe ferir?
— No que você está pensando?
Tokiya lhe respondeu diretamente.
— Estou pensando se vale a pena deixar você entrar.
— Se “vale a pena”? Tokiya... o que você se lembra daquela noite que transamos a primeira vez? Na boate?
Tokiya sabia onde ele queria chegar.
— Eu não lembro muita coisa...
Otoya suspirou. Era óbvio que ele se lembrava.
— O que foi que eu disse quando terminamos?
O Ichinose agradeceu por estar vendado.
— Você disse que... você... quer dizer, eu... fui o único que... ah, você sabe.
— Diga.
Tokiya suspirou profundamente e se sentou, tirando de vez a venda.
— Você disse que eu fui o único homem que você amou.
O coração de Otoya palpitou.
“E ainda é.”
— Se você sabe disso, não venha com “vale a pena deixar você entrar”. Eu nunca te machucaria. Eu...
“Eu te amo”.
Tokiya se aproximou e segurou seu queixo.
— Por que vai tão longe por mim?
“...Eu nunca mais vou demonstrá-los pra você, porque você não merece!”
Só que não demonstrar seus sentimentos estava sendo muito, muito difícil. Ainda mais com Tokiya tão perto e olhando pra ele daquela forma.
— Você vai me beijar ou não vai? Sabe, porque senão eu vou voltar pra aula e deixar você-
— Otoya?
— Hum?
— Cala a boca.
Ele não precisou, pois Tokiya a calou para ele com seus próprios lábios. Ele tentou comandar o ato como Otoya fizera na outra noite, mas ele era inexperiente demais. Então deixou que o menor ditasse o ritmo e foi o que ele fez. Seus lábios moviam-se suavemente sobre os de Tokiya. Suas mãos foram até sua nuca e se perderam em seus cabelos, beijando-o com mais intensidade.
Sem se separar de Tokiya, Otoya sentou-se em seu colo novamente, as mãos inquietas arranhando as costas desnudas do moreno. Cada arranhão fazia a pele do Ichinose pegar fogo, ele queria mais de Otoya. Com um movimento, ele retirou a camisa que pendia aberta em seus ombros. Agora as peles quentes se encontravam com frequência, e o primeiro gemido de Otoya escapou pelos lábios ávidos.
A mão de Otoya desceu para seu peito e o acariciou com vontade. Então desceu mais, para sua virilha e constatou que finalmente havia uma ereção ali. Ao constatar o fato também, Tokiya encerrou o ato e eles se encararam, ofegantes.
— Parece que alguém parou de pensar. – Disse Otoya, com a voz divertida.
Tokiya estava surpreso consigo mesmo.
— Como você conseguiu?
— Sou uma “vadia”, lembra? Era o meu trabalho saber essas coisas. E pensar que eu só precisava te beijar... você é bem fácil de excitar.
Uma faísca de raiva queimou em Tokiya. Em um único movimento, ele jogou Otoya de costas na cama e se colocou acima dele.
— Não use mais essa palavra.
Otoya sorriu.
— “Vadia”? Não fui eu quem usou ela pela primeira vez. Foi uma coisa que me disseram. Eu só estou... compartilhando a opinião daquela pessoa.
— Não importa. Não use mais.
— Tudo bem, eu não ligo que me chamem assim.
— E se eu te chamasse assim?
— Então... eu ficaria bem puto e... te chamaria de cretino e... daria um tapa na sua cara.
Tokiya levantou uma sobrancelha.
— Eu achei que você não ligava.
— Não ligo quando é um estranho que diz. Mas então... agora que a gente pode se divertir você vai ficar só falando?
Seu sorriso era cheio de malícia e Tokiya sorriu igualmente.
— Claro que não.
Os lábios voltaram a se encontrar, cheios de desejo um pelo outro.
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