Dormência juvenil

1 Único – Joguinhos emocionais


Notas iniciais
Boa leitura.

Único – Joguinhos emocionais

13/06/2084

Quando os filhos da Giovana me perguntam se eu acredito nesse carro para deficientes visuais que a Google diz estar quase pronto, dou uma risada baixa.

— Eu tenho quarenta e três anos, Marcelo. Quando eu tinha a sua idade, os carros voadores não–

— Mentira que eu olhei na internet! Já existiam, sim. — O garoto afirmou, conciso.

— Se você tivesse me deixado terminar, rapaz. Existiam, é verdade, mas ainda não podiam ser utilizados aleatoriamente por aí. Era preciso tirar uma habilitação de piloto e não havia um “trânsito aéreo”, servia como um jatinho. O projeto do carro para cegos é mais ou menos da mesma época em que surgiu o primeiro carro voador. Então acho a proposta genial, mas ainda dou uns cinco a dez anos para funcionar.

— Assim é tão injusto! — exclamou Letícia, e eu sabia que sua boca pequena estaria crispada. — Eu queria fazer mais passeios com o tio Leo!

— E você não faz? – Giovana perguntou, o tom irônico com uma doçura sutil.

— Mas é diferente quando o tio Biel ‘tá junto, mamãe!

Eu rio, tentando disfarçar o constrangimento. Marcelo não se importa quando eu e Gabriel trocamos carícias, no entanto Letícia é muito tímida e censura até mesmo os pais quando eles trocam um beijo.

— Agora já é hora de ir para a vovó, crianças. — Mateus diz.

Ele bate no meu ombro e vai ligar o carro, enquanto as crianças vêm se despedir de mim. A pequena, com seus alegres nove anos, me dá um abraço forte e um beijo molhado no rosto, arrancando um sorriso de mim. Já Marcelo dá um soquinho em meu peitoral, indicando que quer apertar minha mão. Bagunço seu cabelo, um resmungo em troca.

— Aproveitem lá.

— E aí, Leo? — Gi me leva até o sofá e logo sinto a tão conhecida bandeja eletrônica sair do braço do mesmo, posicionando-se a minha frente.

— E aí o que, dona Gi?

Sinto a mulher que é minha amiga desde os meus dez anos depositar um café na bandeja, o barulho de cerâmica contra metal tinindo em meus ouvidos. Novamente, e tateando percebo ser um sanduíche. Ela senta ao meu lado.

— Como vai a vida, ué. O trabalho?

— Bem, muito bem. Criei um arranjo recentemente que foi muito bem recebido. Meu coral também está ótimo, um ou outro está um pouco atrasado. Só que, sabe como é, cegos têm uma audição excelente. — impliquei, rindo.

— Você sempre teve esse gosto estranho para música clássica.

— “Clássica”.

— Cala a boca, ô Leonardo. — deu um soquinho no meu braço.

Sempre fomos muito próximos e íntimos o bastante para agir como adolescentes. No nosso século, especialmente nas últimas décadas, é difícil permanecer morando no mesmo lugar, especialmente continuar as amizades.

Durante os meus dezenove e vinte e seis anos, Giovana e eu mantivemos pouco contato. Segui em frente com uma ideia que rondava minha cabeça desde os dezesseis: fazer intercâmbio. Fiz faculdade nos Estados Unidos, rompi o meu namoro com o Gabriel e me afastei de tudo por aqui. Quando voltei, Gi era uma mulher de curvas feitas, a cabeça focada e muitas decisões difíceis já superadas e a surgir. Ela me recebeu de braços abertos, porém, e apesar de não termos feito mais de dez ligações por ano a partir do meu segundo ano fora, parecia que não se passara tempo algum. Eu finalmente entendi como o amor é forte.

— E você? Tudo certo no trabalho, na vida familiar?

— Sabe como é. O dinheiro anda apertado, mas estamos fazendo o possível. Eu comecei a trabalhar aos sábados, te contei? — suspirou, e finalmente sua voz demonstrou o quão cansada estava.

— Chegou a comentar que estava pensando na proposta. Acha que vai ser difícil para as crianças?

— O Marcelo anda bem irritado com isso, ainda assim diz que não se importa, que vai sair de casa em dois anos e não tem nada a ver com o que acontece aqui. Isso machuca. Vai ser ainda pior com a Lê. Ela é muito nova, vai ser uma falta enorme. Domingo eu vou ter poucas horas para dar atenção a ela, considerando que vou estar cansada e dormindo muito. Já nem sei o que fazer, Leo.

— Você sabe que se estiver precisando de ajuda com o dinheiro eu e o Gabrie–

— Já conversamos sobre isso. Eu não vou aceitar dinheiro. — grunhiu e percebi que estava mastigando. Lembrei do lanche a minha frente e me pus a comer.

— Só disse que se precisar... Sabe que eu te amo, não sabe?

Ela encostou a cabeça no meu ombro e entendi isso como um sim. Afaguei seus cabelos, sentindo o cheiro dela, de seus cabelos, o cheiro mais estável de toda a minha vida.

[x]

Cheguei em casa e me joguei na cama. As luzes acenderam, eu sabia, então bati palmas para desligá-la.

— TV.

Com o meu comando, a televisão ligou. Um especial dos primeiros cinquenta anos do século XXI estava sendo anunciado para três horas mais tarde. Eu certamente ouviria.

Eu podia ouvir a água do chuveiro caindo e a saudade gritou, ansiando pelo reencontro.

Meu pensamento, que por um instante tinha fugido para o corpo que eu tanto amava tocar, voltou para Giovanna. Nossas classes sociais eram muito diferentes. Isso se mostrava pelo carro, por exemplo. Ela e Mateus tinham um veículo terrestre. Eu e Gabriel podíamos vagar pelos ares e pela terra. Ela tinha apenas uma televisão de controle e remoto em casa, as luzes funcionavam por interruptores.

Nós batalhamos tão duro quanto ela e, no entanto, seguimos caminhos que nos permitiram um dinheiro formidável, construindo uma casa que nos agradava. Eu era regente e, consequentemente, recebia muito bem. Gabriel, do contrário, era diretor de cinema. Seus filmes eram excepcionais e isso garantia um luxo inegável. Gi era professora de Matemática, Mateus era funcionário público. Sustentar dois filhos impedia uma vida fácil.

Ela até mesmo gastou uma enorme quantidade comprando meu sensor, que substituía a bengala. Ele possuía um GPS acoplado ao sistema e era atualizado a cada cinco três caso houvesse mudanças sutis nos trajetos, como “poça, buraco, novo degrau, cimento molhado” e outros. Era maravilhoso. E caro.

O som da água batendo em alguém cessou, e não durou dez minutos batendo no azulejo. Foi fechado. Eu podia quase ver a toalha sendo enrolada no quadril masculino, as mãos passando pelos fios ondulados em movimentos rápidos até que os cachos se formassem novamente. O som da porta do banheiro sendo aberta ricocheteou em meus ouvidos, uma dormência juvenil se apossando do meu corpo arrepiado.

Mesmo depois de tanto tempo, ele me passava esse tipo de reação.

Eu há muito tinha me despido, apenas uma cueca recobrindo meu corpo que, embora não fosse definido, não era pesado nem flácido. A cama de água afundou quando ele se deitou, um calor gostoso se espalhando quando sua mão passou pelo meu abdome e ele beijou meu pescoço.

— Como foi na Gi? — perguntou, a voz baixa.

Gabriel e Giovana se tornaram amigos quando Gabriel se transferiu para o nosso colégio, assim como ele se tornou meu. Houve alguns conflitos entre os dois – se bem me lembro, por minha causa. Na época, Giovana gostava de mim, mesmo assim eles eram bem próximos.

Tardiamente descobri que eles tiveram um curto relacionamento após o nosso término, ou seja, durante o tempo que passei no exterior. Eles tentaram suprir a minha falta um com o outro, e foi um relacionamento extremamente carnal. Porém, quanto mais transavam, maior a falta, menor a intimidade de amigos, menor o afeto. Eles se afastaram por um bom tempo, tanto que quando voltei, foi difícil contatar Gabriel. Ele se sentia culpado, como se ele e Gi tivessem me traído ao usar um ao outro. Se recusava a me ver e, além disso, estava saindo com um rapaz mais velho. Consegui recuperar sua amizade, assim como retomar a dele e da nossa amiga. Eu tive alguns relacionamentos curtos, até mesmo me apaixonei, quando cinco anos depois perdemos o controle. A ilusão de que a nossa vida sem todo aquele amor e todo o toque estava estruturada se despedaçando.

Não éramos mais adolescentes, as coisas eram mais complicadas. O mundo, no entanto, estava mudando, cada vez mais a homofobia desaparecia e logo campanhas não eram mais necessárias. Depois de tanto tempo, revelei a meus pais que me interessava por homens e que eu e Gabriel iríamos nos casar. Tentamos desesperadamente recuperar esses onze anos. Os passeios, as diversões, os programinhas um na casa do outro, o sexo. Ah, o sexo... Foi a melhor coisa que me aconteceu em um relacionamento depois de tanto tempo. E então, aqui estamos. Com uma vida estruturada e cheia de amor.

— Foi legal, conversamos bastante. Ela reclamou de você não ter ido.

— Eu não podia, ela sabia disso. Voltei cansado da casa de mamãe. — resmungou. Ele tinha ido à cidade natal passar uma semana. Chegou há mais ou menos duas horas, e era a primeira vez que estávamos nos vendo.

— Eu sei, eu sei. Eram só saudades, logo vocês vão se ver.

— Só? Quer dizer que para você também foram só saudades, é? Imagino que não precise conversar comigo e matar as saudades, então vou dormir de novo.

Eu não sabia dizer se odiava ou amava quando ele fazia esses joguinhos emocionais, como se fosse uma criança. Gabriel era o mais maduro de nós, de longe, mas tinha seus momentos.

Estendi o braço e percebi que estava de costas para mim. Puxei-o para mim, seu corpo tocando o meu. Toquei o nó da toalha, acariciando a lateral de seu corpo. Mordisquei sua orelha, sentindo seu corpo arquejar.

— Sabe que não é verdade. Eu morri de saudades.

— Toda vez que viajo e fico longe de você – isso acontecia com certa frequência, devo dizer – eu morro por dentro. Eu preciso de você, Leonardo.

— Eu estou aqui, não estou?

Gabriel virou de frente para mim e suas mãos grandes seguraram meu rosto, seus lábios dominando os meus em um beijo voraz, as línguas tentando se impor, medir as saudades com certo desespero. Nos separamos brevemente para respirar mais calmamente, as bocas logo se encontrando novamente, em um beijo mais sutil e carinhoso.

Suas mãos encontraram minhas costas e acariciaram-nas suavemente.

— Eu amo você.

— Eu também amo você, Leo. Muito. — sorri ao ouvir suas palavras, brincando com um cachinho seu.

— Você acha que isso tudo entre nós vai parar daqui a uns vinte anos?

— Isso?

— Desejo. Demonstração de afeto físico. — conjeturei. — Pessoas mais idosas não costumam ser assim.

— Século que vem elas serão.

Não entendi no primeiro momento, até perceber que em vinte anos estaríamos em XXII e aqui significava que não, não pararíamos.

— Você é um besta.

— Por isso você me ama. — deu uma risada baixa e subiu sobre mim, a tv sendo desligada. — Ao invés de pensar em como será, que tal apenas ser? Agora?

— Por que não?

E sorri, sabendo que ele retribuía, seus lábios colando aos meus enquanto a toalha caía sobre minhas pernas.

— Gabriel?

— Sim? — perguntou, as mãos descendo por meu abdome.

— Hoje eu não quero vir sozinho. — E ri, com malícia, antes de mais um beijo.

Notas finais
Reviews? O final ficou meio meh, mas gostei de escrevê-la, foi bem rápido e leve. Boo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!