Dormindo com o Inimigo

13 A decisão daquela triste noite


Otoya arregalou os olhos, saindo de cima do moreno rapidamente. O tom severo de Tokiya o alarmou.

— “Não era pra ele ter ouvido.” – Pensou, pois sabia que ele não gostaria. Agora não adiantava se lamentar, ele sabia que não havia mais nada que pudesse fazer e nada mais a perder. Tokiya levantou-se, enquanto ele permaneceu de joelhos na cama. — Por que? É tão ruim assim receber os meus sentimentos?

— Pare. Você só vai se machucar.

Os ombros de Otoya caíram. Embora ele soubesse que era verdade, não queria mais viver guardando seus sentimentos. Ele queria que Tokiya soubesse o quão forte eles eram.

— Eu não quero mais esconder meus sentimentos. Eu sei que você sabe, eu falei aquela noite, na boate. Você foi o único homem que eu amei-

— Eu não quero saber dos seus sentimentos. – Disparou. – Você sabe que eu te desprezo, por que fazer isso consigo mesmo?

Otoya se levantou também, ficando frente a frente com o moreno. Os dois corpos nus eram iluminados apenas pela luz que vinha pela porta do banheiro, ainda aberta.

— Isso não é verdade. – Acusou. Ao ver o olhar interrogativo de Tokiya, ele continuou. – Você não me despreza como pensa. Afinal, quem vai pra cama com alguém que não gosta?

Tokiya ficou calado, sabia que Otoya tinha ganhado um ponto. Apesar de ele dizer aos quatro cantos que o odiava, Otoya tinha razão. Mas a questão era: o que ele sentia por Otoya? Era uma pergunta que ele não sabia responder, pois seus atos de agora a pouco foram movidos por um forte desejo carnal.

Ele colocou a mão na face, praguejando. Ele estava confuso, e essa incerteza o irritava. Ele não sabia explicar o que sentia em relação ao ruivo, mas sabia que era algo muito distante daquilo que ele afirmava.

— Você se sente atraído por mim, não é mesmo? – Continuou Otoya, percebendo a hesitação do Ichinose.

Tokiya evitou olhar em seus olhos. Sua cabeça trabalhava a mil, pensando em alguma forma de tirá-lo daquela situação. Seja o que for que ele sentisse por Otoya, ele era orgulhoso demais para admitir.

— Não seja tão convencido. – Debochou.

— Estou sendo realista. Afinal, foi você quem me beijou. Você me quis. Vai negar?

Isso ele realmente não tinha como negar. A iniciativa havia partido dele, em um momento que ele se sentiu frágil e carente. Agora era diferente, os efeitos do álcool já não estavam mais tão fortes quanto antes.

— Não vou negar. Mas isso que você está dizendo não faz o menor sentido. Por que ficar falando essas coisas se podemos só dormir e amanhã esquecer que tudo isso aconteceu? Não seria muito mais fácil? Não seria menos doloroso?

Otoya o fitou com incredulidade.

— Fingir que nada aconteceu? Por acaso você está me escutando? Você nem imagina o que tudo isso significa pra mim, não é? Nem passa pela sua cabeça que essa sua atitude é o que mais me machuca.

Tokiya deu de ombros. Ambos ficaram em silêncio por muito tempo, Otoya esperando uma resposta e Tokiya esperando que ele encerrasse esse assunto.

— Não vai dizer nada? – Cobrou Otoya.

— O que você quer que eu diga? Se eu confessar que senti sim uma atração por você, você me deixa em paz?

— Só isso? “Só” uma atração? – Sua voz denunciava sua angústia. – Você não me machucou em momento nenhum, mesmo com seu corpo pedindo, você me respeitou!

— E daí? Isso faz parte do meu caráter, não tem nada a ver com você.

— Droga! Seja sincero, Tokiya!!

Tokiya praguejou. Otoya estava levando sua paciência ao limite.

— Tá ok! Quer que eu admita? Eu admito! Eu desejei você, assim como naquela noite no nosso quarto! Mas isso não quer dizer que eu tenha sentimentos por você, entenda!! Você é bonito, seu corpo chama a atenção. Esse tipo de atração é mais do que natural pra um homem da minha idade. E também, como eu poderia deixar de desejar a vadia da escola??

Seus olhos se arregalaram assim que ele ouviu o que dissera.

— Não, eu não quis dizer isso...

Suas palavras ofensivas atingiram Otoya em cheio. Seu coração falhou várias batidas, sua mente se negava a acreditar que tinha escutado aquilo. Aos poucos, as lágrimas inundaram seus olhos arregalados e transbordaram sem cerimônia. A vergonha avermelhou sua face.

— É isso que você pensa de mim?

— Não chore, eu não quis dizer aquilo. – Otoya abaixou a cabeça, seus ombros sacudindo conforme seu pranto tomava conta do seu corpo. – Otoya... me desculpe... – Ele tocou seus ombros e o menor o olhou com raiva no olhar. Em defesa do seu próprio orgulho, Otoya avançou, desferindo um tapa tão forte que fez Tokiya recuar vários passos.

— Você é um cretino!! – Gritou. Tokiya estava chocado com o ato de Otoya. – Como é que eu pude me apaixonar por você? Tão frio, tão insensível... — Ele enxugou os olhos, mas novas lágrimas tomaram o lugar das antigas. – Você tem razão, talvez nós devemos mesmo só dormir e deixar que a noite apague essas lembranças, não é? Quem sabe assim, a noite apague também o que eu sinto por você! Porque você não merece...

Ele juntou suas roupas, do lado da porta do banheiro e se vestiu às pressas. O silêncio do quarto era quebrado apenas pelos seus soluços.

— Você não merece... – Sussurrou para si mesmo, mas Tokiya pode ouvir mesmo assim.

— Eu já disse que eu não quis dizer aquilo. Eu não quis te ofender. – Mas Otoya continuou se vestindo, sem dar bola para o que ele dizia. – Você quer me escutar?

— Não! Eu quero que você vá se foder! Eu estou cansado de ser pisado por você. Se você não liga para os meus sentimentos, eu nunca mais vou demonstrá-los pra você! – E deixou um soluço sair de sua garganta ao dizer a última frase. Ele virou-se abruptamente e saiu.

oOo

Às 3 da manhã, Ren ainda estava acordado. Pra variar, ele não conseguia dormir sem Masato. Pegou o celular, entrou no WhatsApp e entrou na conversa do amado. Ele estava online.

Num impulso, digitou “Sinto sua falta”. Ao enviar, ficou surpreso ao ter sua mensagem visualizada imediatamente. Aparentemente, Masato também estava olhando a sua conversa. O aplicativo indicou que ele estava digitando, mas de repente parou e ficou off-line, como se tivesse desistido do que ia dizer. Ren suspirou. Masato sempre ficava com muito mal humor quando ia para casa.

Guardou o celular e tentou dormir novamente, sem sucesso. Meia hora depois, o celular apitou ao receber uma nova mensagem. O toque particular avisou que era de Masato.

Imediatamente, Ren se virou e pegou o aparelho, quase o derrubando na pressa. Masato lhe respondera com um “Eu tb”. Suspirou novamente. Estava aborrecido, a conversa que tivera mais cedo com Cecil não saía de sua cabeça.

“- Parar de colocar pressão em cima dele. Quanto mais você fizer isso, mais vocês vão brigar.”

“Será que ele tem razão?”, pensou. “Será que se eu parar de pressioná-lo, ele algum dia vai assumir nossa relação?”. Enquanto ele divagava, seu telefone tocou, assustando-o. Ao olhar o visor, viu o nome Otoya estampado.

— Ikki?

— Ren, desculpe incomodar essa hora... – Ren franziu o cenho ao escutar sua voz fria e sem vida.

— O que aconteceu? Tokiya te machucou? Se ele fez isso, ele é um homem morto.

Não... está tudo bem.

— “Tudo bem uma ova.” – Pensou.

— Pode fazer um favor pra mim?

— Claro, pode falar.

— Eu preciso falar com todos vocês, menos Hayato. Acha que consegue juntar o pessoal a essa hora?

Ren olhou no relógio. Eram quase 4 horas.

— Me dá 15 minutos.

Tá bem. – E desligou.

15 minutos depois, todos estavam reunidos em seu quarto. Havia um ar de tensão no aposento, pois Ren os contara sobre a urgência na voz do Ittoki. Quando o telefone tocou novamente, Ren o colocou no viva-voz.

— Estão todos aqui. – Disse de imediato. – O que diabos está acontecendo?

— Por favor, eu preciso que todos me escutem com atenção. Eu não quero ficar repetindo e não pretendo ter que ficar dando mais explicações para o que vou dizer.

Todos se entreolharam com cautela. Aquele não era o Otoya que conheciam.

— Tudo bem. – Respondeu Cecil. – Ninguém vai te interromper. – E olhou inquisidoramente para os outros, que assentiram.

— Obrigado. – Ele respirou fundo. – Amanhã, quando eu voltar com Tokiya, não quero que ele seja hostilizado por vocês, não importa o que ele diga ou o que vocês virem.

— Como assim? – Indagou Syo, sem se conter.

— Shh! – Repreendeu Reiji. O loiro se desculpou com um gesto.

Talvez ele chegue na defensiva, achando que vocês vão brigar com ele.

— E é o que vamos fazer. – Declarou Ranmaru. Todos olharam torto para ele, que se calou.

Não. – O tom duro na voz de Otoya os surpreendeu. — Vocês não vão brigar com ele. Vocês não vão dizer nada negativo para ele. Vocês vão recebê-lo como o velho amigo que ele é. O recebam com carinho e atenção, mostrem que se preocuparam com ele, sejam amigos dele. É disso que ele está precisando nesse momento. – Ele fez uma pausa para dar uma fungada. Todos se entreolharam, era óbvio que ele estava chorando.

— Otoya, está tudo bem? – Indagou Natsuki.

Que droga, parem de me interromper! Eu não quero mais que ele pense que não tem amigos, eu quero que ele pare de hostilizar todos ao redor dele, eu quero que ele dê valor ao que ele tem agora! Porque, se ele continuar assim, logo ninguém mais vai aguentar ficar perto dele! Eu não quero isso... – Sua voz virou um sussurro e os soluços se tornaram audíveis.

— Se acalme, Otoya. – Disse Ai. – Nós vamos fazer o que nos pediu.

Todos concordaram com suas palavras.

— Pode contar com a gente, Otoya! – Declarou Syo.

Obrigado, pessoal... Mas pra que isso seja possível, eu vou ter que me afastar de vocês. Eu, Hayato e Nanami.

— Por que? – Reiji participou da conversa pela primeira vez.

Por favor, não pensem que é algo pessoal. Mas se nós três sempre estivermos com vocês, vai ser difícil para ele aprender a confiar em vocês. — Ele parou para fungar novamente. – Eu descobri porque ele sempre me odiou. Ele acha que, quando eu apareci, vocês se afastaram dele. Ele associou isso à minha chegada.

— Isso é ridículo. – Disse Cecil.

— Eu sei, mas entendam. Segundo a tia dele, ele não teve uma vida fácil. O próprio pai o odeia e isso meio que afetou o psicológico dele, eu acho. Ele não consegue mais confiar nas pessoas, acha que vai se machucar se fizer isso. Vocês precisam fazer com que ele se sinta querido e bem vindo entre vocês.

— Isso que está nos pedindo é praticamente impossível. – Disse Camus.

— Eu sei! Mas vocês não podem se esforçar um pouquinho? Se não for por ele, então que seja por mim.

Os 8 se entreolharam, chegando a uma muda conclusão.

— Se é assim que você quer, assim nós faremos. – Declarou Ren.

— Muito obrigado. – Agradeceu novamente, desligando em seguida.

oOo

Ao desligar o telefone, Otoya limpou as lágrimas que manchavam seu rosto. Sua cabeça doía terrivelmente, resultado das horas seguidas de choro.

Ele olhou ao redor, estava em cima de uma ponte para pedestres, perto do hotel, no momento completamente deserta. Apoiou-se na grade e observou o baixo fluxo de carros abaixo.

Ele sabia que todos o achariam um louco por ter pedido o que pediu, mas era melhor assim. Era também uma desculpa para se manter afastado do Ichinose, mas eles não precisavam saber disso. Essa ideia se originou da acusação de Tokiya, dizendo que ele perdera os amigos por sua causa. Se isso fosse mesmo verdade, ele queria reparar o mal que fizera a Tokiya indiretamente.

Seus devaneios foram interrompidos por um leve sussurro, mais sentido do que realmente ouvido.

— Otoya...

Num salto, olhou ao redor assustado, com o coração na boca. Ele achou que conhecia aquela voz, mas pensou que não era possível que aquela pessoa estivesse ali. Imóvel, com as costas apoiadas na grade de proteção da passarela, procurou alguém que pudesse ter dito aquilo. Não havia ninguém.

— T-tem alguém aí? – Não pode evitar que sua voz tremesse. Ninguém respondeu.

Otoya foi tomado por uma sensação de que estava sendo observado. Sentindo um calafrio percorrer seu corpo, resolveu voltar para o hotel.

— Eu devo estar ouvindo coisas. – Concluiu, voltando o mais rápido que pode.

oOo

Tokiya acordou com a sensação de que tudo estava girando. Seu corpo doía terrivelmente e ele não conseguia lembrar absolutamente nada da noite anterior. Não lembrava nem de ter se despido para dormir. Estranhou o fato, pois ele não era do tipo que dormia nu.

Ao se virar na cama, gemeu ao sentir uma forte pontada na cabeça.

"- Parece que eu tomei um porre daqueles ontem."

Ele franziu o cenho ao sentir algo estranho na cama. Apalpou o travesseiro para ter certeza de que não estava enganado.

— A cama está molhada?

— Você dormiu com os cabelos molhados.

Disse uma voz conhecida. Tokiya teve um mini infarto, pois não esperava ninguém em seu quarto, e levantou a cabeça minimamente para ver quem dissera aquilo. Otoya estava sentado em uma cadeira, com os dedos cruzados na frente do rosto e um olhar intenso e mal humorado. Em um lado do seu rosto, havia um enorme hematoma arroxeado perto da boca.

— Até que enfim acordou, Bela Adormecida.

— Que diabos você está fazendo aqui? Como você entrou? E o que é isso no seu rosto?

Otoya imaginou mesmo que ele não se lembraria de nada, mas isso não o impediu de sentir uma pontada dolorosa no peito. Ele soltou um riso seco.

— Com o estado que você estava ontem, achei mesmo que não ia se lembrar de nada do que aconteceu.

Ele parecia muito zangado com alguma coisa, uma reação totalmente diferente do que Tokiya esperava. Como ele sabia dos sentimentos de Otoya por ele, imaginou que ele esboçaria pelo menos um pouco de preocupação.

— O que aconteceu ontem?

Otoya se levantou e pegou uma bandeja de cima de um móvel perto da porta.

— Tomei a liberdade de pedir um café da manhã, por sua conta, é claro.

Tokiya levantou uma sobrancelha.

— Não vai me responder?

— Não. — Respondeu duramente. — Se você quiser saber, se lembre.

O moreno ficou boquiaberto com a atitude do menor. Mesmo quando estavam na escola, ele nunca ousou respondê-lo daquela forma.

Otoya se serviu de uma xícara de café e preparou outra para Tokiya, servindo-o.

— Tome e se vista rápido. O táxi que eu pedi já deve estar prestes a chegar.

— Suponho que o táxi também seja por minha conta. — Disse com sarcasmo.

— Obviamente.

Ao lhe entregar a xícara, os olhares de ambos se encontraram. O corpo de Otoya ainda se lembrava com detalhes da noite anterior, mas sua mente também lembrava do que acontecera depois. Ele franziu o cenho e se afastou.

Ao tomar um gole do café, Tokiya fez uma careta.

— Está amargo.

— É bom pra curar a ressaca.

O Ichinose o observou pelas costas enquanto ele se servia de pão e frutas.

— Por que você está me tratando assim? — Perguntou sem se conter. Ele estava confuso, como se tivesse dado um salto no tempo e não soubesse mais onde estava. — Eu fiz alguma coisa?

O ruivo não respondeu, permanecendo de costas. Não confiava em sua própria voz.

— Você está bravo porque eu sumi sem avisar?

Otoya estalou a língua.

— Você é mais inteligente que isso, Tokiya.

Seu tom áspero lhe dizia que não era isso. Se fosse só isso, Otoya estaria esbravejando ao invés de lhe deixar no vácuo. Mas então o café clareou sua mente e, sem saber como, ele sabia o que tinha feito.

— Eu disse alguma coisa que te ofendeu, não é?

Otoya pousou a xícara na bandeja com um estrondo agudo, reação que confirmou as suspeitas do outro. Tokiya bateu na testa, se arrependendo amargamente quando um sino pareceu badalar em sua cabeça.

— De novo... Olha, seja lá o que eu disse, aquele não era eu-

— Errado. — Ele permaneceu de costas para Tokiya e o moreno pode perceber que ele tremia. — Pessoas bêbadas são as pessoas mais sinceras do mundo. — Ele se virou e o outro percebeu, com espanto, que haviam lágrimas em seus olhos. — Ontem eu pude te conhecer melhor do que pensava que conhecia em todos esses anos.

Aquela não era a primeira vez que Tokiya ofendia alguém por suas palavras impensadas. E também não seria a última. Ele abaixou a cabeça.

— Suponho que não tenha gostado do que viu.

Uma lágrima transbordou dos olhos de Otoya e ele se virou rapidamente, para escondê-la. Ele não respondeu ao comentário do moreno. Tentou comer algo, mas o nó em sua garganta impedia que qualquer coisa descesse. Quando ele desistiu, enxugou os olhos, respirou fundo e virou-se novamente.

— Você ainda não se vestiu? — Ralhou. — Eu te dou dois minutos. Depois disso eu vou te jogar dessa janela e ir embora tranquilamente enquanto a polícia junta o que sobrar de você.

Os olhos de Tokiya se arregalaram com seu tom magoado. Ele tinha feito uma merda muito grande dessa vez, mas por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar.

Otoya saiu e bateu a porta, permanecendo no corredor, contando o tempo. Sua cabeça encostou na porta e ele fechou os olhos.

Tivera uma péssima noite. Sempre que tentava dormir, as palavras de Tokiya lhe vinham à mente. Então ele chorava para se livrar daquela angústia e o ciclo se repetia novamente. Ele estava cansado de chorar. Mas era difícil não fazê-lo, pois mesmo naquele momento a vontade era grande. Ele ainda podia sentir em seu corpo o toque das mãos de Tokiya, seus braços ao redor do seu corpo, suas carícias, os lábios dele nos seus. O calor de seu corpo e seu cheiro ainda estavam impregnados em sua mente. Então vinham as palavras cruéis, manchando todo o momento que tiveram. Isso o torturava. Ele escorregou para o chão, as mãos no rosto tentando segurar as lágrimas que já inundavam seu rosto.

Amar Tokiya era doloroso.

Enquanto isso, do lado de dentro Tokiya se vestia rapidamente, com sua cabeça protestando. Ele sentia remorso mesmo sem saber o que tinha feito. Era difícil pra ele explicar porque se importava, pois da última vez que vira Otoya, ele praticamente fugiu sem olhar para trás, deixando-o sozinho depois de lhe dar um tremendo fora. Passados os dois minutos, Otoya entrou novamente, encontrando um Tokiya já totalmente vestido, constatando que sua ameaça surtira efeito. Ele o olhou de cima a baixo com um olhar crítico.

— Você está parecendo um mendigo.

— Parece que eu só vou receber elogios hoje. — Reclamou.

— É o que você merece por ser idiota.

Ele se aproximou e arrumou um pouco seus cabelos, que pareciam eletrizados depois de Tokiya ter dormido com eles ainda molhados. Depois retirou o próprio casaco e ofereceu a ele.

— Veste, pra esconder essa camisa amassada.

— Não me importo que esteja amassada.

— Mas eu me importo. — Diante de seu olhar penetrante, Tokiya cedeu e vestiu o casaco.

— Ficou curto.

— É obvio, você é maior que eu. — Ele pegou suas mangas e as dobrou, deixando na altura do antebraço. Dessa forma, o casaco não parecia curto.

Tokiya o observava com um aperto no peito. Seja lá o que tinha feito, precisava encontrar um jeito de arrumar isso. Ele não poderia conviver no mesmo quarto com Otoya desse jeito, disso ele tinha certeza.

— Se continuar me olhando desse jeito, eu vou te socar.

— Caramba... O que eu tenho que fazer pra você não me ameaçar a cada 5 segundos?

O telefone tocou. Otoya atendeu e desligou em seguida.

— O táxi chegou.

Ele se virou para sair, mas Tokiya segurou em seu braço, parando-o. Ele não se deu o trabalho de se virar, e Tokiya não conseguiu encontrar nada para dizer. No fim, o momento se perdeu e Otoya se soltou, saindo do quarto.
Tokiya pegou tudo que era seu e os dois desceram. O machucado no rosto de Otoya chamou a atenção de todos que estavam no saguão, que olhavam feio para Tokiya em seguida.

— Por favor, me diz que não fui eu que te bati. — Implorou. Ele recebeu apenas um dar de ombros.

Na recepção, entregaram a chave e fizeram o checkout.

— Senhores, lamento informar, mas há algumas reclamações de perturbação de sossego dos seus vizinhos.

— Perturbação de sossego? — Estranhou Tokiya.

— Sim senhor. Eles relataram ter ouvido... hum... gemidos e outros barulhos em som muito alto.

Tokiya olhou boquiaberto para Otoya.

— Gemidos!?

— Ah, pedimos desculpas pelo inconveniente. O meu namorado estava muito fogoso ontem, se é que me entende. — Otoya deu uma risada amarela.

— Namorado!?

A moça riu com simpatia, um tanto sem jeito.

— Eu entendo, mas a gerência me pediu para alertá-los para ter mais cuidado da próxima vez.

— Tudo bem, sem problemas. Sentimos muito pelo incômodo.

Tokiya pagou o que devia e eles saíram. Ao se dirigirem para o táxi, ele esperou passarem por um lugar com poucas pessoas e puxou Otoya pelo braço.

— Que história é essa de gemidos e namorado?

Otoya o encarou.

— O que você acha?

Tokiya levou um segundo para processar a informação e a ficha cair.

— Oh droga! Não me diga que nós...

Otoya puxou o braço e seguiu em frente.

— Espera aí! – Chamou Tokiya. – Você não tem nada pra me dizer?

— Não. Tudo que precisava ser dito, já foi dito ontem.

— Me conte. – Pediu, mas o ruivo fingiu não escutar.

Tokiya puxou novamente seu braço, forçando-o a ficar de frente para ele. Otoya fez uma careta quando o movimento machucou suas costelas.

— Me solte. — Pediu.

— Não até me dizer.

Ao longe, soou uma buzina impaciente.

— O táxi está esperando.

Tokiya soltou-o com uma exclamação nada educada e os dois seguiram para o táxi.

oOo

Na frente da escola, todos esperavam impacientes a chegada dos dois.

— Posso matar ele só um pouquinho? — Pediu Camus.

— Não. — Respondeu Cecil. — Todos ouviram o pedido de Otoya e concordaram com ele. Não vamos quebrar nossa palavra agora.

— Isso aí! — Concordou Syo.

— Lá vem eles! — Observou Reiji.

O táxi parou e todos se amontoaram ao redor dele, ansiosos. Mas soltaram uma exclamação de surpresa e preocupação quando Otoya abriu a porta da frente e revelou a grande mancha roxa em sua face. Otoya riu da expressão chocada dos amigos.

— Não se preocupem, não é nada. A pessoa que vocês querem ver está ali.

Ele apontou para a porta de trás e saiu, dando espaço aos amigos. Dentro do carro, Tokiya se preparava psicologicamente para a torrente de palavrões e injurias que iria escutar. Suspirou e saiu, decidindo que não poderia evitar o momento para sempre. Mas ao pisar para fora, se surpreendeu ao receber um grande abraço coletivo de todos. Seus rostos preocupados se transformando em expressões de alívio. Foi um tal de puxa pra cá, puxa pra lá, confere se está inteiro, machucado. Ele olhou confuso para os amigos.

— O que deu em vocês?

Quem respondeu foi Ai.

— Nada, só estamos cumprimentando um amigo idiota que ficou uma semana desaparecido.

Tokiya levantou uma sobrancelha. Reiji passou um braço por seu pescoço.

— Por que a pergunta, Toki? Achou que fossemos brigar com você?

Camus tossiu. Tokiya ignorou.

— Pra falar a verdade, sim.

— O que importa é que você está são e salvo! — Disse Cecil. — Vamos lá pra dentro, temos que comemorar o seu retorno!

— Sim! — Concordou Natsuki.

Então eles o cercaram e o carregaram pra dentro como uma enchente. De longe, Otoya ouvia apenas seus resmungos.

— Me deixem ir! — Mas todos o ignoravam, o obrigando a prosseguir. — Ei, de quem foi essa mão aí atrás? — E então suas palavras se tornaram ininteligíveis.

Otoya riu. Dentro de seu peito havia um enorme alívio pelos amigos terem cumprido seu pedido. Mas ao mesmo tempo, seu coração estava menor que um grão de areia, apertado, por saber que para o bem de Tokiya, teria que se afastar temporariamente daqueles que ele considerava sua família.

— Tudo isso é por um bem maior.

oOo

Hayato estava na janela. Novamente olhou as horas, perguntando-se se seu irmão já teria chegado. Com pesar, lembrou-se da mensagem que recebera de Otoya, pela manhã.

"Estou voltando com Tokiya, mas é melhor que você não vá recepcioná-lo, depois eu explico."

Ele estava aflito. Queria saber se seu irmão estava bem e Otoya não chegava logo! Assim que teve esse pensamento, alguém bateu de leve na porta.

— Pode entrar.

Otoya entrou.

— Otoya! Até que enfim. — Disse ansioso. — Como ele está?

— Não se preocupe, ele está bem.

— O que houve com seu rosto?

Otoya suspirou. Será que ainda teria que ouvir muito essa pergunta?

— Isso não é nada. — O ruivo entrou e se sentou na beira da cama. — Como você está?

— Estou bem. Com um pouco de dor ainda, mas é normal. — Ele fez uma pequena pausa. — O que aconteceu pra você me mandar aquela mensagem?

O ruivo suspirou novamente. Hayato percebeu uma melancolia no fundo de seus olhos.

— ... — Ele não sabia como explicar. Hayato teve a impressão de que sabia o que ele ia dizer. — Ele às vezes fala demais, não é? — O moreno concordou. — Sabe, ontem eu conheci um lado dele que eu não conhecia... Quando o encontrei, ele estava bêbado, dizendo coisas sem sentido, como querer esquecer o motivo de estar ali.

— Ele bebeu?

— U-hum... Ele parecia bem magoado com alguma coisa, ele parecia... magoado com você...

Hayato abaixou os olhos.

— Desculpe.

— Tudo bem... Eu acho que eu mereço. Afinal, a culpa de termos nos afastado é minha.

— Como assim?

Foi a vez de Hayato suspirar.

— É uma longa história. — Otoya respeitou. — O que ele disse?

— Eu... — Ele chacoalhou a cabeça. — É melhor que ninguém saiba. Sabe, pra preservar a integridade física dele.

Com essa frase, Hayato soube que Tokiya havia feito uma grande besteira.

— Eu sei que não tenho o direito de pedir isso... — Continuou Otoya. — Mas é melhor que nós dois nos afastemos dele por um tempo.

Essa declaração pegou o Ichinose de surpresa.

— Por que?

— Vamos dar um espaço a ele, quem sabe ele não tenta se aproximar mais do pessoal e largar um pouco daquele Otori idiota.

— Hã? — O outro não entendeu nada.

— Desculpa, eu não expliquei tudo pra você... Ontem, Tokiya confessou que não gosta de mim porque ele acha que eu "roubei" os amigos dele.

Hayato levantou uma sobrancelha, ato que o deixava extremamente idêntico ao irmão.

— Que ridículo.

Otoya deu um riso sem jeito.

— Não vamos julgá-lo. O fato é que eu quero que ele recupere essa amizade, e se nós estivermos sempre por perto, isso não vai funcionar.

Hayato colocou uma mão na testa.

— Francamente. Isso me faz pensar se eu sou mesmo o mais novo.

Otoya riu.

— Tá bom. Eu concordo com seu plano.

— Obrigado.

— Mas só por um tempo. Eu já fiquei muito tempo longe do meu irmão. Agora que estamos juntos, preciso acertar algumas coisas com ele.

— Claro, não vai ser pra sempre.

O acordo estava feito, não era mais preciso comentar sobre o assunto.

— E esse machucado?

— Ah... Bom, eu meio que tive que obrigá-lo a voltar pro hotel, ele não gostou muito.

As mãos de Hayato se fecharam.

— Ele te bateu??

Otoya sacudiu as mãos na frente do rosto.

— Sim, mas não fique bravo. Sabe, foi bom pra ele extravasar um pouco seus sentimentos. Ele é uma pessoa que guarda tudo pra si mesmo, isso faz mal.

Hayato o olhou com incredulidade.

— Foi bom? Eu realmente não entendo você.

— Eu sei. — Ele riu. — Eu pareço um louco, não é? — O Ichinose concordou. — Mas o que sinto pelo seu irmão é maior do que qualquer hostilidade que ele sinta por mim. Não importa o quanto ele me desprezar, eu sempre vou orar pelo bem dele.

— Eu não entendo esse sentimento. Não entendo como consegue querer o bem de uma pessoa que só te fere.

Otoya sorriu e Hayato percebeu pela primeira vez o quanto seu sorriso era bonito. Ele desejou que Otoya sempre pudesse sorrir daquela forma, não que estivesse sempre chorando pelo seu irmão.

— Você vai entender quando se apaixonar.

— Então, se for assim, eu nunca quero me apaixonar.